MEMÓRIAS DE QUARENTENA 68: O MUNDO À REVELIA

Publicado originalmente no site da ADUFC-SINDICATO

Leandro Proença (Professor da UNILAB).

“… Mundo à revelia? Mas, Riobaldo, desse jeito mesmo é que o mundo sempre esteve…” João Guimarães Rosa, Grande Sertão: veredas.

Memórias parecem ser muito pouca coisa pra combater a barbárie. Todavia, são as memórias que preservam o afeto das coisas que vivemos; o que não é lembrado, é como se não tivesse existido. E guardar memórias também é um campo de disputa. Uma muito feliz citação do Kundera, d’O livro do riso e do esquecimento, formula a ideia de que a luta “contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento”. Contra quais esquecimentos, porém? Ausências e esquecimentos costumam ser bem seletivos…

“Ah, lembra dele? Tá internado; covid. Bem grave seu estado”. Encerrou a ligação. Me lembro bem dele, apesar de há muito que não o vejo, ou mesmo saber notícias suas. De repente, alguém que passou tanto tempo alheio aos meus pensamentos, tornou-se o centro de urgentes preocupações. No caso do pior, com quatro filhos pra criar, sua esposa sozinha enfrentaria uma condição bastante comum a milhões de mulheres nesse país. Essa normalização, contudo, seria nada diante da sua dor e das suas dificuldades.

Eu tinha prometido a ele que voltaria, com cachaça. Mas ele não botou muita fé. Ainda não sei seu nome; mas sempre levo muito a sério minhas promessas. Voltei, com a cachaça. Fiquei um tempo ali conversando com ele, a metro e meio de distância. Ele não tinha álcool gel pra fazer a assepsia da garrafa, mas o álcool limparia por dentro – o que era bem melhor, ele me garantiu. Aqui, nunca faz frio: lembro-me de ter dito isso várias vezes para pessoas que do sul e do sudeste me perguntaram variedades de coisas sobre a minha vida numa região diferente. Foi estranho ouvir dele que a cachaça ajudaria a encarar melhor o frio daquela noite. Sob um dossel improvisado na copa de uma mangueira, podem ser frias as noites. Ele não usava máscara.

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MEMÓRIAS DE QUARENTENA 67: ESTUDO REMOTO? DE QUE JEITO? HÁ PROVEITO?

Publicado originalmente no site da ADUFC-SINDICATO

Severina Flor (Pseudônimo de Estudante da UFC)

De repente, sem nenhum preparo, os índices da pandemia em alta, a reitoria da Universidade anuncia o retorno às aulas, de modo remoto ou híbrido. A professora nos incentiva a escrever sobre nossas condições e como estamos passando. Respondo que são as piores condições possíveis!

Para começar, eu tenho duas filhas, uma de 7 e outra de 3 anos de idade. Elas precisam de supervisão e orientação para as atividades remotas da escola em que estudam. Tenho que estar ligada na agenda e assistir às aulas com elas (caso contrário, elas não prestam atenção, pois são crianças e o pensamento delas é voltado, na sua grande maioria, para brincadeiras). Após assistirmos, é necessário que eu lhes dê aula sobre o mesmo conteúdo das vídeo-aulas, a fim de sanar as dúvidas e ensinar as tarefas. Estou constantemente fazendo comida, higienizando a casa, cuidando de tudo e de todos. Além de tudo o que foi citado, eu estudo, trabalho e sou membro da diretoria sindical da minha categoria. Às vezes, divido as tarefas com meu marido; outras vezes, ele precisa de um tempo para si…

Meu marido está sofrendo de depressão e ansiedade. Seu quadro clínico piorou nesse período da pandemia. Tem sido difícil lidar com o adoecimento do meu esposo, pois há dias em que seu problema é imperceptível, mas há dias em que até o banho torna-se um dilema, um sacrifício. Ele toma dois comprimidos ao acordar e um para dormir. Vejo que ele se esforça para superar, mas nem sempre consegue.

Eu trabalho à noite, e durante o dia tenho que dar conta de várias tarefas domésticas. Por vezes, não tenho tempo nem para dormir, quiçá para estudar! O sono pesa. Sinto que meu corpo está exausto…

Como mencionei, sou sindicalista e a minha categoria está colapsando. Há anos estamos sem reajuste salarial. Estávamos em uma negociação de valorização profissional e salarial, quando a pandemia se instalou em nosso Estado. A mídia anuncia(va) uns episódios de desvio de verbas públicas e gastos superfaturados, o que leva o nosso efetivo a grandes revoltas e cobranças de reação de nossa parte como diretoria sindical. Em geral, a categoria esbraveja que “o Governo tem dinheiro para tudo, menos para regularizar o nosso salário”. Cada polêmica que surge é uma onda de cobrança sobre o sindicato. Já houve casos de suicídios de profissionais da nossa categoria e alguns colegas afirmam ter sido pela desvalorização profissional e salarial. Nosso contexto de trabalho é intenso e complexo e eu não só acredito, mas também estudo, que o fenômeno do suicídio pode ser resultante de um somatório de fatores; logo, a nossa questão salarial não seria o único causador desse fenômeno entre os profissionais da minha área, como alguns insistem em dizer.

Voltando ao seio familiar… Minha mãe foi contaminada pelo novo coronavírus. A Covid-19 causou uma inflamação em seu coração, causando-lhe um pré-infarto, durante o costumeiro cochilo em uma tarde. Foi necessário levá-la às pressas ao Hospital do Coração. Com esse episódio, passou a apresentar diversos sintomas de pânico. Desse modo, não quer dormir nem comer, está com um quadro de vertigem acentuado, medo de morrer… A única rede de apoio dela sou eu, minha irmã e meu cunhado. Nesse contexto, meu pai passou a reclamar demasiadamente quanto aos gastos com médicos, remédios e terapias que foram indicadas para minha mãe. Isso gerou um conflito entre meu pai e meu irmão mais novo, que coabita com eles, que passou a discutir com nosso pai, (des)considerando o quadro clínico dela. Preciso dizer que essas confusões diárias pioram o quadro de minha mãe? Não, né?… Ela se sente mal pelo fato de ter saído do papel de cuidadora e estar recebendo cuidados nesse momento de fragilidade e chora facilmente.

Minha filha mais nova está dentro do espectro autista. Ela recebe acompanhamento multidisciplinar pelo SUS e pelo plano de saúde. O encarregado de levá-la às terapias (e a estimula nas habilidades sociais) é meu esposo. Entretanto, em virtude de seu quadro depressivo, há dias em que ela perde as sessões de terapias e não tenho como cobrar algo dele, já que está se esforçando ao máximo para ficar de pé. Minha filha mais velha não tem se adaptado bem às aulas remotas. Para falar a verdade, nem eu!

Enfim, antes da quarentena, já estávamos vivenciando alguns contratempos. Às vezes, tenho a sensação de estar insustentável. Essa é a palavra: in-sus-ten-tá-vel! Há dias em que penso que não irei conseguir suportar. Seria hipocrisia ou ironia de minha parte, ser estudante de Psicologia com tantos transtornos em minha volta?

Não sei como vou fazer para que todos nós possamos assistir aulas remotamente, termos algum rendimento escolar/acadêmico positivo, que eu consiga dar conta de todas as outras demandas, bem como ter um convívio social com alguma saúde mental. Todavia, estou aqui para encarar o desafio das aulas remotas e tentar superar essas dificuldades. Que venham tempos melhores!!!

Eleições 2020: saiba como Ver os RESULTADOS

O eleitor que quiser ver o resultado das Eleições Municipais de 2020, pode utilizar a plataforma Divweb (mais completa) na versão para desktop e Resultados, ambas do TSE .

As plataformas podem ser utilizadas por qualquer cidadão e possuem um manuseio intuitivo, com linguagem simples e objetiva.

Além das informações resumidas da Plataforma Resultados, você também pode acessar a Plataforma Divweb e ter acesso às informações detalhadas sobre todos os candidatos que pediram registro à Justiça Eleitoral e sobre as suas contas eleitorais e as dos partidos políticos.

Clique aqui para acessar a plataforma Divweb

Clique aqui para acessar a plataforma Resultados

Se preferir, baixe o app Resultados.

Baixe o app Resultados (iOS e Android).

INFORME SEMANAL ARBOVIROSES (48° SEMANA)

Veja o informe semanal de arboviroses com dados registrados no Sinan até a 48ª semana epidemiológica/2020.

DENGUE – confirmados 7.962 casos (52,8% das notificações), taxa de incidência acumulada de 298,3 casos/100 mil habitantes (o monitoramento da taxa de incidência por semana epidemiológica registra um valor máximo de 14,4 casos por 100 mil habitantes na 18ª semana. O número de casos máximo esperado para essa semana seria 46,7 casos por 100 mil habitantes), sorotipo DENV1 isolado em 7 amostras e DENV2 em 14. Óbitos: 5 confirmados.

Cenário – o total de casos até a 48ª semana de 2020 é 112,2% maior que no mesmo período de 2019 (7.962/3.753). Apesar dessa superioridade a transmissão em 2020 está dentro do padrão endêmico do município. Em linhas gerais observa-se o seguinte:

  1. A distribuição dos casos por semana epidemiológica mostra dois picos, o 1º na 10ª semana e o 2º na 18º (figura 1 pag. 3). Esse é um comportamento atípico no curso da transmissão da dengue. A partir da 27ª semana a tendência é de queda sustentável no número de casos. Nas últimas 10 semanas temos o seguinte quadro: 67 casos confirmados na 38ª semana, 46 na semana 42ª e apenas 26 na 45ª. Nas últimas 3 semanas foi confirmada uma média de 12 casos.
  2. Detectados os sorotipos DENV1 em 3 bairros e o DENV2 em 6 e a co-circulação de ambos no Bairro José Walter (figura 2, pag. 4);
  3. A positividade das amostras encaminhadas ao Lacen para detecção de anticorpos IgM ascendeu de 10,7% em janeiro para 41,6% em abril; oscilou para 24,9 em maio e flexionou para 41,5 em junho. A partir de julho a tendência foi de redução na positividade. O mês de novembro registra uma positividade parcial de 20,9% (figura 3 pag. 5);
  4. O diagrama de controle (figura 5 pag 7) mostra que o número de casos por semana foi sempre inferior ao número máximo esperado, cenário típico dos anos não epidêmicos.
  5. Conclusão: Cenário não epidêmico até a 48ª semana de 2020, com surtos localizados em agregados nos Bairros Vicente Pinzon – Cais do Porto / São João do Tauape – Alto da Balança / Barroso – Jangurussu – Conjunto Palmeiras e Curió/São Bento (mapa de calor – figura 4 pag. 6).

CHIKUNGUNYA e ZIKA – Os registros no Sinan sinalizam para cenário de baixa transmissão.

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INFORME EPIDEMIOLÓGICO DA SEMANA EPIDEMIOLÓGICA 48 (SE48)

Veja a atualização da situação epidemiológica da COVID-19 em Fortaleza, baseada no Informe Epidemiológico da Semana Epidemiológica 48 (SE48).
A média móvel estimada hoje (117,7 casos) é inferior (37% de redução) à registrada duas semanas atrás e, aproximadamente, 88% menor do que a mensurada no ápice da série temporal (958,4 casos).
A média móvel de óbitos dos últimos sete dias (2,0) apresenta uma redução de 35% em comparação à mensurada quatorze dias atrás (3,1). No entanto, na fase em que o município se encontra, de baixa mortalidade, mínimas alterações no número de óbitos mudam a média móvel desproporcionalmente.
Até o momento, não foram registradas mortes nos dias 12 de agosto; 20, 24 e 28 de setembro; 3, 9, 11, 13 e 16 de outubro; e no dia 15, 16, 26 e 27 de novembro.
Algumas observações:

1. A proporção de positividade das amostras (RT-PCR) de residentes de Fortaleza analisadas pelos laboratórios que apoiam a rede pública (LACEN-CE; FIOCRUZ) foi de 28,5% entre os dias 18 e 25 de novembro de 2020. Isto indica importante aumento da circulação viral, que se reflete no incremento de casos.

2. Persiste o “descolamento” entre a média móvel de casos e de óbitos. Em outras palavras, o aumento de casos identificado a partir do início de outubro não se refletiu de maneira evidente ainda sobre a curva de mortalidade. Desde a primeira semana de agosto podemos considerar a média móvel (7 dias) estável no município.

3. Georreferenciamento dos casos novos (01 a 25 de novembro) identificou que, embora os aglomerados (clusters) ainda se concentrem, principalmente, em bairros de maior IDH da Regional 2, já há limitada dispersão para outras áreas da cidade. A faixa etária predominante dos pacientes é de 20-39 anos. Não encontramos qualquer relação com a abertura das escolas.

4. Houve um incremento da transmissão detectado, principalmente, a partir da segunda semana de outubro. A ampliação da testagem molecular (RT-PCR) direcionada a grupos específicos e a realização de inquéritos soro-epidemiológicos são essenciais nessa fase para o monitoramento de surtos e estimativa de indivíduos que já produziram anticorpos.

5. O impacto assistencial do referido aumento de casos antes sentido, pelas razões expostas, majoritariamente nos serviços de saúde suplementar, tem sido observado, de maneira intermitente, em algumas unidades da rede pública.

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MEMÓRIAS DE QUARENTENA 66: DA DESIGUALDADE QUE FAZ MORRER À REDE DE SOLIDARIEDADE QUE FAZ VIVER

Publicado originalmente no site da ADUFC-SINDICATO

Jean Borges (Psicólogo – Projeto Abrace, OPN; Membro da Rede DLIS do Grande Bom Jardim e do Vieses (UFC)

Mês de Março de 2020. Parecia mais um mês que se iniciava como os anteriores. As urgências diárias ditavam o ritmo dos nossos corpos. O ano de 2020 trazia expectativas pessoais e profissionais. Um novo emprego como Psicólogo, a qualificação de mestrado que se avizinhava. Enfim, havíamos superado o ano de 2019 e estávamos de pé, apesar das feridas de um ano complicado e de tantas perdas. Muitos desafios nos esperavam. Diminuir o número de juventudes negras assassinadas, sobretudo em nossas periferias urbanas poderia ser um objetivo. Permanecer nas lutas por políticas públicas no território do Grande Bom Jardim não abriríamos mão. Nosso compromisso é com a possibilidade de construirmos vidas vivíveis, estancar a sangria para quem sabe, cicatrizar.

Uma notícia chegou de repente e nos pegou desprevenidos(as). Dessa feita, estávamos diante do desconhecido, do invisível, do aparentemente inominável. Imóveis diante de um vírus? A saída, segundo autoridades de saúde, era o isolamento social? Como assim? Não é possível. Quarentena? Estado de emergência mundial? Estado de sítio? Não sabemos se é para tanto ainda, respondia a imprensa. E nosso planejamento pessoal em relação ao ano que se enuncia há tão pouco tempo? Nossos objetivos e anseios como ficarão? A situação de aulas? Alguém pode informar? E nossos trabalhos? Nossas relações interpessoais? Nada de visita aos familiares e amigos por tempo indeterminado? Tempo, o que seria de nós? Sempre há o que questionar diante de situações adversas. Como nos isolaremos diante do que nem sabemos do que se trata? Exigimos resposta urgente! De quem?

Nesse momento, a Ciência não explicava ou dimensionava com profundidade os possíveis estragos decorrentes desse fenômeno. Algumas pessoas (e me incluo) buscavam explicações em Deus, nos santos, orixás, nos caboclos, guias espirituais, na natureza, ou em todos(as) ao mesmo tempo, nos agarrando em qualquer bote salva vidas ou ao menos numa pequena boia, nesse imenso mar de incertezas. Estávamos naufragando sem a possibilidade de salvação? Fazíamos orações ou rezas para todos(as) eles(as). Alguém haveria de nos responder nesse momento lancinante. Pedia também que não nos faltassem humanidade, amor, empatia e forças para as batalhas vindouras.

As primeiras respostas aceitas para acalmar minhas angústias diante do nada, surgiram a partir dos boletins epidemiológicos das Secretarias de Saúde do Estado e de Fortaleza. A pandemia se agudizava nas periferias: nelas se revelavam os efeitos mais cruéis da nossa desigualdade, renitentemente escondidos e negados pelas elites, mais uma vez estampada e evidenciada pelas vulnerabilidades e rastros mortes, herança de um sistema colonial, reveladas pela crise epidêmica.

O caos esgarçava diariamente, a chaga se abria, sangrava novamente. Pessoas morriam a cada dia, desconhecidos, colegas, amigos, parentes. A morte se aproximava diante das incertezas. Nos afetávamos e nos questionávamos, como sociedade civil, desde as primeiras notícias: o que será de nosso povo? O que será de nossas crianças? Como garantir que as pessoas se isolem socialmente nas suas residências para evitar transmissão do vírus, se em muitas casas há sete, oito pessoas em apenas um cômodo, e boa parte dos(as) moradores(as) são vendedores(as) autônomos(as), feirantes, ambulantes ou trabalham em casas de família?

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Governo articula o próximo ataque ao SUS

Sob pandemia, e com vasta vacinação necessária, orçamento da saúde em 2021 tem corte de R$ 43 bi e afeta diretamente os municípios. Maia articula a criação dos “planos de saúde populares”; governo quer retomar privatização das UBSs

Por Marta Salomon, na Piauí

Quando os casos notificados de coronavírus no Brasil ainda se contavam em centenas, o então ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta adotou o colete azul com o logotipo do Sistema Único de Saúde. Não era apenas um uniforme de trabalho, mas “um símbolo da defesa ao sistema único e universal de saúde pública”, ele diz, num livro sobre sua experiência no ministério, recentemente publicado.

Dois ministros depois, sem previsão de desfecho para a pandemia e com uma campanha de vacinação contra o coronavírus pela frente, o SUS enfrenta a perspectiva de redução de gastos em 2021 – uma redução que decorre inclusive de medidas que Mandetta adotou ou apoiou. O orçamento do Ministério da Saúde chegou ao Congresso com quase 43 bilhões de reais a menos do que os gastos autorizados neste ano. 

Como se não bastassem os possíveis cortes, há pressões no Congresso Nacional para ampliar o espaço da iniciativa privada no sistema de saúde, em debate que aguarda o fim das eleições municipais. Os prefeitos eleitos serão diretamente atingidos pelos resultados porque as prefeituras respondem atualmente pelos atendimentos básicos do SUS.

Objeto de um decreto editado pelo presidente Jair Bolsonaro no final de outubro e revogado dois dias depois, a construção e a ampliação de Unidades Básicas de Saúde (UBS) terão menos verbas federais em 2021, de acordo com o projeto de lei orçamentária enviado pelo governo ao Congresso (500 mil reais a menos). O mesmo acontece com os investimentos federais na estruturação da rede de atenção primária à Saúde, a porta de entrada no SUS, hoje bancada majoritariamente pelos próprios municípios. Nesses investimentos, a redução chega a 30%, um corte de 15 milhões de reais.

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O que queremos e o que não queremos para Fortaleza.

Lutar para nós é um destino –
é uma ponte entre a descrença
e a certeza de um mundo novo.”
Agostinho Neto

Este Manifesto expressa o que queremos e o que não queremos para a cidade de Fortaleza-CE. Traz a vontade de ampla articulação – cidadãos e cidadãs, de organizações, fóruns, movimentos, redes, instâncias universitárias, coletivos – de diversas configurações, que, advêm do campo popular democrático.

Aqui expressamos princípios éticos que nos aproximam, muitos dos quais estão apontados em documentos públicos de diversos coletivos que subscrevem este Manifesto e que ficam também disponíveis em nossas mídias e redes sociais, para a análise de qualquer Coletivo e Cidadã e Cidadão e que orientam suas práticas sociais de cidadãos e cidadãs, bem como estão apontados.

Iniciamos pelo que não queremos para Fortaleza:

– nosso repúdio a pilares que têm dado sustentação ao bolsonarismo – tais como autoritarismo, racismo estrutural, discriminações, criminalização da pobreza e das periferias; desconstrução de direitos e ameaças à democracia; armamentismo e militarização; fundamentalismos e anticientificismo (negação das ciências) – representados na candidatura do Capitão Wagner, no 2º turno das eleições para a Prefeitura Municipal de Fortaleza.

O enfrentamento ao fascismo, advindo de processos históricos e culturais, e ao bolsonarismo precisa assumir concretizações em cada território, bairro, distrito ou divisões regionais nos Municípios. Concretizações que se delineiam a partir de políticas públicas, para quais apresentamos, agora, princípios éticos que perseguimos e perseguiremos na próxima gestão municipal de Fortaleza.

