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Entrevista: “Erradicar a fome é muito barato”

Fonte: https://www.publico.pt/2018/02/11/mundo/entrevista/erradicar-a-fome-e-muito-barato-1802585/amp Por: 11 de fevereiro de 2018.

Produzir mais alimentos “não é a prioridade” num planeta em que a fome “está circunscrita” e a obesidade começa a ser um problema. José Graziano da Silva, Director-Geral da FAO e o responsável pelo programa Fome Zero, no Brasil, esteve em Portugal e deixou uma mensagem: quem alimenta o mundo são as grandes agroindústrias e “temos que mudar isso”. A resposta está na agricultura familiar.

 

O director-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o brasileiro José Graziano da Silva, esteve em Lisboa para participar na reunião de alto nível da Comunidade dos Países de Expressão Portuguesa (CPLP), no final da qual foi assinada a Carta de Lisboa pelo Fortalecimento da Agricultura Familiar. É nos agricultores familiares que está a resposta para os problemas da alimentação no mundo, defende José Graziano, que foi o responsável pela implantação do programa Fome Zero no Brasil. A fome está hoje circunscrita a zonas de conflito e de alterações climáticas profundas, pelo que a obesidade é cada vez mais uma preocupação. É preciso alimentar uma população crescente, sim, mas aumentar a produção de alimentos “não é a prioridade”, afirma o responsável da FAO. O mundo alimenta-se mal. “Não sabemos o que comemos.”

 

Durante a sua visita referiu-se ao aumento da obesidade no mundo. É um problema começa a preocupar a FAO mais que o da fome?
Eu não diria que preocupa mais. Ele ilustra o problema da má alimentação, que vai desde o não comer até ao comer demais. Neste momento, nos países de renda média e alta preocupa-nos muito mais o problema da obesidade do que o da fome. O problema da fome está bem circunscrito em três grandes áreas: os países em conflito, guerra civil, etc., como é o caso Iémen e de alguns países africanos; está localizado em áreas afectadas pelos impactos do clima, particularmente secas prolongadas, como no Leste de África, muito afectada nos últimos três anos em regiões como a Somália ou o Quénia; e está localizado em bolsões de pobreza, de miséria extrema, típicos de países não só em desenvolvimento, mas também com um desenvolvimento muito desigual.

Fora isso, há uma epidemia geral de obesidade. Por vezes, até na mesma família em que há um subnutrido, há um obeso. Afecta ricos e pobres e é um problema que vem da mudança de hábitos alimentares que tivemos nos últimos 40, 50 anos. Passámos da comida feita pela avó ou pela mãe para uma comida terceirizada, feita pelos outros, que não sabemos o que tem. Não sabemos o que comemos e isso leva-nos a ingerir muito mais sal, açúcares, muito mais gorduras saturadas do que necessitamos.

Precisamos de recuperar o domínio da alimentação, saber o que comemos, é um problema de educação alimentar, mas também um esforço por comer de uma maneira mais saudável, mais frutas, verduras, mais produtos frescos e comer mais o que estamos acostumados a comer da nossa cultura, a comida nacional, e não o fazer apenas em dias de festa.

A população mundial continua a crescer e é preciso respostas para alimentar esse número de pessoas. Nas últimas décadas acreditámos que essas respostas estavam na revolução verde, na agro-indústria, nos avanços tecnológicos. Neste momento, a FAO alterou a forma de olhar para o problema?
É verdade. Desde a revolução verde, nos anos 60 e 70 do século passado, que o problema da produção tem sido equacionado de melhor forma que o do consumo. Neste momento, a fome não se explica pela falta de produção de alimentos mas sim pela falta de acesso aos alimentos. Não é que não haja produto, não há dinheiro para comprar o que comer. As pessoas não têm emprego, têm rendimentos muito baixos, não conseguem ter uma dieta saudável. Mas sobram alimentos. O mundo hoje deita fora um terço do que produz, aproximadamente.

A ideia de que temos de multiplicar a produção de alimentos não é correcta?
Não é a prioridade do momento. Sou muito cauteloso ao dizer que não há um problema de oferta, porque há. Em lugares muito localizados, na África subsariana, por exemplo, vários países têm um problema de conseguir produzir a quantidade de alimentos de que necessitam para a sua população, mas não é uma situação generalizada, são problemas localizados em regiões muito particulares.

Temos a tecnologia dominada para permitir a produção dos alimentos de que precisamos, e de alimentos saudáveis. A situação hoje é completamente diferente da dos anos 60 e 70. A revolução verde cumpriu esse papel de equacionar o problema da produção de alimentos. Mas sempre que a gente resolve um problema, em geral causa outros.

A revolução verde trouxe impactos no meio ambiente, o excessivo uso de químicos, e, sobretudo, essa concentração da produção em alguns alimentos. Hoje temos quatro, cinco, seis produtos que respondem por 80% do que nós consumimos: o arroz, o milho, o trigo, a soja e a batata. Não pode ser. Nós temos 36 mil plantas e animais que fornecem alimentação ao Homem, não podemos estar concentrados em cinco da maneira que estamos.

Hoje a FAO defende o reforço da agricultura familiar, o que choca com o poder e os interesses da grande indústria alimentar. Como é que se consegue resolver esse dilema?
Nós desenvolvemos sistemas alimentares fortemente concentrados nas cadeias agro-industriais. Agora quem alimenta o mundo são as grandes agro-indústrias. Temos de mudar isso. E é um esforço de recuperação porque a alimentação é parte da nossa identidade. Eu venho a Portugal e sei duas coisas fundamentais: primeiro, que vou falar português, segundo, que vou comer bacalhau, que é parte da cultura e tradição portuguesa mesmo não sendo um peixe daqui. Alimentação é o que nós somos, o que a nossa família é, o que a nossa aldeia, a nossa região é. Recuperar esse poder de interiorizar de novo a alimentação, que foi externalizada e banalizada, é parte desse projecto de comer melhor e comer saudável.

