COMDICA APROVA PLANO DE ENFRENTAMENTO À LETALIDADE NA ADOLESCÊNCIA

O colegiado do Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente de Fortaleza (Comdica) aprovou o Plano Municipal de enfrentamento à Letalidade na Adolescência para a Cidade de Fortaleza. O Comdica é um órgão deliberativo e controlador das ações do poder público na área da infância e adolescência em Fortaleza.

O Plano é composto por seis eixos temáticos e tem entre seus objetivos contribuir para a redução dos índices de homicídios na adolescência em Fortaleza até 2025. De janeiro a julho de 2020, somente na Capital, foram 127 crianças e adolescentes assassinados. O total de mortes já ultrapassa em 43% a soma de todas as mortes registradas em 2019: 89 homicídios. Os dados foram compilados e apresentados pelo Fórum Popular de Segurança Pública do Ceará (FPSP) a partir da base de dados do Governo do Estado.

Uma das metas do Plano é que o município chegue em 2023 com atendimento garantido a pelo menos 80% das famílias e adolescentes vítimas de violência letal e/ou em situação de ameaça. Essa meta deve ser alcançada por meio da criação de programa de atendimento psicossocial aos familiares vítimas de violência por homicídio. Atualmente, o Programa Cada Vida Importa (que tem esse objetivo) não apresenta execução orçamentária, ou seja, os recursos previstos no orçamento municipal não são de fato gastos em ações.

Postado Por: Das Chagas Martins

Postado Em: 25/09/2020

atualização da situação epidemiológica da COVID-19 em Fortaleza, baseada no Informe Epidemiológico da Semana Epidemiológica 38 (SE38)

O “pico” de casos confirmados desse ciclo epidêmico ocorreu na transição entre os meses de abril e maio (intervalo de aproximadamente vinte dias), quando a média móvel sempre esteve acima de 600 casos.
A média móvel estimada hoje (17 casos) é inferior (62% de redução) à registrada duas semanas atrás e, aproximadamente, 99% menor do que a mensurada no ápice da série temporal (915,0 casos).

O intervalo temporal de maior mortalidade deste ciclo epidêmico, se considerarmos a média móvel, compreende um período de aproximadamente duas semanas (9/05-22/05), quando a média sempre esteve acima de 80 mortes.

A média móvel de óbitos dos últimos sete dias (1,7) é discretamente superior à mensurada quatorze dias atrás e ilustra bem o que foi mencionado na semana anterior. Na fase em que o município se encontra, de baixa transmissão viral, mínimas alterações no número de mortes alteram a média móvel desproporcionalmente. Isto pode induzir súbito e significativo aumento (ou queda) percentual da média móvel sem real relevância epidemiológica. Desde a primeira semana de agosto (MM= 2,3) podemos considerar a média móvel (7 dias) estável no município.

Há dois meses Fortaleza não registra mais de 10 óbitos por dia. Preliminarmente, não foram registradas mortes nos dias 12 e 30 de agosto e 9, 17 e 18 de setembro. Esta análise já poderia capturar parcialmente eventuais efeitos da Fase de Transição (01-07 de junho), da Fase 1 (08-21 de junho), da Fase 2 (22 junho-5 julho), da Fase 3 (6 de julho-19 julho) e das seis primeiras semanas da Fase 4 (20 de julho-30 agosto) do Protocolo de Flexibilização das Atividades proposto pelo Governo do Estado e Prefeitura Municipal de Fortaleza

Até o momento não evidenciamos mudanças importantes nas tendências epidemiológicas que pudessem ser associadas às referidas etapas de flexibilização. No entanto, o aumento da positividade de amostras liberadas pelo LACEN-CE observado na última semana, considerando apenas pacientes de Fortaleza, deve ser rigorosamente monitorado.

Postado Por: Das Chagas Martins

Postado Em: 24/09/2020

NOTA DE REPÚDIO AO AUTORITARISMO NA UFC

Perseguições contra professores/as reforçam caráter antidemocrático da atual administração

O Coletivo Graúna – Professores por uma Educação Democrática – manifesta sua irrestrita solidariedade aos colegas Beatriz Rêgo Xavier, Cynara Monteiro Mariano, Felipe Braga Albuquerque, Gustavo César Machado Cabral e Newton de Menezes Albuquerque, docentes da Faculdade de Direito (FaDir), diante da perseguição que sofrem de dirigentes da Universidade Federal do Ceará (UFC). O cerceamento da liberdade de cátedra e da autonomia dos professores se dá a ver na própria descrição do que está acontecendo. Os professores estão sendo alvo de ações por danos morais, sindicância e processo administrativo (indicando demissão), a ser concluída em dois meses. Além de representarem oposição ao Diretor da FaDir e ao atual Reitor da UFC, pelo que já vinham sofrendo retaliações, poucos meses antes os professores haviam comunicado ao MPF-CE uma irregularidade na conduta do Diretor daquela unidade acadêmica. Em ato normativo interno, o Diretor obrigava os professores à retomada das atividades pedagógicas remotas, quando a Resolução 08 do Consuni, anterior e superior ao ato normativo, previa a retomada não como obrigatória, mas como facultativa.Não nos esqueçamos que o atual interventor da UFC, nomeado por Jair Bolsonaro, ficou em última colocação na consulta eleitoral à comunidade acadêmica, com porcentagem inexpressiva de votos. Até o momento, em flagrante ilegalidade, o reitor se recusa a convocar os representantes estudantis para as reuniões dos conselhos superiores, excluindo deliberadamente um segmento da comunidade acadêmica das decisões que a afetam, o que é vedado por lei.Os atos ilegais e abusivos destes dirigentes evidenciam um recrudescimento do autoritarismo nas instituições de ensino superior, tornando interna ao funcionamento da universidade a ignorância prepotente que caracteriza a política brasileira neste momento. Ao manifestar sua solidariedade aos colegas, o Coletivo Graúna também aponta a necessidade de uma articulação nacional de professores universitários contrários aos abusos que, se não encontrarem resistência, criarão ainda maiores perigos para toda a sociedade cearense e brasileira.*Subscrevem essa nota @s seguintes professor@s:

1. Adelaide Gonçalves (História/CH-UFC);2. Adriana Leite Limaverde Gomes (FACED/UFC);3. Agamenon Almeida, (FEAAC/UFC e vice-presidente da ADAUFC);4. Alair Silveira – (UFMT)5. Alba Maria Pinho de Cavalho (Ciências Sociais- UFC);6. Alexandre Santiago da Costa (FACED/UFC);7. Alexsandro Donato Carvalho – (FE/UERN);8. Aline Nunes de Sousa (DLSB/UFSC); 9. Altemir José Borges – (DAMAT/UTFPR);10. Amauri Fragoso de Medeiros (UAF/CCT/UFCG);11. Ana Amélia M. C. de Melo (História/UFC);12. Ana Carmita Bezerra de Souza (IISCA/UFCA);13. Ana Karine Macedo Teixeira (Odontologia/FFOE-UFC);14. Ana Maria Monte Coelho Frota (CCA/UFC);15. Ana Maria Oliveira Soares (Casa de Cultura Italiana-CH);16. Ana Paula Rabelo (ILL-UNILAB);17. Ana Rita Fonteles (História/CH-UFC);18. Ana Vladia Holanda Cruz – (Professora); 19. Analuiza Mendes Pinto Nogueira (CH – UFC);20. André Demarchi (UFT – Porto Nacional);21. André Luis Coelho da Silva (DBBM/UFC)22. André Vasconcelos Ferreira (FEAAC – UFC);23. Andrea Michiles Lemos (Deduc – IFCE);24. Ângela de Alencar Araripe Pinheiro (CH – UFC);25. Ângela Maria de Souza Ponciano (DEFA – FFOE/UFC);26. Annuzia Maria Pontes Moreira Gosson (DEMA/UFC-CE)27. Antônia Lis de Maria Martins Torres – (FACED/UFC);28. Antônia Rozimar Machado e Rocha – (FACED/UFC);29. Antônio Carlos Martins da Cruz – (UFPEL);30. Antônio Gautier Farias Falconieri – (FANAT/UERN);31. Antônio Maia Olsen do Vale (Psicologia/CH-UFC);32. Antônio Marcos Vieira Sanseverino (Letras/UFRGS);33. Antônio Sérgio Luz e Silva (Odontologia/FFOE-UFC);34. Arturo Rodolfo Samana – (DCET/UESC);35. Atílio Bergamini (DL/CH-UFC);36. Bartolomeu Rodrigues Mendonça (COLUN – UFMA)37. Beatriz Furtado (ICA-UFC);38. Bernadete de Souza Porto (FACED/UFC);39. Bernadete Lourdes Ramos Beserra (Aposentada-FACED-UFC);40. Billy Graeff Bastos (FURG);41. Breno Santos – (UFMT);42. Bruno Anderson Matias da Rocha (CC-UFC);43. Camila do Espírito Santo Prado de Oliveira ( IISCA/UFCA);44. Camila Dutra dos Santos (UECE);45. Camila Holanda Marinho (UECE);46. Camilla Rocha da Silva (FACED/UFC);47. Carlos Alberto Pires – (UFSM);48. Carlos Augusto Viana da Silva (DELILT/UFC);49. Carlos Diego Rodrigues (DEMA-UFC);50. Carlos Kleber Saraiva de Sousa (Ciências Sociais-UFC);51. Caroline de Araújo Lima, (História/UNEB);52. ‪Cássio Adriano Braz de Aquino‬ (Psicologia/CH-UFC);53. Cayo Honorato (Artes Visuais – UnB);54. Celecina de Maria Veras (DEINTER- CCA-UFC);55. Celia Soares Martins – (Serviço Social/UFMA);56. César Beras – (UNIPAMPA);57. Cid Ottoni Bylaardt (Literatura/CH-UFC);58. Clarissa Rodrigues – (DEQUI/UFOP);59. Cláudia Costa – (UFU);60. Cláudia Freita.

Postado por: Das Chagas Martins

Postado em: 23/09/2020

NOSSO REPÚDIO À PERSEGUIÇÃO DE PROFESSORES DA FACULDADE DE DIREITO.

A Associação Brasileira de Médicas e Médicos pela Democracia – Ceará expressa sua solidariedade aos professores da Faculdade de Direito da UFC, Newton Albuquerque, Cynara Mariano, Beatriz Xavier, Gustavo Cabral e Filipe Albuquerque, e declara seu mais veemente repúdio às atitudes e às iniciativas administrativas e cíveis tomadas por parte da Diretoria da Faculdade de Direito e da Reitoria da UFC, que caracterizam um verdadeiro lawfare, assédio moral e perseguição antidemocrática.


A Reitoria e a Diretoria da Faculdade, em seu autoritarismo, não admitem o contraditório e o embate democrático acerca da conduta do Reitor e da Diretoria em querer impor uma forma de conduzir os destinos da Universidade, cerceando a autonomia de cátedra, a liberdade de opinião, a escolha sobre o conteúdo dos debates travados em sala de aula, inclusive em defesa do Estado Democrático de Direito, das liberdades democráticas, da soberania nacional e dos direitos humanos.
A Universidade é o centro do saber, da ciência, da livre expressão de ideias e da democracia.

Todo repúdio ao Reitor da UFC e à direção da Faculdade de Direito pela prática de lawfare contra professores.

Todo apoio aos professores Newton Albuquerque, Cynara Mariano, Beatriz Xavier, Gustavo Cabral e Filipe Albuquerque!

Associação Brasileira de Médicas e Médicos pela Democracia – Ceará Ver menos

Postado Por: Das chagas Martins

Postado em : 23/09/2020

NOTA DA ABJD EM APOIO AOS PROFESSORES CONTRA O ABUSO DE PODER NA UFC

A Associação Brasileira de Juristas pela Democracia – ABJD e seu Núcleo no Estado do Ceará vêm, por meio desta, manifestar a mais irrestrita solidariedade política e jurídica aos professores Cynara Mariano, Newton Albuquerque, Beatriz Xavier, Gustavo Cabral e Felipe Albuquerque, todos vinculados à Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará (UFC), diante das graves denúncias de assédio moral, transgressão de suas prerrogativas funcionais e violação de seus direitos fundamentais pelo Diretor da Faculdade de Direito, Maurício Benevides e o Reitor da mesma Universidade, Cândido Albuquerque.

Postado por: George Assunção

Postado em: 23/09/2020

CONVOCAÇÃO E INSTRUÇÕES – Assembleia Geral Extraordinária Virtual irá ocorrer na sexta-feira (25/9), às 16h

A ADUFC-Sindicato convocou para Assembleia Geral Extraordinária Virtual nesta sexta-feira (25/9), às 16h. com as seguintes pautas:

  1. Informes (15 min)
  2. Situação de Assédio Moral nas Universidades Federais do Estado do Ceará (1 h)
    • Criação do Observatório do Assédio Moral da ADUFC (Apresentação: Gustavo Cabral)
  3. A Reforma Administrativa e o Fora Bolsonaro (1 h)
    • Reforma administrativa (Apresentação: Cynara Mariano)
    • Boletim Interativo (Ações Desastrosas do Governo Bolsonaro – Apresentação: Tiago Coutinho)

A Assembleia irá ocorrer, excepcionalmente, de forma virtual – como respaldado por parecer do setor jurídico do sindicato divulgado no dia 1/7. A plataforma de videoconferências utilizada será o Google Meet e o momento também será transmitido ao vivo no canal da ADUFC no YouTube.

Abaixo, preparamos um passo a passo detalhado de como acessar a plataforma, modo de funcionamento da Assembleia e recomendações para mantermos a organização e estabilidade da sala virtual. Confira:

INSTRUÇÕES DE ACESSO PARA ASSEMBLEIA VIRTUAL

Como a plataforma Google Meet limita cada sala virtual a 250 participantes, para efeito de controle de votação e lista de presença de docentes, teremos uma sala principal e salas secundárias disponíveis para garantir a participação de todos de forma efetiva. A Assembleia Geral Extraordinária Virtual também será transmitida ao vivo através do canal da ADUFC no YouTube.

A sala principal será a utilizada para a transmissão ao vivo. Recomendamos que os/as docentes que entrarem nas salas secundárias acompanhem a discussão da Assembleia através da transmissão ao vivo no YouTube, utilizando o chat da sala virtual no Google Meet para manifestação de voto e inscrição de fala por escrito. Os chats das salas serão gravados para conferência posterior de presenças e votos.

Links de acesso para salas virtuais:

Sala principal: http://bit.ly/AssembleiaAto2509
Secundária 1: http://bit.ly/AssembleiaAto02
Secundária 2: http://bit.ly/AssembleiaAto03
Secundária 3: http://bit.ly/AssembleiaAto04

Cada sala secundária será acompanhada por funcionário/a da ADUFC e/ou membro da diretoria do sindicato para auxiliar os/as docentes durante a votação e controle de presença.

O/a docente que se inscrever para fala e estiver acompanhando a Assembleia a partir de uma sala secundária terá seu direcionamento para a sala principal viabilizado no momento de sua fala


COMO ACESSAR

VIA CELULAR
Passo 1
Para quem irá utilizar o celular, será necessário baixar o aplicativo “Google Meets” na loja de aplicativos do seu aparelho (Google Play StoreApp Store).

Passo 2
Após o download e instalação do aplicativo, será necessário entrar com seu e-mail do Google (Gmail) na plataforma. Os e-mails institucionais das universidades (@ufc.br, @unilab.edu.br ou @ufc.edu.br) são acessados através do Gmail e podem ser utilizados para conectar ao Google Meets. Ao finalizar a conexão com o e-mail, o aplicativo pode ser fechado.

Passo 3
No dia e horário da Assembleia, acesse o link disponibilizado – ao clicar, o aplicativo Google Meets abrirá automaticamente. Ao acessar a plataforma, agora, será solicitado acesso a microfones e câmeras: você deverá permitir o uso. Se o aplicativo também solicitar inclusão de nome, inclua seu nome completo.

Passo 4
Ao finalizar autorização da permissão de uso de microfones e câmeras e inclusão do nome, clique em “Participar agora” ou “Join now”. Aguarde alguns minutos até que a sua solicitação seja aprovada e você possa entrar na sala.


VIA COMPUTADOR
Passo 1
Para quem irá utilizar o computador, basta acessar o link disponibilizado através do seu navegador (Chrome, Firefox, Safari, etc), no dia e horário da Assembleia.

Passo 2
Ao acessar o link, se já não estiver conectado ao seu e-mail do Google (Gmail), a plataforma solicitará que faça o login. Os e-mails institucionais das universidades (@ufc.br, @unilab.edu.br ou @ufc.edu.br) são acessados através do Gmail e podem ser utilizados para conectar ao Google Meets.

Passo 3
Ao realizar o login na plataforma, o site solicitará permissão para uso de microfones e câmeras pelo Google Meets: você deverá autorizar. Se a plataforma solicitar a inclusão de um nome, inclua seu nome completo.

Passo 4
Após autorizar o uso de microfones e câmeras e inclusão de seu nome, clique em “Participar agora” ou “Join now” e aguarde alguns minutos até a aprovação da sua entrada na sala.


FUNCIONAMENTO DA ASSEMBLEIA

A Assembleia Geral Extraordinária Virtual também será transmitida ao vivo através do canal da ADUFC no YouTube (http://youtube.com/adufc-sindicato).

Ao entrar na sala, o/a docente deverá escrever seu nome completo, departamento e se é docente ativo/a ou aposentado/a no chat disponível no Google Meet.

Inscrições de fala deverão ser feitas durante a Assembleia através do chat disponível no Google Meet. Ao solicitar sua fala, insira seu nome completo + inscrição de fala na mensagem e aguarde a confirmação e instruções.

Recomendamos o uso de e-mail próprio para acesso à plataforma. Se estiver conectado em e-mail de terceiros, desconecte esta conta e se conecte através de sua conta pessoal de e-mail.