Nossos princípios éticos referem-se à prevenção e ao enfrentamento de toda e qualquer manifestação de violência; à defesa de uma cidade inclusiva e respeitosa de direitos de todos, todas e todes; cidade mais justa, humana e saudável, antirracista e antifascista, garantidora da igualdade com respeito às diferenças; referem-se igualmente a uma cidade democrática e participativa, com uma gestão municipal que priorize direitos das maiorias populacionais, dos grupos mais socialmente vulneráveis.

Somos cientes das significativas limitações que os grupos políticos e partidários com os quais o candidato Sarto guarda estreita pertença e identidade. Sabemos que esses grupos não vêm apresentando gestões públicas que incorporem o conjunto dos princípios éticos que vêm nos guiando. Sabemos, igualmente, que sua eventual eleição não nos colocará em campo de certezas, mas sim de possibilidades.

É nesse campo de possibilidades que nos posicionamos, no qual daremos continuidade às nossas incidências públicas e lutas político-culturais, que se guiam pela disposição de contribuir com propostas para a cidade, pelo direito de dialogar criticamente, de discordar e propor alternativas, pela responsabilidade de efetivar ações de controle e de monitoramento das políticas sociais e da gestão pública.

Avante juntos, juntas e juntes, no esperançar cotidiano da nossa Fortaleza que queremos e estamos a construir. Afinal, conforme nos lembra o educador Paulo Freire:

“É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar;
porque tem gente que tem esperança do verbo esperar.
E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera.
Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás,
esperançar é construir, esperançar é não desistir!
Esperançar é levar adiante,
esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo.”

Vem contribuir na construção da nossa Fortaleza do esperançar!
Ou da Fortaleza desejada!

Fortaleza (CE), novembro de 2020.
Movimento Cada Vida Importa (MCVI)

Segue link para acessar cartas de compromisso elaboradas por movimentos, coletivos e instituições com ideias e propostas que concordamos para a construção da cidade que queremos:
https://drive.google.com/drive/folders/1BCxP0e4ZUYl06CBbFyGtyEg6rbdyGCyo?usp=sharing

Para assinar o Manifesto, acesso o link:
https://forms.gle/KxUxymxzACSoLQGm7

Obs: As assinaturas podem ser individuais ou também em nome de coletivos, grupos, organizações ou instituições que concordem e se sintam a vontade seguirem como signatários do manifesto.

Multinacionais já controlam 75% das reservas do Pré-Sal licitadas

Multinacionais já controlam 75% das reservas do Pré-Sal licitadas

Quinta-feira, 07, o governo Bolsonaro dá sequência aos leilões do Pré-Sal, realizando a 6ª Rodada de Licitação do Regime de Partilha, onde serão ofertados cinco blocos das bacias de Santos e Campos. A estimativa da Agência Nacional de Petróleo (ANP) é de que estas áreas contenham reservas de 42 bilhões de barris de petróleo, que serão ofertadas ao mercado em troca de bônus de R$ 7,8 bilhões. 

O Brasil virou um oásis para as multinacionais, que estão de olho na maior descoberta de petróleo da atualidade, que é o Pré-Sal. Não é à toa, que das 17 empresas que se inscreveram para esta nova Rodada de leilões, 16 são estrangeiras. A Petrobrás é a única empresa brasileira que disputará os blocos.

O Pré-Sal, que já representa 63,4% de toda a produção de petróleo do Brasil, começou a ser desnacionalizado em ritmo acelerado, no rastro do impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff. Entre 2017 e 2018, a ANP realizou quatro leilões no Regime de Partilha, onde as petrolíferas estrangeiras abocanharam a maior parte das reservas licitadas.

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MEMÓRIAS DE QUARENTENA 65: SOBRE FAZER PÃO E ESCREVER

Publicado originalmente no site da ADUFC-SINDICATO

Lara Denise Oliveira Silva (Socióloga, Pesquisadora e Professora da Rede Básica).

Um vírus – ser microscópico e só aparentemente insignificante – nos obrigou a um resguardo: tivemos que nos trancar do lado de dentro e para quem estava tão acostumando ao ir e vir, ao mundo da rua e a separar tão bem o espaço doméstico do lugar onde se “ganha o pão”, foi como um retorno forçado ao primordial: a casa, a casca, “a poética do espaço”, como diria Gaston Bachelard. A impossibilidade do isolamento para uma grande parcela dos que nem casa tem, revelou as tantas precariedades que marcam nossa sociedade, parece que abriram ainda mais a tampa da nossa “caixa de Pandora” e a conta das desigualdades sociais tem cobrado um alto preço. Permanecer tanto tempo assim em casa anda longe de ser romântico. Para uns, a convivência com o ambiente doméstico foi e é insuportável, violento e perigoso. Para outros tantos, foi a possibilidade da pausa, da reconexão com algo, senão perdido, ao menos desencontrado. Parece-me adequado, particularmente para o momento de agora, compartilhar uma desconfiança que carrego comigo e que, com o passar do tempo, vai transitando da hipótese para uma quase constatação: nos sempre voltamos aos começos. Deixe que eu explique melhor. No início da quarentena, abundaram nas redes sociais vídeos e tutoriais de como fazer pão. Houve quem chamasse de “modinha”, porque sempre haverá o cinismo, mas me chamou atenção esse ato de transformar o alimento e preparar algo que é tão primitivo e simbólico como o pão. Há uma história curiosa sobre Wright Mills, autor da “imaginação sociológica” em que ao ser visitado por um colega intelectual, este se surpreendeu com o fato de Mills ter preparado a refeição que oferecia, ao que o sociólogo respondeu, incrédulo: “quer dizer que você não prepara o próprio pão?”. Mais do que uma habilidade culinária, chama atenção o necessário uso das mãos na criação daquilo que sai de nos, arranca pedaços e encontra chegada no artesanal que se constrói a partir desse movimento. E parece que nos autorizamos também a escrever os dias, registrar em letras e palavras o que nos atravessa, um registro histórico e sentimental do isolar, das incertezas e da vontade de contar os dias. Escritores amadores, autores de suas histórias e amantes da grafia, tem passeado por esse gesto original de encurtar as distâncias entre cabeça, coração e as mãos. O isolamento segue em seu sexto mês, embora seja adequado aconselhar a rasgar o calendário. Para que a contagem dos dias se podemos reuni-los em narrativas amadoras e por isso mesmo, mais reais? Falar do que sentimos é como tirar a roupa na frente de outra pessoa. A gente se desnuda e assim, com a pele em carne viva, não há muito o que esconder. Para quem e o que você tem mostrado? Que objetos e detalhes da casa estão componho o acervo do seu museu dos dias de agora? Escreva!

Postado por: Das Chagas Martins

Postado em: 25/11/2020

O Movimento Cada Vida Importa (MCVI) E O antifascismo

Nós, do Movimento Cada Vida Importa (MCVI), aqui, convidamos a todas e todos a compartilhar um de nossos princípios fundamentais: o antifascismo.

Em Fortaleza, estamos em pleno segundo turno do pleito ao executivo municipal. No país inteiro vivenciamos, há algum tempo, a propagação de discursos de ódio e antidemocráticos. Tais situações se interligam, especialmente, quando observamos candidaturas que reiteram e são apoiadas por essa onda reacionária nacional.

Considerando esse contexto, compartilhamos cartas e plataformas elaboradas por movimentos do campo popular e setores institucionais progressistas que reivindicam pautas essenciais para nossa sociedade, em especial o município de Fortaleza.

Tais documentos são pelo MCVI endossados, pois consideramos pontos irredutíveis para o avanço de lutas contra o racismo, o machismo, lgbtqifobia, desigualdades sociais e todas as frentes contra o fascismo.

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Fórum Social Mundial Justiça e Democracia será no Brasil na primavera de 2021

Postado no site Mundo Sindical

A convocação está sendo feita por várias entidades progressistas formadas por integrantes do Sistema de Justiça, como o Coletivo Transforma MP, formado por membros do Ministério Público dos Estados e da União; a Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD), a Associação de Juízes para a Democracia (AJD) e a  Associação Advogadas e Advogados Públicos para a Democracia (APD), que estão somando esforços para desenvolverem iniciativas conjuntas de resistência aos ataques aos direitos da classe trabalhadora e ao estado democrático de direito no Brasil, na América Latina, e em outras partes do mundo.

Motivadas pelos processos dos fóruns sociais, essas organizações buscam agregar entidades e movimentos na construção de um espaço de troca de informações e construção de ações concretas e coletivas frente à desafiadora conjuntura atual. 

De acordo com o secretário de Assuntos Jurídicos da CUT, Valeir Ertle, a  entrada da Central na organização do FMJD, com amplo envolvimento de seus organismos internos e entidades filiadas, propicia um amplo processo de articulação e denúncia de situações inaceitáveis, tais como as violações de direitos humanos, destruição do meio ambiente e da biodiversidade e a destruição da democracia, em especial na América do Sul.

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MEMÓRIAS DE QUARENTENA 64: EDUCAÇÃO INCLUSIVA PRA VALER

Publicado originalmente no site da ADUFC-SINDICATO

Keila Chaves (Integrante do CAMPE; da Campanha Nacional pelo Direito à Educação-Comitê CE e da Comissão de Educação do Fórum DCA) e David Leite Chaves (Integrante do Centro de Apoio a Mães e Pais de Portadores de Eficiência – CAMPE)

Sou Keila Leite Chaves, mulher parda, cabelos longos e grisalhos, estão amarrados e estou usando uma camiseta verde. Ao meu lado, está o David Leite Chaves, meu filho, um jovem de 24 anos, que tem deficiência múltipla, usando uma blusa amarela, com as inscrições em preto: Educação Inclusiva, Direito de Toda Criança e de Todo Adolescente.

Somos militantes e lutadores, somos do Centro de Apoio a Mães de Portadores de Eficiência, de Fortaleza-Ceará. Estamos divulgando este texto para dizer que estamos juntos com o Programa Pró-Inclusão, pois não concordamos com essa nova política de “educação inclusiva”.

Não queremos o retorno de uma política perversa de segregação e isolamento de pessoas com deficiência. A luta é por uma educação pública, gratuita e de qualidade para todas as crianças e para todos os adolescentes.

Estamos na luta e vamos continuar resistentes a políticas de retrocesso. Não concordamos com uma política que traga de volta o isolamento das pessoas.

É preciso estar em sociedade e conviver, para se aprender com as diferenças.

Por uma sociedade inclusiva. Não podemos exigir que ela seja inclusiva, se não fazemos parte dela.

Por isso, nós, familiares, não concordamos com esse Decreto*, que também não houve a participação das famílias na elaboração do Decreto.

Não concordamos, de forma nenhuma, com o retrocesso de conquistas. A luta é para avanços e para a efetivação de políticas já conquistadas.

Estamos aqui na resistência, e continuaremos lutando por uma educação inclusiva, que atenda a todas e a todos, nas suas diferenças, lutando por uma educação com qualidade, por uma educação pública e gratuita para todos e todas.

*A autora está se referindo ao Decreto nº 10.502, de 30.09.2020, de autoria da Presidência da República, que estabelece novas regras para o atendimento de pessoas com deficiência, em escolas e salas especiais.

Desafios do próximo Prefeito de Fortaleza. Por onde começa às soluções?

O Observatório de Políticas Públicas participa hoje à noite no programa Cena Pública, com a participação do prof. Fernando Pires, contamos com sua audiência.

Não perca! É Hoje, às 22:15h no canal da TV CEARÁ.

Clique aqui para assistir: @Tvceara.

MEMÓRIAS DE QUARENTENA 63: A ARTE E A QUARENTENA

Sandra Montenegro de Holanda (Psicóloga e Artista Plástica)

Tempos estranhos os que estamos vivendo. Já passei por vários momentos nesses sete meses: de Poliana (super otimista) a personagens de Machado de Assis (realistas tendendo ao pessimismo). Inicialmente, o susto, o medo, a insegurança e revolta, agravados por um governo totalmente perverso, equivocado e irresponsável. Vou compartilhar aqui com vocês.

Sou servidora pública aposentada e artista plástica em atividade. Nessa quarentena, algo que mais me assustou foi o tempo. Ficar reclusa com um tempo enorme diante de mim, me paralisou. Inicialmente, fiquei totalmente travada, imersa num deserto criativo. Não conseguia produzir nada. Com tanto tempo, o quê fazer com ele? Todo o planejamento do ano foi suspenso e sem prazo determinado para ser retomado. Isso gerou em mim muita insegurança e angústia. Ler, nem pensar. Não conseguia me concentrar. Virei uma exímia dona de casa. Lavar louça, varrer a casa. Cozinhar era com o marido, excelente cozinheiro. Cuidar do jardim, faxinar a casa, lavar roupa, tudo sem maiores problemas. Ajudava a passar o tempo. A quarentena só não me fez gostar de passar roupa. Desenvolvi até estratégias, roupas só pretas, ou azul marinho e brancas, para facilitar as lavagens na máquina. Aos poucos, fui criando uma rotina, que ajudou também a me organizar psiquicamente: café da manhã (às vezes era a tarde), yoga pelo Youtube, banho de sol na garagem, tarefas de casa, almoço (as vezes era jantar), filmes e séries e dormir (muitas vezes às 3 da manhã). Havia dias que a rotina ia para o espaço, mas tentava não me cobrar muito, sendo mais generosa comigo mesma. Grata por ter uma casa, meu companheiro do lado, uma condição financeira confortável etc – estava na fase da Poliana. Continuava, no entanto, me sentindo culpada por não estar produzindo, fazendo arte. Aos poucos com a ajuda dos movimentos artísticos nas redes sociais, fui produzindo, participando de vários desafios e exposições virtuais. Reuniões com amigos e colegas artistas pelas ferramentas Zoom, Google Meet, WhatsApp, fui me adaptando ao mundo virtual. Abriu-se a caixa de pandora. Minhas sessões de análise online também ocorreram e foram de grande ajuda.

Um estímulo visual pode desencadear meu processo criativo, uma paisagem, uma cena urbana, uma fotografia, mas necessito que este me toque mais profundamente. Ficar em casa isolada foi ficando prazeroso, descobri tanto espaço e momentos legais, apreciei muito a casa. Cada cantinho falava mais internamente comigo e uma produção começou a surgir. Trabalhei e ainda estou trabalhando numa série de obras que chamei: “Tudo de casa”: “A Louca da Casa”, “A Louça da Casa”, “A Roupa da Casa”, “O Gato da Casa”, “A Meditação da Casa” e tenho outros registros que ainda não executei. Posso dizer que a arte foi fundamental para o meu equilíbrio emocional nessa quarentena. Incluo aqui não só as artes plásticas, mas o cinema e a música. Quantos filmes e séries me preencheram o tempo e a alma, quantas músicas escutei na minha varanda, quantos shows maravilhosos assisti… A arte se transformou na nossa voz nessa pandemia, diante de tanta falta de lucidez.

Uma coisa é certa: não há como ficar “normal” diante de uma situação tão desconhecida e perturbadora como esse vírus que atingiu a todos. Aprendi que planos são factíveis de alterações, que tudo se acomoda no seu tempo, que ser generoso um com os outros faz um bem danado. Aprendi a cuidar de mim mesma. Isso é tão libertador, nos fornece tanta autonomia. Não acredito em mudanças coletivas, que a sociedade agora vai ser diferente, que aprendeu algo com essa pandemia (minha fase Machado de Assis). Acredito que algumas pessoas vão sair diferentes sim, e essas talvez possam fazer a diferença futuramente. Talvez pareça contraditório o que acabei de dizer, mas a vida é assim cheia de contradições.

Façamos nossa paleta com cores variadas. Dessa forma, pintaremos a vida, nossa obra de arte.

Postado por: Das Chagas Martins

Postado Em: 23/11/2020

SEGUNDO RELATÓRIO DA PESQUISA COM ALUNOS DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ EM TEMPOS DE COVID-19

A pesquisa Avaliação da condição de vida dos alunos e de suas famílias durante o Covid-19 e possíveis resultados das Ações do Governo e da Universidade Federal do Ceará foi realizada pelo Observatório de Políticas Públicas junto aos discentes da UFC, de 26 de abril a 6 de maio, compreendendo todos os Campi da Capital e interior do estado, com indicação daunidade acadêmica.

É importante ressaltar que este Segundo Relatório complementa a análise divulgada no dia 11 de junho (OPP, 2020), que se deteve nos resultados globais, sem discriminação e comparações por campi e unidades acadêmicas. Para ter acesso ao Primeiro Relatório clique aqui.

Já neste Segundo Relatório, são contempladas as questões que tratam da repercussão das políticas emergenciais, comparando-se renda, inscrição no Cadastro Único e acesso às políticas adotadas pelas diferentes esferas governamentais e pela UFC, como também as condições de vida,
baseadas na renda familiar e nos problemas sociais, como saúde, moradia, falta de alimento e situação de desemprego que podem influenciar, diretamente, no desempenho dos discentes nas atividades acadêmicas remotas, neste contexto de epidemia da Covid-19 no Brasil.

Enfatiza-se, ainda, que a pesquisa contribui para uma apreciação mais específica e profunda dos contextos de saúde e social, financeiro e material dos discentes/campus da Universidade Federal do Ceará, em razão dos tempos atuais.

[ + ] Para ler, clique aqui:

2ª Relatório – Avaliação da condição de vida dos alunos e de suas famílias durante a Covid-19 e possíveis resultados das Ações do Governo e da Universidade Federal do Ceará.

[ + ] Leia também:

1° Relatório – Avaliação da condição de vida dos alunos e de suas famílias durante a Covid-19 e possíveis resultados das Ações do Governo e da Universidade Federal do Ceará.

Análise das Eleições no Nordeste/Ceará na Perspectiva das Políticas Públicas

O Observatório de Políticas Públicas (OPP), da Universidade Federal do Ceará, promoverá a live “Análise das Eleições no Nordeste/Ceará na Perspectiva das Políticas Públicas”, que ocorrerá no dia 25 de Novembro de 2020 às 18h.

Depois do ciclo de debates realizados no primeiro turno com os pleiteantes à prefeitura de Fortaleza: “Propostas para Fortaleza-Diálogos com os Candidatos à Prefeitura”, disponíveis no blog do OPP e no Youtube, a atenção se volta agora para a análise dos resultados e as perspectivas do segundo turno, no Nordeste e no Ceará. A tônica será a definição e implementação de políticas públicas de caráter progressista que visem a melhoria em geral das condições de vida da sociedade. Na oportunidade, participarão do nosso encontro:

Cibele Mayra (cerimonialista) – Bolsista do OPP e estudante de Gestão de Políticas Públicas.

Hébely Rebouças (mediadora) – Jornalista, doutoranda em Comunicação (UFC) e integrante do podcast As Cunhãs.

Fernando Pires – Professor titular da Universidade Federal do Ceará (UFC), em Economia e em cursos de Pós-Graduação, e Coordenador do Observatório de Políticas Públicas.

Jawdat Abu-El-Haj – Professor titular da UFC, doutor em ciência política. É matemático e também possui experiência na área de sociologia, com ênfase em políticas públicas e sociologia do desenvolvimento.

Márcio de Souza Porto – Prof. Colaborador da Universidade Federal do Ceará, Mestrado em História e Doutorado em Sociologia (UFC), Dir. Geral do Arquivo Público do Estado do Ceará, membro do CNPq e Diretor Geral do Arquivo Público do Estado do Ceará.

Uribam Xavier – Professor do Departamento de Ciências Sociais da UFC e Cientista Político.

Portanto, não perca este importante evento: dia 25/11 (quarta-feira), às 18h, no canal do Youtube do Observatório de Políticas Públicas.

Link da live: @ObservatóriodePolíticasPúblicas

Divulgue e participe!

O Dia da Consciência Negra não é so um dia de comemoração, mas também É um dia de reflexão para chamar a atenção para um grave problema.

20 de Novembro!
É tempo de formar novos quilombos,
Em qualquer lugar que estejamos,
e que venham os dias futuros, salve 2020, a mística quilombola persiste afirmando: “a liberdade é uma luta constante”.
CONCEIÇÃO EVARISTO

Postado Por: Das Chagas Martins

Postado Em: 20/11/2020

PELO ESGOTAMENTO DA PASSIVIDADE

Por: Uribam Xavier (*)

Violência e mais violência, sempre produção de ameaças, misérias e mortes. Se olharmos para frente, temos a impressão de que com o passado se foi o nosso melhor. Uma violência incessante não tem trégua, é sempre um recomeço, uma bolsonarização mortífera constante. Se da Bolívia e do Chile surge um sol radiante, empurrando os ventos sombrios, no Brasil, a maldição neopentecostal usa o nome de Deus em vão, anulando as benções divina. Além disso, o ministro Ricardo Sales, a ministra da Agricultura e os militares abrem as porteiras, destruindo o que era bonito por natureza. No nosso país, ao contrário do que pensava Caetano, para quem “a força da grana ergue e destrói coisas belas”, o capital é manco; não ergue, só destrói as coisas belas.