Um exemplo bom é a questão das sementes — as directrizes da FAO falam da importância das sementes tradicionais, mas a legislação europeia vai num sentido contrário. Não existe, entre a Carta de Lisboa que acaba de ser assinada pelos países da CPLP, e as regras da Política Agrícola Comum (PAC) uma contradição?
Hoje já temos implantados em praticamente todos os países do mundo bancos de sementes tradicionais, que estão a ser preservadas, não só localmente mas também em Svalbard, na Noruega, temos um silo em que preservamos todas as espécies do mundo. Há um esforço de recuperar esse conhecimento ancestral, até porque dependemos disso no futuro. Com todas as mudanças climáticas, vamos precisar de revisitar todas essas variedades para termos sementes mais resistentes à seca, ao calor, ao excesso de água em algumas regiões. Esse esforço muitas vezes obriga a voltar à origem genética dessas plantas e animais. Isso é parte do desenvolvimento científico e a FAO defende que a preservação da biodiversidade é fundamental.

Sente que há vontade política para isso? Sendo que ela passa possivelmente por alterações na PAC ou nas políticas e legislações de outros países para acomodar esta nova visão?
Há interesses muito fortes consolidados em torno do actual sistema agro-alimentar. Mas também há contradições tão evidentes, como é o caso da obesidade, que se vão impondo a esse poder existente. Já vemos contestações várias, médicos, advogados, agrónomos, economistas que se juntam para pedir uma alteração desse sistema agro-alimentar existente. Acredito que isso comece a abrir oportunidades de novas legislações. Portugal está a criar um estatuto da agricultura familiar, um estatuto do direito à alimentação, isso tudo são progressos que estamos a ver em várias partes do mundo.

O caso brasileiro é um exemplo que tem citado muitas vezes e ao qual está profundamente ligado. Disse que há medidas do programa Fome Zero que estão a ser revertidas neste momento. Existe o risco de se voltar a situações anteriores, eventualmente até do regresso do Brasil do mapa da fome?
O Brasil está a passar por uma crise social muito profunda, uma crise que tem muitas dimensões. Uma delas é a regressão de uma série de programas sociais que foram implantados e que garantiram a erradicação da fome em menos de uma década. A persistir essa regressão, sem dúvida cria-se uma oportunidade de o Brasil voltar ao mapa da fome. Mas não acredito que isso seja uma fatalidade histórica.

O Brasil foi o primeiro país nos tempos modernos a erradicar a fome. Um país de mais de 200 milhões de habitantes em menos de dez anos ter tirado 40, 50 milhões de pessoas da pobreza extrema, da miséria e da fome… não se reverte isso com facilidade. O Brasil vai voltar a crescer este ano, o que já é um sintoma promissor, acredito que esses direitos conquistados pelo cidadão brasileiro de comer dignamente serão direitos reclamados nas eleições que virão por todos os movimentos sociais que o Brasil tem hoje organizados. Acho difícil o país voltar ao mapa da fome simplesmente por uma crise conjuntural.

Mas o Brasil conseguiu implementar todas essas medidas num momento particularmente positivo da sua economia. Países mais pobres conseguirão fazer isso? São medidas que custam dinheiro.
Custam muito pouco. Erradicar a fome é muito barato. A estimativa no caso do Brasil, que é o programa mais amplo que nós temos hoje no mundo, é que ele custa meio por cento do PIB. É muito pouco dinheiro.

Estamos a falar do programa de compras públicas [com o qual o Estado compra a produtores locais para abastecer cantinas públicas, por exemplo], da Bolsa Família?
Todos os programas, a reforma por tempo de idade e não por tempo de serviço, um conjunto de medidas que foram implementadas no Brasil e que levaram à erradicação da fome. É muito barato. A comida, de todos os elementos fundamentais da vida, é a mais barata. Não é um problema de custo, é um problema de prioridade política. Mesmo os mais pobres dos países podem pôr em funcionamento programas para erradicar a fome.

Voltando à questão da fome severa, apesar de se dever sobretudo a conflitos ou alterações climáticas, ela cresceu nos últimos dois anos. O que é que levou a essa inversão no caminho positivo que se estava a conseguir fazer nos anos anteriores?
Os anos de 2015 e 2016 foram anos atípicos na série histórica que a FAO trabalha. A reversão veio sobretudo em África e pelos conflitos que se multiplicaram, como a guerra do Sudão do Sul, no Congo, mas também na Somália, o impacto das secas na Etiópia, na Somália, em toda a costa leste africana em 2015. Em 2016 houve o acentuar do problema, com o agravar das secas e dos conflitos.

O que eu projecto é que em 2018 exista um optimismo económico. O mundo deve voltar a crescer, tanto o mundo desenvolvido como o mundo em desenvolvimento. Isso gera emprego, oportunidades de trabalho, estou optimista que vamos ter um ano melhor do ponto de vista climático, económico, e se tivermos um ano melhor do ponto de vista político, podemos resolver muitos problemas.

O que é que o leva a estar optimista em relação ao clima?
Temos uma capacidade de projecção até seis meses e este ano, por enquanto, os sinais do El Niño em África, por exemplo, não são tão fortes quanto os do ano passado. Se ocorrer, o El Niño não será da magnitude e intensidade que tivemos nos dois, três anos anteriores. E também porque os países aprenderam. Não é preciso ter uma seca e ter fome. Não se pode evitar a seca, mas pode evitar-se que a seca seja transformada em fome se houver políticas sociais contracíclicas para enfrentar o problema. Os países aprenderam isso, existe já um financiamento do Fundo do Clima que está acessível a muitos países.