Para que tenhamos estabilidade na conexão de todos e na tentativa de manter a organização, recomendamos que todos que não estiverem em seu momento de fala mantenham microfones e câmeras desligados.

A votação de pautas apresentadas na Assembleia se dará por escrito nos campos de chat (Meets e YouTube) para facilitar a contagem e conferência posterior. Para votar, quando sinalizado, o/a docente deverá escrever seu nome completo seguido de sua posição (favorável, contra e abstenção) nos chats disponíveis.

A Assembleia terá regimes de Votação e de Contagem de Votos, cada um durando até cinco minutos, anunciados pela mesa diretora. A votação se dará por escrito no chat como indicado no parágrafo anterior. Durante o regime de contagem de votos, o/a docente NÃO deverá escrever nada no chat disponível.

Mensagem de Paulo Freire às educadoras e educadores do MST!

“No fundo, o processo de reforma agrária inaugura uma nova história dos homens e das mulheres. Inaugura uma nova cultura, a cultura que nasce de um processo de transformação do mundo, e por isto mesmo, ela implica em transformações sociais.”

Em 1996, Paulo Freire gravou um depoimento para as educadoras e educadores do MST. Nele, ele fala sobre educação e a necessidade da Reforma Agrária.Hoje, 19 de setembro, data de seu nascimento, o MST reitera o grandioso legado de Paulo Freire para a educação e sobretudo, para o povo brasileiro! Viva Paulo Freire! Manteremos vivos a sua memória e seu legado.

Link da matéria fonte: aqui

ASSISTA TAMBÉM A REPRISE DO LANÇAMENTO DA REDE PAULO FREIRE

Link da live realizada no YouTube: @CírculoDeEducaçãoDoProjetoMandacaru

NOTA DO FÓRUM RENOVA ANDES – SOLIDARIEDADE ÀS COLEGAS E AOS COLEGAS DA FACULDADE DE DIREITO DA UFC

Chegou a nosso conhecimento a perseguição sofrida pelos professores da Faculdade de Direito da UFC, Newton Albuquerque, Cynara Mariano, Beatriz Xavier, Gustavo Cabral e Filipe Albuquerque.

Este grupo, com atuação no movimento docente, liderou uma chapa de oposição à direção da Faculdade de Direito e, desde então, tem levado um combate democrático, franco e aberto à atual administração da Faculdade e da UFC. O grupo de professores não tem se furtado a lutar contra a intervenção do Governo Bolsonaro na Reitoria da UFC.

Em função desta atuação, exercida no terreno da democracia, como é de direito de qualquer membro da comunidade, os membros do corpo docente acima referidos têm sofrido graves retaliações, configurando assédio: 5 ações por danos morais, abertura de sindicância administrativa e processo administrativo, com indicação de demissão, a ser concluído em 60 dias.

O Fórum Renova Andes se coloca em total solidariedade com professoras e professores atingidos e se compromete a dar a maior divulgação à denúncia desta violência que se abate sobre docentes e sobre a própria democracia.

  • Não toquem em Newton Albuquerque, Cynara Mariano, Beatriz Xavier, Gustavo Cabral e Filipe Albuquerque.
  • Fim das perseguições e retirada de todas as ações cíveis e administrativas contra eles.
  • Fora Interventor! Fora Bolsonaro!

Leia a nota na íntegra clicando aqui:

Fórum Renova ANDES

Bens comuns e bem viver

Por: Cândido Grzybowski – Sociólogo, diretor do Ibase

Publicado originalmente no site da revista Educação Pública

A crise climática, de algum modo percebida pelas mais diferentes pessoas a partir de seu cotidiano, virou senso comum. Com isso, vivemos um daqueles momentos raros da história humana em que é possível instaurar um debate sobre os próprios fundamentos do nosso modo de vida. Basta extrair do senso comum o bom senso transformador, no exato sentido que lhe deu Gramsci falando da constituição de movimentos irresistíveis de transformação com capacidade de conquista de hegemonia na sociedade – reconhecimento e convencimento político e cultural da legitimidade e justeza da causa por amplos setores no interior da sociedade civil, o berço da cidadania.

A civilização dominante, em que a riqueza de um povo é medida pelo ter sempre mais e mais bens, pela renda per capita, pela acumulação e crescimento do PIB, foi feita a pau e fogo, literalmente, durante alguns séculos da recente história humana. Conquista e colonização, com escravidão, de povos inteiros, Revolução Industrial e um modo de vida baseado no produtivismo e consumismo sem limites. Imperialismos e guerras, mudando de mãos e territórios, foram se sucedendo na medida da necessidade, para garantir a dominação da tal civilização até hoje. Com a globalização capitalista das últimas décadas, ela virou referência para praticamente toda a humanidade.

Apesar do seu fascínio, conquistando corações e mentes quase sem fronteiras, o fato é que o estilo de vida desta civilização tem a exclusão social e a destruição ambiental como pressuposto incontornável. Daí a importância do senso comum sobre a crise ambiental. Começa a surgir a consciência de que assim não dá, o planeta não suporta. Seriam necessários cinco planetas para a humanidade inteira (os sete bilhões que somos) ter o nível médio dos norte-americanos. Pior: o tal footprint – a pegada ecológica – aponta que o planeta nem tem recursos para prover a humanidade inteira se o padrão fosse a média brasileira. Ou seja: definitivamente, assim não dá. O jeito é mudar. Mas eticamente não dá para salvar o planeta e esquecer a humanidade. Como conciliar agenda da justiça social e da justiça ambiental? Eis a grande questão para a cidadania e a democracia. Este é o bom senso a extrair como agenda transformadora do momento histórico que vivemos.

Precisamos mostrar a própria crise de civilização que está por trás da crise climática. Temos que começar questionando os princípios e valores que embasam a ideia da qualidade de vida produzida pelo produtivismo e consumismo da atual civilização. Mais: temos que reconstruir o elo perdido com a biosfera e a ética, que a ciência e a tecnologia romperam. É indiscutível o enorme poder de domínio da natureza e da vida da ciência e tecnologia materializadas em meios de produção e na industrialização de todos os setores da atividade humana. Mas seu avanço se deu às custas da natureza, usando-a de forma destrutiva, não sustentável, em termos ambientais e em termos sociais. Esta civilização intensiva em carbono e matéria está provocando o desastre climático. Precisamos começar por descarbonizar, desmaterializar, relocalizar a economia – produzir aqui, com as possibilidades daqui, para consumir aqui. Trata-se de parar de buscar o crescimento a todo custo e voltar-se mais à felicidade humana, reencontrar-se e reinserir-se como parte de toda a vida natural e do seu ciclo regenerativo. Estamos diante de um imperativo ético, da vida no planeta, de toda a vida, desta e das gerações futuras. A condição é sair de uma civilização do ter e acumular e buscar o bem viver, com todos os direitos humanos para todos os seres humanos, respeitando os direitos da própria mãe natureza, patrimônio comum da vida.

Essa mudança de mentalidades e práticas traz ao centro da questão os bens comuns, os bens que são de toda a coletividade. O bem viver tem como pressuposto o compartir entre todos e todas os bens comuns, como condições mesmas da vida. Organizar a sociedade em torno dos bens comuns é revalorizar a coletividade como condição da própria sustentabilidade. Cabe à coletividade zelar pelo acesso de todos e pela conservação e uso sustentável de seus bens comuns. Mais: é na participação em igualdade de condições de todos os integrantes da coletividade, democraticamente, que a gestão de seus bens comuns torna-se garantia de manutenção de seu caráter de bens comuns e do bem viver coletivo. Estamos diante de uma junção fundamental entre bases da vida e democracia, entre justiça ambiental e justiça social, com participação ativa da cidadania.

São bens comuns o que recebemos como dons da natureza: a água e a chuva, as nascentes, os rios e os mares, os ventos e o sol, o clima e a atmosfera como um todo, a biodiversidade, os solos e sua fertilidade, os minerais. A lista dos bens comuns naturais é imensa, e o modo de acesso e uso deles é questão fundamental da qualidade de vida, com sustentabilidade e justiça, na perspectiva do bem viver. São condições naturais da própria vida. Alguns são finitos, como os recursos minerais – entre eles o carvão mineral, o petróleo e o gás, fruto de decomposição de matéria orgânica ao longo de milhões de anos. Outros são em estoque dado, como a água. Outros, como o sol e os ventos, são recursos ilimitados. Acontece que os bens comuns naturais, como patrimônio de toda a humanidade, estão desigualmente distribuídos no planeta. Isso marca as possibilidades e as diferentes culturas dos povos. Mas impõe uma questão ética e de justiça: como compartir entre todos e todas os bens comuns naturais? Um absurdo inventado pela humanidade e particularmente expandido pelo capitalismo capturou grande parte dos bens naturais como propriedade de indivíduos, grupos e povos. Na origem, propriedade dos mais fortes, virada direito garantido pelas leis e tribunais.

Alguns bens comuns são únicos, como as belezas naturais e os grandes ecossistemas que regulam o próprio clima na Terra, como as grandes florestas tropicais, as estepes, os polos, as cordilheiras geladas. Sua divisão ou mau uso pode levar à destruição, afetando o conjunto da vida e da humanidade. Sua gestão como patrimônio da humanidade é incontornável. Mas tal imposição é também necessária na exploração e uso de energia fóssil, na medida em que sua queima descontrolada e desigual afeta o clima de todos e revela injustiça climática.

Bens comuns, porém, não são só os naturais, por mais fundamentais que eles sejam para a própria vida. A genialidade coletiva da humanidade gestou, ao longo do tempo, bens comuns produzidos de fundamental importância para o bem viver. São as diferentes manifestações culturais, as línguas, as filosofias e as religiões, a educação, a informação e a comunicação, a ciência e a técnica. São bens comuns ilimitados que quanto mais se compartem mais crescem. Eles são a fronteira de expansão do bem viver, da felicidade humana. O desafio central que ameaça os bens comuns criados é a propriedade intelectual, um artifício do capitalismo para tornar escasso e vendável o ilimitado. O exemplo mais notável, no momento, é o que se passa com a revolução das tecnologias de informação e comunicação, em particular a internet e o software. A luta entre software livre e software proprietário – Linux contra Microsoft – é entre o bem comum e a propriedade intelectual. Extensivamente, pode-se dizer que, nesta era de comunicação, a mídia em geral está diante da possibilidade de expansão ilimitada da “mídia cidadã”, livre, pautada pelo bem comum, versus a “mídia proprietária”, dos donos privados dos meios.

Gostaria de concluir este ensaio exploratório sobre as possibilidades de um novo paradigma transformador, pautado pelo bem viver, falando das cidades como bem comum. A tragédia que se abateu sobre o Rio de Janeiro, particularmente sobre aquelas comunidades excluídas de algum modo e condenadas a viver sobre lixões, nas encostas íngremes ou nas áreas inundáveis baixas, próximas de rios, nos deve fazer pensar como tratamos nosso grande bem comum, a cidade.

As cidades são um bem comum em permanente mudança e, ao seu modo, bens únicos. Já temos as reconhecidas cidades históricas, tratadas como patrimônio cultural da humanidade. Mas as cidades, todas as cidades, são bens comuns, bens de todos os seus moradores. Por isso a reivindicação da cidadania ativa do direito à cidade para todos e todas que aí vivem. Não basta considerar as vias de comunicação, as ruas e avenidas, as praças e parques, bens públicos fundamentais, como os únicos bens comuns das cidades. Como conjunto, as cidades são um bem comum. As capacidades aí existentes, as instituições criadas ao longo do tempo, a sinergia criadora do coletivo, enfim, são muitos os aspectos que tornam a cidade um bem coletivo, comum, de todos e todas. Seu usufruto coletivo, o compartir a cidade, só aumenta seu valor como bem comum. Mas existem os problemas, não só os evidentes – como estes durante a tragédia do Rio – mas os que se gestam por privilégios, por exclusões, por segregações, enfim, pelas práticas privatistas, discriminatórias e individualistas de seus habitantes e pelas políticas públicas construtoras e reguladoras da cidade como bem comum, quase sempre orientadas segundo os interesses dos mais poderosos. A cidade como um bem comum e território único, como sítio natural em simbiose com a construção humana ao longo de gerações, é o fundamento de uma nova economia e novo poder, localizados para construir as bases do bem viver, democráticas e sustentáveis.

MEMÓRIAS DE QUARENTENA 57: Novo caminho do autoconhecimento e autocuidado

Por: Aurilene Vidal (Assistente Social; Terapeuta e Consteladora Familiar)

A quarentena para mim está sendo o momento de aprofundar esse processo de autoconhecimento que venho trilhando nesses últimos anos. Quem pensa que autoconhecimento é um processo romântico, está enganado. Se conhecer, se desnudar é desafiador. Dar-se conta de como você tem atitudes egoístas, mesquinhas, violentas, coisas que te afastam da tua essência de tornar-se um ser humano melhor a cada dia. Olhar para tuas dificuldades, reconhecê-las, acolhê-las e dizer: Amanhã vou ser melhor do que eu fui hoje. Praticar diariamente um processo auto-avaliativo e que um dia meus defeitos possam fazer parte do passado e sair da minha vida de forma definitiva, não é fácil, mas é possível.Esse processo de mudança foi mais profundo quando comecei a ter contato com a constelação familiar, com a prática do yoga, com a justiça restaurativa, com a comunicação não violenta e, hoje, com a filosofia prática. Esses conhecimentos lhe puxam para cima. Despertam em você um desejo de saber mais das coisas que verdadeiramente fazem sentido para a vida. Ao facilitar uma constelação e ver como resultado a liberação de uma dor que há tempos fazia o outro sofrer, mediar um círculo de paz, de responsabilização, e perceber como é transformador na vida das pessoas, me dá a certeza que estou no caminho certo. Esse processo de mergulho para dentro de si, não é fácil, mas é muito gratificante. Ver que, de alguma forma, você está contribuindo com a melhoria da saúde emocional sua e do outro e, assim, ajudar para que possamos ter relações mais afetivas, respeitosas, justas, fraternas, éticas, sem raiva, rancor e tristeza. Isso aos poucos vai modificando a nós mesmos e o nosso entorno. Isso pra mim é autocuidado, aprender a lidar melhor com as suas emoções, não se tornando prisioneira delas.Hoje, acredito que se pudermos contribuir para que o ser humano se torne mais humano, menos egoísta, violento, mesquinho e infeliz, de fato vamos poder ver diminuir várias injustiças, pois, uma pessoa feliz, de bem com a vida, com sentimentos elevados, não tem a necessidade de machucar o outro, de fazer mal ao outro, de enveredar pelo fanatismo religioso. Ela vai sentir a presença do sagrado nela. Quando aprendermos verdadeiramente que não existe o outro, é tudo nós, iremos assim dar um salto como seres humanos. Tem um conto que diz o seguinte: o discípulo chega para um homem muito sábio e diz, “Mestre, quando você morrer vai direto para o céu de tão bom que você é”. Ele se vira para o discípulo e diz “eu não, eu vou é para o inferno”. O discípulo fica sem entender nada. O Mestre, vendo sua agonia, explica: “se eu for para o céu, quem vai lhe tirar do inferno?” Ou seja, de que adianta ir para o “céu”, quando eu sei que há pessoas no inferno. Só vale a pena ir para o céu, se forem todos para lá. Quando comecei a tomar consciência disso. foi libertador e me dá cada dia mais a vontade de ser um ser humano melhor. Tem uma frase de Platão, muito citada pela professora Lúcia Helena (Galvão?), uma filósofa de quem eu gosto muito: “a melhor coisa que você pode fazer pelas pessoas que ama é crescer como ser humano.” O processo do autoconhecimento exige mudança de comportamento e de hábitos. Não adianta ler, conhecer e não praticar todos esses aprendizados. E o mais importante é ter consciência de que esse percurso é feito degrau a degrau. E que vai ter momentos que eu vou descer um degrau e amanhã subi-lo novamente. E assim vou construindo essa caminhada de forma lenta e convicta.Vou falar um pouquinho de como cada um desses processos de aprendizagem modificaram e modificam minha vida cotidianamente. Com o Yoga, aprendo a respirar corretamente e perceber a importância disso na minha vida prática, a ter mais disciplina, acordar às seis da manhã para meditar. Com a constelação familiar, aprendo quão importante é o perdão para a cura das nossas feridas. Com a justiça restaurativa, como todos nós somos também responsáveis pelo delito do outro. Gosto muito de uma passagem do livro “O Profeta”, de Khalil Gibran, quando ele fala do crime e do castigo: “e assim como uma única folha não fica amarela sem o consentimento silencioso da árvore inteira, o malfeitor não pode fazer o mal sem a vontade oculta de todos vós.” Essa é a coisa mais transformadora que eu aprendi com tudo que estou estudando e vivendo. Não adianta ir para o céu, se um semelhante a mim está no inferno. Isso seria egoísmo profundo. E o egoísmo é a causa de todos os males, eu acredito nisso. Portanto, se queremos de fato construir outra sociedade, ela passa indiscutivelmente pela transformação do ser humano. Ser uma pessoa melhor e com isso contribuir, a partir do seu exemplo, para que o outro também seja melhor, é hoje meu objetivo de vida. Esse objetivo não é fácil, como disse, vou cair muito, mas vou me levantar e continuar. Para mim, autocuidado é isso, cuidar de si e do outro.Quando você inicia esse processo, percebe visivelmente as mudanças no seu entorno, você desenvolve um sentimento de gratidão, de alegria com as coisas mais simples do seu cotidiano. E todos os dias me pergunto o que eu aprendi hoje, o que eu ainda preciso matar dentro de mim, para continuar na busca da unidade com todos os outros seres. Dhammapada é um livro da doutrina Budista e tem uma passagem que diz: “melhor que mil palavras vãs é uma simples palavra que dá paz a quem a ouve.” Eu acho isso muito forte, e todos os dias eu peço o discernimento para ter a palavra certa que possa contribuir com o processo de crescimento do outro e, consequentemente, do meu. Isso me faz ficar mais atenta aos meus atos, palavras, gestos e pensamentos. E, toda vez que eu perceber que não agi como um ser humano de verdade, eu possa fazer a autocrítica e modificar aquela ação, atitude… Hoje eu sei mais do que nunca que violência não se combate com violência, que precisamos cada vez mais ser responsáveis pela construção do mundo melhor, onde todos estejam incluídos. Só reforçando, não é fácil, mas é possível. Hoje sem dúvida eu sou melhor do que ontem e amanhã quero ser melhor do que hoje.