Diante de tempos tão sombrios e do protofascismo no governo militarizado de Bolsonaro, enquanto os pobres se ocupam em garantir condições mínimas de sobrevivência, os ricos focam em acumular riquezas e violentar a sociedade; a classe média intelectualizada em berço esplêndido ler os seus livros e participa de lives; a outra classe média, a que bateu panela em favor do golpe contra o governo Dilma, movida, também, pelo ódio aos pobres, não pode mais pagar um plano de saúde, tampouco a escola privada que promete obter o primeiro lugar no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) para os seus filhos e atrasa o pagamento da taxa de condomínio, mas continua acreditado que a violência e a corrupção diminuíram e que privatizar tudo é preciso.

O nosso pessimismo e a nossa sensação de impotência perante os que acumulam riquezas reside no fato de que os que controlam o poder estatal no Brasil acabam neutralizando a nossa capacidade política transformadora, impedindo-nos de criarmos espaços novos de respostas políticas e outras visões de mundo. Em vez de partimos para a ação mobilizadora como sujeitos políticos arriscando outros horizontes, estamos ancorados em ideias esgotadas, à espera de uma mágica que traga de volta uma realidade recente, como se nada de melhor fôssemos capazes.

Será que os nossos hábitos midiáticos e os nossos vícios tecnológicos não estão determinando, em algum grau, a nossa imagem de mundo e nos acomodando a uma condição de sobrevivência? Então, resignar-se ou agir? Tenho um sentimento de que a sensação de passividade precisa dar lugar a uma ação ativa não pacífica, que a realidade pede uma desobediência epistêmica e civil. Será que é só um sentimento ou uma necessidade?

(*) Uribam Xavier – Professor do Departamento de Ciências Sociais da UFC.

INTERVENÇÃO – OAB pede ao STF anulação de nomeações para reitor feitas por Bolsonaro que ferem autonomia universitária

Publicado originalmente no site da ADUFC-SINDICATO

Em mais um capítulo da luta pela garantia da autonomia universitária, o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) entrou com uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) no Supremo Tribunal Federal (STF) para que Jair Bolsonaro seja obrigado a nomear o indicado mais votado das listas tríplices para os cargos de reitor, vice-reitor e diretor das universidades federais. Com o caso mais recente da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), já são 16 intervenções em universidades federais, incluindo a UFC, que está sob intervenção há mais de um ano.

A ação da OAB pede, ainda, que a decisão tenha caráter retroativo, resultando na anulação de todas as intervenções feitas por Bolsonaro ao nomear candidatos que não tenham sido os mais votados da lista tríplice. No entendimento da entidade, isso deve ser feito em respeito aos princípios constitucionais da gestão democrática, do republicanismo, do pluralismo político e da autonomia universitária.

Segundo a entidade, o objetivo da ADPF não é a declaração de inconstitucionalidade de dispositivos da Lei 9.192/1995 que permitem ao presidente da República nomear os reitores e os vice-reitores das universidades federais a partir de lista tríplice, mas impedir “nomeações discricionárias” e “evitar novos aviltamentos por novas nomeações em desacordo com as consultas e escolhas majoritárias das comunidades universitárias”.

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O FIM DA SUBORDINAÇÃO

Com derrota de Trump, Brasil precisa fazer correção de rumos sem mais perda de tempo e prestígio

Públicado originalmente na revista Piauí

Por: Marcos de Azambuja

Em 2016, Donald Trump mostrou que era um vencedor mesquinho e rancoroso. Agora, em 2020, mostra que é um perdedor mesquinho e rancoroso. A vitória não lhe inspirou grandeza e generosidade, e a derrota não lhe ensinou humildade e sabedoria. É  um homem perigoso e que, por temperamento e convicção, tem uma relação desconfortável e frágil com a verdade, com a decência e com os valores democráticos.

Não causou apenas danos a seu país, cuja estatura internacional diminuiu.  Contagiou outros com o vírus de seu populismo autoritário e seu desprezo pelas grandes causas de seu tempo: a proteção do meio ambiente e o reforço dos direitos humanos. Se não tivesse sido agora afastado do poder teria sido possível imaginar que mais quatro anos de sua administração poderiam  ter causado  danos talvez  irreversíveis  para uma ordem internacional  liberal que procurou, por muitos caminhos, desconstruir.

Não consigo colocá-lo  com naturalidade em algum ponto da linha de pensamento político tradicional  que se estende da esquerda à direita. Trump não é um conservador de moldes clássicos,  e suas posições, impulsivas e teatrais, parecem antes a consequência  de  considerações táticas  do que reflexo de um pensamento estruturado. Não quero conferir a seu oportunismo  qualquer  rótulo  que sugira alguma forma de respeitabilidade intelectual. Isso não o torna menos perigoso como um operador inescrupuloso e audacioso.

A eleição americana que acaba de se realizar mostrou que a democracia norte-americana guarda suficiente vitalidade  para afastá-lo legalmente do poder  pela força dos votos sem lhe dar a oportunidade de um segundo mandato. A vitória de Biden aconteceu, entretanto,   por uma margem mais tênue do que  as pesquisas antecipavam,  e fica a preocupação de que, apesar de tudo,  71 milhões de eleitores  viram em Trump e em sua promessa o caminho a ser seguido. Não é pouca coisa.

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MEMÓRIAS DE QUARENTENA 72: O VÍRUS QUE NOS TIROU A PAZ E O RISO

Fátima Azevêdo (Médica geneticista; Prof a. da Famed-UFC; Artista Plástica e Poeta

Estar acordada de madrugada, para mim não é normal. Gosto quando durmo a noite toda. Porém, há dias que me acordo do nada ou sou acordada por algum barulho, algum sonho, pesadelo ou alguma preocupação que me martela o juízo. Descansar corpo, mente e espírito, são questões fundamentais para se viver com saúde. Ultimamente, não está fácil conseguir essa façanha.

Essa pandemia trouxe aflições de toda ordem e tamanho para todo tipo de ser humano. Do mais letrado ao que menos acesso teve ao estudo, do mais jovem ao mais velho, do que tem mais melanina na pele ao que tem menos, do mais saudável ao que tem algum tipo de doença, desde o comandante aos comandados. O vírus foi e continua sendo democrático.

Democrático na forma de contágio, mas a forma de acesso ao tratamento não é igual pra todos. Pelo contrário: revela as imensas desigualdades com que nos deparamos neste País.

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INFORME EPIDEMIOLÓGICO DA SEMANA EPIDEMIOLÓGICA 46 (SE46)

Veja a atualização da situação epidemiológica da COVID-19 em Fortaleza, baseada no Informe Epidemiológico da Semana Epidemiológica 44 (SE44).

Cenário Epidemiológico

Página 1/10 Ano 2020 46ª Semana Epidemiológica O objetivo deste Informe é divulgar o cenário epidemiológico e a distribuição espacial e temporal de casos e óbitos de COVID-19. Os dados, no que se referem aos casos, foram atualizados pelo IntegraSUS às 09h30 do dia 13 de novembro de 2020. A análise de mortalidade foi realizada com base na confirmação laboratorial de novos óbitos atualizada às 09h30 do dia 13 de novembro de 2020 pela SMS-Fortaleza. Uma tabela com o número de casos e mortes causadas pela COVID-19 de acordo com bairro de residência dos pacientes, assim como a taxa de mortalidade, está incluída em anexo. Entre os dias 05 a 12 de novembro, a proporção de positividade das amostras (RT-PCR) de residentes de Fortaleza analisadas pelos laboratórios da rede pública foi de 12,2%.

Leia o documento completo clicando no link a seguir:

Você Ouviu falar sobre o evento Economia de Francisco?

O Economia de Francisco irá acontecer, on-line, nos próximos dias 19, 20 e 21, deste mês! Pela manhã, teremos uma programação global, com palestrantes internacionais e à tarde uma programação nacional. O nosso objetivo é assinar um pacto global por uma Economia mais justa, inclusiva e regenerativa.

O Evento

Mais do que um evento, Economia de Francisco (EoF) é um movimento cultural e plural, convocado pelo Papa Francisco, que busca reunir e articular pessoas e organizações que desejam protagonizar um sistema econômico mais justo, inclusivo e regenerativo.

Venha dialogar com a comunidade brasileira de negócios de impacto sobre as agendas propostas pelo EoF.

Nos dias 19 e 20 de novembro você é noss@ convidad@ para o evento “Economia de Francisco: juntos por um novo pacto global”, organizado em uma parceria inédita entre Economia de Comunhão, Instituto de Cidadania Empresarial e Sistema B Brasil.

👉🏼 Inscreva-se gratuitamente em: bit.ly/eofbrasil2020

Juntos, por uma nova economia!

E fique ligado: o evento global também acontecerá na mesma data, no período da manhã, às 10h. Se você deseja acompanhar, é só acessar: https://bit.ly/eofglobalaovivo

Esperamos você!

Postado por: Das Chagas Martins

Postado em: 14/11/2020

Episódio 28 – Debate, pesquisas e atualizações antes que as urnas revelem VENCEDORES

A menos de uma semana do primeiro turno das eleições municipais, falamos das últimas novidades da disputa em Fortaleza, com mais números de pesquisas de intenção de voto, uma análise do que rolou no debate da TV Cidade e as últimas tacadas das campanhas dos candidatos. Também atualizamos um pouco do que tá acontecendo na Região Metropolitana de Fortaleza e no interior, com dados sobre Juazeiro do Norte e Sobral. E ainda falamos da eleição do Trump, no “Diz, Cunhã”, com um recadinho pra companheira Melania. Bora ouvir!

Clique no ícone para ouvir pelo Spotify. Ou clique aqui.

PROPOSTAS – OPP/UFC encerra ciclo de debates do primeiro turno das eleições com candidatos à Prefeitura de Fortaleza

Postado em ADUFC-SINDICATO, 06 de novembro de 2020.

Com apoio da ADUFC-Sindicato, o Observatório de Políticas Públicas da Universidade Federal do Ceará (OPP/UFC) encerrou ontem (5/11), a primeira etapa do ciclo de debates “Propostas para Fortaleza: Diálogos com os candidatos à Prefeitura”, que, em quatro eventos online, reuniu candidatos/as a prefeito/a da capital cearense e pautou desafios e propostas para a cidade. O último encontro contou com a participação da candidata Luizianne Lins (PT) e do postulante Heitor Férrer (SD) e foi mediado pelo Prof. Felipe Braga Albuquerque, da Faculdade de Direito da UFC. No início de cada evento, transmitido ao vivo pelo YouTube, foi lida a Carta aberta aos candidatos à Prefeitura de Fortaleza”, elaborada pelo OPP, ressaltando lacunas e prioridades nas políticas públicas da cidade.

Nos anos anteriores, o Observatório já organizava tradicionalmente esse debates – com candidatos a prefeito e também ao Governo do Estado –,  mas em modelo presencial. A pandemia do novo coronavírus impôs ajustes ao formato, que foi adaptado para a videoconferência neste ano. O coordenador do OPP/UFC, Prof. Fernando Pires, foi o responsável pela organização dos eventos, juntamente com os quatro bolsistas do Observatório: Ana Larissa Cândido, Cibele Mayra Viana, Francisco das Chagas Martins e George Assunção. Os encontros foram mediados por professores universitários e a ADUFC ofereceu apoio técnico e interpretação em Libras.

O primeiro debate foi realizado no dia 13/10 e reuniu os candidatos Renato Roseno (PSOL) e Célio Studart (PV), sendo mediado pelo Prof. Fernando Pires. No dia 16/10, o convidado foi Anízio Melo (PCdoB), que debateria com Capitão Wagner (Pros), mas este não compareceu ao evento. A candidata a vice-prefeita da chapa, Helena Serrazul (PCdoB), professora da UFC e ex-presidente da ADUFC, também esteve presente. A mediação foi feita pela Profª Danielle Cruz, do mestrado em Avaliação de Políticas Públicas da UFC. Paula Colares (UP) e Samuel Braga (Patriota) participaram do debate no dia 27/10, mediado por Rafael Silva, colaborador do OPP e professor da UFC.

Os 11 candidatos e candidatas à Prefeitura de Fortaleza foram procurados/as pelo Observatório de Políticas Públicas, mas apenas sete compareceram ao debate. A organização do evento tratou com isonomia todas as candidaturas. Em cada debate foi garantido o tempo de 30 minutos para cada pleiteante apresentar as propostas para a cidade, seguido de discussão a partir de perguntas enviadas pelo público. Os encontros online focaram na apresentação de propostas, sem espaço para troca de acusações entre candidatos/as.

O Prof. Fernando Pires explica a importante função de debater as propostas para a cidade, especialmente em um contexto de “desmonte” das políticas públicas, e acredita que “a universidade deu uma grande contribuição à sociedade”. “Temos como grande missão promover o controle das políticas públicas, possibilitar à sociedade conhecer com mais profundidade as propostas de cada candidato”, diz. “No momento em que o governo tem atacado e tentando desestruturar o estado, é uma forma de se contrapor a esse desmonte de um governo retrógrado e conservador”, acrescenta.

Todos os vídeos do ciclo de debates podem ser acessados no canal do YouTube do Observatório de Políticas Públicas da UFC.

SERVIDORES PÚBLICOS, HERÓIS PERSEGUIDOS

Publicado In: O Povo, de 6/11/2020. Opinião. p.20.

Por: Fernando José Pires de Sousa (*)

Não há homenagem mais justa do que aos servidores públicos! São eles que exercem profissões das mais honrosas e dignas justamente por atenderem diretamente a sociedade, cumprindo assim um dever cívico por excelência. As políticas públicas não existiriam sem o trabalho incansável de milhares de servidores espalhados por este imenso país, nos três poderes e esferas de governo, exercendo suas funções da melhor forma possível!

Esta pandemia tem mostrado o valor e a entrega incondicional dos profissionais de saúde que diuturnamente arriscam suas próprias vidas, muitas delas ceifadas pela doença, no esforço de salvar seus pacientes. Presenciamos também o trabalho incansável dos profissionais da educação, procurando cumprir seu papel de professor e educador, muitos sob condições precárias de trabalho, fazendo de tudo para que crianças, jovens e adultos não interrompam seus estudos, garantindo, assim, o cumprimento do processo de formação e aprendizagem, educacional e profissional. Estes exemplos são emblemáticos, por estarem na linha de frente no atendimento “emergencial” da população. Mas milhares de outros profissionais, de diferentes áreas, também são demandados e cobrados, como assistentes sociais, bombeiros, auxiliares, secretárias, vigilantes, psicólogos etc.

Dessa forma, são heróis porque em geral se dedicam sob condições que deixam muito a desejar, não somente em termos de remuneração como em condições de trabalho e valorização. Além de tudo, são perseguidos, daí o título deste artigo. Isto é evidenciado pela história política de governos irresponsáveis, desde Jânio Quadros, com o slogan da vassourinha, passando por Collor, Temer e pelo atual governo. Eles se lançam nos braços de segmentos conservadores que fazem apologia ao mercado, à desvalorização dos servidores e de tudo o que for público. Recursos e direitos são suprimidos para justificar privatizações, como a PEC dos gastos e este famigerado Decreto 10.530 que, em plena pandemia, tenta acabar com o SUS. Para o bem comum, a sociedade precisa estar ao lado destes heróis, parabéns a eles!

(*) Fernando José Pires de Sousa – Professor da UFC e coordenador do Observatório de Políticas Públicas.

Para ver mais conteúdos como esse, acesse nosso blog clicando aqui: Observatório de Políticas Públicas

‘Estrupador’ é você, protesto de chilenas, se espalha pelo mundo

Mensagem contra violência de gênero conquista adesão.

Publicado em O Globo.

Milhares de chilenas se reuniram sexta-feira em Santiago e em outras cidades do país para cantar ‘El violador eres tú’, com coreografia ensaiada. Grupos menores de ativistas aderiram ao protestos em outras cidades pelo mundo, como Paris e Barcelona. Nas redes sociais, o movimento emocionou muita gente e rendeu milhares de comentários

É AMANHÃ! | PROPOSTAS PARA FORTALEZA: DIÁLOGOS COM OS CANDIDATOS À PREFEITURA

O EVENTO

O Observatório de Políticas Públicas-OPP, da Universidade Federal do Ceará, com o apoio do Sindicato dos Docentes das Universidades Federais do Estado do Ceará (ADUFC), promove este ciclo de encontros intitulado “PROPOSTAS PARA FORTALEZA: DIÁLOGOS COM OS CANDIDATOS À PREFEITURA”, de forma remota, por meio do Youtube, no endereço eletrônico @ObservatórioDePolíticasPúblicas, sempre às 17h.

Vale informar que foram enviados convites a todos os candidatos, cujos eventos foram organizados conforme a presteza na aceitação dos pleiteantes. Assim, considerando a proximidade das eleições e as agendas dos candidatos, decidiu-se realizar esta rodada de apresentações, as quais não se constituirão em debates entre os candidatos e sim em exposição de suas propostas e considerações. A previsão é de 30 minutos para cada pleiteante, seguida de discussão a partir de perguntas postadas pelo público presente.

Isso se reveste da maior importância, considerando que se trata do futuro da quinta capital do país em população, a qual apresenta grandes problemas e vulnerabilidades, mas também muitas e significativas potencialidades capazes de proporcionar melhores condições de vida para seus habitantes.

Dessa forma, acreditamos que as considerações sobre os problemas que mais afligem nossa Capital e as principais políticas para superá-los ou minimizá-los, bem como as estratégias a serem implementadas, certamente possibilitarão a todos nós, cidadãos e eleitores, elementos para uma escolha mais consistente do futuro gestor de Fortaleza. Nesse sentido, a Universidade Federal do Ceará e, em particular, o Observatório de Políticas Públicas e a Adufc, cumprem o papel precípuo de promoção da democracia por meio do debate e da transparência nas ações governamentais.

E será com prazer, que teremos neste quarto encontro a presença dos candidatos Heitor Férrer (SD) e Luizianne Lins (PT).

Também estarão presentes:

Prof. Felipe Braga (mediador) – Doutor e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR). Professor Adjunto da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará (UFC). Membro do Instituto Latino Americano de Estudos sobre Direito, Política e Democracia (ILAEDPD) e membro do Núcleo de Saúde do Observatório de Políticas Públicas (OPP).

Cibele Lourenço (cerimonialista) – Bolsista do OPP e estudante de Gestão de Políticas Públicas.

Margarida Pimentel e Cris Farias (tradutoras-intérpretes) – Atuam em parceria nas traduções das atividades da ADUFC.

Então não perca: dia 05/11 (quinta-feira), às 17h, no canal do Youtube do Observatório de Políticas Públicas.

Link da live: Observatório de Políticas Públicas

Divulgue e participe!

CARTA ABERTA AOS CANDIDATOS À PREFEITURA DE FORTALEZA

Fortaleza, 13 de outubro de 2020

Senhor Candidato,

O Observatório de Políticas Públicas – OPP (www.opp.ufc.br) tem a honra de contar com a presença de V. Sa. nos eventos intitulados “PROPOSTAS PARA FORTALEZA: DIÁLOGOS COM CANDIDATOS À PREFEITURA”, a começar no dia 13 de outubro de 2020 por meio de lives no YouTube, no endereço @ObservatórioDePoliticasPúblicas.

Consideramos os Eventos um momento ímpar em que os candidatos poderão apresentar suas propostas para mitigar os sérios problemas que afligem a maioria expressiva da população de Fortaleza. Apesar de ser a quinta capital do País em população, Fortaleza apresenta sérios problemas e vulnerabilidades que afetam as condições de vida de seus habitantes.

No que se relaciona ao Mercado de Trabalho, as estatísticas, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) realizada pelo IBGE no primeiro trimestre de 2020, mostram que há 1,4 milhões de trabalhadores em Fortaleza e 11,8% (169 mil) estão desocupados. No primeiro trimestre de 2019 a taxa de desocupação era de 10,8% e no último trimestre de 2019 era de 10,1%.