Em Portugal, além dos efeitos das alterações climáticas, há a questão da desertificação do interior. Acredita que é possível reverter esse cenário?
Portugal é um bom exemplo, que agora começa a legislar e a monitorizar. Nós estamos a furar o planeta em muitos lugares para tirar água, mas isso não pode acontecer. Um dia essa água armazenada no subsolo acaba, precisamos fazer um melhor uso dela. As tecnologias hoje existem, pode-se irrigar com muito mais eficiência, existe a técnica gota a gota, que usa mil vezes menos água que a de inundação. É uma tecnologia que está disponível e tem de ser implementada, tem de se proibir a rega por inundação.

Para isso, é preciso financiar os agricultores, principalmente os mais pobres, os familiares, para que possam aceder a essas tecnologias. É aí que estamos, um passo pede outro, mas estamos caminhando na direção certa. Portugal é um grande exemplo, hoje, de como usar as diretivas da PAC para ajudar os menos favorecidos, os mais pobres, fazendo uma discriminação positiva para superar a diferença que existe.

 

Postado por: Joaquim Liberato.

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Terceirização do Trabalho no Brasil: novas e distintas perspectivas para o debate

É com satisfação que informamos que foi publicado o livro ‘Terceirização do Trabalho no Brasil: novas e distintas perspectivas para o debate’.

MARIA DA CONCEIÇÃO TAVARES: RESTAURAR O ESTADO É PRECISO

Artigo da economista e professora da UFRJ, Maria da Conceição Tavares, o Brasil vive sua maior crise política, social e econômica. De acordo com Tavares, a crise é resultado de uma “simbiose de interesses de uma classe política degradada e de uma elite egocêntrica, sem qualquer compromisso com um projeto de reconstrução nacional”.

Confira o artigo Restaurar-o-Estado-é-preciso

 

Postado por: Joaquim Liberato.

A resistência equilibrista: a propósito da perseguição nas universidades no Brasil e alhures

Fonte: https://blogdaboitempo.com.br/2018/02/08/a-resistencia-equilibrista-a-proposito-da-perseguicao-nas-universidades-no-brasil-e-alhures/

Por Plínio W. Prado Jr.

 

O “grande mercado mundial do conhecimento” consolida hoje o crepúsculo das Luzes modernas. O capital-conhecimento é a principal força de produção do liberalismo, indispensável ao seu desenvolvimento; e o objetivo deste é a melhoria do desempenho do sistema, o aumento de sua competitividade e o crescimento das mais-valias. O indivíduo contemporâneo não espera mais que um “progresso das ciências” traga uma contribuição para a emancipação da humanidade, seja ela qual for.

O “mundo dos negócios” sufoca todo elã humano que não seja regido pelo desejo do ganho, observava Ernest Bloch. Ele sufocou assim a questão que os professores, estudantes e pesquisadores ainda levantavam, por toda parte, durante os anos 60: qual é a finalidade do conhecimento? Na verdade, ele exclui toda questão que concerne aos fins. “There is no alternative”.

Um tempo de promessas terminou, um horizonte de esperança desaparece. Perda de destino dos humanos, desorientação geral: este quadro tornou-se um lugar-comum.

Sobre o pano de fundo deste declínio, o Ocidente triunfante, liberal e tecnocientífico, prossegue na sua estratégia de anexar a Universidade ao mercado mundial do conhecimento, ao “mundo dos negócios”. Como mostra hoje, entre tantos outros dados, a degradação programada da Universidade pública no mundo todo, e o fim anunciado da Universidade para todos.

A onda de operações policiais do Estado que, de um ano para cá, atacam a Universidade pública e os universitários no Brasil, se inscreve, à sua maneira, brutal, nesta lógica geral de anexação. Mas ela exibe ainda mais descaradamente do que em outros lugares a violência liberal (ela culminou no suicídio de um reitor de uma universidade pública em outubro de 2017). Ela revela aí mais claramente a ferocidade da guerra de interesses (a “concorrência”) já implicada e dissimulada nos termos mercadomais-valiaprivatização, ou seja, o fundo implacavelmente opressivo da “democracia capitalista”.

Decerto o liberalismo mundial, consensual e de direito, nunca deixou de conviver bem com a violência, o autoritarismo, o estado de emergência, os ódios e seus crimes, “mesmo” nos “países desenvolvidos”. Ele engendrou, em particular, uma nova figura do fascismo em escala mundial, incarnada pela série de chefes de Estado contemporâneos que vai de Berlusconi à Trump e para além dele, e que alguns chamam hoje de “fascismo democrático”.

A violência do Estado contra a Universidade não é tampouco um apanágio do governo brasileiro (vide a Turquia de Erdogan). Mas um detalhe da atual ofensiva policial do governo Temer chama todavia a atenção. Um detalhe despropositado, carregado de significação implícita, como um lapso. Ele permite decifrar, condensado num elemento assessório e minúsculo, o sentido extremamente inquietante dos processos em marcha no País.

Trata-se dos nomes escolhidos pela Polícia Federal do Brasil para batizar as suas incursões armadas na Universidade. Essas blitze, amplamente midiáticas e violando flagrantemente os direitos mínimos garantidos pela Constituição, foram denominadas “operação PhD” (blitz do 9 de dezembro de 2016); “Operação Research” (13 de fevereiro de 2017); “Operação Esperança equilibrista” (6 de dezembro de 2017). O propósito é portanto de acumular injúrias irônicas, proferidas gratuitamente pela Polícia Federal contra a Universidade. Expõem-se assim a profundidade do ódio que corrói as relações do poder governamental com a “classe intelectual”, universitária e artística, assim como com tudo o que é suspeito de estar associado de perto ou de longe a algum processo de emancipação.