Postado por: George Assunção

Postado em: 18/09/2020

NOTA DE REPÚDIO – ADUFC denuncia perseguição política praticada por intervenção na UFC contra professores da Faculdade de Direito

“A tentativa de criminalização dos/as docentes em questão por parte do interventor da UFC e do diretor da referida faculdade tem como instrumento cinco ações de indenização por danos morais, a indicação de uma sindicância administrativa e a abertura, pelo interventor, de Processo Administrativo Disciplinar (PAD) sem sindicância prévia, com indicação de demissão, a ser concluído em 60 dias. Tudo isso, fundamentado em suposta insubordinação grave, mas com notória natureza de perseguição política, tendo em vista, além da atuação dos/as professores/as no movimento docente da UFC, o fato de terem disputado com o próprio interventor e o atual diretor da Faculdade de Direito as últimas eleições para a diretoria da faculdade.”

Leia a nota de repúdio logo a baixo

A Diretoria da ADUFC-Sindicato vem a público repudiar veementemente o assédio moral praticado na Universidade Federal do Ceará contra os/as professores/as Beatriz Xavier, Cynara Mariano, Felipe Braga, Gustavo Cabral e Newton Albuquerque, todos/as da Faculdade de Direito. Todos também representantes sindicais da ADUFC, sendo quatro deles/as membros do Instituto Latino Americano de Estudos sobre Direito, Política e Democracia (ILAEDPD) e integrantes da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD).

A tentativa de criminalização dos/as docentes em questão por parte do interventor da UFC e do diretor da referida faculdade tem como instrumento cinco ações de indenização por danos morais, a indicação de uma sindicância administrativa e a abertura, pelo interventor, de Processo Administrativo Disciplinar (PAD) sem sindicância prévia, com indicação de demissão, a ser concluído em 60 dias. Tudo isso, fundamentado em suposta insubordinação grave, mas com notória natureza de perseguição política, tendo em vista, além da atuação dos/as professores/as no movimento docente da UFC, o fato de terem disputado com o próprio interventor e o atual diretor da Faculdade de Direito as últimas eleições para a diretoria da faculdade.

A ADUFC ressalta que esse é mais um capítulo da intervenção política do Governo Bolsonaro na UFC, que em total desrespeito à autonomia universitária, ameaça a pluralidade acadêmica absolutamente necessária ao avanço científico e corrobora com a tentativa de destruir as instituições democráticas do país.

Reafirmamos, com isso, a disposição do nosso sindicato de se opor incansavelmente a esta e a outras investidas do fascismo no Brasil, assim como aos ataques do governo federal contra o povo brasileiro e as liberdades política e de cátedra.

Fortaleza, 16 de setembro de 2020
Diretoria da ADUFC-Sindicato
Gestão Resistir é Preciso (Biênio 2019-2021)

Nota de repúdio da Associação Brasileira de Economistas pela Democracia (ABED)

A Reforma Administrativa não resolve nenhum dos problemas reais do setor público brasileiro e cria ou piora muitos outros.

Brasília-DF, 16 de setembro de 2020.

A Associação Brasileira de Economistas pela Democracia (ABED) é uma organização sem fins lucrativos e suprapartidária, que atua para construir um projeto de desenvolvimento para o Brasil sustentável, dinâmico e inclusivo, voltado para a redução das desigualdades sociais e regionais, eliminação da fome e da pobreza, respeito ao meio ambiente e aos direitos da cidadania, assim como para a valorização da cultura e da identidade e soberania nacional.

A ABED DF vem a público se manifestar contra a proposta de reforma administrativa que o governo federal apresentou à sociedade brasileira por meio da PEC 32/2020. Ela parte do pressuposto equivocado de que o péssimo desempenho econômico do país se deve quase exclusivamente aos salários de servidores públicos. Para sustentar esse argumento falacioso, distorce e sonega informações, tal como ocorrera com as reformas trabalhista e previdenciária, sem que nenhum resultado positivo ou prognóstico do governo e da grande mídia tenham até o momento se realizado.

Leia a nota na íntegra clicando aqui:

Postado Por: George Assunção

Postado em 18/09/2020

MEMÓRIAS DE QUARENTENA 56 – SAÚDE MENTAL: ENTRE SUBJETIVIDADES E LUTA POLÍTICA

I)
Por: Gicelia Almeida (Assistente Social, Conselheira do CRESS-CE, militante do FLAM e do NEABI- IFCE DMde Fortaleza).

Falar sobre as diversas lutas que travamos nesta pandemia. As subjetivas e as objetivas. Mas, sobretudo, a busca por manter a sanidade. Isso foi muito presente para mim.
As insanas lutas. Contra a pandemia?
Era um dia como outro qualquer, seguiam-se as reflexões sobre como construir as articulações de resistências contra um neoliberalismo, contra o fascismo que com muito mais força avançava suas investidas. Refletíamos sobre quais seriam as melhores táticas de luta para manter os sistemas públicos de educação, saúde, assistência, ambiente e outros. Como poderíamos unir pessoas para ampliar as lutas contra as opressões do sistema; os grupos das redes sociais estavam a toda força, muitos debates ocorrendo. Pessoas que se juntavam para resistir ao aumento dos ataques contra as políticas públicas, que foram duramente atingidas. As políticas de saúde mental, as quais estão deficitárias desde sua implantação na década de 1990, estavam na linha de frente. Seriam elas as mais progressistas entre todas as outras?
Entre 2016 e 2020, pelo menos 8 alterações na legislação foram emitidas pelo Governo Federal. As mudanças já vinham ocorrendo desde 2013; todavia os recursos para os sistemas de saúde pública jamais foram realmente levados a sério, isso pensando apenas a partir de 1988. A redução de recursos cria verdadeiras fissuras no sistema de cuidado substitutivo ao manicômio. Lembremos aqui os Centros de Atenção Psicossocial – CAPS, os quais aparecem como carro chefe de muitos serviços, que a Portaria 336/2000 criou para o cuidado das pessoas com transtornos mentais, uma Rede de Atenção Psicossocial que cuida dos indivíduos e apoia seus familiares.
Entre as alterações na legislação do sistema, temos: a ampliação de recursos para os hospitais psiquiátricos (2018), que desde a primeira década de 2000, não mais era central para a rede de cuidado da saúde mental, conforme Portaria Nº 10.216/2001; a EC 95 (2019) também gera redução de recursos para as políticas de saúde mental, pois congelou os gastos da União com despesas primárias por 20 anos, corrigidos pela inflação medida pelo IPCA. Nitidamente, o projeto que se instala, após o golpe antidemocrático em 2016, é de aumento do desmantelamento das políticas públicas, privatizações dos sistemas de proteção social e da precarização da vida, uma vida sem diversidades, uma necropolítica.
E então chegamos ao dia 17 de março de 2020, A pandemia muda tudo? Os governos estaduais, por decretos, determinaram as medidas de distanciamento social. A vida freou bruscamente para alguns, desacelerou outros, e para muitos ela apenas ficou mais difícil. Jamais se viu tal movimento; algo bem distante e temido, quase um delírio, se mostrava real. Todos deveriam se recolher e aguardar a pandemia passar, resistir para não tombar. Um atordoamento coletivo. As notícias para compreender o cenário vieram de todas as partes do Globo, as enxurradas de informações, estatísticas, explicações científicas. A negação da ciência também ocupou espaço nas mídias. A luta agora era para se manter distante do vírus e atentos às próximas orientações oficiais. O distanciamento social disparou gatilhos em muitos de nós. Tudo parou. Tudo mudou de plataforma, as redes sociais passaram a conduzir nossas horas, nossos corpos e corações. Lives regadas a álcool e a muitas informações, debates, disputas de narrativas. As novas organizações da velha vida passaram à esfera virtual. O real foi virtualizado.
Mas a vida tinha que continuar. Algumas categorias precisaram manter as estruturas funcionando, quase todos aqueles que atuam na esfera do cuidado tiveram que seguir a luta nos seus espaços de trabalho. Trabalhadores da saúde, entregadores, garis, trabalhadores do comércio, foram apontados oficialmente como essenciais para a manutenção da vida dos que estavam isolados. Outros não essenciais para a coletividade, mas que deixaram à vista a expressão egóica de grupos sociais, tiveram que se manter trabalhando, as empregadas domésticas.
A luta continuou para todos, mas naqueles primeiros meses, parecia que tudo estava suspenso, parecia que tínhamos nos tornado realmente iguais. Passado o susto inicial, a normalidade dos embates tomou uma nova normalidade. Começando por reconhecer que o Sistema Único de Saúde, apesar de frágil, era uma potência capaz de assegurar os cuidados de saúde à população. Ele foi a linha guia para a organização social. Não explodir os sistemas hospitalares era o horizonte.

II)

Por: Cláudia Oliveira (Profa. Depto História UFC e Fórum Cearense da Luta Antimanicomial)
Uma das lutas travadas por vários movimentos e coletivos, no dramático momento da pandemia, ocorreu em relação a mais uma medida autoritária protagonizada pelo Governo Federal em julho de 2020, com a publicação de documento referente à regulamentação do acolhimento de adolescentes em comunidades terapêuticas, aprovada pelo Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (CONAD). O documento representa uma afronta tanto às diretrizes do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), apoiadas no dever do Estado de cuidar e proteger crianças e adolescentes, como à Política de Saúde Mental, em garantia do fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) no cuidado em saúde mental em liberdade. A rápida e urgente mobilização da sociedade civil produziu importante e contundente carta de repúdio ao CONAD, com a denúncia sobre a própria perda de legitimidade do Conselho, após a alteração de sua composição, com a publicação do Decreto Presidencial nº 9.926/2019, tornando-se uma mera extensão do Estado, violador de direitos humanos.
A carta de repúdio e denúncia tornou-se uma grata expressão da força da sociedade civil organizada, na medida em que possibilitou o envolvimento e a assinatura de mais de duas centenas de atores sociais e políticos, entre os quais associações, conselhos, comissões, parlamentares, sindicatos, fóruns, grupos de estudos, pesquisas acadêmicas. A carta apresenta-se como resposta coletiva à necropolítica em vigor, cujo protagonismo é não apenas representado na figura política do Governo Federal, mas expresso pelo setor hegemônico da economia brasileiro, a partir do capital financeiro e das grandes corporações, que adoecem e matam seus trabalhadores e trabalhadoras.
Em tempos de pandemia, as manifestações da sociedade civil organizada nos dão respiro e esperança na construção das resistências e lutas, em defesa da diversidade da sociedade brasileira e da política de saúde mental, inclusiva, popular e em liberdade.

Postado por: George Assunção

Postado em: 17/09/2020

MEMÓRIAS DE QUARENTENA 55: SOBRE VAPORES E PEDRAS

Por: Ana Paula Rabelo (Professora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afrobrasileira UINLAB-CE)

Dois passos depois do último suspiro, percebi que as pedras evaporavam com a urina que impregnava a praça. O papelão, as garrafas de plástico ainda com água e as latas de refrigerantes vazias se misturavam com o vapor. Senti uma vertigem. Sentei na ponta do banco para não cair, mas o chão estava mais próximo do que o próximo passo, do que a próxima pulsação… Com as pernas abertas, cotovelos nos joelhos e mãos ainda segurando a cabeça, levantei sobrancelhas e olhos em direção ao cinema, mas a coluna da hora obstacularizava a cena plena…
Fiquei na dúvida se estava em 2020 ou se ainda em 1960, quando logo um ônibus poderia passar por ali, ou em 1990, quando cavalos da guarda, a qualquer instante, trotariam e cagariam. Ouviria os cascos batendo nas pedras, olhando para o céu… O sorvete azul da menina cairia silenciosamente ao atravessar a rua. Os sons daqueles tempos foram vindo me visitar, tão sólidos que cheguei a sentir a mão da minha mãe me puxando, quase me arrastando, em seu passo apressado-miúdo, para atravessar aquele mar de pernas. Mamãe entrelaçava seus dedos nos meus como quem fecha a casa em dias chuvosos. Levantei ainda mais a sobrancelha e os olhos para testar meus sentidos, mas não conseguia ver rosto nenhum. Ninguém. E, no segundo seguinte, apesar das badaladas, era o relógio vermelho que derretia como vela, sem piedade. Deixando cair pingos quentes no buraco dos desejos. Corri para perto do poço, precisava segurar os pingos e impedir que a fonte de nossos desejos fosse selada…
Só percebi o suor escorrendo pelas costas, quando o vento voltou intenso, pregando um filete de papelão no meu tornozelo. Enxuguei as mãos frias na calça comprida, ajustei a máscara e os óculos embaçados e olhei de novo para o cinema. Já conseguia ver a porta, mas as palavras ainda estavam embaralhadas por lá e por cá. Aqui dentro, nenhum pensamento fazia sentido. Aqui dentro, estava perdida no tempo. Era dia e a praça vazia de gente me deixava enlouquecida de memórias e de existências. Quem estava morrendo, afinal? Um tempo? Um lugar? Um sonho? Eu? 100 mil pessoas?
Ou tudo morria e nascia?
Voltei para o banco, apertei bem os olhos e tive a sensação de que aquele vazio extremo era o contrário de uma tempestade, de uma inundação, de um desabamento… 2020 era sucção, vácuo, partidas, estar sem estar, um sentir teatral de afetos e, ao mesmo tempo, um desejo violento de aprender a ser outro, com o melhor do humano em sua existência coletiva.

Postado por: George Assunção

Postado em: 16/09/2020

MEMÓRIAS DE QUARENTENA 54 – VELHOFOBIA: em tempo de pandemia

Por: Jacira do Nascimento Serra (médica geriatra, gerontóloga, Professora do Departamento de Medicina da Universidade Federal do Maranhão)

A ampliação do tempo de vida é uma das maiores conquistas da humanidade. A transição demográfica, antes evidenciada apenas em países desenvolvidos, desde os anos 1980, passou a ser visualizada também no Brasil, em ritmo acelerado, em um curto espaço de tempo. Na atualidade, o Brasil apresenta 29,9 milhões, de pessoas com idade igual ou superior aos 60 anos, com previsão de 72,4 milhões, em 2100. O ritmo dessas mudanças é distinto em cada uma das regiões geográficas do país, refletindo as assimetrias espaciais do desenvolvimento econômico e social.
Nesse contexto, o Brasil tem mais um grande desafio a ser enfrentado: o acelerado processo de envelhecimento populacional, em um cenário de desigualdades abissais. Associado ao vertiginoso crescimento da população idosa, ocorre o aumento das doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) e suas sequelas, ocasionando um número expressivo de pessoas idosas com dependência e perda da autonomia, com sérias implicações individuais, familiares e sociais.
No ano de 2020, o mundo e o Brasil foram assolados pela pandemia da COVID-19, provocada pelo vírus Sars-CoV-2, condição que se caracteriza por uma alta transmissibilidade e demanda por serviços de saúde, a despertar preocupações na comunidade científica, entidades epidemiológicas, autoridades sanitárias e população em geral. Atinge indivíduos de todas as faixas etárias, mas as pessoas com 60 anos ou mais demonstram maior vulnerabilidade quanto à incidência da Covid-19, com maior risco de complicações e letalidade. Durante essa pandemia, o mundo e o Brasil adotaram medidas de isolamento e distanciamento, gerando danos financeiros e emocionais, que afetaram, diferentemente, cada grupo geracional, em especial, às pessoas idosas no âmbito familiar e social.
A orientação do isolamento social aumenta o risco para as diversas formas de violência intrafamiliar pelo somatório de questões implicadas: tensão do receio da doença e da morte iminente; risco da perda de emprego; convívio diário intenso e inesperado; ausência do restante dos familiares; lares multigeracionais; aglomeração de pessoas num mesmo espaço; falta de condições, de disponibilidade de tempo e de vontade para cuidar dos idosos; dispensa do cuidador formal; estresse do próprio cuidador.
Há de se ter presente um dado alarmante a ser pontuado no contexto brasileiro: a pandemia afeta, de forma mais cruel, os pobres, os negros e os velhos, visibilizando, em todas as suas matizes, a violência estrutural social. Um segmento expressivo de idosos não consegue seguir as recomendações das autoridades sanitárias, simplesmente porque não pode e não por não querer. Muitos são os casos incluídos nessa impossibilidade: idosos em situação de rua; idosos que habitam casas com muitas pessoas, em pequenos espaços, sem condições do pretendido distanciamento social; idosos que estão nas periferias das grandes e pequenas cidades; a população idosa rural desassistida que, muitas vezes, não têm sequer água para lavar as mãos e perspectiva alguma de cuidados. Uma outra situação dramática é a dos idosos e idosas que vivem em Instituições de Longa Permanência (ILPIs), sem estrutura física e financeira, sem equipamentos de proteção para idosos e funcionários, com um número reduzido de profissionais de saúde, que não foram capacitados para enfrentar a pandemia da Covid-19.
Ademais, é preciso considerar os muitos idosos que fazem parte do imenso contingente de trabalhadores do setor informal, sem carteira assinada, sem vínculo empregatício, sem direito aos benefícios da Previdência Social e, o que é pior, sem documento, o que os impede de receber o auxílio emergencial. E, dentre os idosos que sofrem as precarizações da informalidade, cabe destacar: os que vivem da reciclagem e, agora, com a redução do consumo, estão ainda mais vulneráveis; os que fazem trabalhos sazonais e que, neste cenário, não tem perspectivas; idosas vendedoras de produtos “de casa em casa” que, com a orientação de ficar em casa, estão impossibilitadas de fazer este trabalho. E mais, em tempos de pandemia, é preciso atentar para os idosos e idosas que precisam continuar a trabalhar para manter o seu sustento e de suas famílias: porteiros de prédios e condomínios; trabalhadoras domésticas, na condição de cozinheiras, babás e cuidadoras.
Os preconceitos que afetam às pessoas idosas, perpetuados por atitudes e discursos “velhofóbicos”, de mulheres e homens públicos, gestores, empresários proclamando, de muitas formas, a desvalorização da vida dos mais velhos, impossibilitando que tenham existência plena e a garantia de seus direitos. Este lamentável fenômeno já existia antes da pandemia, mas, com ela, tornou-se mais evidente. De fato, a pandemia da Covid-19 colocou os idosos num “cercado”, pela orientação do isolamento social e, com isso, aflorou e legitimou um desejo enraizado na sociedade de que o “lugar dos velhos é em casa”. Importante salientar que alguns idosos moram sozinhos, sem rede de apoio familiar nem social e, assim, precisam sair de casa, para suprir suas necessidades básicas de subsistência, em meio à recomendação de se manter em isolamento.
E o que dizer da enxurrada de sátiras e piadas, de vídeos, de “memes” jocosos e desrespeitosos, com imagens de idosos tentando burlar a quarentena, que se espalhou, como “fogo de palha”, pelas redes sociais? Esse tipo de “humor”, em um momento delicado como esse, reforça os estereótipos, a infantilização e a violência do olhar da sociedade para com os mais velhos. As famílias e os cuidadores das pessoas idosas incorrem na violência simbólica, por encontrarem-se perdidos em meio à avalanche de informações falsas, inespecíficas e contraditórias dos “palpiteiros e oportunistas de plantão”, ao retirar o “idoso à força de suas casas”, com a intenção de preservá-los e, mesmo, negligenciar as queixas dos idosos, com receio de levá-los ao serviço de emergência, às consultas eletivas. E, estas famílias incorrem na violência de suspender o atendimento domiciliar ao idoso, por parte equipe multidisciplinar, com receio de “trazerem o vírus” para dentro de casa.
Durante o combate ao coronavírus, detectou-se, em vários momentos, atitudes e condutas discriminatórias às pessoas idosas, simplesmente pela idade, sem levar em conta outros preditores, tais como, a funcionalidade. A necessidade de priorizar, nos serviços de saúde, o atendimento para os casos de infecção pela Covid-19, reduziu o atendimento a doentes crônicos, o que deverá aumentar a longa fila de espera por consultas, exames e cirurgias, a acarretar a exigência de mais recurso para atender a demanda reprimida, em um sistema de saúde sucateado e vilipendiado por anos de má administração.
O Brasil nunca teve uma tradição de tratar bem os seus velhos. A crise da Covid-19 não forjou as mazelas do país, apenas as está escancarando. A velhice marginalizada faz parte da nossa cultura. E, na era da pandemia pelo coronavírus, a sensação de exclusão, a apontar para as pessoas idosas, não é mera sensação. É um risco iminente de aprofundamento de diversas formas de violências.