Quanto aos problemas relacionados à Saúde, a administração terá o desafio de lidar não só com os problemas rotineiros da falta de médicos, remédios, leitos, problemas no atendimento emergencial etc., como também, com o cenário de pandemia e suas consequências em todos os setores. A garantia de recursos, investimentos, expansão e intransigência na melhoria da qualidade da prestação de serviços de saúde que atenda os princípios basilares de Universalidade, Equidade, e Integralidade, para assegurar o acesso incondicional de todos aos serviços de saúde, preventivos e curativos em todos os níveis de complexidade, e que seja capaz de reduzir as iniquidades sociais e econômicas, priorizando os mais afetados pelos condicionantes sociais da saúde, como os pobres, que residem nas periferias, em favelas e assentamentos precários, sem saneamento básico.

Já a Educação Pública é uma dimensão que requer atenção especial e uma das mais essenciais para o progresso de uma sociedade. Investir na primeira Etapa da Educação Básica, isto é, na Educação Infantil, é um desafio a ser priorizado. Implantar políticas que superem a questão da qualidade da educação e dos cuidados para o Ensino Fundamental é outra problemática a ser perseguida urgentemente. Garantir o valor do orçamento necessário para a Educação do município é outra questão urgente. Sabe-se que as condições de acessibilidade, de infraestrutura, remuneração e formação da(os) profissionais precisam urgentemente ser melhoradas. Assim, é preciso que os candidatos aos governos municipais se comprometam a colocar a primeira infância na agenda prioritária! Repensar políticas que reflitam um projeto político-pedagógico integrador de conhecimentos científicos e culturais, que ofereçam perspectivas de futuro para a juventude.

Com respeito à Segurança, segundo relatórios da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS/CE) o índice de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs) – soma de crimes de homicídio doloso, feminicídio, lesão corporal seguida de morte e latrocínio – para o Ceará, após uma queda no total de pouco mais de 50% de 2018 para 2019 (4518 para 2257) teve um aumento em 2020, de 88,3%, considerando o mesmo período do ano passado. O total de CVLIs no estado em agosto de 2019 era de 1488 e em agosto de 2020 era de 2802, número que também já é maior que o total do ano passado inteiro. Em Fortaleza até agosto de 2020 houve 875 CVLIs, em 2019 esse número era 451 indicando um crescimento de 94%.

No que concerne ao Transporte Público, mesmo com as mudanças implementadas nos últimos anos, ainda persistem problemas profundos e estruturais que precisam ser urgentemente equacionados. A frota ainda é insuficiente para atender a demanda de maneira digna, os engarrafamentos são constantes e os acidentes, em particular de motos, são alarmantes e pressionam os serviços de saúde e de recuperação.

Sobre a problemática Urbana e ambiental, é evidente que a expansão de Fortaleza continua sendo influenciada pela especulação imobiliária e, claramente, reproduz-se um modelo em que a economia é mais importante do que a sociedade. As reais necessidades das pessoas, em termos de saúde, educação, mobilidade e moradia são secundárias diante do modelo de desenvolvimento adotado no Brasil, cuja expressão simbólica é o automóvel. Acessibilidade, que em especial atenda a pessoas com deficiência deve ser prioridade, assim como a preservação e criação de praças e parques que possibilitem lazer e convivialidade.

A especulação imobiliária também agride sem piedade as poucas áreas verdes da cidade e o que resta de suas dunas originárias. Uma cidade nua de vegetação é uma cidade sem pulmão; uma cidade com suas dunas impermeabilizadas tem sua função “renal” comprometida. É preciso mais rigor para conter o desmatamento, uma política pública de arborização generalizada e que evite definitivamente a destruição das dunas, evidenciada pela recente polêmica compreendendo a localidade da Sabiaguaba.

É possível enfrentar esses desafios a partir do lugar onde moram as pessoas? Que estratégias de curto, médio e longo prazo a Prefeitura pode adotar a fim de reduzir a enorme dívida ecológica e social historicamente acumulada, que afeta a maior parte da população de Fortaleza? Como então reverter a lógica perversa que colabora para o aumento das desigualdades e para as diversas formas de violência que, diretamente ou indiretamente, não distinguem nenhum habitante de nossa capital?

A cidade sempre cria expectativas de que a nova gestão traga horizontes alvissareiros para sua população. O Observatório de Políticas Públicas – OPP/UFC aguçará seu olhar de avaliador externo, atento ao cumprimento e desdobramentos das propostas de campanha. Com isso, esperamos contribuir com estudos e instrumentos capazes de aperfeiçoar o controle social das ações governamentais, tendo sempre em vista a efetividade social das políticas públicas e o uso mais eficiente dos recursos públicos.

Na expectativa de termos um espaço público e democrático para um profícuo debate, antecipamos nossas cordiais saudações universitárias.

Atenciosamente,
Observatório de Políticas Públicas

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‘Geração digital’: por que, pela 1ª vez, filhos têm QI inferior ao dos pais

Publicado originalmente na BBC NEWS

Por: Irene Hernández Velasco

Vários estudos têm mostrado que, quando o uso de televisão ou videogame aumenta, o QI diminui, afirma o neurocientista Michel Desmurget

A Fábrica de Cretinos Digitais. Este é o título do último livro do neurocientista francês Michel Desmurget, diretor de pesquisa do Instituto Nacional de Saúde da França, em que apresenta, com dados concretos e de forma conclusiva, como os dispositivos digitais estão afetando seriamente — e para o mal — o desenvolvimento neural de crianças e jovens.

“Simplesmente não há desculpa para o que estamos fazendo com nossos filhos e como estamos colocando em risco seu futuro e desenvolvimento”, alerta o especialista em entrevista à BBC News Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC.

As evidências são palpáveis: já há um tempo que o testes de QI têm apontado que as novas gerações são menos inteligentes que anteriores.

Desmurget acumula vasta publicação científica e já passou por centros de pesquisa renomados como o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e a Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos.

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MEMÓRIAS DE QUARENTENA 69 – Soberania, Segurança Alimentar e Nutricional no cenário das Crises

Por: Elza Franco Braga (*)

Dados do Relatório (2019), da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) demonstram que a subnutrição no mundo voltou a crescer, após algumas décadas em declínio. Atualmente, mais de 820 milhões de pessoas não têm acesso à alimentação digna e adequada. No Brasil, mais de 52 milhões de pessoas vivem com renda mensal de até R$ 420,00 e 13,5 milhões sobrevivem com até R$ 145,00 mensais. Segundo a FAO, menos de 5,0% de população brasileira vive, hoje, em situação de extrema pobreza. Ou seja, o país retorna ao Mapa da Fome, do qual havia saído em 2014.

Na dinâmica conjuntural no cenário do país, vale destacar: desaceleração da atividade econômica, aumento do desemprego, precarização do trabalho; reajuste do salário mínimo abaixo da inflação e extinção ou redução gradativa das políticas sociais. Tal redução vem se acentuando, sobretudo, após a aprovação da Emenda Constitucional (EC) 95/2016, que estabeleceu o chamado “teto de gastos públicos” por 20 anos, afrontando princípios da Constituição de 1988, os quais preconizam a intervenção do Estado para assegurar os direitos, diante da extrema desigualdade social.

A partir de 2016, com o golpe jurídico, parlamentar e midiático que destituiu Dilma Rousseff do cargo de presidenta da República, constatam-se inúmeros retrocessos que tiram do Estado brasileiro a capacidade de exercer sua função de proteção social no combate à fome e garantir sistemas sustentáveis de produção e consumo de alimentos nutricionalmente adequados. As políticas voltadas para a agricultura familiar foram desmontadas.

A extinção do Conselho Nacional de Segurança Alimentar (CONSEA) pelo governo Bolsonaro, no seu 1º dia de mandato, através de uma Medida Provisória, assinala a intensificação do desmonte das políticas sociais. Criado em 2003 e regulamentado através da Lei nº 11.346, de 15 de setembro de 2006, o CONSEA tinha como objetivo assessorar a Presidência da República. Integrava o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sisan), como parte de uma estrutura intersetorial responsável pela implementação da Política Nacional de Segurança Alimentar. A agenda do CONSEA envolvia, dentre outros, os seguintes temas: combate à fome; agricultura familiar; controle de agrotóxicos; merenda escolar. São temáticas que visavam assegurar o Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA). O CONSEA era vinculado ao Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS).

Incontáveis organizações e entidades da sociedade civil reagiram à extinção do CONSEA e, apesar de alguns recuos do Executivo, ela foi consumada na sessão no Congresso Nacional, em 24 de setembro de 2019.

As reações contrárias foram veiculadas, sobretudo, através da mídia alternativa e das redes sociais. Assim, manifestavam-se entidades e organizações brasileiras e do exterior, expressando indignação e reconhecendo o valoroso trabalho do CONSEA. O Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional teve um papel de destaque, mobilizando os conselheiros e entidades.

Dos muitos documentos e notas de apoio, destacamos alguns trechos: “o formato de participação social adotado pelo Brasil na área de segurança alimentar e nutricional tem sido exemplo para inúmeros países” (FBSSAN); “(…) com a extinção do CONSEA fica automaticamente fechado o principal canal de diálogo, compartilhamento de experiências e vocalização de demandas concretas relacionadas ao tema” (Associação Brasileira de Saúde Coletiva); “A arbitrária decisão põe em sério risco o trabalho e os significativos avanços que vinham sendo construídos” (Ações Internacionais de Combate à Fome CGFOME); “(…) extinguir o CONSEA é condenar os mais pobres, sobretudo do Semiárido, da região Norte e das periferias das cidades, à miséria e à fome” (ASA); “É no CONSEA que vem ocorrendo de maneira legítima e institucional o diálogo entre a sociedade civil e governo para a formulação de políticas públicas para a garantia de uma alimentação saudável para toda a população” (FIAN-Organização pelo Direito Humano à Alimentação e à Nutrição Adequadas).

Em meio à gravíssima pandemia da Covid-19, e sem que se possa visualizar seu fim, a crise social e política se aprofundam, diante da incapacidade do governo de dialogar com os setores sociais e de desenvolver ações articuladas e estrategicamente esboçadas num plano de desenvolvimento com metas de curto e médio prazos.

O governo federal tem agido deliberadamente, e de forma avassaladora, em direção à destruição. A passos largos, destrói o meio ambiente; incentiva a invasão de territórios indígenas e o ataque ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST); autoriza a liberação de agrotóxicos, chegando a 474, somente em 2019. Recentemente (setembro/2020), envidou esforços, através do Ministério da Agricultura e Abastecimento (MAPA) para alterar o Guia Alimentar, uma diretriz oficial do governo brasileiro, publicado pelo Ministério da Saúde, com o objetivo de orientar as pessoas para uma alimentação saudável. Para tanto, utilizou argumentos falaciosos, visando atender às pressões e interesses de setores da indústria de alimentos, negando evidências científicas sobre os danos à saúde, causados pelo aumento do consumo de alimentos ultraprocessados e, também, os impactos ambientais que o consumo excessivo de carnes acarreta.

A tentativa de modificar o citado Guia foi barrada, graças a mobilizações da sociedade civil, em âmbito nacional, somadas a um Memorando assinado por cientistas de universidades dos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, África do Sul e de outros países, enviado para o Ministério da Agricultura.

Portanto, é necessário que se intensifiquem os processos de mobilização e a ampla discussão das temáticas previstas para a 6ª Conferência Nacional de Segurança Alimentar, que não aconteceu. Diante disso, o FBSSAN, em reunião em agosto de 2019, deliberou realizar a 1ª Conferência Nacional, Autônoma, Democrática e Popular em defesa da SSAN, definida naquela data para agosto de 2020, no Maranhão.

No entanto, com a pandemia, a comissão organizadora da referida Conferência publicou, em 24/03/2020, o documento Recomendações sobre o direito humano à alimentação no contexto da Covid-19, assinado por mais de 150 instituições. Em face da impossibilidade de realizar a Conferência Popular nos moldes previstos, deliberou-se por uma “conferência contínua, como processo ativo e permanente de participação social”. Neste sentido, várias ações e atividades, preponderantemente online, estão em curso, congregando Conseas municipais e estaduais, além de movimentos e organizações sociais, fortalecendo o processo organizativo e desenhando alternativas e saídas cuja centralidade é a vida e a dignidade humana.

(*) Elza Franco Braga – Socióloga, profª aposentada da UFC, ex-presidente do Consea Estadual.,ex-conselheira do Consea Nacional e integrante do Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (FCSSAN) e Fórum Cearense de Soberania e Segurança Alimentar e Nutriciona).

Informe Epidemiológico da Semana Epidemiológica 44 (SE44)

Veja a atualização da situação epidemiológica da COVID-19 em Fortaleza, baseada no Informe Epidemiológico da Semana Epidemiológica 44 (SE44).

O “pico” de casos confirmados desse ciclo epidêmico ocorreu na transição entre os meses de abril e maio (intervalo de aproximadamente vinte dias), quando a média móvel sempre esteve acima de 600 casos.
A média móvel estimada hoje (59,7 casos) é inferior (41% de redução) à registrada duas semanas atrás e, aproximadamente, 94% menor do que a mensurada no ápice da série temporal (948,7 casos).

O intervalo de maior mortalidade deste ciclo epidêmico, se considerarmos a média móvel, compreende um período de aproximadamente duas semanas (9/05-22/05), quando a média sempre esteve acima de 80 mortes.

A média móvel de óbitos dos últimos sete dias (0,7) apresenta uma redução de 30% em comparação à mensurada quatorze dias atrás (1,0). No entanto, na fase em que o município se encontra, de limitada transmissão viral, mínimas alterações no número de mortes mudam a média móvel desproporcionalmente. Até o momento, não foram registradas mortes nos dias 12 e 30 de agosto; 20, 24 e 28 de setembro; e 3, 8, 9,11, 13, 15, 16, 27, 28, 29, 30 de outubro.

Esta análise já pode capturar parcialmente eventuais efeitos da Fase de Transição (01-07 de junho), da Fase 1 (08-21 de junho), da Fase 2 (22 junho-5 julho), da Fase 3 (6 de julho-19 julho) e das doze primeiras semanas da Fase 4 (20 de julho-18 outubro) do Protocolo de Flexibilização das Atividades proposto pelo Governo do Estado e Prefeitura Municipal de Fortaleza.

Algumas observações:

1. A proporção de positividade das amostras (RT-PCR) de residentes de Fortaleza analisadas pelos laboratórios que apoiam a rede pública (LACEN-CE; FIOCRUZ; UNIFOR; HEMOCE) permaneceu estável em 13,2%, entre os dias 23 e 30 de outubro de 2020. Isto indica circulação viral ainda relevante, que se reflete no incremento de casos.

2. Há um “descolamento” entre a média móvel de casos e de óbitos. Em outras palavras, o aumento de casos identificado a partir do início de outubro não se refletiu ainda sobre a curva de mortalidade. A média móvel de óbitos continua excepcionalmente baixa esta semana.

3. Georreferenciando os casos, identificamos que os aglomerados (clusters) de novos casos concentram-se majoritariamente em bairros de maior IDH da Regional 2 A faixa etária predominante dos pacientes é de 20-39 anos. Não encontramos qualquer relação com a abertura das escolas.

4. O incremento de casos de jovens moradores de áreas ricas da cidade pode ter sido associado, em alguma medida, aos chamados eventos “superdisseminadores” (superspreaders), como tem sido relatado em outros países. São surtos que se iniciam em aglomerações onde há limitado uso da máscara e muitas pessoas ocupando espaços privados ou públicos, quase sempre com pouca circulação de ar.

5. Eventos eleitorais com possibilidade de grande aglomeração de pessoas também causa preocupação nesse momento.

6. Houve um incremento da transmissão detectado, principalmente, na segunda semana de outubro. A ampliação da testagem molecular (RT-PCR) direcionada a grupos específicos e sintomáticos e a realização de inquéritos soroepidemiológicos são essenciais para o monitoramento oportuno de micro-surtos que que estão ocorrendo em áreas específicas da cidade. O impacto assistencial do referido aumento de casos ainda se restringe pelas razões expostas, principalmente, aos serviços de saúde suplementar.

MEMÓRIAS DE QUARENTENA 62: DOS SONHOS SEQUESTRADOS AO DIREITO DE SONHAR

Publicado originalmente no site da ADUFC-SINDICATO

Caio Monteiro (Professor, Psicoterapeuta e Colecionador de Palavras)

Cotidianamente aguardo pessoas. Pessoas que abrem e fecham a mesma porta. Elas vêm e vão, trazendo e levando consigo suas versões de si mesmas e suas histórias que, generosamente, chegam até a mim. 

Partilho do privilégio de testemunhar as esquinas de suas vidas através de palavras que, feito tripulantes e navegadores, conduzem os barcos da existência e assim permitem algum encontro entre as tensões que circulam os nossos corpos. 

Corpos feito fronteiras e margens que nos conectam e nos separam neste oceano de mistério que compõe a nossa distância, apenas amenizada pela escuta atenta, que se dá como a antiga observação dos astros que, por sua vez, permitiram alguma orientação e destino. 

O oceano, sempre misterioso, iludiu-me com a falsa sensação de continuidade que me habituou a navegar em calmaria diante do meu porto-consultório, em conformidade com a minha antiga bússola psicológica, até que as águas agitadas da pandemia, tal qual uma tempestade, transformou profundamente as marés.

Foi preciso mudar de porto e as navegações fizeram-se por outras águas, outros estreitos, outras margens, outras palavras, outras naves. As ilhas tornaram-se mais distantes, as embarcações precisaram de outros guias e orientações.

Além da antiga e indispensável bússola, a tecnologia dos computadores teve que ser incorporada neste momento, inescapavelmente.  Contudo e apesar de tudo, não foram tão somente as marés que se modificaram. Enfrentar o mar revolto muda de maneira profunda barcos e marinheiros. Do meu porto-consultório, ouvindo as palavras-tripulantes, quase já não escutava sobre sonhos-oníricos e muito pouco sobre sonhos-aspirações.

Talvez, o mundo em que vivíamos já proibisse, inclusive, a respiração como um direito democrático. Os sonhos foram expulsos, apagados, ou aprisionados nos porões dos barcos da existência e já não se faziam comumente presentes nas navegações hodiernas.

Quando muito, tanto quanto as sereias eram seres mitológicos dos quais não se via mas se ouvia falar. Com a mudança das marés os sonhos libertaram-se dos porões, resgataram-se, voltaram a ocupar a proa dos barcos e, agora, já passamos a ouvir o canto das sereias.  Não mais estando, fisicamente, no meu porto seguro e agora também embarcado ao sabor das marés, penso sobre os sonhos e me ponho a perguntar: O que aconteceu com os sonhos? Por que haviam sumido? Por que retornam agora? Navegando, ajustando as velas, me dou conta de que há muito eu também já não sonhava.

Era como se existisse uma espécie de apagamento, uma cortina ou véu que se colocava na hora de dormir. Não me recordava dos meus sonhos e, muitas vezes, depois das pesadas rotina de trabalho que me absorvia na impessoalidade marcante dos nossos tempos, eu negociava horas de sono em troca de algum espaço, ainda que mínimo, e destacadamente atravessado de privilégios que me permitiam algumas gotas de liberdade.

Todos os dias acostumaram-me a fazer as mesmas coisas e, quando distante do meu porto-consultório, olhava sem ver, ouvia sem escutar, falava sem dizer, tocava sem sentir e no final de cada dia eu me punha a contrabandear algumas migalhas e pequenos fragmentos de escolha à custa de horas de sono. Dei-me conta de que máquinas não sonham, os sonhos são instituições existenciais.

Os mares revoltos e trágicos da pandemia mudaram as correntes e fizeram aparecer toda sorte de sofrimentos, mas sub-repticiamente também fizeram aparecer um futuro que não está dado como uma continuidade eterna de um presente que nos transformou em máquinas, em engenhos de moer sonhos, absorvendo a nós mesmos como recursos das engrenagens deste mundo.

Um mundo que parece ter nos destinado a pastilhas para dormir e pastilhas para acordar, este mundo já não precisa mais identificar sonhos perigosos para a ordem injusta e de sofrimento da maioria.

A ordem criminosa do mundo já havia, paulatinamente, sequestrado nossos sonhos-oníricos e nossos sonhos-aspirações. É preciso reivindicar o não conclamado direito de sonhar.

Postado Por: Das Chagas Martins

Postado em: 29/10/2020

UMA HOMENAGEM DO OBSERVATÓRIO DE POLÍTICAS PÚBLICAS

28 de Outubro – Dia do Servidor Público

O Dia do Servidor Público é comemorado no dia 28 de outubro. A data está regulamentada na Lei Nº 8.112/90, mas surgiu através do Conselho Federal do Serviço Público Civil, considerando a criação das leis que regem os direitos e deveres dos servidores públicos (Decreto-Lei Nº 1.713, de 28 de outubro de 1939).