Que se examine de perto o último nome citado: “Operação Esperança equilibrista”. A denominação da blitz designa o seu alvo: a “esperança”, dita “equilibrista”, ou seja, hábil em malabarismos a fim de se manter em pé apesar de todos os obstáculos. É no caso uma referência explícita ao tema da música símbolo da resistência contra a ditadura militar do Brasil (1964-1985), “O bêbado e a equilibrista”, chamada de hino da anistia politica e dos exilados.*

O ódio a mais, que se extravasa através do detalhe da denominação, trai assim o objetivo não declarado da perseguição policial: por uma curiosa coincidência, com efeito, os universitários sumariamente presos no campus (sem qualquer procedimento formal, oficiosamente “presumidos culpados” por desvio de fundos) participavam da construção do Memorial da Anistia política, dedicado precisamente aos perseguidos pela ditadura.

Como sempre, a verdade se dissimula no detalhe. A blitz policial e a sua denominação insolente anunciam que se pretende continuar, hoje, a intimidar as correntes de emancipação que se opõem a um regime ditatorial ou autoritário, e a aprovar a perseguição delas. Com o ódio de classe, de cor e da intelligentsia que os anima, os ataques policiais à Universidade e à “esperança equilibrista” equivalem a uma verdadeira declaração de guerra ao País e ao povo, que o poder governamental impopular e ilegítimo despreza aliás, abertamente.

No ato de ultrajar de forma provocatória um símbolo popular da resistência contra a ditadura, dá-se a ler também um futuro próximo possível, a saber: o do controle do País pelas novas forças fascistas em ascensão. É em todo o caso o que está sendo preparado nos bastidores do atual governo, representante das velhas oligarquias locais e se distinguindo por sua submissão rastejante ao império dos bancos de Manhattan e aos lobbies petroleiros internacionais (Temer é considerado o “homem de Washington no Brasil” há muito tempo, segundo os documentos publicados no Wikileaks).

Isso explica então porque é precisamente a esta música símbolo que a Polícia Federal do governo Temer volta hoje, quarenta anos depois, a fim de pisotear a sua memória. (Pensemos em Sarkozy na França, voltando em 2007 a quarenta anos atrás, na sua intenção proclamada de “Liquidar a herança de Maio de 68 uma vez por todas”. Quer dizer então que a coisa continua viva.)

 

É importante tomar toda a medida do que está em jogo. Para tanto, é necessário examinar mais de perto o que é homenageado pela música atacada. Porque é essa a coisa da qual o “mundo dos negócios” não quer saber nada, que ele se esforça em esquecer e em fazer esquecer, em sufocar, segundo as palavras de Bloch. Mas a coisa sendo tenaz, insistente ao ponto de continuar a assombrar a “classe política” quarenta anos depois, ela aparece, ao contrário, como o “lugar” ou a fonte de resistência por excelência. Segue-se que é com ela que é e que será necessário contar, justamente, para responder ao desafio lançado ao País pelo atual poder político e para barrar a ascensão das forças fascistas que ele prepara.

A coisa é figurada alegoricamente no centro do hino da anistia: é “simplesmente” a força de esperar apesar de tudo. A esperança, capaz de se manter de pé e de dançar, mesmo na corda bamba, a despeito de todos os perigos. A esperança de uma existência outra, mais justa, emancipada das ditaduras, da pobreza e dos preconceitos. (Em meados dos anos 70, quando a ditadura dos generais se aplicava em enquadrar no detalhe a vida dos brasileiros, essa esperança tinha que ser literalmente funâmbula, acrobata. Tivemos que provar a sua dança dançando, sobre a corda bamba. E que outra coisa poderia ser ainda a esperança hoje, no mundo como ele vai, senão equilibrista?)

As forças de polícia riem sarcasticamente hoje, com suas blitze e suas denominações injuriosas, porque na sua arrogância atual elas acreditam poder até mesmo derrubar e liquidar uma vez por todas a esperança, jogando-a abaixo do fio onde ela dançava. Erradicar até o desejo, até a ideia mesma de um mundo outro, isso também está inscrito na lei do desenvolvimento do sistema, onde tudo o que está programado deve ocorrer e só deve ocorrer o que está programado, segundo o modelo do “retorno sobre investimento”.

No entanto, isso é ignorar que o próprio da esperança é de sempre renascer de suas cinzas. É enganar-se profundamente, portanto, sobre a força de resistência que a sustenta : a sua paixão acrobática do possível, que é a de tornar o impossível possível. Força obstinada, inesgotável dos pequenos deste mundo, que é a marca própria da existência humana. Quando procuramos um humano que seja verdadeiramente um humano, encontramos sempre um acrobata, escreve Peter Sloterdijk.

O hino da anistia e dos exilados conhece o assunto, ele que no seu elã afirma intensamente, contra tudo, a força acrobática. Ele mostra que a força de esperar persiste, irredutível, no próprio seio do sofrimento de homens e mulheres do povo, roubados, enganados, explorados, humilhados, oprimidos; ela é capaz de se manter de pé – mesmo sobre a base a mais tênue que se possa imaginar, a de um fio esticado sobre o abismo.

Pois o sofrimento, pelo simples fato de existir, atesta uma inconformidade, se não um não-conformismo à ordem estabelecida, e já assinala portanto de maneira irrecusável que há uma outra dimensão, irredutível aos “fatos”, que a vida não poderia se reduzir à evidência bruta da sobrevivência inana. O que equivale a dizer que a esperança, o sonho, a arte, já habitam no âmago mesmo da desesperança, da dor e do “sufoco”. E a partir dessa outra dimensão, o fato do sofrimento já terá sempre julgado e condenado o estado atual das coisas.

Ponto importante a reter: essa força de resistência é uma força artista, plena de engenhosidade (sempre capaz de criar algo a partir do nada), apta em particular a revirar uma situação adversa dada: a transmutar a miséria em força, o desamparo em recurso, a astenia em paixão e em vitalidade. É nesse sentido que o seu acrobatismo contém um formidável potencial de utopia.