MEMÓRIAS DE QUARENTENA 53: A pandemia e o controle dos corpos LGBTQI+

Por: Adriano Caetano (Pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva/UFRGS)


Recebo o convite para escrever essas memórias sobre a quarentena pela minha querida amiga e madrinha da Parada pela Diversidade Sexual do Ceará, Alba Carvalho que, junto com mais duas mulheres inquietas, Ângela Pinheiro e Camila Holanda, estão à frente desse projeto. Então, era irrecusável.
Puxando pela memória, veio logo à mente que, desde o início da CONVID-19 e do isolamento social, eu tenho visto muitos textos nas redes e jornais, discutindo sobre o que significa ter intimidade com alguém e manter a nossa sanidade, em um momento em que estamos sendo instruídos a manter a distância uns dos outros. Sabemos que para muitas pessoas LGBTQI+, as suas residências e, principalmente, os seus familiares são as pessoas que mais os/as violentam, seja psicológica ou fisicamente. Então, como podemos garantir o direito dessa população quando estamos a confiná-la com os seus algozes?
Nesse contexto, temos vários relatos de mulheres que foram violentadas nas suas casas por seus companheiros durante a pandemia. E, com a população LGBTQI+ não está sendo diferente!…
No mesmo cenário da intimidade, outro ponto que quero destacar refere-se aos encontros/relações afetivo/sexuais dessa população. Vivemos numa sociedade heteronormativa. Isso quer dizer que quaisquer pessoas que esteja fora dos papéis tradicionais de gênero e orientação sexual são discriminadas e estigmatizadas. Tentando (sobre)viver, as pessoas têm escrito sobre festas sexuais digitais e como ter intimidade em tempos de distanciamento. E mais, como se masturbar quando você não tem o privilégio de uma porta fechada. Cada um de nós, especialmente as pessoas trans, pessoas não brancas e aqueles, como eu, na interseção, têm uma relação intensa e pessoal com outra pandemia: o HIV/AIDS. Cada um dos nossos traumas, ligados a isso, é singular, como o são nossas impressões digitais. A comparação desenhada entre a pandemia do HIV/AIDS e a pandemia da Covid-19 pode não ser perfeita, mas para nós, LGBTQI+, essas duas pandemias estão bastante associadas.
Tenho visto, na internet, muita gente expondo as pessoas que saem nas ruas, aqueles e aquelas que têm encontrado seus entes queridos. Ademais, como um homem gay, vejo muitos homens gays julgando uns aos outros, não somente por quererem sair pra transar, mas também por estarem nos aplicativos de procura ou “caça” sexual. Deixe-me ser bem claro: nenhuma dessas práticas é boa, do ponto de vista da saúde pessoal ou coletiva. Eu desencorajaria qualquer um a sair por uma razão não essencial e recomendaria às pessoas a encontrarem formas para explorar uma sexualidade saudável durante esse tempo: sexo por telefone, por vídeo, masturbação. A escolha aqui é do freguês.
Se nós voltarmos outra vez para a pandemia de AIDS, em busca de orientação, veremos que envergonhar as pessoas, constrangê-las, não é uma intervenção efetiva em saúde pública. Envergonhar a população gay pela sua sexualidade não funcionou. As pessoas fizeram sexo (sem proteção!) porque elas precisavam se sentir próximas de outras, em um momento no qual o nosso futuro era incerto. Insisto que não estou diminuindo a gravidade de sair para transar agora. Mas algo que eu aprendi, em terapia, é que as ações das outras pessoas estão fora do nosso controle. O que você pode controlar é como você reage a essas ações.
Estamos todos reaprendendo como se manter vivos. E aqui, quero trazer minha amiga e colega de luta, Dediane Souza, travestis, negra e nordestina. Hoje em dia e, para algumas pessoas, os espaços de socialibilidade LGBT, são vistos apenas como “guetos” de exclusão. No entanto, embora sejam resultados diretos da LGBTfobia, são também espaços de acolhimento, de construção de relações de afinidade, solidariedade e organização de redes. Não se trata, aqui, de um coro à ideia homogeneizante de comunidade, mas de entendermos que as mudanças políticas necessárias, naquele tempo (final dos anos 80 e início dos anos 90) e, hoje (final da segunda década do século XXI), para este tempo demandam olharmos de um modo diferente para o principal propulsor das lutas pelo fim do preconceito e da discriminação, a saber, às pessoas e às suas aspirações por felicidade.
Minha homenagem a outra colega de luta que faleceu por Covid-19, em Fortaleza/CE: Thina Rodrigues (travestis e presidente da Associação de Travestis e Transexuais do Ceará – ATRAC).

MEMÓRIAS DE QUARENTENA 52: RÉQUIEM PARA MIZAEL (LOGUN EDÉ NOS PROTEJA DA TRISTEZA).

Por: Marcus Giovani Ribeiro Moreira (Advogado, Professor Universitário e Doutorando em Sociologia pela UFC)

No dia em que escrevo essas Memórias faz exatamente um mês que Mizael foi morto, e por uma dessas coincidências do destino ou “sincronicidade” (utilizando um termo da psicologia analítica), escrevo esse texto ouvindo a música “Logun Edé” de André Abujamra. Essa música faz menção a Logun Edé, divindade africana que é considerado um príncipe/caçador e pede para que ele nos proteja da tristeza.

Uma tarefa hercúlea, nos dias atuais e principalmente quando escrevo sobre um menino de 13 anos morto em uma operação da Polícia Militar do Ceará, no primeiro dia de um julho pandêmico de 2020, enquanto dormia na casa de sua tia no município de Chorozinho. Não conheci Mizael. Não tive essa alegria.

Tudo que sei sobre ele foi o que li nos jornais: que era um menino de 13 anos, que adorava a zona rural, sonhava em ser vaqueiro e ter um telefone celular e não gostava muito da cidade. Era um menino do campo, do sertão do Ceará. Um menino incomum, nestas épocas de ciberespaços, redes e conexões tecnológicas. Um menino beija-flor, como bem disse o jornalista Demitri Túlio, em uma de suas crônicas que aquecem o coração.

Na versão da polícia, Mizael foi confundido com um integrante de facção criminosa e executado pelo COTAR da PMCE, uma polícia especializada, “de elite”, que atua no interior do Estado. Na versão da polícia o “erro” aconteceu porque sua descrição coincidia com a de um bandido perigoso, chefe de facção. “Seria perigoso”, disse o policial que o assassinou, justificando o assassinato de um menino de 13 anos que dormia.

Em uma reportagem publicada pelo jornal O Povo no dia 08 de julho, após o incidente um policial teria dito: “fiz merda”. Segundo entrevista dada pelo sua avó, o menino beija flor, tinha três mães: sua mãe biológica, sua avó e sua tia. Essas três mulheres cuidavam dele. Davam amor como só as mães sabem dar. “Um menino que tem três mães não pode ser ruim e nem ter um revólver”, disse sua avó à imprensa.

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[ + ] Veja mais conteúdos como esse em nosso blog: https://oppceufc.wordpress.com/

O menino beija-flor foi morto pela mesma política de segurança que, menos de um ano antes, matou Juan Ferreira dos Santos, um menino negro do Serviluz, bairro da periferia de Fortaleza. Seu crime foi estar numa praça ouvindo música com outros adolescentes de sua idade. A polícia disse que tudo isso aconteceu porque os jovens estavam em uma atitude suspeita e resistiram a abordagem jogando paus e pedra, pois nessa política “cadeia ou cemitério” devem ser os desfechos dessas vidas “descartáveis”. A barbárie institucional parece estar devidamente legitimada.

Juan foi mais um jovem morto com um certeiro tiro na nuca, enquanto corria tentando se proteger com os outros jovens do arbítrio e da violência policialesca. “Cadeia ou cemitério”, mais uma vez, ecoou nos rincões cearenses, carregada pelo vento do Aracati. Um prelúdio do que aconteceria com Misael e que talvez aconteça com milhares de adolescentes pobres e negros no Ceará e no Brasil. Tiro na nuca, em respostas a pedradas, inventadas ou não.

Imagino que Misael deva ter sido muito amado por suas três mães, por seus familiares, por seus amigos, assim como Juan e outros tantos jovens assassinados no Brasil. Vejo o amor resistir à barbárie institucional. O mesmo amor que vejo no brilho dos olhos de Dona Edna, uma das mães da Chacina do Curió, quando fala de seu filho Alef, também morto pela polícia cearense.

Dona Edna fez do luto a sua luta e o seu amor de mãe sua forma de resistência. O amor como força motriz da vida, ressignificando o existir, ante a barbárie e o arbítrio. (Re)existir sempre, apesar de tudo. Penso na comunidade que Misael viveu e cresceu, abarrotada pela sua ausência imposta pelo terrorismo de Estado.

Passeio meu pensamento fatigado de uma espécie de dor sem nome, pelo quarto, pela cama (ou pela rede) de Misael, hoje esvaziada de sua presença. Faço uma elucubração sobre a dor dilacerante dessas três mães esperando a volta daquele menino que foi morto enquanto dormia. Uma espera vã por alguém que não vai mais voltar.

Uma espera que só as mães que perderam violentamente seus filhos conhecem. Rezo insanamente para que tudo não passe de um pesadelo e acordados num sobressaltado, possamos ver Mizael, Juan, Alef, Ingrid, Ágata, João Miguel e tantos outros, que tiveram suas vidas precocemente roubadas, na mesa esperando pelo café da manhã, para depois irem para escola e brincar com os amigos, como deve ser a vida dos jovens brasileiros. Como deveria ter sido. Como espero, motivado por uma ingênua e aquecida esperança. Que seja daqui por diante.

Imagino que, quando Misael chegou no Orum, foi ninado por três orixás – que substituíram suas três mães aqui da terra – até adormecer de novo, em paz, sem o risco de ser morto, ou ferido. Mizael, o Logun Edé, o menino pescador/caçador, que preferia o meio rural em vez da cidade, está agora protegido, de qualquer mal. Não gosto de histórias assim “pelo avesso, sem final feliz”, como bem disse o poeta. E por isso penso insana e insistentemente na felicidade, como uma teimosia clandestina e subversiva, principalmente nestas épocas de dor e ausências.

(Re)lembro a música de André Abujamra e recito como alguém que recita, teimosa e desesperadamente, um sortilégio, um mantra, uma oração: “Logun edé. Logun edé. Me protege da tristeza, me protege da tristeza. Logun edé que bom que é. Viver na alegria. Entender a dor, por que ela serve pra gente ser feliz depois”. Com amor, Gigio.

Postado Por : Das chagas Martins

Postado Em: 10/09/2020

Em pior queda desde 1996, PIB teria encolhido menos com auxilio emergencial maior

Estado é fundamental para movimentar a economia em momentos de crise profunda, segundo especialistas

Benefício de R$ 600 vinha sendo pago desde abril para mais de 60 milhões de pessoas em situação econômica mais vulnerável por conta da pandemia – Agência Brasil

Públicado originalmente no jornal Brasil de Fato

Cristiane Sampaio
Brasil de Fato | Fortaleza (CE) 

Após o anúncio do encolhimento histórico de 9,7% do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre de 2020, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta terça-feira (1), uma abordagem das análises chama a atenção em meio ao cenário de crise: a queda poderia ter sido menor, se o auxílio emergencial tivesse um valor mais alto.

O benefício de R$ 600, entretanto, que vinha sendo pago desde abril para mais de 60 milhões de pessoas em situação econômica vulnerável por conta da pandemia, deve ser reduzido pela metade.

A quantia é direcionada a trabalhadores informais, liberais e pequenos empresários que atendam aos critérios do programa. Com a transferência de renda por parte do Estado em um momento de aprofundamento da crise econômica, as famílias passam a ter poder aquisitivo para mobilizar diferentes segmentos da economia, ainda que timidamente. É o que lembra o professor Fernando Pires, coordenador do Observatório de Políticas Públicas da Universidade Federal do Ceará (UFC).

“Tem uma cadeia de interconexões que seriam acionadas, se você colocasse mais recursos. Este é um pais onde qualquer recurso que você coloca leva ao aumento do PIB”,  afirma Pires, ao mencionar a crise de 2008, quando o governo Lula (2003-2010) ampliou o crédito e utilizou o aumento real do salário mínimo para fortalecer a economia na fase mais violenta da crise financeira global.  

De acordo com o IBGE, a queda de quase 10% no PIB é o pior resultado para a economia brasileira desde 1996, quando o instituto iniciou a contagem da série histórica. Por representar a soma de todos os bens e serviços produzidos no país, o PIB é uma das principais escalas de referência econômica e serve de termômetro para se acompanhar o andamento da crise. Em números objetivos, o PIB anunciado nesta terça resultou em um montante de R$ 1,653 trilhão entre abril e junho deste ano.

O IBGE aponta que a maior queda registrada se deu no consumo das famílias, que foi reduzido em 12,5% e representa 65% do PIB. Sem mencionar diretamente o auxilio emergencial, o instituto destacou que “programas de apoio financeiro do governo” fizeram a diferença por terem dado liquidez à economia.

“Isso mostra que a presença do Estado é fundamental pra evitar uma crise econômica, porque, numa época de crise, ele é único entre os entes capazes de fazer um esforço além do que a economia tem e, de fato, propor uma política econômica pra nos tirar da crise”, sublinha a assessora política Livi Gerbase, do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), realçando, no entanto, que a iniciativa, sozinha, não é suficiente para sanar a crise.

Indústria, serviços e Teto dos Gastos

Os números do IBGE mostram ainda que houve quedas históricas nos setores da indústria (-12,3%) e dos serviços (-9,7%). O economista Fernando Pires recorda que a crise já se arrastava especialmente desde 2015, com agravamento maior em 2016.  

“Confesso que esperava até mesmo uma queda maior na indústria. E há um processo de desmonte da indústria brasileira, que é histórico, e vem desde a década de 1990. Estamos num processo sério de desindustrialização, com queda de cadeias produtivas, etc. Acho que não caiu mais porque as classes média e alta têm alguma forma pra segurar o consumo. Quem sofre mais com isso é a população pobre”, analisa.

O cenário atual se soma aos baixos investimentos públicos, intimamente relacionados com a política do Teto dos Gastos, que limita de forma rigorosa a canalização de recursos para diferentes áreas, como educação, saúde, assistência social.

“Tem poucos gastos que ficam fora do Teto, e investimento não é um deles. No caso do Brasil, isso está acontecendo. Outro elemento é, de fato, uma priorização do governo em outros setores. O governo não se coloca como agente que vai nos tirar da crise”, encerra Livi Gerbase.

Edição: Rodrigo Durão Coelho

Postado Por: Das Chagas Martins

Postado em 03/09/2020

Espíritos da Sabiaguaba – Filme Completo

A comunidade pesqueira de Sabiaguaba, localizada no município de Fortaleza (CE), tem enfrentado já há algum tempo uma árdua luta pela permanência no seu território, que sofre com a intensa especulação imobiliária da região.