O funcionalismo público é importante na prestação de serviços à população ligados à saúde, à segurança pública e educação, por exemplo. Todos os cidadãos têm direitos a esses serviços, que são para o benefício de todos. Nesse sentido, além da prestação de serviços de interesse público, os servidores garantem a manutenção administrativa, de patrimônio material público, como praças e ruas.

A Constituição de 1988, marcou um momento histórico de início de avanço social fundamentado pelo princípio da igualdade de oportunidades e equidade de direitos que todo cidadão dever ter, que, por meio do art. 37, parágrafos I e II, foi estabelecida a obrigatoriedade do concurso como meio de ingresso na carreira pública.

Art. 37. A administração pública direta, indireta ou fundacional, de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência, e também, ao seguinte:

I – Os cargos, empregos e funções públicas são acessíveis aos brasileiros que preencham os requisitos estabelecidos em lei;

II – A investidura em cargo ou emprego público depende de aprovação prévia em concurso público de provas ou de provas e títulos, ressalvadas as nomeações para cargo em comissão declarado em lei de livre nomeação e exoneração. (BRASIL, CF/88.1999, p.40).

Assim, o que se observa é um esforço de melhora dos serviços prestados, por meio da profissionalização e do mérito para garantir a efetividade das políticas públicas prestadas pelo Estado e profissionais que fomentem o cuidado com o bem público.

Link da matéria fonte: aqui

MEMÓRIAS DE QUARENTENA 63: A ARTE E A QUARENTENA

Publicado originalmente no site da ADUFC-SINDICATO

Sandra Montenegro de Holanda (Psicóloga e Artista Plástica)

Tempos estranhos os que estamos vivendo. Já passei por vários momentos nesses sete meses: de Poliana (super otimista) a personagens de Machado de Assis (realistas tendendo ao pessimismo). Inicialmente, o susto, o medo, a insegurança e revolta, agravados por um governo totalmente perverso, equivocado e irresponsável. Vou compartilhar aqui com vocês.

Sou servidora pública aposentada e artista plástica em atividade. Nessa quarentena, algo que mais me assustou foi o tempo. Ficar reclusa com um tempo enorme diante de mim, me paralisou. Inicialmente, fiquei totalmente travada, imersa num deserto criativo. Não conseguia produzir nada. Com tanto tempo, o quê fazer com ele? Todo o planejamento do ano foi suspenso e sem prazo determinado para ser retomado. Isso gerou em mim muita insegurança e angústia. Ler, nem pensar. Não conseguia me concentrar. Virei uma exímia dona de casa. Lavar louça, varrer a casa. Cozinhar era com o marido, excelente cozinheiro. Cuidar do jardim, faxinar a casa, lavar roupa, tudo sem maiores problemas. Ajudava a passar o tempo. A quarentena só não me fez gostar de passar roupa. Desenvolvi até estratégias, roupas só pretas, ou azul marinho e brancas, para facilitar as lavagens na máquina.

Aos poucos, fui criando uma rotina, que ajudou também a me organizar psiquicamente: café da manhã (às vezes era a tarde), yoga pelo Youtube, banho de sol na garagem, tarefas de casa, almoço (as vezes era jantar), filmes e séries e dormir (muitas vezes às 3 da manhã). Havia dias que a rotina ia para o espaço, mas tentava não me cobrar muito, sendo mais generosa comigo mesma. Grata por ter uma casa, meu companheiro do lado, uma condição financeira confortável etc – estava na fase da Poliana. Continuava, no entanto, me sentindo culpada por não estar produzindo, fazendo arte. Aos poucos com a ajuda dos movimentos artísticos nas redes sociais, fui produzindo, participando de vários desafios e exposições virtuais. Reuniões com amigos e colegas artistas pelas ferramentas Zoom, Google Meet, WhatsApp, fui me adaptando ao mundo virtual. Abriu-se a caixa de pandora. Minhas sessões de análise online também ocorreram e foram de grande ajuda.

Um estímulo visual pode desencadear meu processo criativo, uma paisagem, uma cena urbana, uma fotografia, mas necessito que este me toque mais profundamente. Ficar em casa isolada foi ficando prazeroso, descobri tanto espaço e momentos legais, apreciei muito a casa. Cada cantinho falava mais internamente comigo e uma produção começou a surgir. Trabalhei e ainda estou trabalhando numa série de obras que chamei: “Tudo de casa”: “A Louca da Casa”, “A Louça da Casa”, “A Roupa da Casa”, “O Gato da Casa”, “A Meditação da Casa” e tenho outros registros que ainda não executei. Posso dizer que a arte foi fundamental para o meu equilíbrio emocional nessa quarentena.

Incluo aqui não só as artes plásticas, mas o cinema e a música. Quantos filmes e séries me preencheram o tempo e a alma, quantas músicas escutei na minha varanda, quantos shows maravilhosos assisti… A arte se transformou na nossa voz nessa pandemia, diante de tanta falta de lucidez.

Uma coisa é certa: não há como ficar “normal” diante de uma situação tão desconhecida e perturbadora como esse vírus que atingiu a todos. Aprendi que planos são factíveis de alterações, que tudo se acomoda no seu tempo, que ser generoso um com os outros faz um bem danado. Aprendi a cuidar de mim mesma. Isso é tão libertador, nos fornece tanta autonomia. Não acredito em mudanças coletivas, que a sociedade agora vai ser diferente, que aprendeu algo com essa pandemia (minha fase Machado de Assis). Acredito que algumas pessoas vão sair diferentes sim, e essas talvez possam fazer a diferença futuramente. Talvez pareça contraditório o que acabei de dizer, mas a vida é assim cheia de contradições.

Façamos nossa paleta com cores variadas. Dessa forma, pintaremos a vida, nossa obra de arte.

Postado Por : Das Chagas Martins

Postado em: 29/10/2020

EVENTO ADIADO | PROPOSTAS PARA FORTALEZA: DIÁLOGOS COM OS CANDIDATOS À PREFEITURA

COMUNICADO

Por motivos superiores, os candidatos solicitaram o adiamento deste evento.

Portanto, remarcamos a data do encontro para o dia 05/11 (terça feira), às 17h, no canal do Youtube do Observatório de Políticas Públicas

Link do canal: Observatório de Políticas Públicas

SOBRE O EVENTO

O Observatório de Políticas Públicas-OPP, da Universidade Federal do Ceará, com o apoio do Sindicato dos Docentes das Universidades Federais do Estado do Ceará (ADUFC), promove este ciclo de encontros intitulado “PROPOSTAS PARA FORTALEZA: DIÁLOGOS COM OS CANDIDATOS À PREFEITURA”, de forma remota, por meio do Youtube, no endereço eletrônico @observatórioDePolíticasPúblicas, sempre às 17h.

Vale informar que foram enviados convites a todos os candidatos, cujos eventos foram organizados conforme a presteza na aceitação dos pleiteantes. Assim, considerando a proximidade das eleições e as agendas dos candidatos, decidiu-se realizar esta rodada de apresentações, as quais não se constituirão em debates entre os candidatos e sim em exposição de suas propostas e considerações. A previsão é de 30 minutos para cada pleiteante, seguida de discussão a partir de perguntas postadas pelo público presente.

Isso se reveste da maior importância, considerando que se trata do futuro da quinta capital do país em população, a qual apresenta grandes problemas e vulnerabilidades, mas também muitas e significativas potencialidades capazes de proporcionar melhores condições de vida para seus habitantes.

Dessa forma, acreditamos que as considerações sobre os problemas que mais afligem nossa Capital e as principais políticas para superá-los ou minimizá-los, bem como as estratégias a serem implementadas, certamente possibilitarão a todos nós, cidadãos e eleitores, elementos para uma escolha mais consistente do futuro gestor de Fortaleza. Nesse sentido, a Universidade Federal do Ceará e, em particular, o Observatório de Políticas Públicas e a Adufc, cumprem o papel precípuo de promoção da democracia por meio do debate e da transparência nas ações governamentais.

E será com prazer, que teremos neste quarto encontro a presença dos candidatos Heitor Férrer (SD) e Luizianne Lins (PT).

Também estarão presentes:

Prof. Felipe Braga (mediador) – Doutor e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR). Professor Adjunto da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará (UFC). Membro do Instituto Latino Americano de Estudos sobre Direito, Política e Democracia (ILAEDPD) e membro do Núcleo de Saúde do Observatório de Políticas Públicas (OPP).

Cibele Lourenço (cerimonialista) – Bolsista do OPP e estudante de Gestão de Políticas Públicas.

Margarida Pimentel e Cris Farias (tradutoras-intérpretes) – Atuam em parceria nas traduções das atividades da ADUFC.

Então não perca: dia 05/11 (terça feira), às 17h, no canal do Youtube do Observatório de Políticas Públicas

Divulgue e participe!

O emotivo adeus de José Mujica à política: “Triunfar na vida não é ganhar, é se levantar e começar de novo”

O ex-presidente do Uruguai se aposenta aos 85 anos ressaltando a defesa de seus princípios

O ex-presidente do Uruguai, José Mujica, apresentou na terça-feira, aos 85 anos, sua renúncia definitiva ao Senado do país com um discurso de nove minutos, com o qual também se despediu da política: “Na vida, há um tempo para chegar e um tempo para se despedir”.

Mujica falou sobre a necessidade de evitar o ódio e sobre as lições das derrotas. “Triunfar na vida não é ganhar, é se levantar e começar de novo cada vez que cai”. Agradeceu aos elogios de outros companheiros da Câmara e explicou como a crise do novo coronavírus afetou sua decisão. “A pandemia está me mandando embora. Ser senador significa falar com as pessoas e andar para todos os lados. O jogo não é jogado nos escritórios e estou ameaçado por todos os lados, por dupla circunstância: pela velhice e por enfermidade imunológica crônica”, argumentou.

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O SUS em perigo

Orçamento menor previsto para a Saúde pode levar sistema ao colapso em 2021.

Matéria Públicada Originalmente no site O Estado de São Paulo

A pandemia de covid-19 realçou de forma dramática a importância do Sistema Único de Saúde (SUS). Basta dizer que o SUS é o único refúgio para 7 em cada 10 pessoas que precisam de atendimento médico no Brasil. Não fosse a rede de atendimento do SUS em todo o País, a maior tragédia sanitária que se abateu sobre nós em mais de um século seguramente teria uma dimensão ainda mais soturna do que a registrada até o momento. Já são 5,3 milhões de casos confirmados de covid-19 e mais de 154 mil mortos.

Entre o fim de julho e o início de agosto, no período mais difícil da evolução da pandemia no Brasil, o Estado publicou uma série de editoriais que não apenas abordavam o papel central desempenhado pelo sistema público de saúde no socorro aos doentes, como também os grandes desafios impostos ao SUS pelo novo coronavírus, além, é claro, das deficiências crônicas do sistema, como a desatualização da tabela de procedimentos e a falta de investimentos. Em suma, avizinha-se uma tempestade perfeita que poderá levar o SUS ao colapso em 2021 se nada for feito para reverter essa nefasta tendência.

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INFORME SEMANAL ARBOVIROSES (43° SEMANA)

Veja a atualização da situação epidemiológica da COVID-19 em Fortaleza, baseada no Informe Epidemiológico da Semana Epidemiológica 43 (SE43)

O “pico” de casos confirmados desse ciclo epidêmico ocorreu na transição entre os meses de abril e maio (intervalo de aproximadamente vinte dias), quando a média móvel sempre esteve acima de 600 casos.

A média móvel estimada hoje (59,1 casos) é superior (38% de aumento) à registrada duas semanas atrás e, aproximadamente, 94% menor do que a mensurada no ápice da série temporal (952,4 casos).

O intervalo de maior mortalidade deste ciclo epidêmico, se considerarmos a média móvel, compreende um período de aproximadamente duas semanas (9/05-22/05), quando a média sempre esteve acima de 80 mortes.

A média móvel de óbitos dos últimos sete dias (1,3) apresenta um aumento de 86% em comparação à mensurada quatorze dias atrás (0,7). No entanto, na fase em que o município se encontra, de baixa mortalidade, mínimas alterações no número de mortes alteram a média móvel desproporcionalmente. Até o momento, não foram registradas mortes nos dias 12 e 30 de agosto; 20, 24 e 28 de setembro; e 3, 8, 9, 11, 15, 16, 20 e 24 de outubro.

Esta análise já poderia capturar parcialmente eventuais efeitos da Fase de Transição (01-07 de junho), da Fase 1 (08-21 de junho), da Fase 2 (22 junho-5 julho), da Fase 3 (6 de julho-19 julho) e das onze primeiras semanas da Fase 4 (20 de julho-11 outubro) do Protocolo de Flexibilização das Atividades proposto pelo Governo do Estado e Prefeitura Municipal de Fortaleza.

Algumas observações:

1. Houve novo incremento da proporção de positividade das amostras (RT-PCR) de residentes de Fortaleza analisadas pelo LACEN-CE, alcançando 13,2% entre os dias 16 e 22 de outubro de 2020. Isto indica maior circulação viral, que se refletiu no aumento da média móvel de casos. Por enquanto, não há repercussão sobre a mortalidade. A média móvel de óbitos continua baixa esta semana.
2. Georreferenciando os dados, identificamos que os aglomerados (clusters) de novos casos concentram-se majoritariamente em bairros de maior IDH da Regional 2 (Meireles/Aldeota/Mucuripe/Cocó). A faixa etária predominante dos pacientes é de 20-39 anos. Não encontramos qualquer relação com a abertura das escolas.
3. Provavelmente, o incremento de casos de jovens moradores de áreas ricas da cidade está associado, em alguma medida, aos chamados eventos “superdisseminadores” ou “superespalhadores” (superspreaders), como tem sido relatado em outros países. Normalmente, são aglomerações onde há limitado uso da máscara e muitas pessoas ocupando espaços privados ou públicos, quase sempre com pouca circulação de ar (exemplo: casamentos, festas privadas, shows musicais, eventos religiosos, cerimônias de posse, etc).
4. Eventos eleitorais com possibilidade de grande aglomeração de pessoas também causa preocupação nesse momento.
5. A ampliação da testagem molecular (RT-PCR) direcionada a grupos específicos e sintomáticos e a realização de inquéritos soroepidemiológicos são essenciais para o monitoramento oportuno de micro-surtos que que estão ocorrendo em áreas específicas da cidade. O impacto assistencial do referido aumento de casos ainda se restringe pelas razões expostas, principalmente, aos serviços de saúde suplementar.

PROPOSTAS PARA FORTALEZA: DIÁLOGOS COM OS CANDIDATOS À PREFEITURA

ELEIÇÕES PARA PREFEITURA DE FORTALEZA, 2020

O Observatório de Políticas Públicas-OPP, da Universidade Federal do Ceará, com o apoio do Sindicato dos Docentes das Universidades Federais do Estado do Ceará (ADUFC), promove este ciclo de encontros intitulado “PROPOSTAS PARA FORTALEZA: DIÁLOGOS COM OS CANDIDATOS À PREFEITURA”, de forma remota, por meio do Youtube, no endereço eletrônico @observatórioDePolíticasPúblicas, sempre às 17h.

Vale informar que foram enviados convites a todos os candidatos, cujos eventos foram organizados conforme a presteza na aceitação dos pleiteantes. Assim, considerando a proximidade das eleições e as agendas dos candidatos, decidiu-se realizar esta rodada de apresentações, as quais não se constituirão em debates entre os candidatos e sim em exposição de suas propostas e considerações. A previsão é de 30 minutos para cada pleiteante, seguida de discussão a partir de perguntas postadas pelo público presente.

Isso se reveste da maior importância, considerando que se trata do futuro da quinta capital do país em população, a qual apresenta grandes problemas e vulnerabilidades, mas também muitas e significativas potencialidades capazes de proporcionar melhores condições de vida para seus habitantes.

Dessa forma, acreditamos que as considerações sobre os problemas que mais afligem nossa Capital e as principais políticas para superá-los ou minimizá-los, bem como as estratégias a serem implementadas, certamente possibilitarão a todos nós, cidadãos e eleitores, elementos para uma escolha mais consistente do futuro gestor de Fortaleza. Nesse sentido, a Universidade Federal do Ceará e, em particular, o Observatório de Políticas Públicas e a Adufc, cumprem o papel precípuo de promoção da democracia por meio do debate e da transparência nas ações governamentais.

E será com prazer, que teremos neste segundo* encontro a presença dos candidatos Paula Colares (UP) e Samuel Braga (Patriota).

Também estarão presentes:

Prof. Rafael Silva (mediador) – Professor da Universidade Federal do Ceará; doutorando em Sociologia pela Universidade de Coimbra e colaborador do Observatório de Políticas Públicas da UFC.

Ana Larissa (cerimonialista) – Bolsista do OPP e estudante de Economia na UFC.

Margarida Pimentel e Cris Farias (tradutoras-intérpretes) – Atuam em parceria nas traduções das atividades da ADUFC.

Não perca: dia 20, às 17h, no canal do Youtube do Observatório de Políticas Públicas

Link do canal para a Live: /Observatório de Políticas Públicas

Divulgue e participe!

informe semanal arboviroses (42° semana)

Veja a atualização do informe semanal arboviroses com dados registrados no Sinan até a 42ª semana epidemiológica/2020. Observa-se tendência de queda nas últimas 10 semanas: 129 casos confirmados na 33ª semana, 48 na semana 37ª e apenas 13 na 41ª. Nas últimas 5 semanas foi registrada uma média de 19,6 casos confirmados.

DENGUE – confirmados 7.585 casos (52,5% das notificações), taxa de incidência acumulada de 284,2 casos/100 mil habitantes (o monitoramento da taxa de incidência por semana epidemiológica registra um valor máximo de 14,4 casos por 100 mil habitantes na 18ª semana. O número de casos máximo esperado para essa semana seria 46,7 casos por 100 mil habitantes), sorotipo DENV1 isolado em 7 amostras e DENV2 em 14. Óbitos: 5 confirmados.

Cenário – o total de casos até a 42ª semana de 2020 é 116,8% maior que no mesmo período de 2019 (7.585/3.499). Apesar dessa superioridade a transmissão em 2020 está dentro do padrão endêmico do município. Em linhas gerais observa-se o seguinte:

  1. A distribuição dos casos por semana epidemiológica mostra dois picos, o1º na 10ª semana e o 2º na 18º (figura 1 pag. 3). Esse é um comportamento atípico no curso da transmissão da dengue. A partir da 27ª semana a tendência é de queda sustentável no número de casos;
  2. Detectados os sorotipos DENV1 em 3 bairros e o DENV2 em 6 e a co-circulação de ambos no Bairro José Walter (figura 2 pag. 4);
  3. A positividade das amostras encaminhadas ao Lacen para detecção de anticorpos IgM ascendeu de 10,7% em janeiro para 41,6% em abril; oscilou para 24,9 em maio e flexionou para 41,5 em junho. A partir de julho a tendência foi de redução na positividade. O mês de outubro registra uma positividade parcial de 23,3% (figura 3 pag. 5);
  4. O diagrama de controle (figura 5 pag 7) mostra que o número de casos por semana foi sempre inferior ao número máximo esperado, cenário típico dos anos não epidêmicos
    Conclusão: Cenário não epidêmico até a 42ª semana de 2020, com surtos localizados em agregados nos Bairros Vicente Pinzon – Cais do Porto / São João do Tauape – Alto da Balança / Barroso – Jangurussu – Conjunto Palmeiras e Curió/São Bento (mapa de calor – figura 4 pag. 6).

CHIKUNGUNYA e ZIKA – Os registros no Sinan sinalizam para cenário de baixa transmissão.

Informe Epidemiológico da Semana Epidemiológica 42 (SE42)

Acompanhe a atualização da situação epidemiológica da COVID-19 em Fortaleza, baseada no Informe Epidemiológico da Semana Epidemiológica 42 (SE42)

O “pico” de casos confirmados desse ciclo epidêmico ocorreu na transição entre os meses de abril e maio (intervalo de aproximadamente vinte dias), quando a média móvel sempre esteve acima de 600 casos.
A média móvel estimada hoje (18,3 casos) é inferior (53% de redução) à registrada duas semanas atrás e, aproximadamente, 98% menor do que a mensurada no ápice da série temporal (931,4 casos).

O intervalo de maior mortalidade deste ciclo epidêmico, se considerarmos a média móvel, compreende um período de aproximadamente duas semanas (9/05-22/05), quando a média sempre esteve acima de 80 mortes.