A corda bamba acima do abismo está estendida, portanto, entre o que é, a dita “realidade”, e uma existência outra, desejada, para além do que é, cuja realização é prometida e que se trata de efetuar. É a essência do que se chama esperança. Que o advento de um mundo outro é possível, isso é precisamente a aposta do funâmbulo, o artista da ultrapassagem dos limites, empenhado em tornar possível o impossível.

 

Poder de reviravolta, força de resistência artista, acrobática, paixão do possível: compreende-se que a figura tutelar do hino da anistia política seja Charlie Chaplin. O homem do povo, filho da Boêmia, poeta saltimbanco, mestre em expedientes num mundo hostil onde a figura moderna da política cai em ruína. Chaplin, o suspeito (título do belo texto de Hanna Arendt sobre o pária), resta aí o portador de um potencial de utopia inesgotável, apesar de tudo. Sempre guiado por um sentido aguçado da injustiça que a sociedade moderna inflige ao ser humano e às suas possibilidades. A tal ponto que isso levou finalmente Chaplin a ser forçado a deixar a América macarthista…

Vê-se claramente aí a fonte de onde este potencial tira a sua força: é a coisa que em cada um excede as palavras, que “siste”, insiste e faz resistir à violência da instituição social da “realidade”; é o seu resto de infância que sofre e que ainda espera, indomesticável. O inumano segundo Lyotard.

Freud dizia que Chaplin interpreta sempre a mesma cena: a da infância desamparada, hilflosen, traumatizada pela injustiça, pela privação e pela humilhação. Mas convém acrescentar: e que ao mesmo tempo desenvolve tesouros de criatividade, de acrobacia para responder à sua condição, para transformar a desventura em arte de viver. (É esse lógica da transmutação que Samuel Beckett levará à sua plena realização, através da galeria dos párias filósofos, Watt, Molloy, Vladimir, Estragon e todos os outros.)

O ponto culminante desta arte acrobática é um exercício espiritual, musical, visando aprender a viver à beira do abismo. É notável no caso que o hino da anistia política seja inspirado do começo ao fim por uma melodia que se chama Smile, composta para o filme Modern timesSmile é um apelo ; ela demanda ao ser amado que ele se exerça a sorrir, afim de exorcizar as adversidades da existência. No que essa exortação já se inscreve numa operação de transformação. É uma micro-acrobacia sutil (musical) do corpo-alma com vistas a modificar o seu estado de alma.

A “técnica” preconizada por esse conselho ético, por essa therapeia, é comum à arte do mímico e à intuição pascaliana: efetue tal gesto, e você acabará por experimentar o estado afetivo que está associado a ele. Sorria e você não se deixará se abater, você se reerguerá e encontrará uma razão de viver.

Não é anódino que Smile seja ela mesma inspirada pelo ar dos amantes da Tosca de Puccini (“Qual occhio al mondo…”). Mas ela modifica o tema do dueto: do motivo dos olhos ardentes da amante para o motivo do sorriso que faz falta no rosto amado, exposto às condições da vida industrial e da Grande Depressão dos anos 1930. O amante demanda e espera ainda todavia o sorriso, do qual ele faz um exercício sobre si, um ato de resistência com vistas a uma arte de viver no contexto geral dos desafios, das injustiças e dos desastres dos tempos modernos. Fazendo isto, ele salva o sentido da paixão do possível e mantém aberto, contra ventos e marés, um horizonte de esperança onde cintilam ainda os sinais frágeis de uma existência outra, prometida.

Compreende-se, a partir daí, que o hino da anistia política tenha se inspirado de Smile, quarenta anos depois. No fundo da “noite do Brasil” sob a ditadura, que evoca a canção, feita de perseguições, torturas, desaparecimentos, laços desfeitos e angústia — eis que surge, como em sonho, a pequena silhueta do vagabundo clown equilibrista de chapéu-coco, o encantador de Smile, sempre prestes a dançar na corda bamba — na mesma linha melódica. A sua energia de infância, verdadeiro princípio de esperança passado ao ato, irradia sobre todo o hino da anistia dos exilados. Sua paixão do possível, seu potencial de utopia impregnam toda a canção e provam no final que a arte, a resistência acrobática, continua.

 

Certamente nós não estamos mais nos tempos modernos, mas nos tempos chamados pós-modernos. Tempos, como já foi dito, da hegemonia do liberalismo cognitivista e do mercado mundial do conhecimento, das democracias midiáticas e da desorientação geral. Neste contexto, a paixão do possível é sufocada, literalmente excluída na agitação do business e dos imperativos técnicos do sistema. O smile, figura moderna desta paixão, cedeu o espaço e o tempo ao keep smiling automático, vazio, careta “lúdica” de uma felicidade administrada que invade as telas que nos cercam por todas as partes.

Mas como esses dados históricos, contingentes, os dados de nosso destino atual, seriam susceptíveis de mudar o que quer que seja no que tange à força de resistência nativa, indomável? Ela constitui isto que, em cada um, não é mutável nem permutável.

O senso inato que o humano tem do que lhe falta, do que ele não é, mas do qual ele tem todavia uma ideia e o desejo – essa tensão interior, e a paixão de outra coisa que ela inspira –, o impelem a transgredir os limites, a ir para lá de si mesmo. Este é o traço fundamental do humano. Ele é o fato disto que em cada um excede e insiste, espera e às vezes desespera, insaciável e invencível. No que o humano é, com efeito, constitutivamente acrobata, equilibrista.

Após o declínio das Luzes e a ruína da visão política do mundo (incluindo a sua versão radical, dita revolucionária), resta este excesso intrínseco, irredutível à lei da troca e da permutabilidade geral, escapando à imanência do “mundo dos negócios”.