Recentemente, a decisão do Conselho Gestor de Sabiaguaba, responsável pelo Parque Natural Municipal das Dunas de Sabiaguaba, permitiu a demarcação de um loteamento nas dunas da região.

O empreendimento coloca em risco a preservação do rico ecossistema local e ameaça a permanência da comunidade pesqueira da Boca da Barra de Sabiaguaba.

O curta “Espíritos da Sabiaguaba”, uma iniciativa do Conselho Pastoral dos Pescadores – Ceará, com o apoio da Misereor, produzido pela Nigéria Filmes, acompanha o pescador Roniele Silva e a comunidade de Boca da Barra de Sabiaguaba em defesa do seu território.

Leia mais…

ESPÍRITOS DA SABIAGUABA – FILME COMPLETO

Acesse o nosso blog https://oppceufc.wordpress.com/

Postado Por: Das chagas Martins

Postado em: 31/08/2020

As dunas de Fortaleza estão ameaçadas e nós precisamos da sua ajuda para protegê-las.

As últimas dunas florestadas de Fortaleza, que abrigam dezenas de espécies de animais e de plantas cearenses, algumas inclusive ameaçadas de extinção, estão ameaçadas por projetos de construção que beneficiam apenas algumas poucas pessoas.

Essas dunas também são fundamentais para a existência de comunidades tradicionais da nossa cidade!

O Fortaleza pelas Dunas vem a público divulgar a solução DEFINITIVA para proteger nossas dunas. Precisamos da sua assinatura para propor uma Lei de Iniciativa Popular que cria o Parque das Dunas!

São necessárias 65 mil assinaturas para criar essa lei de autoria do povo cearense para salvar nosso meio ambiente e nossas dunas.

Quer ajudar?
Acesse o site www.fortalezapelasdunas.org e siga as instruções! (link na bio)
Compartilhe esse vídeo!
Marque seus amigos e suas amigas para compartilharem também!

Postado Por : Das chagas martins

Postado em : 31/08/2020

MEMÓRIAS DE QUARENTENA 51: Minha Inclusão no Mundo Tecnológico em Meio à Quarentena

Por: Antônio David S. de Almeida (Presidente do CAMPE – Centro de Apoio a Mães e Pais de Portadores de Eficiência; Aluno com Paralisia Cerebral do Curso de Pedagogia/UECE)

Em março de 2020, a minha pessoa tinha acabado de passar por um procedimento cirúrgico, por haver arrancado um dente. Solicitei aos meus professores da UECE, na qual curso graduação em Pedagogia, para adiar, se necessário fosse, alguns trabalhos e provas. Na minha recuperação, pensava que, em poucos dias, voltaria aos bancos acadêmicos, e a outras atividades, como igreja e natação.

Uma virose invadiu o cotidiano da família. Quando estava me recuperando, uma notícia, na mídia, tomou conta dos quatro cantos do Planeta. De repente, tudo mudou. Não se falava (nem se fala) em outro assunto, nos jornais e em outros programas noticiários. Tudo isto causado por um tipo de infecção de um vírus, que provoca uma doença chamada Covid-19.

Esse problema abalou toda a sociedade mundial. As pessoas se viram obrigadas a deixar, de forma temporária, seus trabalhos, seus estudos, cancelar suas reuniões – seja que âmbito for -, etc. Não poderia haver aglomerações de pessoas em lugar algum, para não ocorrer risco de contaminação da doença. A nós, era permitido sair de casa somente em uma extrema necessidade, principalmente aqueles/as chamados/as grupo de risco, sem falar que os que saíssem eram orientados/as a usar máscara de proteção e passar álcool em gel em suas mãos. Em toda a minha vida, nunca vi nada igual.

Nesta ocasião, eu não fazia mais minha programação diária e meus horários, isto é, “tal hora farei isto”, “tal hora farei aquilo”. Afinal, do que adiantava elaborar projeções? Não havia diferença entre dia útil, finais de semanas e feriados.

Todos estes fatores fizeram com que as atividades, nos mais diversos âmbitos da sociedade, se dessem por meio de muitos aplicativos da internet, ou seja, de forma virtual. Por incrível que possa parecer, até meus vinte e seis anos de idade, eu não sabia mexer em absolutamente nada em computador e, muito menos, na internet. “E agora?“, dizia eu.

Por conta de alguns problemas que enfrentei em minha universidade, consegui um Atendimento na Faculdade de Educação da UFC, pois já conhecia algumas professoras de lá, uma vez que éramos e somos parceiros na luta pela inclusão escolar das pessoas com deficiência. Embora que, no momento em que passei no vestibular, tivesse ganhado de uma pessoa um notebook, eu era “analfabeto digital“. No atendimento citado, contudo, aprendi a usar alguns canais de comunicação, como e-mail e facebook, e conheci o word e o drive, onde armazeno minhas coisas.

Iniciei esse atendimento entre os anos de 2014 e 2015, e continuo lá até hoje. Só parou por causa da pandemia. Esse serviço funciona a partir de uma bolsa para algumas alunas do Curso, e várias das mesmas já me auxiliaram nisso.

Apesar destes meus aprendizados, ainda faltava eu conhecer outras inúmeras ferramentas virtuais. Em fevereiro de 2019, comprei um tablet e minha irmã me ensinou como utilizar o watsApp, pois meus celulares que possuí, até então, sempre foram de botão e nunca tinha aprendido a usar esses tipos mais modernos.

Sempre quando aprendia uma ferramenta, já aparecia outra mais nova. Mas o watsaApp era, e ainda é, de muita valia.

Me aperfeiçoei em outras funções do tablet e o meu atendimento na UFC me ajudou bastante nessas questões. Com as atividades virtuais, devido à pandemia, fui obrigado, no bom sentido da palavra, a me aperfeiçoar em alguns aplicativos.

Diante do contexto citado, nesta quarentena passei a fazer uso do Instagram, e também tomei o conhecimento de um aplicativo que eu nunca ouvi falar antes, o Google-Meet.

Pelo motivo de que o Atendimento se encontra parado, aprendi essas ferramentas digitais com outras pessoas.

Na atividade de jovens da igreja na qual me congrego, por exemplo, eles enviam o link pelo grupo da juventude do watsaApp, e disseram que era somente eu clicar no mesmo e eles aceitarem minha participação.

Na reunião da instituição na qual estou na Presidência atualmente, me aperfeiçoei em enviar, eu mesmo, o link, embora que, nas primeiras vezes, outra pessoa, que já era mais afinada nesse tipo sistema, realizava o procedimento. Outro ponto importante foi que eu não sabia ligar e desligar o microfone, enquanto que os demais participantes o faziam. Mas, depois, aprendi a fazer isso.

Apesar destas conquistas, ainda não estou conseguindo marcar minha presença em algumas atividades, pois meu aparelho é novo e não quero usá-lo enquanto carrega, para não prejudicar a bateria. Só o meu notebook utilizo carregando, uma vez que, se eu não adotar essa medida, não dá tempo eu fazer as minhas diversas tarefas. No entanto, já considero uma evolução, se levar em conta todos os obstáculos por mim enfrentados ao longo da existência de minha vida.

Entretanto, tenho a plena convicção que, como cada indivíduo, morador deste Planeta, estou e sempre estarei em constante aprendizado nos diferentes setores da vida.

Um ser humano que se sente já saber tudo e acha que não necessita de aprender mais nada, precisa, na realidade, descobrir o que é viver. Eu, por exemplo, irei, em pouco tempo, me formar em Pedagogia e percebo que meus alunos muito me ensinarão.

Já tive uma certa experiência bastante positiva na época em que fiz as disciplinas de Estágio da Faculdade.

Diante de todo este meu relato, não querendo, obviamente, dizer que a situação de isolamento social, provocado pelo novo Coronavírus ou Covi-19, como queiram chamar, foi bom, sinto que obtive tempos de boas aprendizagens.

Fato semelhante ocorreu no ano de 2016, em uma greve da UECE, na qual faço graduação, que tive bastante tempo para aprimorar meu Pré-Projeto do Trabalho de Conclusão de Curso/Monografia, e introduzir o aprendizado de uso do notebook.

A greve daquele ano me ajudou um pouco. Estas são as minhas memórias de quarentena!!!

Postado Por: Das Chagas Martins

Postado em: 30/08/2020

“Qualidade da Educação no contexto da COVID-19” é o tema do debate na Revista Labor

Qualidade da Educação no contexto da Covid-19 é o tema no debate na Revista Labor, com Marise Ramos, que é doutora em Educação pela Universidade Federal Fluminense (2001) e Pós-doutorado em Etnossociologia do Conhecimento Profissional na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro/Portugal e professora associada da Faculdade de Educação da UERJ. Docente credenciada no quadro permanente dos Programas de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Formação Humana (PPFH/UERJ) e de Educação Profissional em Saúde (EPSJV/Fiocruz), do qual foi coordenadora no período de 2008 a 2012.
Marise Ramos é uma das coordenadoras do Grupo THESE – Projetos Integrados de Pesquisa em Trabalho, História, Educação e Saúde UFF/UERJ/FIOCRUZ. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Educação Profissional, atuando em temas como educação profissional em saúde, educação profissional integrada ao ensino médio, ensino médio, ensino técnico, reformas educacionais, saberes profissionais. É bolsista de produtividade do CNPq.
O debate, mediado por Paulo Henrique Macial, do Labor/UFC.

Assista a gravação do debate do dia 24/08 na página da Revista no facebook e pelo canal youtube, nos links a seguir:

https://www.facebook.com/revistalaborUFC

https://www.youtube.com/channel/UCQGuyERuXzLz3Ii9BktEe8g

Memórias de Quarentena 50: Ana Luz (pseudônimo de professora de uma faculdade particular em Fortaleza)

Comecei a dar aulas de forma remota – que significa, fora da linguagem informática, o que é distante, distanciado – na semana do dia 23 de março, assim que foi declarada a suspensão das aulas e o isolamento social em virtude da pandemia da Covid-19.

Isoladas e distantes também se tornaram as expressões das(os) estudantes, através de seus sorrisos, inquietações, dúvidas, afetações, comentários e/ou incompreensões. Para muitos deles e delas era impossível a ação de ligar o microfone enquanto assistiam aula, pelo chat. No entanto, era possível ler mensagens como: “Professora, aqui em casa é muito barulhento, eu não tenho como participar de forma oral do encontro”.

Menos de 50% da turma assistiam as aulas. Em outras somente 30% dos alunos se faziam presentes semanalmente. E o restante? Que possibilidades tinham? Será que viam as aulas em outro momento? Durante os primeiros encontros, a falta de conhecimento na utilização da plataforma fazia com que a ansiedade do grupo impedisse que o momento transcorresse.

Eram constantes as interrupções dos estudantes se movimentando, alguns tentando entrar na sala virtual, outros atrasados e outros tantos “saindo” ou “caindo” devido à dificuldade de conexão. O tempo foi passando e de lá para cá, muitas tristezas, angústias e ansiedades, em um cenário de muita precariedade, pois os alunos não dispunham de equipamentos adequados ou suficientes, tampouco de internet com qualidade.

Uma parcela considerável só dispunha de smartphones com internet 3G para o acesso as aulas e demais atividades. Outros narravam histórias em que pediram senhas da internet de seus vizinhos para acessarem as aulas. E assim o caos ia sendo formado. Ao final da aula tínhamos estudantes insatisfeitos e professores estressados. A instituição, por sua vez, esperava de nós o preenchimento de vários formulários constando dados percentuais de quem estava presente na aula. Ainda nos foi solicitado ligar para uma lista de 60 estudantes, dos nossos telefones pessoais, buscando saber quais dificuldades estavam ocorrendo na utilização da plataforma. Ora, eu também gostaria de receber essa chamada enquanto professora, afinal não sei desempenhar as funções de técnica de informática e tampouco de telemarketing.

Eis que chegou o momento das avaliações e o trabalho estava cada vez mais enfadonho, sem vida e sem potência, com correções de provas-formulários feitas na própria plataforma. Os textos dos estudantes, muitas vezes, eram copiados e colados dos slides e apresentações, sem reflexão, sem senso crítico. E então as avaliações participativas, vislumbrando um contexto de prática politicamente engajada e compromissada já não fazia parte das possibilidades que dispúnhamos.

Depois de todos os desafios enfrentados diante de tantas limitações, o fim do semestre se deu com mais desolação e desesperança, pois logo chegaram as demissões dos professores. Grandes amigos de trabalho, mestres e doutores, com longas trajetórias acadêmicas foram dispensados em plena pandemia. E então nos perguntamos qual o rumo da educação superior no país? Um cenário preocupante se constrói diante de nós, com as desigualdades educacionais cada vez mais naturalizadas e ignoradas, com professores fingindo que estão ensinando e estudantes fingindo que estão aprendendo.

Postado por: Das Chagas Martins

Postado em 25/08/2020

Operação “esconde números”


Adiar o Censo Demográfico é desperdício de dinheiro público

Em 18 de agosto, os trabalhadores do IBGE foram surpreendidos com notícia na imprensa sobre adiamento do Censo Demográfico de 2021 para 2022, por razões orçamentárias. A proposta de Orçamento a ser enviada ao Congresso Nacional para o ano que vem remaneja verbas para outras áreas, notadamente o Ministério da Defesa. Inicialmente previsto para 2020, o censo já havia sido adiado em função da pandemia, com a garantia formal de que os recursos retornariam no ano de 2021.

Do ponto de vista do próprio discurso do governo o adiamento é uma contradição, pois representará um desperdício de recursos já aplicados em equipamentos e recursos humanos. Muito trabalho e esforço da casa já foi direcionado para o Censo 2020, que já havia sido adiado para 2021.

Toda a atualização do cadastro de endereços e da base territorial, produzida até o final de 2019, ficará desatualizada. E não há previsão de pré-coleta, operação de atualização feita pelos próprios recenseadores. Serão necessários recursos para atualização cadastral e obsolescência dos equipamentos haverá desmobilização das equipes já treinadas. Será necessário outro treinamento e não teremos possibilidade de novas provas piloto e censo experimental. A não ser que se gaste novamente recursos para estes fins. Os contratos dos analistas censitários encerram justamente em 2022. Não haverá pessoal suficiente para etapas de crítica, apuração e tabulação.

O IBGE tem um percentual de aproximadamente 30% da sua força de trabalho ativa aposentável. Uma parte desse pessoal não aguardará a realização do Censo com o novo adiamento. Quem vai capacitar os temporários e passar o know how, aspectos fundamentais para o sucesso das pesquisas do IBGE? O novo adiamento do censo significa a ocultação de informações fundamentais para o conhecimento da realidade brasileira e de sua população, num momento que estamos atravessando gravíssima crise econômica e sanitária. Qual o impacto da Covid-19 nos municípios brasileiros? E na mortalidade? E para a fecundidade?

Além disso, depende do Censo Demográfico a calibração do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), principalmente no momento em que os municípios estão realizando gastos no enfrentamento da pandemia, descompassados com os recursos que têm como base uma estimativa desatualizada da população. O censo continua sendo a única base de dados capaz de fornecer informações municipais e intramunicipais abrangentes, por mais importante que seja a amostra da Pnad Contínua.

O tratamento do governo federal à produção de estatísticas e ao conhecimento em geral, aponta para uma operação “esconde números”. Ainda ecoa em nossos ouvidos a frase do ministro da Economia na posse da Presidente do IBGE: “Quem pergunta demais, descobre o que não quer”.

Se for confirmado o adiamento do censo, o resultado só sairá depois das eleições para Presidente. Trata-se de um desperdício de dinheiro público e um verdadeiro apagão estatístico. Dessa forma, dados concretos também sairiam de cena nos debates sobre o projeto de país.

A ASSIBGE SN denuncia o descaso do governo com as estatísticas públicas. O Brasil precisa de orçamento para o Censo Demográfico e outras pesquisas.

Pela manutenção do Censo 2021 e por verbas para a operação censitária!

Concurso público já!

Revogação da Emenda 95 (teto de gastos públicos)!

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Ao vivo no fórum: Estabilidade no Serviço Público como Proteção da Sociedade

O Fórum Permanente em Defesa do Serviço Público, no qual a ADUFC-Sindicato compõe a coordenação geral, realiza, nesta sexta-feira (21/8), debate ao vivo em suas redes sociais com o tema “Estabilidade no serviço público como proteção da sociedade”.

A partir das 16h, você poderá acompanhar o debate através do Facebook, do Twitter e do canal no YouTube do Fórum.

Twitter: https://twitter.com/ForumDefesa
YouTube: https://www.youtube.com/channel/UCQwqPyoDcO6BuhDIGAJUy-g

Numa sentença racista, os 500 anos de opressão

Em decisão de juíza paranaense, a história do pós-abolição: para controlar população negra, casa-grande criou novos aparatos repressivos — da lei de vadiagem, de 1890, à “guerra às drogas”. O resultado perverso: 2/3 dos presos são negros

Por: Almir Felitte

Matéria públicada originalmente no jornal Outras Palavras.

“Seguramente integrante do grupo criminoso, em razão da sua raça”. Esta foi a frase usada pela juíza Inês Marchalek Zarpelon, da 1ª Vara Criminal de Curitiba, para justificar o aumento de pena na condenação de mais um homem negro no Brasil. Após repercussão, a magistrada recorreu àquela desculpa que, em nosso país, já virou chavão sempre que um erro escabroso é cometido: a frase teria sido tirada de um “contexto maior”. A verdade, porém, é que a condenação não poderia estar melhor contextualizada do que nos mais de 500 anos de racismo da história brasileira.

O Brasil passou por séculos de escravidão negra e, por mais que este sistema tenha se encerrado formalmente no fim do século 19, nunca nos livramos de suas heranças. Aliás, é nesse período de transição entre o regime escravocrata e a abolição que podemos perceber como foram desenvolvidos mecanismos para que, mesmo que liberta, a população negra continuasse sob forte controle das elites do país. É justamente neste ponto que o Judiciário brasileiro ganhou um papel central que se mantém até hoje.