A média móvel de óbitos dos últimos sete dias (0,6) apresenta uma redução de 71% em comparação à mensurada quatorze dias atrás. Preliminarmente, não foram registradas mortes nos dias 12 e 30 de agosto; 20, 24 e 28 de setembro; e 3, 8, 9, 11, 13, 15 e 16 de outubro.

Esta análise já poderia capturar parcialmente eventuais efeitos da Fase de Transição (01-07 de junho), da Fase 1 (08-21 de junho), da Fase 2 (22 junho-5 julho), da Fase 3 (6 de julho-19 julho) e das dez primeiras semanas da Fase 4 (20 de julho-04 outubro) do Protocolo de Flexibilização das Atividades proposto pelo Governo do Estado e Prefeitura Municipal de Fortaleza. Desde o início de agosto a média móvel permanece estável, indicando baixa transmissão.

Houve novo incremento da proporção de positividade das amostras (RT-PCR) de residentes de Fortaleza analisadas pelo LACEN-CE, alcançando 9,2% entre os dias 8 e 15 de outubro de 2020, indicando maior circulação viral. Por enquanto, não há repercussão sobre a mortalidade. A média móvel de óbitos foi excepcionalmente baixa esta semana.

A ampliação da testagem molecular (RT-PCR) direcionada a grupos específicos e sintomáticos é essencial nessa fase para o monitoramento oportuno de surtos, que podem estar ocorrendo em áreas bem delimitadas da cidade.

Livro “Os Tremembé no Ceará: Tradição e Resistência”, de Maria Amélia Leite, será vendido na sede da ADUFC

Recém-lançado pela autora Maria Amélia Leite, o livro “Os Tremembé no Ceará: Tradição e Resistência” começa a ser vendido na ADUFC a partir de segunda-feira (19/10). A obra é uma celebração dos 90 anos da escritora, indigenista e defensora dos direitos humanos que dedicou mais da metade da vida à defesa dos povos indígenas. Ao longo de 204 páginas, Maria Amélia passeia pelos anos de experiência vivida com essa etnia.

Para a professora do ICA/UFC e diretora de atividades científicas e culturais da ADUFC, Rosa Primo, o lançamento do livro torna-se ainda mais relevante no contexto atual em que as comunidades indígenas sofrem ataques orquestrados pelo Governo Federal. “É um momento que a gente tem que estar junto e saber da história desse povo o máximo possível, não só ser solidária, mas estar junto, acolher. Pelas circunstâncias que estamos vivendo, sobretudo sobre as populações indígenas, acredito que seja urgente apoiar e ler o livro”, defende.

A publicação é uma realização da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult) e de pesquisadores indigenistas, em parceria com o Conselho Indígena Tremembé de Almofala, a Federação dos Povos e Organizações Indígenas do Ceará, a Articulação de Mulheres Indígenas do Ceará, a Organização dos Professores Indígenas do Ceará, a Comissão de Juventude Indígena do Ceará e a Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo.

Como adquirir a obra:
Secretaria da ADUFC (de segunda a sexta-feira, das 9h às 12h e das 14h às 17h)
Valor do livro: R$ 30 + R$ 20 (doação opcional que será revertida na íntegra para a autora)
(pagamento à vista)

QUERO MINHA FACULDADE DE VOLTA

Por: Geilson de Sousa Santos(*)

Públicado originalmente no site da Faced-UFC

QUERO MINHA FACULDADE DE VOLTA

Grita e chora o meu coração!

Quero minha faculdade de volta!!
Não aguento mais essa situação.

Quero ouvir e contemplar as vozes dos meus professores falando na minha frente e não por trás de uma tela de computador, pois isso afasta muito a gente.

A Faculdade de Educação só me trouxe alegria!
É minha casa e meu lar,
É minha segunda família.

Foi nesse ambiente que realizei o maior sonho da minha vida: andar sozinho na rua.

Conquistei minha autonomia e ali vivi momentos marcantes.

Jamais vou me esquecer do dia em que eu entreguei um trabalho em Braille para o professor!

Queria que virasse novela e passasse na TV.

Queria que a mídia mostrasse, o valor que tem a educação.

Que ela transforma não só a mente, mas também o coração!

Por conta da pandemia, temos que ficar em casa, mas quando isso tudo passar, valorizemos mais o professor em sala de aula!!

Como eu sinto falta:

do café da manhã na cantina;

do bate-papo com os amigos.

A gente dava tanta risada!

Por isso, a gente precisa escrever
esses momentos marcantes.

Que conosco as próximas gerações possam aprender que – por maiores que sejam as dificuldades dessa vida – vale a pena viver!

Que se a gente perseverar até o fim, com certeza, iremos vencer!!

(*) Geilson de Sousa Santos – Aluno do Curso de Pedagogia da UFC.

Conheça também o canal do YouTube do Geilson, clicando aqui: Vendo no Escuro.

[ + ] Veja mais conteúdos como esse em nosso blog: https://oppceufc.wordpress.com

PROPOSTAS PARA FORTALEZA: DIÁLOGOS COM OS CANDIDATOS À PREFEITURA

ELEIÇÕES PARA PREFEITURA DE FORTALEZA, 2020

O Observatório de Políticas Públicas-OPP, da Universidade Federal do Ceará, com o apoio do Sindicato dos Docentes das Universidades Federais do Estado do Ceará (ADUFC), promove este ciclo de encontros intitulado “PROPOSTAS PARA FORTALEZA: DIÁLOGOS COM OS CANDIDATOS À PREFEITURA”, de forma remota, por meio do Youtube, no endereço eletrônico @observatórioDePolíticasPúblicas, sempre às 17h.

Vale informar que foram enviados convites a todos os candidatos, cujos eventos foram organizados conforme a presteza na aceitação dos pleiteantes. Assim, considerando a proximidade das eleições e as agendas dos candidatos, decidiu-se realizar esta rodada de apresentações, as quais não se constituirão em debates entre os candidatos e sim em exposição de suas propostas e considerações. A previsão é de 30 minutos para cada pleiteante, seguida de discussão a partir de perguntas postadas pelo público presente.

Isso se reveste da maior importância, considerando que se trata do futuro da quinta capital do país em população, a qual apresenta grandes problemas e vulnerabilidades, mas também muitas e significativas potencialidades capazes de proporcionar melhores condições de vida para seus habitantes.

Dessa forma, acreditamos que as considerações sobre os problemas que mais afligem nossa Capital e as principais políticas para superá-los ou minimizá-los, bem como as estratégias a serem implementadas, certamente possibilitarão a todos nós, cidadãos e eleitores, elementos para uma escolha mais consistente do futuro gestor de Fortaleza. Nesse sentido, a Universidade Federal do Ceará e, em particular, o Observatório de Políticas Públicas e a Adufc, cumprem o papel precípuo de promoção da democracia por meio do debate e da transparência nas ações governamentais.

E será com prazer, que teremos neste segundo* encontro a presença dos candidatos Capitão Wagner (Pros) Anízio Melo (PCdoB).

Também estarão presentes:

Profa. Danielle Maia (mediadora) – Doutora em Sociologia, professora efetiva da Unifor e colaboradora do Programa em avaliação de políticas públicas da UFC.

Cibele Mayra (cerimonialista) – Bolsista do OPP e estudante de Gestão de Políticas Públicas.

Margarida Pimentel e Cris Farias (tradutoras-intérpretes) – Atuam em parceria nas traduções das atividades da ADUFC.

Não perca: dia 16, às 17h, no canal do Youtube do Observatório de Políticas Públicas

Link do canal para a Live: /Observatório de Políticas Públicas

Divulgue e participe!

(*) assista a reprise do primeiro encontro clicando aqui.

O ELEFANTE NEGRO

Que doenças a floresta esconde?

Por: João Moreira Salles

Públicado originalmente no jornal Piauí

“Ninguém sabe o número de vírus na Amazônia”, diz o virologista Pedro Vasconcelos. Dos conhecidos, o desmatamento nos põe diante dos dois que mais o preocupam: o Mayaro e o Oropouche CREDITO: VITO QUINTANS_2020

Em 1974 o governo brasileiro iniciou a construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí. Localizada no município paraense homônimo, a cerca de 450 km de Belém, era um projeto de Brasil Grande. A terceira maior hidrelétrica do mundo à época – e a maior 100% nacional – teria barragem com 11 km de comprimento e 78 metros de altura, com área alagada maior que o território dos municípios do Rio de Janeiro e de São Paulo somados. Em 1984, ao ser inaugurada por João Figueiredo, o último presidente do regime militar, 31 mil trabalhadores haviam participado da empreitada. Dez anos de desmatamento, abertura de estradas e construção civil haviam produzido um feito inédito: o recorde mundial em terraplanagem. Nunca tanta terra fora movimentada numa mesma obra.

Quando o lago começou a ser preenchido, 2,5 milhões de mde madeira em tora foram para debaixo d’água. Estima-se que na ocasião o volume representava cerca de 10% de toda a extração madeireira na Amazônia Legal ao longo de um ano. O governo chegara a planejar o corte das árvores antes da inundação, mas a empresa contratada não tinha experiência, embrulhara-se num escândalo de corrupção e apenas 10% da mata foi removida. Uma floresta praticamente intocada submergiu.

Um grupo de pesquisadores do Instituto Evandro Chagas (IEC), entidade científica vinculada ao Ministério da Saúde, deslocou-se para a região com o objetivo de acompanhar o impacto sanitário da obra. O trabalho consistia em capturar mosquitos, classificá-los e identificar as doenças que cada espécie podia transmitir. O virologista Pedro Fernando da Costa Vasconcelos fazia parte da equipe. “A gente estudou a região antes, durante e após o enchimento do lago reservatório”, conta Vasconcelos na sala de seu apartamento em Belém. “Antes do preenchimento dos lagos, nós recolhíamos de 10 mil a 20 mil mosquitos por campanha. Depois, a população explodiu. Na campanha seguinte, recolhemos mais de 1 milhão.”

Um estudo sobre Tucuruí publicado em 2000 pela Coppe (Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro) constatou um aumento extraordinário na população de Anopheles, gênero por vezes chamado no Brasil de mosquito-prego, responsável pela transmissão da malária. “Foi tão intenso que em uma única noite de coleta foram capturados aproximadamente 10 mil anofelinos”, afirma o estudo. De 9 652 insetos coletados antes do preenchimento do reservatório, o número saltou para 68 532 depois que as águas cobriram a floresta. A espécie Anopheles darlingi foi registrada em todos os pontos de coleta. Dentre os muitos mosquitos anofelinos conhecidos, é esse o mais eficiente vetor da malária humana.

Eles não foram os únicos mosquitos a se multiplicar em Tucuruí. Outro gênero, o Mansonia, também teve um crescimento assustador. “Calamidade pública”, declararia mais tarde uma comissão convocada para avaliar a gravidade do problema. A situação estava entre os “efeitos ambientais indesejáveis motivados pela formação do reservatório”.

O quadro adquiriu contornos de praga bíblica. O mosquito mansônia é hematófago, ataca em enxames e, com hábitos crepusculares, alimenta-se ao cair da tarde. A vida de 1 500 famílias estabelecidas num trecho da margem esquerda do lago se tornou inviável. As pessoas e seus animais domésticos não tinham meios de lidar com os ataques diários. Segundo a Coppe, no início da noite e ao longo de uma hora, cada pessoa era atacada por uma média de quinhentos mosquitos. A população foi forçada a abandonar suas casas em busca de áreas menos infectadas.

Do variado catálogo de transtornos sociais, econômicos e ambientais causados pela obra, no âmbito da saúde pública o efeito mais grave da construção de Tucuruí foi o que a Coppe descreveu como “um crescimento explosivo da malária” no município. No relatório de quase trezentas páginas, o adjetivo explosivo é o termo de predileção para caracterizar o comportamento dos fatores de risco sanitário associados à obra. O que podia dar errado deu, e em escala alarmante.

A Fundação Nacional de Saúde (Funasa) tabulou casos de malária no município de Tucuruí desde 1962. Os números começam a inchar a partir de 1975, com o início das obras pesadas. De 251 casos naquele ano, pula-se para 1 127 em 1976 e para 3 387 em 1977, e vai assim até atingir o pico de 10 mil casos em 1984, ano em que a usina é inaugurada.

Seria correto relativizar esses resultados, uma vez que obras dessa magnitude acarretam um aumento considerável da população local. Ocorre que o índice de casos por mil habitantes – o IPA, Incidência Parasitária Anual – também cresce significativamente. Boa expressão do grau de contaminação da população por malária, esse índice ali era de 29,57 casos em 1970 e, dez anos depois, saltara para 60,37 – regiões com IPA acima de 30 são consideradas de alto risco. Outros dois municípios à beira do reservatório “apresentavam na campanha de 1986 uma situação calamitosa em termos de malária”, apontou o relatório da Coppe. Em 1989, a comissão chamada a estudar a situação observava ainda: “Quanto à malária, há vários tipos, e em cada família há duas ou três crianças com a doença.”

“Nesse aspecto, Tucuruí foi um desastre”, resume a farmacêutica Marinete Marins Póvoa, especialista em controle de malária. Doutora pela Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, um dos grandes centros de medicina tropical do mundo, Póvoa foi durante muitos anos pesquisadora no Instituto Evandro Chagas e hoje, já aposentada, é membro de um grupo do IEC que monitora os riscos de malária em outra grande hidrelétrica brasileira, a de Belo Monte.

A catástrofe de Tucuruí acendeu o sinal de alerta das autoridades para as consequências das grandes obras sobre a saúde pública. Relatórios de impacto sanitário se tornaram obrigatórios. O grupo de que Póvoa faz parte foi contratado para avaliar “o potencial malarígeno” da nova usina. Quando os pesquisadores chegaram a Altamira, município-sede de Belo Monte, analisaram os trabalhos que já haviam sido encomendados pelo Consórcio Norte Energia, operador da futura usina. “O projeto de Belo Monte foi alterado três vezes por razões geológicas, então os relatórios existentes estavam defasados. O último dizia que não tinha risco nenhum de malária e nós discordamos. Tinha, sim.”

Isso aconteceu em 2007. Durante dois anos, Póvoa e seus colegas levantaram a situação de cinco municípios na área de influência da obra. “A ideia desse tipo de trabalho é a seguinte: identificar onde estão os vetores – os mosquitos –, de que espécie eles são, onde estão e quantos são os casos de malária, o que acontecerá quando os lagos forem criados e a terra for revolvida para abrir canteiros de obra e ruas, quantos postos de saúde deverão ser construídos e em que lugar, quantos novos trabalhadores virão para cada um dos municípios e quais protocolos de segurança deverão ser adotados. Por exemplo: todo novo funcionário deve fazer um exame e, se estiver infectado, não entra, tem que se curar antes.”

As máquinas de Belo Monte começaram a trabalhar em 2011, e as obras se estenderam até 2019. Ao contrário do que ocorreu em Tucuruí, a propagação da malária foi controlada. “A incidência foi baixíssima, houve época em que chegou a zero”, diz Póvoa, que ainda hoje faz duas visitas anuais a Altamira para monitorar a situação.

Antes do início da obra, o sistema de informação de vigilância epidemiológica do Ministério da Saúde produziu uma tabela com os casos de malária registrados entre 2008 e 2019 nos cinco municípios lindeiros da hidrelétrica. Em 2008 – antes de as máquinas começarem a trabalhar, portanto –, 1 685 pessoas haviam contraído malária em Altamira. Em 2019, ano em que a última turbina de Belo Monte entrou em funcionamento, registraram-se 559 casos, uma queda de dois terços. O IPA em 2008 era de 17,4; em 2019, caíra para 4,9.

As estatísticas do município de Anapu chamam ainda mais atenção. Com um IPA de 36,4 em 2008, os casos aumentam muito em 2011, primeiro ano da obra. A partir daí, a queda é abrupta até chegar a 0,1 em 2019, ano em que só duas pessoas contraíram malária no município. Em 2008, 707 haviam adoecido.

“É preciso entender o ciclo de cada uma das espécies de mosquito que transmitem malária”, explica Póvoa. Conhecer sua história natural, saber do que gosta e o que não tolera: “Do ovo até a pupa – esse período que nós chamamos de imaturo –, todas as espécies precisam de água para se desenvolver. Agora, espécies diferentes preferem condições diferentes. A nossa espécie mais eficiente em transmitir a malária gosta de água limpa, sombreada e com correnteza muito leve.”

Nada disso foi levado em consideração em Tucuruí. Ao decidir submergir uma floresta três vezes e meia maior do que a cidade de Nova York, a Eletronorte, operadora da hidrelétrica – e, duas décadas mais tarde, sócia majoritária de Belo Monte –, produziu um desastre ambiental. O material inundado começou a se decompor, liberando dióxido de carbono e metano, gases que provocam o efeito estufa. Esse processo, chamado de eutrofização, aumenta a concentração de nutrientes na água e estimula a proliferação de plantas aquáticas. Para os mosquitos, é o paraíso.

Esse triste espetáculo de uma floresta afogada e convertida no que a Coppe descreve como “paliteiros” – árvores submersas, mortas e de pé – oferece uma lição sobre as consequências que grandes distúrbios no meio ambiente são capazes de provocar. A eliminação da floresta; a alteração do curso de rios; a criação de novos corpos d’água; a perda de biodiversidade; a introdução de espécies exóticas; o deslocamento de populações inteiras “sem experiência cultural com a malária” (e tampouco com outras doenças do trópico úmido) – tudo isso configura um cenário de risco sanitário agudo.

De um lado, houve imprevidência, pois existiam as condições para prever que a proliferação maciça de plantas aquáticas em ambientes com as características daquele de Tucuruí provocaria uma explosão dos casos de malária, e não só: como mostra o relatório da Coppe, aumentaram também as ocorrências de esquistossomose e de filarioses várias, tais como elefantíase e doenças ligadas à qualidade da água (cólera e gastrenterite, por exemplo). A experiência de Belo Monte comprovou que é possível evitar alguns desses problemas adotando-se medidas profiláticas orientadas pela melhor ciência do momento.

Mas como se adiantar ao desconhecido?

Tucuruí, Arumateua, Caraipé – esses são os nomes de três novos vírus descobertos pelos cientistas do IEC durante estudos epidemiológicos realizados no entorno da usina de Tucuruí. Os três integram uma única família de arbovírus, nome que se dá aos vírus transmitidos por artrópodes tais como insetos. Em artigo de 2001 publicado nos Cadernos de Saúde Pública, Pedro Vasconcelos e outros cinco autores relatam que, durante a construção da represa de Tucuruí, foram isolados 27 novos arbovírus. O título do trabalho – Gestão Imprópria do Ecossistema Natural na Amazônia Brasileira Resulta na Emergência e Reemergência de Arbovírus – estabelece uma relação direta entre distúrbios ecológicos e o surgimento de novos e antigos microrganismos com potencial patogênico.

Vasconcelos, um paraense que se doutorou pela Universidade Federal da Bahia e, depois de um período de pesquisas nos Estados Unidos, voltou logo para o seu estado natal – de onde nunca mais quis sair, apesar dos inúmeros convites para trabalhar em universidades brasileiras e norte-americanas –, liderou durante anos a Seção de Arbovirologia e Febres Hemorrágicas do IEC, instituição da qual se tornaria diretor em 2014.

Entre 1983 e 1989 coube à seção inventariar os arbovírus presentes na floresta primária da região de Tucuruí, compreender seus ciclos e avaliar os riscos para a população estabelecida às margens da barragem. O trabalho de campo não só revelou a emergência de microrganismos até então desconhecidos da ciência, como detectou a presença de vírus que, embora existentes em outras partes do continente, ainda não haviam sido identificados ali. Os pesquisadores especularam que o surgimento dessas espécies estranhas ao lugar era consequência direta da alteração do meio ambiente. O novo lago atraiu mosquitos que até então não encontravam condições favoráveis para se reproduzir na região. Com eles, foram trazidos os vírus de que são vetores.

Numa tabela desse artigo de 2001, Vasconcelos e colegas ordenam em colunas paralelas diferentes arbovírus amazônicos, seus vetores, os hospedeiros e dados patogênicos. Por exemplo: “Vírus: Tacaiuma. Vetor: Aedes scapularis e outras duas espécies. Hospedeiro: macacos. Infecta humanos? Sim.”

Outra tabela relaciona os arbovírus associados a doenças humanas que já haviam sido isolados na Amazônia até aquela data. O vírus da dengue e o da febre amarela aparecem junto de outros dos quais a maioria de nós nunca ouviu falar: Alenquer, Bussuquara, GuamaMucambo, Murutucu, uma rica coleção de patógenos causadores de febres, erupções cutâneas, hemorragias e encefalites.