A esperança é um dos nomes desta obstinação. Por definição, ela está em exceção, em excesso quanto à lei do sistema e à sua regulação. Ela não poderia ser vencida portanto pelo que está aí. Ela é o amor do que ainda não aconteceu.

 

Postado por: Joaquim Liberato.

Só instituições públicas fazem pesquisa no Brasil, afirma organização

Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes)divulgou, no dia 17 de Janeiro de 2018 (clique aqui), relatório produzido pela empresa estadunidense Clarivate Analytics – ligada à multinacional Thomson Reuters – sobre a pesquisa científica no Brasil entre 2011 e 2016.
Destacam-se no relatório três conclusões: 1) praticamente só há produção de pesquisa científica em universidades públicas; 2) há pouco impacto internacional na produção científica brasileira; e 3) apenas Petrobras e indústrias farmacêuticas realizam investimento relevante em pesquisa no país.
Fonte: lidymonteirowm
Epitácio Macário, 3º tesoureiro e um dos coordenadores do Grupo de Trabalho de Ciência e Tecnologia (GTCT) do ANDES-SN, ressalta que as políticas de ajuste fiscal do governo brasileiro vão na contramão da pesquisa científica de qualidade. “A predominância absoluta das universidades públicas na produção de Ciência e Tecnologia (C&T) no Brasil deveria implicar em maior investimento no setor, e não no corte de orçamento, que é o que vem fazendo os últimos governos. É também um dos fatores ligados ao custo das instituições públicas que procuram manter o tripé Ensino, Pesquisa e Extensão. Nas instituições privadas, o que se tem é apenas Ensino, muitas vezes de qualidade duvidosa. Mais um motivo para enfrentar o falacioso relatório do Banco Mundial, que defende a diminuição de investimentos estatais e o aprofundamento da privatização das universidades públicas brasileiras”, afirma. Macário também ressalta a importância do regime de trabalho de Dedicação Exclusiva como fundamental para que os docentes possam desenvolver com qualidade o tripé Ensino, Pesquisa e Extensão.
Impacto internacional
Quantitativamente, o Brasil produziu no período (2011-2016) cerca de 250 milpapers que foram enviados à base de dados internacional Web of Science, números próximos à Holanda (242 mil), mas muito inferiores a países como EUA (2,5 milhões), China (1,4 milhão) e Reino Unido (740 mil).
Epitácio Macário pondera sobre o caráter gerencialista de uma avaliação baseada somente no número de publicações. “A avaliação baseada somente no número de papers publicados internacionalmente é insatisfatória, faz parte de um modelo gerencialista que se tenta impor sobre as universidades públicas e é caudatária da dependência técnica, científica e cultural de países latino-americanos. A relevância social do conhecimento produzido fica às escondidas, enquanto é realçada apenas a quantidade de papers”, comenta o docente.
Caderno 28 do ANDES-SN, que trata de Ciência e Tecnologia, também traz uma análise sobre o tema. “O modelo gerencialista de universidade impõe o produtivismo como instrumento e utiliza critérios como: número de publicações acadêmicas, número de publicações em língua estrangeira, número de citações, etc. Esse conjunto de exigências e critérios é referendado pela Capes/CNPq, que, por sua vez, estão alinhados com as políticas do MEC e do MCTIC. Esses critérios resultam no enfraquecimento da diversidade da produção e veiculação do conhecimento em todas as áreas. Tal modelo inviabiliza o desenvolvimento de uma cultura acadêmico cientifica brasileira. Isso fica evidente, por exemplo, na desqualificação de periódicos nacionais rotulados como irrelevantes. Assim, independentemente da função social, há uma gama de conhecimento que é produzido e não é valorizado”, afirma o Sindicato Nacional na publicação.
Quanto ao impacto da produção, que a Clarivate Analytics considera ser a citação da pesquisa em pesquisa posterior, o Brasil também está abaixo da média mundial e abaixo de outros países periféricos, como Argentina, México e África do Sul. Mesmo produzindo mais em quantidade, o Brasil tem índice de impacto de 0,78, inferior ao mexicano (0,82) e ao argentino (0,92).
“Esse índice considera o quanto um paper é citado por outras pesquisas, deixando no escuro medidas de impacto social do conhecimento produzido. O ANDES-SN preconiza uma avaliação centrada, fundamentalmente, na relevância das pesquisas para a resolução de problemas da maioria da sociedade. O caráter social da ciência é realçado na proposta do ANDES-SN”, comenta Macário.
Entre as 30 universidades do mundo com maior impacto de pesquisa, não há nenhuma brasileira, e apenas uma argentina: a Universidade de Buenos Aires. Todas as demais da Europa, América do Norte ou Austrália.
“Não é de se estranhar, porque os países de capitalismo central desfrutam de amplas e melhores condições nos seus sistemas de produção de C&T, inclusive com importante participação das empresas no financiamento. O lugar ocupado pelos países periféricos e semiperiféricos na divisão internacional do trabalho condiciona o fraco desempenho deles no desenvolvimento de novos conhecimentos no plano mundial. O Caderno 28 do ANDES-SN demonstra que, enquanto o Brasil investia em pesquisa e desenvolvimento algo em torno de 1,28% do PIB em 2015, o Estados Unidos investia 2,79%, a Alemanha 2,93%, o Japão 3,29% e a Coreia do Sul 4,23%”, afirma o coordenador do GTCT do ANDES-SN.
Só universidades públicas produzem no Brasil
O relatório demonstra que praticamente não há produção científica em instituições privadas no Brasil. Entre as 20 instituições que mais produziram papers e que mais tiveram impacto, estão 15 universidades federais e 5 universidades estaduais. A Universidade de São Paulo (USP), estadual, lidera a produção quantitativa, enquanto a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), também estadual, é aquela cuja produção tem maior impacto. O relatório mostra que as universidades públicas produzem artigos científicos altamente citados e que alcançaram boas taxas entre 1% dos papers mais citados do mundo.
“O protagonismo das universidades públicas na produção de C&T deveria ser fortalecido, mas o que a Lei da Inovação (10.973/04) e o Marco Legal de CTI (13.243/16) defendem é o compartilhamento com as empresas privadas da infraestrutura existente, do pessoal e do patrimônio científico e tecnológico desenvolvido pelas instituições públicas”, critica o docente.
Quanto à produção por unidade federativa, o relatório deixa explícita a diferença regional na ciência. Os estados do Sudeste e do Sul dominam a produção, tanto quantitativa quanto qualitativa, e o primeiro estado do Nordeste a aparecer no ranking quantitativo é Pernambuco, em sétimo lugar.“É a forma da lei do desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo se materializar dentro do país. De um lado, a inferioridade do Brasil em relação aos países centrais, condicionada em grande medida por uma economia assentada na produção de bens primários, e, por outro, a infinita superioridade do Sudeste que expressa as desigualdades regionais brasileiras”, completa Macário.
Investimento privado
O relatório lista o investimento privado na pesquisa brasileira. Além da Petrobras, empresa estatal de economia mista, praticamente apenas indústrias farmacêuticas investem dinheiro na ciência brasileira, como Roche, Pfizer, Bayer e Johnson & Johnson. Há, ainda, pequeno investimento da IBM (tecnologia) e AT&T (telecomunicações). Os índices de participação da indústria na pesquisa científica brasileira (0,99%) são bastante inferiores aos de países como França, Alemanha, Argentina, Japão e Canadá (que vão de 2,2% a 3,5%), e se assemelham aos da Índia (0,69%) e da Rússia (0,69%).
“O protagonismo das empresas em Pesquisa e Desenvolvimento está ligado às características da formação do mercado interno. No caso brasileiro, as empresas estão muito mais interessadas na força de trabalho, nas matérias primas e recursos naturais adquiridos a preços muito baixos. Quando necessitam inovar, compram máquinas, equipamentos e insumos no mercado internacional, retroalimentando a dependência tecnológica e científica. Coube ao Estado o maior esforço de investimento em C&T e pesquisa e desenvolvimento até aqui”, conclui Epitácio Macário.
Postado por: Joaquim Liberato.