Durante os tempos de escravidão no Brasil, o Judiciário e as primeiras polícias públicas representavam um verdadeiro auxílio ao poder privado sobre os corpos negros. Nesta coluna já escrevi, por exemplo, sobre a atuação das polícias militarizadas, que surgiam no início do século 19, na repressão às insurgências e fugas de escravos. Já ao Judiciário, costumavam caber as punições físicas aos negros nos casos em que os escravagistas preferissem não o fazer com as próprias mãos. No Rio de Janeiro, por exemplo, fora criado o Calabouço, onde escravos poderiam ser trancafiados pelo poder público a pedido de seus proprietários sem maiores justificativas.

Quando o sistema escravocrata começa a sofrer duros golpes pela política internacional e a abolição começa a surgir no horizonte, porém, algumas mudanças vão colocando a lei penal e o Judiciário no centro das políticas de controle sobre as pessoas negras. Em 1835, por exemplo, quando uma maior quantidade de negros livres já circulava pelo Rio de Janeiro, o então Chefe de Polícia da cidade, Eusébio de Queiroz, escreveu ao Ministro da Justiça que, ao abordar pessoas negras nas ruas, o melhor seria presumir que estas fossem escravas fugidas, cabendo a elas o ônus de se provarem livres¹.

Essa nova política de controle, um preparo das elites brancas para o novo mundo em que a escravidão negra não seria mais tolerada, se traduzia em números. Entre 1834 e 1837, registros da Bahia e do Rio de Janeiro mostram que, até então, as cadeias aprisionavam, proporcionalmente, muito mais pessoas livres, estrangeiras, brancas e pardas do que negros e escravos. Afinal, estes últimos estavam mais sujeitos aos castigos privados dos escravagistas ou às penas sumárias de açoite e de morte. Esta proporção começaria a mudar nos próximos anos, à medida que o próprio número de prisões teria grandes aumentos. No Rio de Janeiro, 4 pessoas por dia eram detidas na cadeia central em 1850, número que subiria para 35 já em 1876².

A situação foi observada em outras nações de abolição tardia, como nos EUA. No estado norte-americano do Alabama, apenas 1% da população carcerária era negra em 1850. 5 anos depois, mais próximo do fim da escravidão no país, que viria em 1865, esse índice explodiu para 75%, chegando a 85% no fim da década de 1880. Reflexos da 13ª Emenda que, apesar de abolir a escravidão negra, possibilitou a exploração do uso da mão de obra de prisioneiros³.

No Brasil, este controle penal e judicial sobre pessoas negras se aprimoraria ainda mais durante a Velha República. Marcado por teorias eugenistas e supremacistas brancas, este período veria o intenso uso de princípios racistas para legitimar leis absurdas com claras intenções de controle sobre camadas específicas da população. O primeiro Código Penal Republicano de 1890, por exemplo, manteve a criminalização da vadiagem, delito que consistia, basicamente, em não ter emprego, renda e domicílio fixo. Isso num período em que pessoas negras acabavam de sair do regime escravocrata para uma sociedade que não as acolheu com políticas de moradia ou emprego. Para se ter uma ideia do peso desta legislação, em São Paulo, entre 1892 e 1916, mais de 80% das detenções realizadas foram por vadiagem⁴.

Outros artigos penais da época faziam menção ainda mais direta ao controle da população negra, como a criminalização da “capoeiragem”, podendo ser punida com até 6 meses de detenção. A criminalização da “magia” e do “espiritismo” eram, também, um duro golpe às religiões de matriz africana. “Termos de bem viver” assinados por Juízes de Paz e Delegados exerciam de forma intensa o controle sobre todos estes comportamentos e eram uma constante ameaça a negros e negras em qualquer cidade do país.

O que se percebeu no Brasil, portanto, é que nossa elite branca “preparou o terreno” para que a abolição da escravidão não enfraquecesse a estrutura racista que lhes garantia poder. Não só o fim do regime escravocrata não fora acompanhado de políticas de inclusão referentes à moradia, terra e trabalho, como ele ainda acabou sucedido por novos mecanismos institucionais de controle sobre as populações trabalhadoras e negras, como as polícias militarizadas que se consolidariam na virada para o século 20 e as práticas judiciais que levaram ao superencarceramento, ambas observadas até os dias de hoje.

Atualmente, de forma completamente desproporcional ao total da população, estima-se que cerca de 2/3 dos presos no Brasil sejam negros. A Lei de Drogas tem se tornado uma espécie de “salvo-conduto” para as polícias agirem rotineiramente em comunidades pobres e majoritariamente negras, e a condenação por tráfico baseada única e exclusivamente na palavra dos policiais já virou a regra para o Judiciário brasileiro.

O fator racial também continua presente: em São Paulo, um estudo de 2017 que analisou 4 mil sentenças já demonstrou que pessoas brancas têm mais acesso a penas alternativas. Também mostrou que pessoas negras precisam de quantidades muito inferiores de drogas portadas para serem consideradas traficantes, ao passo que réus brancos conseguem ser enquadrados apenas como usuários com maior facilidade, mesmo portando maiores quantidades de drogas⁵.

Números e fatos que explicitam aquilo que já é claro: no Brasil, sentenças racistas como a da juíza paranaense não são frases retiradas do contexto, mas apenas mais um dos muitos capítulos da história de 500 anos de racismo estrutural brasileiro.


1 CHALHOUB, Sidney. The precariousness of freedom in a slave society (Brazil in the nineteenth century). International Review of Social History, v. 56, p. 405-439, 2011.

2 KOERNER, Andrei. Habeas Corpus, prática judicial e controle social no Brasil (1841-1920). São Paulo: IBCCrim, 1999.

3 THOMPSON, Heather Ann. The racial history of criminal justice in America. Du Bois Review: Social Science Research on Race, v. 16, p. 221-241, 2019.

4 KOERNER, Andrei. Habeas Corpus, prática judicial e controle social no Brasil (1841-1920). São Paulo: IBCCrim, 1999.

5 https://exame.com/brasil/negros-sao-mais-condenados-por-trafico-e-com-menos-drogas-em-sao-paulo/

MEMÓRIAS DE QUARENTENA 49: Quarentena e condição periférica: notas pessoais.

Por: Wanderson Lucas Souza Silva. Bacharel em Humanidades e estudante de licenciatura em Sociologia na UNILAB.

“Levanta Lucas, levanta!”. Acordo atordoado, meu pai complementa a amarga notícia: “Derrubaram o F.” (utilizo apenas a inicial em respeito à família e à memória de meu camarada).

Procuro o celular para saber das horas, são 8h:30min. Saio de casa correndo e, do lado da igreja de Santo Antônio, vejo mais um corpo de um amigo no chão. É maio, segundo mês de quarentena, vou me aproximando do local quando falam que o corpo está lá desde o amanhecer, mais uma vez o coração aperta e penso: da “ponte pra cá”, até o ritual fúnebre é negado.

Mais um corpo negro assassinado, sem culpado, sem comoção, sem luto. Começo a presente reflexão partilhando um momento de dor que se repete, diariamente, nas favelas e comunidades de todo Brasil.

Alerto que não posso trazer um relato da minha experiência no “confinamento social” sem lembrar e denunciar as violências vividas por mim e pelos meus. Morador do Bairro Planalto Pici, periferia de Fortaleza, trago – nesse curto escrito – incômodos que rasgam a carne e asfixiam aqueles que são impossibilitados de prevenir-se da covid-19. O isolamento social (a “quarentena”), medida sanitária adotada com intuito de mitigar o contágio pelo o novo Corona-vírus, é vivenciada a partir de um corte que mutila as possibilidades materiais de cumprir as indicações de saúde por parte da população.

Essa navalha fere, contundentemente, a periferia. Desde do início da quarentena – na mídia, conversas cotidianas e discussões nas redes sociais – levantou-se a preocupação com o contágio e a manutenção da “quarentena” nas favelas e periferias do Brasil. Diversas campanhas e apoios foram organizadas para tentar diminuir as condições de precarização da vida em inúmeras dessas localidades.

Apesar das importantes ações, quero expor feridas mais profundas que atravessam nossa existência e que nos colocam numa posição de desigualdade na prevenção contra a doença.

Tentando cumprir desde do início as “dicas” de saúde, logo percebi sua impraticabilidade no nosso contexto.

A partir de duas das principais recomendações, quero trazer uma reflexão que vai além da vida precária, e pontua como a configuração da “quarentena” dificulta nossa prevenção, dos favelados.

Nos primeiros dias do atual contexto, compreendi um esforço do Estado em condicionar o funcionamento da “quarentena”. Tal esforço foi sentido por um intenso fluxo das forças policiais nas ruas. No meio de diversas necessidades, o que nos chegou primeiramente foi a ordem de ficar em casa. Ora, pouco importava a perda dos empregos, a carestia de vida e a falta dos serviços básicos: a promoção da “quarentena” nas comunidades acontece em um movimento contraditório de imposição e quebra, com atores e métodos diferentes daqueles presentes em bairro nobres.

Na justificativa de “cuidado com a sociedade”, o Estado impôs a “quarentena” na prática da ameaça, xingamentos e agressões. Os baculejos arbitrários e abordagens agressivas, assim, passaram a ter a justificativa de combate, agora, à crise sanitária.

No passo em que a quarentena é ordenada, ela é quebrada por intervenções policiais nas comunidades.

O nosso sono foi interrompido por balas, mesmo no cumprimento do que nos foi ordenado: fomos alvejados.

O isolamento foi marcado por intensificação dos ataques à periferia, um exemplo disso é a marca de 35 mortes por intervenção policial no mês de abril no Estado do Ceará (conforme dados da SSPDS), ou seja, mais de uma morte por dia.

Com nossa quarentena vivenciada por imposições violentas, também não podemos seguir a dicas de saúde com igualdade.

O uso da máscara, enquanto uma forma eficaz de prevenção à contaminação da covid-19, passou a ser obrigatório dias após o decreto de “quarentena”. O uso, e a própria simplicidade da fabricação, ajudariam na prevenção da população periférica que enfrenta a pandemia com escassez de recursos e acessos. Porém, as favelas no Brasil e seus moradores são marcados por uma caracterização de potencial criminoso, de constante suspeição. As perseguições, intimidações, abordagens e denúncias, fazem parte do cotidiano dos moradores da periferia, mesmo com a cara amostra e identidade no bolso.

No contexto da quarentena, o uso da máscara para nossa prevenção foi marcado por olhares perversos e abordagens discriminatórias, intimidando-nos. Percebe-se uma dupla criminalização, portanto, dos moradores da periferia: o não-uso da máscara caracterizando um inimigo da saúde pública e o uso da máscara constituindo um potencial suspeito.

No enfrentamento diário à precarização da vida, as periferias de todo Brasil construíram campanhas de solidariedade, com doações de alimentos, materiais de limpeza e máscaras.

O Planalto Pici também foi local de importantes campanhas com o protagonismo de torcidas organizadas, grupos de capoeira e organizações autônomas. Não tive as condições materiais de um isolamento recluso, resisto e sobrevivo com o meu povo. Dedico esse texto ao F., Mizael, João Pedro e a todos os periféricos que não puderam exercer o seu direito de manter-se vivo.

Postado Por: Das Chagas Martins

Postado em: 21/08/2020

De que olhos você se veste para escutar as ruas?

Por: Cristiane Corrêa de Souza Hillal

Há um ano, naqueles tempos em que só usávamos máscaras invisíveis, vesti minha máscara de Promotora de Justiça para conhecer o trabalho do Consultório na Rua do SUS.

Descobri que, dentre muitas competências, os profissionais do SUS também sabiam escutar olhos.

Toda terça feira de manhã, no centro de Campinas/SP, médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, um professor de capoeira violeiro e um DJ de baile funk chegavam em uma van e montavam uma barraca na praça para escutar olhos.

Iraneide trouxe olhos de festa para ouvirem.

Contornados por uma sombra verde limão, seus olhos refletiam o florido da roupa e o rosa cintilante do batom.

Foi difícil acreditar no seu prontuário: “mulher do saco”.

Vagando como assombração nas noites frias das ruas, a mulher do saco causava asco. Agredia, xingava e aterrorizava quem passasse por ela e seu saco vazio. Mal cheirosa, suja e embriagada, ela ostentava uma ferida aberta no ventre cheia de bichos. “Conhece a expressão tripas pra fora?”, me perguntou a médica. “Era isso. Tripas e bichos…”.

Foram dias até que a equipe do Consultório na Rua, finalmente, traduziu os olhos de Iraneide. Nesse dia, a equipe parou de ser agredida e conseguiu se aproximar. Os olhos falavam que ela não era vazia como o saco que carregava e que os bichos, que se alimentavam de suas feridas, eram vida. As únicas vidas amigas que precisavam dela. Quando a equipe desistiu de matar seus bichos, Iraneide reviveu. A pomada que usavam na sua barriga, agora, era para “alimentar” os bichos e a cirurgia iria “guardá-los”. Iraneide cedeu. Sabia que nem os vermes mereciam a solidão de uma noite fria na rua. Com os bichos costurados dentro dela, protegidos, aquecidos e cuidados, pôde abandonar o saco vazio. Tomou banho. Ganhou escova de dente e reencontrou o quarto quentinho que tinha abandonado. Um dia, ganhou estojo de maquiagem da enfermeira.

Foi aí que fosforesceu. Com olhos de festa.

Os olhos da Joana eram de névoa. Há duas semanas, perto da data em que fez 18 anos, saiu o resultado do seu exame de sangue: HIV positivo. “E por que ela veio aqui hoje?” Perguntei, surda aos seus olhos. O prontuário que estava sendo preenchido me respondeu: “Tristeza. Foi recebida com abraços pela equipe”.

Não há necessidade de voz para falar e ser ouvido pelo Consultório na Rua.

Nome, documento, nexo, voz, endereço… nada disso é exigido.

Piu Piu, com olhos de vidro quebrado, apontou a bolha de pus da perna. O moço sem nome, com olhos de urgência, arrastou outro, com olhos fechados, e o sangue da testa aberta gritou por eles. A mulher maltrapilha, de olhos de espera, fez gestos repetitivos e ganhou água mineral gelada e soro.

Engana-se quem pensa que olhos são silenciosos.

Tiago, da equipe de saúde, é violeiro, professor de capoeira e leitor de notas musicais em olhos de inchaço. “Já carreguei muita gente pro samba da rodoviária. Lá precisa ensaiar uma hora, pelo menos, sem álcool e drogas, e já gravamos dois CDs”, me disse ele, com olhos de sol.

Com água, violão e medicamentos, o Consultório na Rua do SUS diminuiu brutalmente as doenças sexualmente transmissíveis da população em situação de rua, a gestação indesejada de meninas e mulheres dependentes químicas e resgatou a dignidade de muitas vidas que buscam soro, exames, música, contraceptivos, curativos, água gelada e abraços.

Um ano depois, em plena pandemia COVID 19, a van do Consultório na Rua segue escutando olhos que máscara alguma, visível ou não, pode emudecer.

Com todas as precauções possíveis e em um contexto político que, além de sufocar drasticamente os investimentos no SUS e SUAS, menospreza a tragédia das cerca de 80 mil vidas perdidas neste país, a equipe se desdobra, com risco pessoal, para poupar os mais vulneráveis da desgraça de um vírus que lhes tiraria um dos únicos bens que possuem: o ar.

Depois de conhecer, na rua, olhos de festa, névoa, vidro, urgência, espera e sol, fica difícil escolher os olhos que suportam ouvir a conversa entre Bia Doria, primeira-dama do Estado de SP e Presidente do Conselho do Fundo Social e a socialite Val Marchiori, divulgada em rede social pela própria socialite no início desse mês de julho.

Entre risos e “hellos” da amiga, a primeira dama pediu que as pessoas parassem de dar alimentos para quem está na rua com fome e explicou que a população em situação de rua gosta de ficar na rua. “Querem comida, roupa, uma ajuda… mas não querem cumprir regras”, disse Bia, com seus olhos de vazio. “Estou passada”, respondeu a amiga de olhos de cimento, e completou: “eu mesma tenho obrigações… pago contas”.

O discurso maniqueísta e simplório, que culpabiliza o miserável por sua desgraça e o afasta das supostas virtudes de uma elite que estaria onde está por mérito e não por privilégios, não nubla apenas os olhos das duas senhoras brasileiras.

É o sentido comum de ódio que nos estrutura socialmente. É o grito do Desembargador, em Santos, ao Guarda Municipal, quando recebe a orientação para usar máscara: “Seu analfabeto”, diz ele, com seus olhos de esgoto.

Eis nosso saco vazio. Nossa bolha de pus. As nossas tripas pra fora. Os bichos que alimentamos quando fugimos da nossa história escravocrata e damos poder a quem só conhece a linguagem da violência.

Por isso precisamos de SUS. O SUS é mesmo tão universal que quando fosforesce os olhos de Iraneide e os faz festa, mata os vermes que habitam o ventre de todos nós.

O SUS é mais que cuidado de saúde física e mental. Ele é a narrativa de uma política de acolhida e solidariedade. É resistência. Afirmação de vida e inclusão. Ele é a rua da partilha onde se oferece marmita, água, música, remédio e abraço.

O SUS são olhos que escutam.

Cristiane Corrêa de Souza Hillal – Integra o Ministério Público do Estado de São Paulo (Promotora de Justiça de Campinas) e o Coletivo Transforma Ministério Público.

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Memória de Quarentena 46: “Estamos em isolamento social, mas nossa voz não”: Rede de Mães do Ceará

Por: Ingrid Lorena da Silva Leite (Assistente Social e Doutoranda em Sociologia).

A pandemia que estamos vivenciando nos levou a um isolamento social que nos trouxe a necessidade de sentir o tempo com demarcações especificas e peculiares.