O laboratório que Vasconcelos chefiou por dezesseis anos já isolou mais de duzentos novos tipos de arbovírus, um recorde mundial. Ele próprio participou da identificação e descrição de uma centena deles. Afora sua diligência e a de seus colegas, o que pode explicar o feito é a espantosa biodiversidade amazônica de vetores e hospedeiros, de insetos que transmitem os vírus e vertebrados alados e arbóreos que os abrigam; a floresta coloca à disposição de cada um deles uma variedade incontável de nichos ecológicos, de tal modo que forçosamente todos acabam por encontrar as condições ideais para seu nirvana particular. “Desses duzentos e tantos arbovírus isolados, uns 37 são patogênicos”, diz Vasconcelos, “e 23 deles são estritamente amazônicos. É o que nós chamamos de vírus enzoóticos, porque vivem num ciclo fechado entre os vetores – os insetos hematófagos – e os vertebrados silvestres, seus hospedeiros. Lá eles estão em equilíbrio e geralmente não acometem humanos.”

Até que acontece um acidente, substantivo empregado aqui numa acepção quase técnica. Como mostra o estudo de 2001 de que Vasconcelos é o autor principal, a infecção humana é quase sempre um acidente biológico. O hábitat natural da imensa maioria dos arbovírus é a floresta. Lá, as várias espécies se perpetuam segundo ciclos complexos e pouco conhecidos que envolvem inúmeros vetores e hospedeiros.

O homem não faz parte desse cenário – ou, ao menos, não era para fazer – até o momento em que se produz um encontro fortuito. Os garimpeiros destroem as barrancas de um igarapé. Os madeireiros derrubam a floresta. Chegam os bois. Os tratores erguem uma barragem. Os hospedeiros naturais – macacos, pássaros, morcegos, preguiças, roedores, marsupiais – fogem ou são extintos, e o vírus, obedecendo ao imperativo da própria perpetuação, salta para uma nova espécie apta a abrigá-lo.

Um estudo de 2015 feito pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) concluiu que, “para cada 1% de floresta derrubada anualmente na Amazônia, há um aumento de 23% na incidência de malária e de 8% a 9% na de leishmaniose”, uma doença que, se não tratada, causa desfigurações e pode levar à morte.

Com exceção dos vírus que provocam a febre amarela urbana, a febre da dengue, a chicungunha, a zika e a febre do oropouche – patógenos urbanos cujo hospedeiro preferencial é o homem –, nenhum dos outros arbovírus amazônicos precisaria de nós para se reproduzir. Somos tangenciais para a sobrevivência deles. Contudo, se estivermos no lugar errado na hora errada (lugar certo e hora certa da perspectiva do vírus), se reduzirmos os reservatórios naturais de hospedeiros – aquele conjunto de espécies em que patógenos residem sem causar doenças graves –, então o salto poderá ocorrer.

“Não conhecemos nem 2% dos vírus do Brasil”, disse Vasconcelos ao jornal O Globo em fevereiro deste ano. Àquela altura, na condição de presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, ele começava a ser procurado pela imprensa para nos ajudar a compreender a dimensão da pandemia que se avizinhava. Cinco meses antes, em setembro de 2019, em seu escritório de trabalho em Belém, ele havia dito: “Não tenho ideia do número de vírus na Amazônia. Imagino que sejam milhares. Nós não sabemos.”

O capítulo dedicado a arboviroses no minucioso relatório elaborado pela Coppe sobre Tucuruí conclui da seguinte forma: “A maioria dos arbovírus isolados na região não demonstrou até o presente capacidade de afetar seres humanos. Entretanto, como os estudos foram encerrados poucos anos após o enchimento do lago, o perigo de arboviroses continua presente, pois tanto vetores como reservatórios quanto pessoas continuam em contato.”

Convém mencionar uma última tabela do artigo de 2001 escrito por Vasconcelos e colegas. Nela, os pesquisadores arrolam espécies virais, seus prováveis fatores de emergência e a associação dessas espécies com doenças humanas. Por exemplo: “Espécie: Dengue. Prováveis fatores de emergência: Urbanização crescente nos trópicos e controle deficiente dos mosquitos. Doença em humanos: Simepidêmico.” Ou: “Espécie: Febre amarela; Prováveis fatores de emergência: Urbanização nos trópicos, desmatamento e baixa cobertura vacinal; Doença em humanos: Sim, epidêmico.” Ao lado de vírus que reconhecemos, a tabela inclui outros que nos são totalmente estranhos, a nós, leigos: TrinitiGamboaAnopheles A e Changuinola. Fatores de emergência? Nos quatro casos, “alagamento para criação de barragens” (desmatamento e mineração também são fatores para o Changuinola). Na coluna que responde à pergunta sobre causarem doenças em humanos, aparece escrito: “Ainda não.”

Transbordamento é o termo que descreve o evento no qual um patógeno salta de um animal para o seu primeiro hospedeiro humano. A pandemia causada pelo Sars-CoV-2 nos familiarizou com moléstias dessa natureza, as chamadas doenças zoonóticas, aquelas que passam de animais não humanos para humanos. Raiva, doença da vaca louca, carbúnculo (ou antraz), Sars, zika, peste bubônica – todas nos chegaram via reino animal. Mais de 60% das cerca de 400 doenças infecciosas identificadas desde 1940 são zoonóticas.

Segundo o virologista Dennis Carroll, criador de uma unidade de monitoramento de pandemias para o governo dos Estados Unidos – o Programa de Ameaças Pandêmicas Emergentes, desativado por Trump em 2019 –, o maior fator preditivo de eventos de transbordamento é a mudança no uso da terra, isto é, a transformação de ambientes naturais em áreas destinadas à agricultura e especialmente à pecuária. A velocidade desses transbordamentos está em franca aceleração. Hoje eles ocorrem numa frequência de duas a três vezes maior do que há quarenta anos. Ebola, Aids e Covid-19 são doenças diretamente ligadas a perturbações do meio ambiente. Estamos avançando mais e mais por zonas ecológicas em que antes não penetrávamos.

“No outono de 1998, suinocultores malaios começaram a desenvolver uma doença grave caracterizada por febres, confusão mental e convulsões. Alguns logo entraram em coma. Entre setembro e maio, o surto infectou 265 pessoas, matando 105 delas, uma taxa de letalidade de quase 40%.” Essa passagem faz parte de um longo artigo publicado pelo New York Times em junho deste ano. De autoria do jornalista Ferris Jabr, traz o seguinte título: Como a Humanidade Destampou um Dilúvio de Novas Doenças.

O epicentro do surto era o vilarejo de Kampung Sungai Nipah, a 75 km da capital, Kuala Lumpur. A rapidez com que as pessoas infectadas adoeciam era espantosa. De um dia para o outro, homens jovens e saudáveis deixavam de andar, outros perdiam a capacidade de falar. Exames revelaram a existência de um processo inflamatório no cérebro dos infectados. Segundo uma reportagem da NPR, a rádio pública norte-americana, “a doença era tão mortal quanto o Ebola, mas, em vez de atacar os vasos sanguíneos, atacava o cérebro”.

Epidemiologistas e autoridades sanitárias atribuíram a moléstia a um patógeno conhecido, o vírus da encefalite japonesa (JEV), um arbovírus da mesma família da febre amarela e da dengue. Seu vetor é o mosquito. Um virologista que fazia pós-doutorado na  Universidade da Malásia desconfiou do diagnóstico. Embora os sintomas em Nipah se assemelhassem muito à encefalite japonesa, Kaw Bing Chua e um colega neurologista fizeram uma observação crucial: muçulmanos não estavam adoecendo. Num país em que o islamismo é a religião oficial e 61% da população professa a fé, não fazia sentido.

Um terço das famílias em Nipah já havia perdido alguém para a doença. As autoridades tranquilizavam a população, informando que campanhas para erradicar o mosquito transmissor já estavam em curso e que em breve o surto seria controlado. Chua se desesperou. A doença se espalhara para outras províncias e chegara a Cingapura, cidade-estado separada da Malásia por um estreito de 1 km de largura. Meses antes, seu superior o desencorajara a seguir pesquisando o surto que afligia o vilarejo. O patógeno havia sido identificado, dizia; já não se tratava de uma questão científica, mas de um problema de saúde pública do qual as autoridades estavam cuidando.

Chua voltou à carga. Mencionou o enigma da aparente imunidade dos muçulmanos e implorou a seu chefe que lhe permitisse levar material colhido de pacientes até um centro norte-americano especializado em pesquisa de arboviroses, onde teria acesso a equipamentos de análise mais avançados. Tão logo recebeu a autorização, decidiu não perder tempo. A situação era urgente demais para seguir todos os protocolos de segurança e quarentena que regem o transporte de agentes patogênicos. Chua simplesmente acondicionou as amostras na bagagem de mão e voou para os Estados Unidos.

Ao pousar, foi direto para o laboratório e inseriu a lâmina sob um poderoso microscópio de elétrons inexistente na Malásia. Quando a imagem se esclareceu, Chua sentiu “um frio na espinha”: “Meu Deus, é um paramixovírus!” O que o cientista tinha diante de si era um novo vírus da família Paramyxoviridae, a mesma da caxumba e do sarampo, duas das doenças mais contagiosas que conhecemos. Como esses vírus afetam as vias respiratórias, a transmissão pode se dar por contato direto de gotículas de saliva ou perdigotos de pessoas infectadas. De origem zoonótica, o processo de infecção não tem a participação de insetos. O transbordamento ocorre quando algum animal de criação passa o vírus para um humano. Muçulmanos não consomem carne suína nem lidam com porcos.

Chua acabara de fazer uma descoberta de consequências potencialmente devastadoras: um vírus de alta letalidade transmissível por via área. Não estava claro se a doença continuava em fase de transmissão animal-humano, mas era questão de tempo até que infecções de pessoa a pessoa começassem a ocorrer. “Chua correu para o telefone e ligou para as autoridades sanitárias de seu país: ‘Parem de lutar contra os mosquitos. Está vindo dos porcos’”, relata a reportagem da NPR.

O que se seguiu foi a maior campanha de abate de animais da história da Malásia. O governo convocou o Exército. Mais de 1 milhão de porcos foram jogados vivos em valas abertas e abatidos a tiros, um espetáculo dantesco. “Os porcos berravam, dava para ver as lágrimas escorrendo pelo rosto deles”, contou um funcionário do serviço fitossanitário malaio que tomou parte na matança.

As quatro décadas que antecederam o surto em Nipah foram um período de grande crescimento econômico na Malásia. Vastas extensões de floresta desapareceram em razão da exploração madeireira ou de queimadas, abrindo terreno para seringais e plantações de palma. Em 1966, 64% da península malaia era coberta por florestas; em 1990, a cobertura já estava em menos de 50%.

No ano anterior à emergência do novo microrganismo, que seria batizado de vírus de Nipah (NiV), a Malásia sofreu queimadas extensas provocadas por ação humana. Tanta floresta foi incinerada que, durante meses, uma camada perene de névoa particulada ofuscou o Sol, o que diminuiu a atividade de fotossíntese das plantas sobreviventes. As árvores frutíferas da floresta deixaram de produzir seus frutos.

Morcegos frugívoros de vida até então silvestre foram obrigados a se aproximar de vilarejos para buscar alimento nos pomares. Morcegos são reservatórios naturais de vírus. Um desses animais provavelmente pousou no galho de uma árvore que fazia sombra num chiqueiro de Nipah. Ali, urinou ou deixou cair um pedaço de fruta embebido de saliva. Um porco espremido entre centenas de outros porcos estava por perto e se contaminou.

O que seria um evento sem maiores consequências antes da produção fabril de proteína animal gerava agora as condições propícias para o transbordamento. Um vírus hospedado em um só porco não terá grande oportunidade para saltar de espécie. Já se viver entre centenas de animais comprimidos em meio a secreções e dejetos, sim. Aquele porco, hospedeiro secundário, começou a espalhar o vírus para o resto da vara. Dali a dias, alguns desses animais foram abatidos. Sangue espirrou, vísceras entraram em contato com algum humano – e o acidente biológico aconteceu.

Foram necessários mais de dez anos para compreender o processo de transmissão zoonótica descrito acima. Se o enredo soa familiar, é porque ele deu origem a um filme de 2011, Contágio, dirigido por Steven Soderbergh. Entretanto, ao contrário do que se desenrola no cenário distópico da fita, na Malásia a ação diligente de um virologista que sequer concluíra a sua formação conseguiu evitar que um surto local se transformasse numa crise sanitária de dimensões planetárias. Ainda assim, como mostra a reportagem da NPR, já ocorreram dezesseis novos surtos de Nipah desde 1999, na Índia, em Bangladesh e nas Filipinas. “E há sinais de que o vírus está se tornando mais perigoso. No surto malaio, a taxa de letalidade foi de cerca de 40%, e o vírus não parece ter passado de pessoa a pessoa. Contudo, mais recentemente o Nipah matou 70% dos infectados e foi transmitido tanto de animais para humanos como entre pessoas” – no caso, transmissão pelo compartilhamento de sucos de frutas infectadas por morcegos.

Setenta por cento é uma taxa de letalidade superior à do vírus Ebola, que mata cerca de 50% das pessoas infectadas. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) norte-americano classificou o Nipah como um agente categoria C, nomenclatura reservada a patógenos emergentes que, graças à sua disponibilidade, à alta letalidade e à facilidade de disseminação, podem ser empregados em atos de bioterrorismo. Para a Organização Mundial da Saúde, o NiV é “um dos patógenos da lista de ameaças epidêmicas que demandam investimentos urgentes em pesquisa e desenvolvimento” (testes diagnósticos, medicamentos, vacinas). Em maio de 2016, apenas outros quatro vírus, todos zoonóticos, compunham a reduzida lista. Um deles, o Zika, é nosso velho conhecido. Outro, o vírus de Lassa, também altamente letal, tem parentes próximos na Amazônia.

Em meados de abril, a ecóloga Mercedes Bustamante, da Universidade de Brasília, participou de um seminário online promovido pela Academia Brasileira de Ciências (ABC). O formato era apropriado ao tema: confinados em suas casas por causa da doença zoonótica que nos aflige a todos, palestrantes e espectadores se reuniam no único auditório sensato em tempos pandêmicos – a sala virtual do aplicativo de videoconferência Zoom – para tratar da relação entre doenças emergentes e distúrbios ecossistêmicos.

Bustamante projetou um quadro para ilustrar como o risco de doenças infecciosas emergentes varia de acordo com a paisagem. Quatro colunas paralelas de cores diferentes ocupavam o slide. Da esquerda para a direita, a primeira indicava área de floresta (verde), seguida de agricultura incipiente (creme), agricultura e criação de animais (laranja) e, por fim, criação intensiva de animais (amarelo). Lido como uma linha do tempo, o esquema mostrou de que maneira o uso da terra se modifica à medida que o homem se apropria dela para atividades produtivas – a floresta é aberta para dar lugar a pequenas roças, as roças se tornam maiores e a elas se juntam animais de criação, até que, por fim, a floresta desaparece e é substituída por pastos. Um traço sinuoso atravessava a imagem de lado a lado. Começava no pé da coluna verde (floresta), crescia como uma onda até o campo creme (lavoura de subsistência), refluía suavemente na área laranja (agricultura e criação de animais) e voltava a crescer pelo campo amarelo (criação intensiva de animais) como uma segunda onda, agora maior, até encostar na borda superior direita do quadro. O traço representava o “risco hipotético de zoonoses emergentes”.

A mensagem é clara: a preponderância das doenças acompanha a transformação da paisagem. Mais precisamente: acompanha sua simplificação.

“A relação entre biodiversidade e doenças emergentes é complexa”, explica Bustamante. “O número de microrganismos na Terra ultrapassa toda a biodiversidade restante” – há mais seres microscópicos do que a totalidade da vida que podemos enxergar. Estima-se que existam trilhões de espécies de vírus no planeta, e, como disse Alan Burdick, repórter do New York Times, eles infectam morcegos, feijões, besouros, amoras, mandioca, mosquitos, batatas, pangolins, carrapatos e o diabo-da-tasmânia. “Desenvolvem cânceres em pássaros e fazem com que as bananas fiquem pretas. Desses trilhões, apenas algumas centenas de milhares de tipos são conhecidas e menos de 7 mil têm nome. Sabemos que apenas 250, incluindo o Sars-CoV-2, possuem os mecanismos para nos infectar.”

Compreender como tudo isso se relaciona requer uma avaliação de um ponto de vista ecológico e evolutivo, diz Bustamante. As doenças também têm sua ecologia. Assim como nós, essa infinidade de microrganismos buscará a perpetuação da espécie e, caso seja necessário, ocupará o nicho que se abrir à sua frente. “Riqueza de espécies aumenta a riqueza de hospedeiros. Isso significa que a manutenção da biodiversidade reduz a prevalência dos agentes patogênicos e aumenta o efeito de diluição das doenças”, afirma.

Se sumirem os pangolins, os besouros, os morcegos, as preguiças, os macacos ou o diabo-da-tasmânia, o vírus tenderá a saltar para um novo hospedeiro. “Estamos dando uma oportunidade para que eles expandam seus horizontes”, diz o escritor David Quammen, especialista em história natural das pandemias. Numa entrevista ao jornalista Gustavo Faleiros para a plataforma InfoAmazonia, Quammen toma como exemplo um vírus hipotético que acaba de transbordar para a espécie humana: “Talvez ele estivesse numa situação difícil, vivendo dentro de uma espécie ameaçada de extinção. Uma oportunidade de pular para nós equivale a ganhar na loteria evolutiva. Ele terá se hospedado no mamífero de grande porte mais interconectado e abundante de todo o planeta. Se nos infectar e se tiver capacidade de passar de pessoa a pessoa, vai se espalhar por toda parte. Para nós, é uma situação miserável, é uma pandemia, é a morte. Para ele, é o triunfo.”

Como nos casos do Nipah e do Sars-CoV-2, o patógeno pode nos alcançar por espécie interposta, como quem chega ao destino fazendo escala: do hospedeiro primário para o hospedeiro secundário e deste para o criador de porcos ou para o consumidor de carne de animais silvestres que faz compras num mercado úmido.

A degradação ambiental favorece o salto para espécies generalistas, as quais abrigam 75% de todos os vírus zoonóticos conhecidos. Dotadas de grande capacidade de adaptação, essas espécies tendem a prosperar quando perturbamos seu hábitat natural e extinguimos seus predadores. É o caso dos roedores ou do Aedes aegypti, na origem um mosquito silvestre que hoje habita confortavelmente as nossas cidades e as nossas casas. Da década de 1990 para cá, assistimos à emergência ou reemergência de oito vírus epidêmicos ou pandêmicos: H5N1 (gripe aviária), Sars-Cov, H1N1 (pandemia de gripe suína), Ebola, Mers-CoV, Zika, Chikungunya e Sars-CoV-2 (pandemia de Covid-19). É uma aceleração sem precedentes desse tipo de acontecimento.

Em decorrência dos distúrbios que provocamos no meio ambiente, animais nos infectam e são infectados – o caminho das doenças tem mão dupla, como mostrou Mercedes Bustamante em sua apresentação no webinário na Academia Brasileira de Ciências. O surto do Ebola na África Ocidental entre 2013 e 2016 – evento cuja origem alguns pesquisadores atribuem a um menino de 2 anos que decidiu brincar no oco de uma árvore habitada por morcegos – matou 95% dos gorilas e 77% dos chimpanzés, levando efetivamente à extinção dessas espécies naquela região. Desde os anos 1990, um terço dos símios que habitam o continente africano foi aniquilado.

Dada a ação humana em curso na Amazônia, o bioma é um dos laboratórios privilegiados do planeta para a ocorrência de acidentes biológicos. Em modelos desenvolvidos para identificar focos globais de novas doenças zoonóticas, a região é um hotspot. Nos últimos quinze anos, pelo menos nove moléstias causadas por arbovírus emergiram ou reemergiram nas Américas, algumas delas conhecidas, a exemplo da chicungunha e da zika, outras ainda estranhas para a maioria de nós, como a doença febril causada pelo vírus Itaqui.

Um dos enigmas que intrigam os especialistas é o porquê de a região ainda não ter produzido uma doença pandêmica. “Não tenho uma resposta”, diz David Quammen. “A Amazônia está cheia de espécies animais e, portanto, está repleta de vírus. Por que, então, ainda não ouvimos falar de transbordamentos para humanos? Claro, o fato de que ainda não aconteceu não significa que deixará de acontecer.”