De onde vem o dinheiro para pesquisa das universidades dos EUA?

Fonte: http://www.diretodaciencia.com/2018/01/27/de-onde-vem-o-dinheiro-para-pesquisa-das-universidades-dos-eua/

 

Às vésperas de um novo congelamento de recursos, é preciso brecar a desinformação sobre investimentos públicos e privados

– MAURÍCIO TUFFANI, Editor

O governo federal confirmou na terça-feira (23) que nos próximos dias congelará parte dos recursos aprovados na Lei do Orçamento Anual da União para 2018. Além do bloqueio de recursos destinados às instituições de pesquisa, também são esperados os argumentos contrários a esse tipo de gasto com dinheiro público. Principalmente após toda a desinformação promovida em novembro pelo Ministério da Fazenda ao divulgar uma avaliação desastrosa sobre as universidades federais (ver “Relatório do Banco Mundial compara alhos com bugalhos no ensino superior”).

Têm sido recorrentes alegações de formadores de opinião de que nos países desenvolvidos praticamente toda a pesquisa, inclusive nas instituições de ensino superior, seria custeada por meio de recursos privados. E que as universidades públicas brasileiras deveriam seguir esse caminho. Mas isso não passa de conversa fiada. Não é o que acontece, nem mesmo nos Estados Unidos.

De fato, existem investimentos privados para pesquisa em faculdades e universidades dos EUA. No entanto, desde meados do século 20, a maior parte dos recursos aplicados em pesquisa nessas instituições, inclusive particulares, são públicos, principalmente do governo federal, segundo o Centro Nacional de Estatísticas de Ciência e Engenharia da Fundação Nacional de Ciências dos EUA (NSF). Os dados são obtidos por meio da pesquisa anual Higher Education Research and Development Survey (HERD), da NSF.

Nos anos 1960, os recursos federais chegaram a corresponder a 73% do total investido em pesquisa e desenvolvimento (P&D) em universidades dos EUA. A partir dos anos 1990, essa participação diminuiu, mantendo-se na média anual de aproximadamente 60%. É o que mostra acima, logo antes do início do presente artigo, o quadro do financiamento para ciência e engenharias (S&E) nas universidades do país, elaborado pela Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS).

 

Verba federal

O quadro a seguir mostra a composição desse financiamento de 1990 a 2016, de acordo com suas fontes, em valores corrigidos para 2017.

Investimentos em pesquisa, por valor e fonte, para instituições de ensino superior dos EUA. Fonte: Centro Nacional de Estatísticas de Ciência e Engenharia da Fundação Nacional da Ciência. Imagem: AAAS/Divulgação.

Em dólares ajustados à inflação, o financiamento federal anual para a P&D nas instituições de ensino superior dos EUA aumentou de cerca de US$ 8 bilhões na década de 1960 para cerca de US$ 40 bilhões nos últimos anos.

Nesse mesmo período, o percentual da participação da indústria no total de aportes até dobrou, mas em um patamar muito menor, de menos de 3% para aproximadamente 6%, segundo o Programa de Orçamento e Política de P&D da AAAS.

Na verdade, nos Estados Unidos e em praticamente em todos os países, a maior parte do investimentos em P&D não só em universidades, mas também em instituições de pesquisa, é público, como mostrei anteriormente, em meio à discussão e à desinformação em torno do contingenciamento de recursos para ciência (“Investimentos públicos e privados para ciência: não é bem assim, Sardenberg”).