Um tempo que os nossos sentimentos e emoções conduzem e exigem um olhar para dentro, tateando nossas forças, nossas lutas e memórias.

Quem nos ensina e partilha essa capacidade de “olhar” são as mães de jovens vítimas da violência do Estado. Mulheres que em suas trajetórias de vida a resistência se faz presente cotidianamente, que a força se torna possibilidade de existir e vivenciar a maternagem situada nas margens da cidade de Fortaleza.

A dimensão para essa atividade consiste na luta, que nunca esteve propriamente ausente, mas que se destaca nos tempos contemporâneos notadamente porque essa característica de mãe aufere visibilidade nas denúncias e se fortalece por intermédio de seus relatos sobre sua dor, indignação e revolta ao tomarem conhecimento das violências que seus filhos, jovens moradores de bairros periféricos, se encontram submetidos, seja, nos centros educacionais, no sistema penitenciário ou nas ruas da cidade.

Mães que enterram corpos, mas não histórias de vidas. O movimento de Mães e Familiares do Ceará com suas três bandeiras de luta: justiça, direitos e memória, precisou reinventar coragem e união para ressignificar esses tempos marcados por outro tempo, sobretudo onde “na periferia com ou sem pandemia o Estado mata todo dia”. Com as palavras de ordem “juventude quer viver”, “nosso direito de mãe”, “não podemos ir pra rua, mas nossa voz faz barulho”, as mães através da memória de luto e vida, trazem à tona não só o passado, mas também o presente, o agora.

Suas memórias individuais e coletivas aparecem como força profunda, ativa, latente, oculta e invasora. (BOSI, 1994). A Pandemia parece transfigurar as lembranças na carne viva do coração impulsionando a necessidade de lutar e continuar lutando não só pelos filhos assassinados, torturados, mas pelas juventudes plurais que estão nas periferias, que estão expostas as múltiplas vulnerabilidades e desigualdades sociais, juventudes que sentem na pele um Estado punitivo e racista.

A pandemia não cessou a violência contra a juventude cearense. O Fórum Popular de Segurança Pública do Ceará publicou um relatório revelando que de janeiro a maio de 2020, ocorreram 798 assassinatos de adolescentes e jovens de 12 a 24 anos, representando 42,29% do total de mortes violentas deste período.

Diante disso, as mães e familiares vítimas da violência nos ensinam e partilham a necessidade de construirmos e alimentarmos nossas redes de afetos, redes de resistência e de sobrevivência que nos mostra a pulsão de vida que o movimento provoca.

Elas nos instigam a pensar nossas emoções políticas como resistências afetivas vitais para reinventar o sentido de estar viva. Aqui a dor não some, a tristeza aparece, as lágrimas limpam, o grito ás vezes sufoca, a dor é insistente, mas as mães estão juntas, caminham de mãos dadas, constroem seus círculos de experiências, fazem emergir suas diferenças e conflitos. as mães nos ensinam como fazer política de sentidos.

As mulheres que estão nessas redes, movimentos, grupos, muitas vezes chamadas de “guerreiras” cansam de guerrear, e olham para dentro em busca de acolhimento para poderem continuar. A luta e estar na luta nunca foi fácil, sobretudo para elas, nesse tempo de isolamento, de forma coletiva estão buscando mais uma vez reinventar as memórias, reelaborar práticas de coragem e amor.

Nos encontros virtuais que estão sendo realizados durante a pandemia, elas falam de autocuidado, intensificam suas trocas e experiências, encontram aconchego, provocam gargalhadas contando como foi divertido aprender “a mexer nesse negócio de tecnologia”.

Elas fazem lives e reuniões online. A leveza, a alegria surge nos detalhes da vida. Nas chamadas virtuais, nas ligações diárias formam teias fortalecidas de esperanças para dias melhores.

O sentido de estar na luta parece ser potencializado, o sentido da vida ressignificado. E o olhar para dentro é perceber a importância de caminhar em tempos difíceis.

A maior lição deixada por essas mulheres é a da empatia pelo sofrimento coletivo. Hoje vivemos com o medo de perder nossos familiares e parentes de forma repentina para a doença. Perder repentinamente faz parte das histórias dessas mulheres que perdem seus filhos precocemente.

Agora essa emoção nos coloca lado a lado delas. Com a diferença que para os filhos das mães das periferias, não só o vírus pode ser letal.

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Diálogos OPP | Covid-19: alunos e professores – direito à vida

O Observatório de Políticas Públicas (Opp) e o Núcleo Cearense de Estudos e Pesquisas sobre a Criança (Nucepec) se uniram para realizar – nesta 2° edição da série Diálogos OPP – a live “Covid-19: alunos e professores – direito à vida”, no dia 20 de agosto de 2020. A transmissão será online, ao vivo, no canal do YouTube do Observatório de Políticas Públicas a partir das 19 horas.

O debate abordará a polêmica questão que envolve a atual situação de alunos e professores no delicado precesso de retorno às aulas. Isso é oportuno, considerando que há pouca presença nos debates de quem é diretamente afetado por esse problema, sofrendo cada vez mais com o medo, a incerteza, o descaso, a carga de trabalho (como no caso dos professores e familiares) e as tantas outras preocupações e demandas que a sociedade precisa ouvir e entender.

E será com prazer, que teremos na live a presença de:

Ângela Pinheiro (mediadora): professora de psicologia na Universidade Federal do Ceará e Fundadora do NUCEPEC na UFC.

Márcia Friggi (convidada): professora de Língua Portuguesa e Literatura em Santa Catarina, da rede Estadual de ensino.

Pedro Alisson (convidado): membro do NUCEPEC e estudante de psicologia.

David Araújo (convidado): psicólogo e membro do fórum DCA – Direito das Crianças e Adolescentes.

Cibele Mayra (cerimonialista): bolsista do OPP e estudante de Gestão de Políticas Públicas.

Participe do evento, conheça as diferentes visões de professores e alunos e vejo como podemos fazer a diferença.

Link de acesso ao canal: Observatório de Políticas Públicas

Divulgue e participe!

#Opp

#Nucepec

#DialogosOPP

Seminário virtual Auto medicação e propaganda de medicamentos na pandemia de covid-19

Quais os riscos da automedicação na prevenção e tratamento da Covid-19? O que dizem as principais evidências científicas sobre o assunto? Nesta sexta-feira (14), às 10 horas, o ISC em Casa promove o debate “Automedicação e propaganda de medicamentos na pandemia de Covid-19”. A sessão será transmitida ao vivo através do canal do ISC no Youtube (youtube.com/labvideoisc).

Os convidados são Paulo Arrais (UFC), Bagnólia Araújo (UFPB) e Adroaldo Belens (OAPS/ISC/UFBA), com mediação de Gisélia Santana (ISC/UFBA).

Os seminários virtuais integram as atividades do ISC em Casa, projeto do Instituto de Saúde Coletiva que tem como objetivo levar informações à comunidade durante o período de isolamento social.

Clique aqui para acessar o canal: youtube.com/labvideoisc

Miguel Nicolelis: “O cérebro humano é o verdadeiro criador do universo”

Em entrevista a GALILEU, o neurocientista brasileiro fala sobre seu novo livro, cuja tese propõe que nossa mente é o verdadeiro centro do universo

Em novo livro, o neurocientista Miguel Nicolelis apresenta teoria do cérebro humano como centro do universo (Foto: Arquivo pessoal)

Matéria publicada originalmente na Revista Galileu

O neurocientista Miguel Nicolelis, que já foi considerado pela revista Scientific American um dos 20 cientistas mais influentes do planeta, tem uma nova teoria: o verdadeiro centro do universo é o cérebro humano.

“Estudo o cérebro há mais ou menos 38 anos, e nos últimos seis ou sete comecei a me dar conta que precisamos fazer um reposicionamento cosmológico, porque basicamente todas as explicações que foram geradas sobre o que existe lá fora no Universo vieram da mente humana”, explica o cientista, em entrevista exclusiva a GALILEU. “Qualquer uma das visões sobre o surgimento do cosmos são secundárias ao epicentro real, que é a mente. Então concluí que essa visão epistêmica seria a mais correta, sucinta e elegante do que é realmente a reconstrução do universo.”

Em O Verdadeiro Criador de Tudo – Como o Cérebro Humano Esculpiu o Universo como Nós o Conhecemos, lançado nesta segunda-feira (10) pelo selo Crítica da Editora Planeta, Nicolelis discorre sobre a tese e os perigos para a humanidade de não reconhecer a importância do papel do cérebro. A obra completa a trilogia iniciada em 2011 com o lançamento de Muito Além do Nosso Eu (Companhia das Letra) e que também conta com Made in Macaíba, publicado em 2016 pela Planeta.

Professor da Universidade Duke, nos Estados Unidos, onde atua desde 1994, o cientista de 59 anos encontra-se há 150 dias em seu apartamento em São Paulo, sua cidade natal, impossibilitado de retornar ao país que atualmente chama de casa devido à pandemia.

De sua residência paulistana, conversou com GALILEU sobre sua nova obra, a urgência de um resgate humanístico, negacionismo científico, a relação da pandemia com a negligência do cérebro e, ainda, os efeitos de tudo isso em nossa mente.

Como o senhor resumiria a teoria do cérebro relativístico?

A teoria do cérebro relativístico segue uma tradição bem antiga, da tese de que todo o movimento é relativo. Você não se move por si só, e sim em relação a algo. Por exemplo, estou andando aqui na minha sala em relação ao movimento da Terra em torno de si mesma, em torno do Sol e assim por diante. E a mente humana, na minha concepção — e conforme os experimentos que realizei sugerem —, funciona da mesma maneira. Ela cria um modelo interno da realidade e continuamente julga, atualiza, renova esse modelo, comparando com o que ela obtém do mundo exterior.

A equação relativística da mente é comparar continuamente o modelo mental do universo, do nosso corpo, das nossas relações sociais, da nossa vida com aquilo que a gente obtém pelo nosso sistema sensorial. Tudo o que intuímos, descobrimos ou criamos vem desse embate relativístico. É muito semelhante à teoria de Einstein na física, com a diferença de que ele introduziu o observador no universo, mas não entrou na cabeça do observador. A cabeça do observador não fazia diferença para ele, e para mim faz.

Na sua visão, esse novo sistema seria capaz de gerar uma agenda humanística inédita. Que agenda é essa?

O humanismo se tornou secundário aos interesses econômicos, e a pandemia que estamos vivendo é um exemplo disso. O que proponho no livro é que, ao colocar a mente humana como criadora do universo humano, você põe o dedo em quem realmente definiu o modelo de civilização. Os mercados, o dinheiro, os deuses, tudo é criação da mente humana, e infelizmente eles se transformaram em coisas mais importantes do que a própria vida. As pessoas estão dispostas a se matarem por uma diferença religiosa hoje em dia. Ou então a escravizar outro ser humano para obter um maior lucro. No momento em que aceitarmos que isso tudo pelo que hoje a gente se mata é simplesmente uma abstração mental, talvez a gente caia em si de que a vida humana e do planeta são muito mais relevantes, muito mais importantes. Essas abstrações secundárias não deveriam ser mais importantes do que a preservação da espécie, do bem-estar humano e do planeta. É por isso que essa reformatação, na minha opinião, é algo essencial, neste momento mais do que nunca, não é só lero lero de neurocientista.

É curioso notar que, se a gente percebesse essas abstrações, talvez aquela dicotomia que se colocou no início da pandemia de preservar a economia ou a vida humana não seria nem uma questão.

Sim, era preservar a abstração ou o criador da abstração, é exatamente esse o ponto. Suponhamos que existisse uma outra espécie que tivesse chegado à conclusão de que o que estou dizendo agora é correto. Essa espécie, sob as condições de ameaça que nós estamos hoje, jamais teria essa discussão. Então o manejo da pandemia seria bem diferente, haveria um consenso mundial de que os governos teriam que suprir os cidadãos com os meios para ficar em casa o tempo necessário para o vírus ser combatido e uma vacina ser criada. Não haveria essa dicotomia, porque uma é a obra e a outra é o criador.

No livro o senhor fala da importância da subjetividade para os processos científicos, e nós estamos vivendo um período em que há um grande descrédito da ciência. Existe um limite entre uma subjetividade construtiva e benéfica para os processos científicos, e o que pode talvez representar um retrocesso?

Sem dúvida. É que a gente não consegue escapar da subjetividade, esse é um imperativo humano, de como o cérebro funciona. Mas existe uma diferença entre usar o subjetivo para criar ciência, arte, literatura, pintura, e para espalhar absurdos. Ou negar interpretações que criamos do universo e são muito bem-sucedidas. Por exemplo, você falar ‘ah, não, a lei da gravidade é uma criação da mente humana e vou pular da minha varanda aqui do 13º andar para desafiá-la’, eu não recomendo. Mas, ao mesmo tempo em que é possível explicar fenômenos com uma precisão enorme usando a geometria de Einstein, isso não quer dizer que o universo foi feito de geometria. O ser humano teve uma decisão subjetiva de usar a geometria para explicar o universo, o que não quer dizer que daqui a algumas centenas de anos a melhor explicação do universo seja outra, em outros termos.

O outro extremo é desafiar a lógica, princípios básicos de relações causais e tentar usar outras abstrações mentais que não têm relação com a realidade concreta. Por exemplo, combater um vírus. Estamos ouvindo absurdos atrás de absurdos sobre o que fazer. Durante meses o Brasil ficou refém de um medicamento que não tem efeito algum para o vírus [a cloroquina]. Só dois países do mundo fizeram isso, os Estados Unidos e o Brasil. E eles desistiram bem antes de nós.

O insight para escrever este novo livro veio ao ler um sobre arte no Natal. Pode contar como foi esse processo?

Isso, um livro de história da arte, que não tinha a menor relação com nada. Mas quando eu li o Gombrich [ErnstGombrich, austríaco considerado um dos maiores historiadores da arte do século 20] , foi como se eu estivesse falando comuma alma gêmea. Quando ele fala que não existe arte com Amaiúsculo, existem artistas, é sensacional, é emocionante. Omesmo vale para a ciência. Não existe A ciência, não existe Afísica, isso é uma criação nossa. Existem as mentes humanasque se uniram para criar um arcabouço lógico que funcionamuito bem. Mas não é definitivo, começa daí, e não é algo queabrange tudo, por isso falo que não somos e jamais seríamoscopiados.

Nem por sistemas de inteligência artificial?

A nossa mente jamais será copiada num sistema digital,porque não é algorítmica. Ela não pode ser deduzida a partir de leis determinísticas e um sistema digital. Então, é uma falácia que eu aponto há anos, um absurdo achar que algum computador vai reproduzir a mente humana, não tem nenhuma validade matemática isso. Mas vendeu muito livro e muito contrato pro departamento de defesa americano falar que você tinha um computador que ia emular a mente humana, sabe? Tinham interesses financeiros muito grandes por trás.

Qual sua visão sobre o transumanismo?

Uma tentativa de fusão biônica, que eu sou completamente contra. E olha que eu criei as interfaces cérebro-máquina, certo? Então é a pura contradição, mas na realidade não é. A minha intenção sempre foi de primeiro estudar o cérebro. É um paradigma muito bom estudar a mente, o cérebro em animais e tal. Mas, de repente, no meio dos anos 2000, eu era o poster boy do transumanismo e sempre tinha que negar, sempre tinha que ir a público e falar ‘não, pelo contrário, eu sou contra isso daí’. Não acho que nós devemos nos fundir com máquinas. Acho que nós devemos usar o que pudermos dessa tecnologia para ajudar pessoas que perderam habilidades neurológicas, mas não criar uma nova espécie. Eu sou visceralmente contra isso. Mesmo porque isso não vai melhorar a nossa espécie. Pelo contrário, isso a degrada, na minha opinião.

Sistemas digitais tampouco constroem redes formadas pela sincronização de cérebros diferentes, que o senhor chamou de brainets. Pode explicar melhor o conceito?

Essa é uma definição do que é a base dos grupamentos sociais humanos e dos mamíferos. As brainets nada mais são do que o mecanismo neurofisiológico que permite que nós possamos nos estabelecer enquanto espécie, grupos sociais tão eficientes e tão sedimentados. A brainet é a definição operacional do grupo social. Como isso se dá: você precisa de uma mensagem unificadora, um conceito, uma imagem, uma fala, até um cheiro, uma música. Por que os grandes concertos de música clássica ou de rock atingem milhares de pessoas e sincronizam os cérebros? É isso que as brainets explicam, como essa sincronização neural entre indivíduos ocorre. E eu consegui reproduzir isso em macacos e mostrei claramente que com sinais super simples, visuais, você consegue sincronizar atividade neural de vários cérebros.

Aí mostrei que essa habilidade especial da nossa mente foi decisiva na construção da história da civilização humana. Todos os eventos relevantes dependeram da formação de brainets. Tudo o que diz respeito a criações humanas envolveesse mecanismo, para o bem e para o mal. Os grandesgenocídios da nossa história são decorrência dessacapacidade de sincronizar mentes com racismo, preconceito,xenofobia, são ideias primitivas que apelam para rotinasneurais muito primordiais do nosso cérebro e fazem com que a racionalidade seja completamente atropelada.

O fenômeno que a gente está vivendo agora, com setores da sociedade que ainda insistem em negar a gravidade da pandemia, poderia ser explicado como um modo negativo de uma brainet?

Sem dúvida. Acho que o fenômeno das fake news, repito isso muito, não começou agora. As fake news começaram desde o início da história humana. Há 3 mil anos, 4 mil anos, quando um faraó foi conversar com o sacerdote do templo dele, dizendo ‘bom, eu preciso encontrar uma forma do povo me obedecer e construir minha tumba’, aí o sacerdote virou para ele e falou ‘tem um jeito, você se veste inteiro de ouro, sai ao meio-dia do seu templo para uma praça com todo mundo te olhando, o sol refletindo em você, e eu digo para o povo que você é agora a projeção do Deus Sol. Você agora é Rá.’ E os caras acreditaram. Esse é o primeiro grande acordo de distribuição de fake news no mundo. De repente o faraó não era um ser humano, ele era a representação terrestre do deus mais poderoso. Evidentemente isso foi um acordo de poder e uma fake news altamente bem-sucedida, porque milhares e milhares de egípcios viveram com essa crença.