A floresta é o maior reservatório de arbovírus do planeta, grupo de que o pesquisador Pedro Vasconcelos é um dos grandes especialistas mundiais. Há décadas ele vem alertando para o risco de urbanização ou reurbanização de certas doenças que, até pouco tempo atrás, eram essencialmente silvestres. É o caso da febre amarela. Vasconcelos estava certo nas suas previsões. Em 2000, a doença voltou a se manifestar em cinco cidades brasileiras: Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Goiânia e Campinas. Entre 2016 e 2018, novos surtos com mais de 2 mil casos e cerca de setecentas mortes atingiram principalmente a região da Mata Atlântica, onde não havia registros da doença desde a década de 1940. Segundo um estudo do qual Vasconcelos é o primeiro autor, tudo indica que alterações na temperatura e no regime de chuvas ocorridas no contexto das mudanças climáticas contribuíram para a dispersão do vírus. Em 2000, por exemplo, o estado de Goiás experimentou um aumento de 2ºC acima da sua média histórica. As chuvas também foram mais intensas; nos dois primeiros meses do ano, choveu 25% a mais do que a mediana dos vinte anos anteriores.

São condições que favorecem o mosquito Haemagogus. Vetor da febre amarela, ele é silvestre e vive na copa das árvores. “O desmatamento é catastrófico do ponto de vista das epidemias de doenças tropicais”, diz o médico infectologista Joaquim Seabra, que há anos segue com atenção as previsões de Pedro Vasconcelos. Queimadas são igualmente arriscadas. “Quando você taca fogo na floresta, duas coisas podem acontecer”, explica Vasconcelos. “Muitos mosquitos vão morrer, outros vão voar ou vão ser levados pelo vento.” Esses últimos acabam se avizinhando dos ajuntamentos humanos. Hoje a febre amarela está naorla das grandes cidades.

Como mostra o artigo de 2001 que Vasconcelos coescreveu, distúrbios ambientais levam doenças para dentro da floresta, não apenas para fora dela. No início da década de 1990, garimpeiros começaram a entrar na terra Yanomami. Muitos vinham de Serra Pelada, onde o ouro já se esgotara; não havia mais razão para permanecerem naquela chaga a céu aberto. A profunda transformação do ambiente produzida pelo garimpo favorece vetores de doenças como malária e febre amarela. “O mosquito estava na mata, na dele, vivendo uma vidinha calma, quando de repente: ‘Opa, chegou o restaurante!’”, diz Marinete Marins Póvoa. “O garimpo abre coleções hídricas propícias para o ciclo do mosquito. De uma hora para outra ele não precisa mais ir atrás do animal pequeno, porque agora tem uma espécie maior à disposição.”

Os garimpeiros levaram para a reserva indígena doenças que nunca haviam sido diagnosticadas entre os yanomamis, como malária, hepatite B/D e febre amarela. Em relação a essa última, em 1991, um ano depois da invasão, as populações nativas enfrentaram uma epidemia da doença. Desde então, segundo o artigo de Pedro Vasconcelos sobre a emergência de doenças na Amazônia, o vírus tem sido diagnosticado com frequência entre os yanomamis, manifestando-se com uma taxa de letalidade alta. A Covid-19 segue o mesmo roteiro. O governo tem feito muito pouco para evitar que forasteiros – madeireiros, garimpeiros e mesmo profissionais de saúde infectados – levem o novo coronavírus para as aldeias.

O mundo das finanças popularizou a expressão cisne negro. Um cisne negro seria um evento que chega como um susto, causa um impacto imenso e, analisado retrospectivamente, parece quase óbvio – os sinais sempre estiveram ali, mas foram negligenciados. Segundo os que estudam o fenômeno, essa previsibilidade a posteriori, feita com o olho no retrovisor, seria uma “falácia narrativa”. O que é óbvio depois não era óbvio antes. O Onze de Setembro seria um cisne negro. Ou Pearl Harbor. E também a atual pandemia.

Contudo, em relação a essa última não se pode falar em falácia narrativa com o mesmo desembaraço. Fazia décadas que epidemiologistas vinham alertando os governos sobre uma situação semelhante à que estamos atravessando. Não se tratava de previsões generalistas. Em outubro de 2019 – dois meses antes de os primeiros pacientes darem entrada nas enfermarias de Wuhan com uma estranha doença respiratória –, a Universidade Johns Hopkins e a Fundação Bill e Melinda Gates organizaram um evento para simular as consequências de uma pandemia de coronavírus – os vídeos do encontro estão disponíveis. Durante os nossos meses de isolamento social, passou a circular intensamente nas redes um clipe de 2014 em que o presidente Barack Obama afirma, de maneira bastante assertiva, que “pode ocorrer e provavelmente ocorrerá entre nós uma doença mortal passível de ser transmitida pelo ar”, uma “nova cepa de gripe, como a espanhola”; por essa razão, ele criara o programa federal de vigilância pandêmica que Donald Trump desmantelaria em 2019.

Ninguém poderia prever esta pandemia específica, mas os especialistas não tinham dúvida de que a aceleração crescente das epidemias globais nos últimos anos levaria quase inevitavelmente a um evento pandêmico. Se um ataque terrorista da dimensão do Onze de Setembro era uma possibilidade, uma pandemia como a atual era uma quase certeza.

A partir desses elementos, o ambientalista Adam Sweidan cunhou a expressão elefante negro para descrever eventos como o protagonizado pelo Sars-CoV-2. Seria a união do susto causado pelo cisne negro com a tragédia do elefante na sala que todos teimam em não ver. O elefante negro é uma surpresa anunciada.

Pedro Vasconcelos não usa a expressão, mas evidentemente sabe quais elefantes negros começam a rugir na Amazônia. “Se fosse apresentar uma gradação em ordem crescente de gravidade para os vírus que mais me preocupam, eu diria: o Mayaro e o Oropouche.” Silvestres na origem, os dois microrganismos são exemplos de agentes de novas doenças associadas a distúrbios ambientais – desmatamento, abertura de áreas para pecuária e urbanização em regiões de fronteira.

O vírus Mayaro é transmitido pelo mesmo mosquito da febre amarela e tem os macacos e aves como hospedeiros principais. Pertence à mesma família e gênero do vírus Chikungunya e provoca sintomas parecidos – febre, manchas vermelhas na pele, dor de cabeça. “Nos casos mais graves, as dores articulares e musculares são muito severas e praticamente impedem os pacientes de andar. É terrível. Ainda não tivemos nenhum óbito, talvez pelo número de infectados ainda ser pequeno”, diz Vasconcelos.

Nos últimos anos, o vírus foi responsável por epidemias localizadas que atingiram populações rurais na Amazônia. Contudo, de acordo com uma matéria da Agência Fapesp publicada no site da fundação em novembro de 2019, “recentemente, o patógeno ultrapassou as fronteiras da Floresta Amazônica e passou a circular também na região Sudeste. Dois casos foram registrados em Niterói (RJ) e outros dois em São Carlos (SP)”. Segundo a virologista Luiza Castro-Jorge, citada no artigo, o Mayaro é considerado um vírus emergente e, a qualquer momento, pode causar grandes surtos no Brasil.

O vírus Oropouche está no topo das preocupações de Vasconcelos por razões ligadas à história natural dos patógenos. “O manuseio errado dos ecossistemas pode ser bom ou ruim para os microrganismos, e em especial para os vírus”, explica. “Quando você destrói um nicho ecológico, o vírus pode desaparecer. Ele simplesmente não consegue saltar. Esse é um desfecho possível. O outro é ele conseguir dar o salto” – e, nesse caso, nossa espécie será o novo continente onde ele se espalhará.

O ciclo de reprodução do Oropouche não é bem conhecido, mas sabe-se que envolve preguiças, macacos e aves. Quando a floresta começou a ser derrubada, o vírus saltou. Contudo, diferentemente do Mayaro, cujo transmissor ainda não se urbanizou, o vetor do Oropouche vive bem entre nós, citadinos. Vasconcelos explica: “Não é um mosquito, é uma mosca. A gente chama de maruim, é um ser quase microscópico, mede 1 mm. E o problema é que os estudos experimentais feitos pelo CDC em Fort Collins, no Colorado” – o mesmo laboratório onde o virologista malaio identificou o vírus de Nipah –, “mostraram que o Oropouche pode infectar o Aedes mesmo com doses mínimas do vírus.”

Isso é importante, pois, quando se diz que há risco de uma doença do mundo tropical se urbanizar, o que se está dizendo é que o Aedes pode se tornar um vetor de transmissão.

No artigo sobre a emergência de novas doenças, Vasconcelos e seus colegas informam que o vírus Oropouche foi responsável por várias epidemias em quase todos os estados da região Norte e que, àquela altura, já infectara cerca de 500 mil pessoas. Os pacientes sofreram as agruras de uma doença febril clássica, com forte dor de cabeça, dor nos olhos e no corpo em geral. Cinco por cento dos casos evoluíram para uma patologia grave, meningite. “Aconteceu em Roraima, aqui no Pará, no Maranhão, no Tocantins, sempre em áreas recém-construídas ou periféricas, onde ainda tem muita mata”, informa Vasconcelos. “Em Manaus houve surtos imensos. Em Rondônia, em 1991, teve outra epidemia imensa de febre oropouche, eu fui lá investigar. As cidades de Ariquemes, Machadinho do Oeste e Ouro Preto do Oeste foram grandemente atingidas pela epidemia. Nós esperávamos que viessem outros surtos maiores na região. Eu até hoje não entendo por que isso não aconteceu. Minha opinião é que, mais cedo ou mais tarde, ocorrerá” – e, se ocorrer, tal como a dengue, a zika e a chicungunha, a febre oropouche se tornará mais uma doença zoonótica com a qual teremos de conviver nos ambientes urbanos infestados pelo Aedes.

Resta saber se nas selvas da Amazônia não se esconde algum vírus com a letalidade de um Ebola ou de um Nipah. “Não quero ser alarmista, mas acho que sim”, diz Vasconcelos. “Tome, por exemplo, os arenavírus, que causam febre hemorrágica e são transmitidos por roedores silvestres. Eles existem na Amazônia e já causaram surtos na Bolívia com os vírus Machupo e o Chapare; na Argentina foi com o vírus Junin, e na Venezuela, com o Guanarito, que ocorre na Amazônia deles e provoca a febre hemorrágica venezuelana.”

Em janeiro de 2004, um homem morreu numa pequena vila na província amazônica de Chapare, na região de Cochabamba, vítima do que viria a ser chamado de febre hemorrágica boliviana. “A letalidade dos arenavírus é muito alta”, explica Vasconcelos. “As pessoas morrem por causa dos sangramentos. Existe um correspondente dos arenavírus sul-americanos na África, o Lassa, causador da febre de Lassa, o que mostra que um dia a América do Sul e a África já foram um continente só.”

Nas franjas orientais da Amazônia, em maio de 2000, uma estudante maranhense de 19 anos que ajudava os pais na lavoura apresentou um quadro febril acompanhado de tremores, tosse e fortes dores musculares. Quatro dias depois, seus dedos começaram a ficar cianóticos, sintoma de baixa oxigenação. Levada para o hospital de Anajatuba, a 140 km de São Luís, em pouco tempo seu estado se deteriorou. Com taquicardia e diarreia forte, a moça foi transferida para a capital, onde faleceu trinta minutos depois de dar entrada no hospital. Nos meses seguintes, dois de seus parentes diretos, jovens lavradores, morreriam por insuficiência respiratória, respectivamente 24 e 48 horas depois de apresentarem febre, dores musculares e tosse seca.

Pesquisadores de diversas universidades e institutos brasileiros foram convocados para identificar a causa das mortes. Também publicado em 2001, um estudo do qual Pedro Vasconcelos é um dos autores conclui que a jovem morreu de uma síndrome pulmonar causada pela infecção de um novo hantavírus, família de patógenos virais que, tal como os arenavírus, são transmitidos por roedores silvestres. As doenças que provocam podem ser muito graves, e não há tratamento eficaz para as síndromes respiratórias de que são causa. Até 2006, pelo menos oito jovens entre 18 e 30 anos morreram da doença, vários deles depois do desmatamento de uma área de mil hectares. Os moradores relataram uma grande infestação de ratos na mata e no campo.

O risco de que um desses patógenos cause um grande surto é baixo, uma vez que seus vetores vivem em matas e áreas rurais ou periurbanas de pouca densidade demográfica. Outro obstáculo é que, embora a transmissão interpessoal seja possível, ela raramente acontece (ou simplesmente não ocorre, como no caso da maioria dos hantavírus sul-americanos, exceção feita ao vírus Andes, que está presente na Argentina e no Chile e ainda não foi detectado no Brasil). A infecção ocorre majoritariamente por contato com secreções de mamíferos contaminados, o que inclui inalação de aerossóis formados a partir de urina, fezes e saliva dos animais; assim, isolamento dos pacientes e medidas que diminuam a presença dos vetores em ambientes habitados costumam conter a transmissão. Contudo, é preciso ter em mente que parte desse quadro também descreve o vírus Ebola, cuja epidemia de 2013-16 se disseminou por cidades densamente povoadas, deixando mais de 11 mil mortos em pelo menos três países.

Vasconcelos faz uma ponderação: é possível que mais pessoas estejam sendo infectadas por arenavírus no Brasil e simplesmente não tenhamos a capacidade de identificar a causa. Assim como outros microrganismos causadores de febre hemorrágica, os arenavírus que afetam humanos são agentes infecciosos classificados pelo CDC norte-americano como nível de biossegurança 4, o mais alto de todos, reservado aos patógenos de alta letalidade, transmitidos pelo ar e passíveis de transmissão interpessoal. Trabalhos mais amplos com esse tipo de vírus só podem ser realizados em laboratórios de nível máximo de biossegurança – os chamados NB4 –, dos quais o Brasil não dispõe de nenhum.[1] Num artigo sobre o ressurgimento de arenavírus no país publicado no site da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, atualmente presidida por Vasconcelos, o pesquisador diz: “A limitação na investigação e estudos voltados para a detecção desses vírus faz supor que eles sejam mais raros do que na realidade devem ser.”

O campus principal do Instituto Evandro Chagas fica na cidade de Ananindeua, colada a Belém. Visto do alto, o conjunto tem a forma de uma estrela-do-mar: no centro, um polígono, quase um círculo, do qual se projetam, como tentáculos, cinco edificações baixas e compridas, além de uma sexta, menor, que dá acesso ao complexo. A área inclui uma linda mata recortada por trilhas por onde se pode caminhar. É um lugar aprazível e propício à reflexão.

O IEC é um dos centros brasileiros de referência para estudos de medicina tropical. Além dos vários laboratórios dedicados à pesquisa e à vigilância epidemiológica e sanitária, o terreno também abriga o maior centro de primatologia da América Latina em diversidade de espécies. Os serviços que o instituto prestou e presta à ciência são inestimáveis. Uma publicação em comemoração aos seus 80 anos, completados em 2016, arrola alguns deles: isolamento recorde de arbovírus; primeira identificação do hantavírus Anajatuba; primeiros isolamentos do vírus da dengue e de arenavírus no Brasil; pioneirismo na detecção de casos humanos de dengue, chicungunha e febre do Nilo Ocidental; estudos clínicos pioneiros da doença de Chagas na Amazônia; contribuição relevante para o reconhecimento do nível de contaminação por mercúrio nas populações do Norte do Brasil afetadas pelo garimpo. Em 2015, o IEC conduziu estudos pioneiros que levaram ao estabelecimento da conexão entre o vírus Zika e malformações congênitas como a microcefalia.

Entre funcionários da casa e terceirizados, mil pessoas circulam pelo campus todos os dias, 120 das quais são pesquisadores que realizam estudos de virologia, parasitologia (malária, Chagas etc.), bacteriologia (meningites, hanseníase etc.), micologia (doenças causadas por fungos) e saúde ambiental (doenças por contaminação de mercúrio, de agrotóxicos etc.).

Socorro Azevedo, médica, e Jannifer Chiang, biomédica, trabalham na Seção de Arbovirologia e Febres Hemorrágicas do IEC, a mesma que Pedro Vasconcelos dirigiu no passado. Numa tarde de novembro de 2019, as duas conversavam no gabinete de trabalho de uma delas. Através da janela, via-se o corredor estreito que separa a área acessível a visitantes da outra, o Laboratório de Biossegurança 3 (NB3), restrito a pesquisadores autorizados a entrar no único ambiente em que é permitida a manipulação de agentes de alto risco biológico.

Faz parte da rotina de Azevedo e Chiang manipular microrganismos perigosos, tarefa que conduzem com serenidade. São patógenos conhecidos. Temível é o que a floresta esconde: “É isso que me acorda de madrugada”, diz Azevedo, referindo-se à emergência de novas doenças oriundas da mata. “Trabalho o tempo todo com essa bomba-relógio”, Chiang reforça. “Existem arenavírus no Brasil. A gente não sabe o que eles podem provocar.”

No seu poema mais conhecido, o poeta galês Dylan Thomas aconselha o pai moribundo a não se entregar pacificamente à morte: Não entre mansamente nesta noite acolhedora./Grite, grite contra a morte da luz. A floresta talvez seja assim. Não desaparece sem que antes suas legiões de vírus, bactérias, parasitas e fungos se façam ouvir.


[1] Em 2014, o Laboratório Nacional Agropecuário de Minas Gerais (Lanagro/MG), localizado no município de Pedro Leopoldo, inaugurou uma unidade de pesquisa que cumpre os requisitos de Segurança Biológica Nível 4 (NB4) estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde Animal (OIE). Trata-se, porém, de um laboratório voltado para a vigilância sanitária do agronegócio brasileiro, em especial da carne animal para exportação. O Lanagro/MG não lida com patógenos que causam doenças em humanos.

PROPOSTAS PARA FORTALEZA: DIÁLOGOS COM OS CANDIDATOS À PREFEITURA

ELEIÇÕES PARA PREFEITURA DE FORTALEZA, 2020

O Observatório de Políticas Públicas-OPP, da Universidade Federal do Ceará, com o apoio do Sindicato dos Docentes das Universidades Federais do Estado do Ceará (ADUFC), promove este ciclo de encontros intitulado “PROPOSTAS PARA FORTALEZA: DIÁLOGOS COM OS CANDIDATOS À PREFEITURA”, de forma remota, por meio do Youtube, no endereço eletrônico @observatórioDePolíticasPúblicas, sempre às 17h.

Vale informar que foram enviados convites a todos os candidatos, cujos eventos foram organizados conforme a presteza na aceitação dos pleiteantes. Assim, considerando a proximidade das eleições e as agendas dos candidatos, decidiu-se realizar esta rodada de apresentações, as quais não se constituirão em debates entre os candidatos e sim em exposição de suas propostas e considerações. A previsão é de 30 minutos para cada pleiteante, seguida de discussão a partir de perguntas postadas pelo público presente.

Isso se reveste da maior importância, considerando que se trata do futuro da quinta capital do país em população, a qual apresenta grandes problemas e vulnerabilidades, mas também muitas e significativas potencialidades capazes de proporcionar melhores condições de vida para seus habitantes.

Dessa forma, acreditamos que as considerações sobre os problemas que mais afligem nossa Capital e as principais políticas para superá-los ou minimizá-los, bem como as estratégias a serem implementadas, certamente possibilitarão a todos nós, cidadãos e eleitores, elementos para uma escolha mais consistente do futuro gestor de Fortaleza. Nesse sentido, a Universidade Federal do Ceará e, em particular, o Observatório de Políticas Públicas e a Adufc, cumprem o papel precípuo de promoção da democracia por meio do debate e da transparência nas ações governamentais.

E será com prazer, que teremos nesse primeiro encontro a presença dos candidatos Célio Studart (PV) e Renato Roseno (Psol).

Também estarão presentes:

Fernando Pires (mediador) – Professor titular da Universidade Federal do Ceará (UFC), em Economia e em cursos de Pós-Graduação, e Coordenador do Observatório de Políticas Públicas.

Ana Larissa (apresentadora) – Aluna de Economia da Universidade Federal do Ceará (UFC) e bolsista do Observatório de Políticas Públicas (OPP).

Margarida Pimentel e Cris Farias (tradutoras-intérpretes) – Atuam em parceria nas traduções das atividades da ADUFC.

Não perca: dia 13, às 17h, no canal do Youtube do Observatório de Políticas Públicas

Link do canal para a Live: /Observatório de Políticas Públicas

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2020-10-13T17:00:00

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Diálogos com os Candidatos à Prefeitura

Espaço de fortalecimento do controle social assente em informações, estudos, pesquisas e debates que suscitem análises críticas e propositivas quanto as políticas públicas no Ceará e no Brasil.