 

Resultados

Tão importante quanto desfazer essa desinformação é mostrar os resultados desses investimentos. Em sua edição de dezembro, a revista Pesquisa Fapesp mostrou que os dispêndios em P&D das universidades do EUA totalizaram US$ 72 bilhões, enquanto no Brasil, em 2015, o dado correspondente  (então mais recente) foi de R$ 19,1 bilhões, equivalente a US$ 10,2 bilhões PPC (paridade de poder de compra).

A revista mostrou também que essa diferença se refletiu na produção científica registrada em publicações internacionais: 483 mil estudos dos EUA e 53 mil do Brasil em 2015. Confira nos infográficos da seção Dados da revista Pesquisa Fapesp em “Resultados dos dispêndios em P&D nas universidades”.

Apesar disso, enquanto no Brasil temos laboratórios sendo fechados e pesquisadores mudando de profissão ou indo embora, na China, onde a produção científica ultrapassou a dos Estados Unidos, o governo não só investe cada vez mais em pesquisa, mas também desafia seus pesquisadores a fazerem do país uma superpotência da ciência.

 

Postado por: Joaquim Liberato.

I Congresso Cearense do Campo de Públicas

Observatório de Políticas Públicas – OPP/UFC

É com enorme prazer que divulgamos o primeiro Congresso Cearense do Campo de Públicas, que será realizado nos dias 14, 15 e 16 de Março de 2018 na capital cearense. O  evento acontecerá no endereço a seguir: Avenida Pontes Vieira, 2391 – São João do Tauape, na sede da UNIPACE, que é a Universidade do Parlamento Cearense.

Abaixo estão os documentos necessários para o entendimento do evento, juntamente com o site para maiores informações.

Insegurança no Ceará

Facções criminosas são responsáveis por chacinas que chocaram a população do estado do Ceará. As notícias repercutiram mundialmente. Segue uma análise da Professora Sônia Meneses e algumas matérias de jornais sobre o ocorrido.

 

No dia 7 de janeiro de 2015, há três anos, dois atiradores, Saïd e Chérif Kouachi, mataram 12 pessoas em Paris, incluindo parte da equipe do jornal Charlie Hebdo. Até aquele momento, aquele atentado foi considerado um dos piores que Paris havia presenciado e, imediatamente, uma gigantesca comoção mundial se fez. O clamor, a dor, a indignação tomou conta das redes sociais. Orações de desespero, manifestações de solidariedade e EMPATIA com a dor dos franceses que foi demonstrada nos milhões de perfis no mundo que passaram a estampar as cores da bandeira francesa com o lema solidário, “Je suis Charlie”. Aqui no Brasil isso não foi diferente, de tal maneira que, na época ficava-se na dúvida sobre em que país estávamos.

Pois bem, ontem dia 27 de janeiro de 2018, um grupo armado metralhou um clube pobre da periferia da capital cearense, Fortaleza, e muito pouco se falou. Os mortos foram adolescentes, mulheres, alguns trabalhadores autônomos num forró. Ninguém mudou o perfil, tão pouco, empunhou algum slogan dizendo, “Je suis Cajazeira”, “Je suis Fortaleza”…
Quem se importa com isso? Foram 18 pobres a menos, “que se matem” é o que dizem e pensam alguns. Para a periferia, acossada pelas facções criminosas que dominam esses bairros, não há democracia, não há solidariedade. Há o medo, o desespero, a desgraça de não ter nascido em Paris. O simples espaço geográfico que habitam condiciona os olhares, os sentimentos, a desconfiança, a rejeição. Meus conterrâneos são os esquecidos moradores de uma periferia de uma capital do Nordeste. São invisíveis. A lista de mortos do jornal não trazia nomes, “duas adolescentes”, “um motorista de aplicativo” um ambulante… não são ninguém, só têm um sexo e uma idade. Nesse país grande e equivocado chamado Brasil, se chora pelo distante e se comemora a tragédia e a dor dos que estão perto. Uma nação que odeia o pobre porque é o reflexo no espelho que quer negar.

Professora
Dra. Sônia Meneses,
Universidade Regional do Cariri.

Grupo armado invade festa e mata 14 pessoas no Ceará: um suspeito é detido | FOLHA

Chacina em Fortaleza: o que se sabe até agora | O POVO ONLINE
Chacina em Fortaleza repercute na imprensa internacional | O POVO ONLINE
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Nova chacina deixa pelo menos dez mortos na cadeia de Itapajé| O POVO ONLINE

 

 

Postado por: Joaquim Liberato.

A distância que nos une: um retrato das desigualdades brasileiras

A Oxfam Brasil lança seu relatório “A distância que nos une: um retrato das desigualdades brasileiras.” com o objetivo de alimentar um necessário e urgente debate público sobre a redução das distâncias dentro da sociedade brasileira, em direção a um país mais justo e solidário.

Fonte: www.oxfam.org.br

 

Postado por: Joaquim Liberato.

Colóquio Internacional Sobre inclusão social e diversidade – Parceria entre SESC e UFC

Pioneiro em propor o intercâmbio de saberes e experiências entre Brasil, França, Canadá, Itália e Suíça, envolvendo contextos distintos sobre inclusão e proteção social, o Colóquio Internacional Sesc-UFC trabalha a temática “Inclusão Social e Diversidade na Educação”. A iniciativa reúne, nos dias 1 e 2/2, na Colônia Ecológica Sesc Iparana, importantes pensadores e especialistas internacionais, que estudam as temáticas em renomadas Universidades do mundo.

A iniciativa é realizada pelo Serviço Social do Comércio do Ceará (Sesc-CE) em parceria com a Universidade Federal do Ceará, por meio do Observatório de Políticas Públicas (OPP/UFC), e a Université Paris Descartes – Sorbonne Paris Cité – Centre de Recherche Sur Les Liens Sociaux (Centro de Pesquisa sobre os Laços Sociais).

Inscrições gratuitas no Site do Evento.

Confira a Programação.

 

Postado por: Joaquim Liberato.