Como o fato de estarmos vivendo cada vez mais isolados, tanto no sentido literal quanto metafórico, tendo nossas relações mediadas pelas redes sociais, afeta essa brainet?

Essa imersão quase que contínua nas redes sociais tem afetado nosso cérebro. Na verdade, acho que está esculpindo nossa mente. Como a gente tem que seguir uma lógica digital, ela começa a alterar a relação ou a equação custo-benefício que o cérebro faz de algo que vale a pena fazer ou não. Como se comportar, como se mostrar para o mundo, como se relacionar. O senhor considera que as pessoas hoje estão negligenciando o poder e o protagonismo de seu próprio cérebro? Olha, não sei se estão negligenciando, mas não estão dando muita relevância, porque boa parte dos nossos comportamentos são reflexivos hoje em dia. As fake news sempre existiram, mas a distribuição e a disseminação delas nunca foi tão veloz. Hoje você consegue sincronizar a mente de centena de milhões de pessoas. Você põe um troço no Twitter e o mundo inteiro vê. Sabe por que o Trump não dá a mínima para a imprensa? Porque o Twitter dele tem 15 milhões de seguidores. Se você juntar todas as organizações de mídia, juntas, não chega a dez. Quando ele solta um tweet, fala com mais gente do que a imprensa inteira americana consegue falar. Então, na loucura dele, ele percebeu que não precisa da imprensa. Ele criou a própria rede de fake news. E aí, mais do que nunca, essa minha tese de que o cérebro humano é o centro do universo fica clara. Porque hoje, a partir das fake news e dessas abstrações mentais loucas, criaram-se múltiplos universos paralelos da espécie humana. O cérebro humano é o verdadeiro criador do universo, só que nesse momento nós temos vários ao mesmo tempo.

E como o senhor vê o futuro do cérebro humano? Podemos reverter uma situação dessas?

Há vários cientistas falando ‘não, esse é o melhor dos tempos’,[como] o [Yuval Noah] Harari, o [Steven] Pinker… Discordo dissofrontalmente, é uma simplificação ridícula da realidade. Veja o número de pessoas que morre de fome no mundo, por não terem acesso a nada. Aí eles vão falar ‘não, mas nós melhoramos dramaticamente, temos vacinas, antibióticos’.Temos tecnologia, tudo bem. Mas quem tem acesso? Aescravidão só mudou de nome, haja visto o que aconteceu napandemia. As pessoas estão ficando loucas, porque estãotrabalhando em casa mais do que trabalhavam no dia a dianormal. Isso está tendo um impacto mental tremendo. Então qual é a solução? Primeiro, reconhecer quem é oepicentro de tudo isso. De onde vêm todas essas ideias quedominaram toda nossa vida. De onde vêm os sistemaseconômicos que favorecem a ganância de uma fração ínfimada sociedade em detrimento de bilhões de pessoas, esseprocesso de dominação de ideologias autoritárias que estãoaí. Se você parar e pensar, estão retornando com uma forçatremenda no pico do nosso desenvolvimento tecnológico.Então primeiro precisamos reconhecer qual é o problema. Euma vez que o problema seja reconhecido, mudar nossa visãode como deve ser esse modelo de desenvolvimento de civilização humana.

Talvez antes mesmo de reconhecer qual é o problema, tenhamos que reconhecer que há um problema.

É isso. A pandemia tem três lições grandes, na minha modesta opinião. A primeira é que ela expôs todas as fragilidades do modelo civilizatório de desenvolvimento econômico da humanidade. A globalização, a falta de serviços públicos de saúde que tenham potência para reagir a um fenômeno desses. A completa desacreditação ou negação da ciência. E não estou falando isso do ponto de vista corporativo, porque tenho muitas críticas sobre como a ciência é feita hoje em dia, porque o dinheiro também corrompeu a ciência, é só ver o número de trabalhos que foram retirados de grandes revistas no meio dessa pandemia.

Mas, enfim, é reconhecer o problema, reconhecer quem é o criador do problema e ver que o planeta não aguenta isso mais, nós realmente estamos entrando numa fase cataclísmica. Aquecimento global, pandemia, fragilidades.. Essas probabilidades nunca foram discutidas abertamente, porque ninguém parou para se preocupar, estava todo mundo muito ocupado ganhando dinheiro na bolsa. E quando a política ou o poder econômico batem de frente com a biologia, a biologia ganha de goleada.

Link da matéria fonte: aqui

‘Pandemia é resposta biológica do planeta’, diz físico Fritjof Capra

Autor de “O Tao da Física” relaciona desigualdade social, economia predatória e devastação ambiental ao surgimento do novo coronavírus.

Por: Fernanda Mena

Matéria publicada originalmente no Folha de São Paulo

Ícone do pensamento sistêmico, o físico e ambientalista austríaco Fritjof Capra, 81, interpreta a pandemia da Covid-19 como uma resposta biológica da Terra diante de emergências sociais e ecológicas amplamenta negligenciadas.

Segundo Capra, as mudanças de paradigma necessárias a essas emergências já são possíveis, tanto do ponto de vista do conhecimento quanto do desenvolvimento tecnológico. “Teremos a vontade política que falta?”, provoca ele, em entrevista à Folha por e-mail.

Autor de best-sellers internacionais como “O Tao da Física” e “Ponto de Mutação” (Cultrix), entre outros, o Capra articulou a física moderna a uma visão holística da vida no planeta e dos fenômenos naturais, inserindo a humanidade e suas ações nos ciclos de transformação da vida no planeta.

Capra é uma das estrelas deste ano do ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento, cujo tema — Reinvenção do humano — implica um debate de múltiplas variáveis que, na visão do físico austríco, são sempre indissociáveis e interdependentes.

O físico  austríaco  Fritjof  Capra,  autor  de  best-sellers  internacionais,  como  “O  Tao  da  Física”, que  participa  do  Fronteiras  do  Pensamento  de  2020  –  Folhapress

Diretor do Centro de Alfabetização Ecológica, com sede em Berkeley, na Califórnia (EUA), Capra desenvolveu uma pedagogia da ecologia a ser aplicada no ensino formal, primário e secundário.

Convertido em ambientalista por sua própria pesquisa, o austríaco há décadas denuncia o caráter predatório da economia global capitalista extrativista e a captura corporativa da política, que sucumbe a interesses econômicos em detrimento dos recursos naturais do que chama de Gaia —a Mãe-terra da mitologia grega que batizou uma visão do planeta como um imenso organismo vivo.

Para ele, estão equivocadas as atuais métricas do desenvolvimento baseadas no crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) a partir de uma cultura de excessos, que implica em perdas sociais e econômicas.

Em quais aspectos o momento presente pode redefinir a condição humana?

Na minha visão, o coronavírus deve ser visto como uma resposta biológica de Gaia, nosso planeta vivo, à emergência social e ecológica que a humanidade criou para si própria. A pandemia emergiu de um desequilíbrio ecológico e tem consequências dramáticas por conta de desigualdades sociais e econômicas.

Cientistas e ativistas ambientais há décadas vêm alertado para as terríveis consequências de sistemas sociais, econômicos e políticos insustentáveis. Mas até agora as lideranças corporativas e políticas teimaram em resistir a esses alarmes. Agora eles foram forçados a prestar atenção, já que a Covid-19 trouxe os avisos de antes para a realidade de hoje.

Quais paradigmas a humanidade precisa mudar e por quê?

Com a pandemia, Gaia nos trouxe lições valiosas capazes de salvar vidas. A questão é: teremos a sabedoria e a vontade política necessárias para ouvir essas lições? Mudaremos do modelo de crescimento econômico indiferenciado baseado no extrativismo para outro de crescimento qualitativo e regenerativo? Vamos substituir combustíveis fósseis por formas renováveis de energia que dêem conta de todas as nossas necessidades? Vamos substituir nosso sistema centralizado de agricultura industrial com uso intensivo de energia por um sistema orgânico de agricultura regenerativa, familiar e comunitária? Vamos plantar bilhões de árvores capazes de retirar o CO2 da atmosfera e de restaurar diferentes ecossistemas do mundo?

Nós já temos o conhecimento e a tecnologia para embarcar em todas essas iniciativas. Teremos a vontade política que falta?

Num momento em que o valor do conhecimento científico biológico e tecnológico se mostram tão importantes, qual é o papel das humanidades?

Isso está diretamente relacionado a sua pergunta anterior. Se temos todo o conhecimento científico e tecnológico para construirmos um futuro sustentável, porque não o fazemos simplesmente?

Quando refletimos sobre essa questão crucial, rapidamente percebemos que o nível conceitual não conta toda essa história. Nós também precisamos lidar com valores e éticas, e é por isso que as ciências humanas são mais importantes do que nunca. Literatura, filosofia, história, antropologia podem todas nos imbuir do compasso moral que tanto falta à política e à economia atuais.

Índices de desmatamento têm aumentado na Amazônia brasileira. Quais são os incentivos para isso?

Esses crimes são uma consequência direta da obsessão com o crescimento econômico e corporativo. A devastação de grandes áreas de florestas tropicais é impulsionada pela ganância de corporações multinacionais do setor de alimentação, que buscam incansavelmente lucro e crescimento.

Se o que chamamos de progresso foi atingido às custas de danos ao meio ambiente, nossa ideia de progresso está errada?

A crença em um progresso contínuo e, em particular, a obsessão de nossos economistas e políticos com a ilusão de um crescimento ilimitado em um planeta finito constituem o dilema fundamental que permeia nossos problemas globais.

Isso equivale ao choque entre o pensamento linear e os padrões não lineares da nossa biosfera — a interdependência dos sistemas ecológicos e os ciclos que constituem a teia da vida. Essa rede global altamente não linear contém inúmeras alças de retroalimentação por meio das quais o planeta se regula e se equilibra.

Nosso sistema econômico atual, ao contrário, parece não reconhecer a existência de limites. Nele, um crescimento perpétuo é perseguido incessamente através da promoção do consumo excessivo e de uma economia do descarte que usa de maneira extravagante tanto recursos como energia, aumentando a desigualdade econômica.

Esses problemas são exacerbados pela emergência climática global, causada pelas tecnologias de uso intensivo de energia e baseada em combustíveis fósseis.

Com a pandemia, projeções apontam para o aprofundamento das já marcantes desigualdades sociais de nosso tempo. O que as produziu e como reverter esse processo?

O aprofundamento das desigualdades é uma característica inerente ao sistema econômico capitalista de hoje. O chamado “mercado global” é, em verdade, uma rede de máquinas programadas de acordo com o princípio fundamental segundo o qual ganhar dinheiro tem primazia sobre direitos humanos, democracia, proteção ambiental.

Valores humanos, no entanto, podem mudar porque eles não são leis naturais. A mesma rede eletrônica de fluxos financeiros pode ter nela embutidos outros valores. O ponto crítico não é a tecnologia, mas a política.

Há sinais de mudanças neste sentido na política de hoje?

Uma nova liderança começou a emergir recentemente em uma série de movimentos jovens muito potentes, como Sunrise Movement, Extinction Rebellion, Fridays for Future, entre outros.

Há também a ascensão de uma nova geração de políticos, curiosamente formada por mulheres, como a primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinta Arden, a primeira-ministra da Finlândia, Sanna Marin, ou a congressista [democrata] norte-americana Alexandria Ocasio-Cortez.

Com certeza absoluta! Para prevenir o alastramento da pandemia, agora e no futuro, teremos de reduzir densidades populacionais excessivas, como ocorre no turismo de massa e em condições de vida marcadas pela superlotação. Ao mesmo tempo, necessitamos de cooperação global.

A justiça social se torna uma questão de vida ou morte durante uma pandemia como a da Covid-19. E ela só pode ser superada por meio de ações coletivas e cooperativas.

Seu trabalho explorou a interconectividade entre as ciências e os conceitos e filosofias considerados não-científicos. Como esse diálogo complexifica nosso entendimento do planeta e da humanidade?

Eu me formei como físico e fiquei fascinado pelas implicações da física quântica, que nos mostra que o mundo material não é uma máquina gigante mas uma rede inseparável de padrões de relações. Durante os anos 1980, minha pesquisa virou para a área das ciências da vida, da qual tem emergido um novo conceito sistêmico que confirma a fundamental interconectividade e interdependência de todos os fenômenos naturais.

Quando nós entendemos que compartilhamos não apenas as moléculas básicas da vida, mas também princípios elementares de organização com o restante do mundo vivo, percebemos o quão firme estamos costurados em todo o tecido da vida.

O que você aprendeu com a pandemia?

Tem sido incrível para mim ver como o coronavírus expôs tantas injustiças ecológicas, sociais e raciais omitidas por décadas pelas mídias de massa.

Também fiquei espantado de ver como, em um curto espaço de tempo, a poluição quase desapareceu da baía de São Francisco, na Califórnia (EUA), onde eu vivo, assim como ocorreu em várias das grandes cidades do mundo. Isso me encheu de esperança quanto à capacidade da Terra de se regenerar.

[ + ] Leia o texto completo acessando o blog do Observatório de Políticas Públicas

Postado por: Das Chagas Martins

Postado em: 12/08/2020

Livro: “Trabalho em tempos de COVID-19: orientações para a saúde e segurança”.

A Universidade Federal do Ceará constitui-se em uma das mais renomadas universidades do país. Historicamente sempre atuou em prol da sociedade cearense, principalmente em momentos de crises, como estamos vivenciando agora. Neste sentido a Faculdade de Medicina e em especial o Departamento de Saúde Comunitária tem tradição de serviço junto a comunidade. E neste momento de enfrentamento ao novo corona vírus não faltaria à sociedade. Diversos foram os trabalhos e ações desenvolvidas pelo corpo docente e discente, entre eles está o livro Trabalho em Tempos de COVID-19: Orientações para a saúde e segurança. O livro é fruto de um esforço coletivo de diversos autores de diversas instituições com coordenação e organização dos professores Maxmiria Holanda Batista, Saulo da Silva Diógenes e Edenilo Baltazar Barreira Filho, em conjunto com os alunos da Liga Saúde Trabalho e Ambiente do Curso de Medicina da UFC e do grupo de pesquisa TRASSUS ligado a pós graduação em Saúde Pública da UFC. Parabéns a todas e todos os envolvidos nesse processo de construção coletiva, sem vocês isto não seria possível.

O livro, publicado pela Imprensa Universitária/ Edições UFC no formato e-book, tem seu download gratuito pelo link:
http://www.repositorio.ufc.br/handle/riufc/53354

Baixe também em PDF:

2020_liv_mhbatista

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#ufc #famed #covid #ebook #medicina #medicinadotrabalho #saúde #segurança #trabalhadores #lista

Postado Por: Das Chagas Martins

Postado em: 12/08/2020

100 anos de Celso Furtado: que desenvolvimento queremos para o Brasil?

SEMINÁRIO PEÇA #01

A Assembleia Legislativa, através da Escola Superior do Parlamento Cearense (Unipace) e o Instituto de Planejamento de Fortaleza (Iplanfor), por meio do Observatório de Fortaleza, se uniram para realizar o Seminário “100 anos de Celso Furtado: que desenvolvimento queremos para o Brasil?”, nos dias 12 e 13 de agosto de 2020. O Seminário tem ainda o apoio da Secretaria do Desenvolvimento Econômico e do Trabalho (Sedet), por meio da Agência do Desenvolvimento do Ceará (ADECE/Câmara Setorial da Economia Criativa), Universidade Federal do Cariri (UFCA), da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA). A transmissão será online, ao vivo, nos canais do YouTube do Observatório de Fortaleza e da Unipace, a partir das 15 horas.

Em tempos de incertezas, de descrédito na ação política, de ameaças à ciência e à cultura, é preciso, mais do que nunca, retomar os significados profundos da política. Celso Furtado, que dedicou sua vida a entender o Brasil e a produzir projetos de transformação nacional, resgata, em sua obra, o diálogo das ciências econômicas com as ciências sociais básicas, a filosofia, as tecnologias, as artes e a cultura, num esforço maior de compreender as consequências dos modelos econômicos para os países de economia dependente.

Em sua trajetória como administrador público, fundador da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE) e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com passagens nos ministérios do Planejamento e da Cultura dos governos João Goulart e José Sarney; articulador e gestor nas Relações Internacionais, integrando a Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL/ONU), Celso Furtado defendia a construção de um desenvolvimento endógeno que garantisse dignidade, solidariedade e igualdade de oportunidade aos brasileiros. Único brasileiro indicado ao Prêmio Nobel de Economia, em 2013, com uma bibliografia composta por mais de 30 livros, ele investigou a mecânica do subdesenvolvimento do país.

Nas cinco Mesas que têm desdobramento nos dois dias do Seminário, grandes nomes da política nacional, como Celso Amorim, diplomata e ex-ministro das Relações Exteriores, e Gilberto Gil, cantor e compositor e ex-ministro da Cultura, são convidados a debater capitalismo, cultura, globalização e as perspectivas de desenvolvimentos regionais do Brasil, da América Latina e do mundo. Durante o evento haverá também o lançamentos de livros.

As inscrições podem ser feitas através do link: https://bit.ly/30soVCP

Ou assista agora!

Link do primeiro dia: https://youtu.be/v5G7ys8VEx0

Link do segundo dia: https://youtu.be/No1N6pAcd_U

Escritoras para o Novo Mundo

Encontro das Escritoras

SOBRE O GRUPO DE ESTUDOS AMBIENTAIS (GEA):

O Grupo de Estudos Ambientais (GEA) é um projeto promovido pela parceria entre a UFC, através do Laboratório de Biogeografia e Estudos da Vegetação (BIOVEG), e do Sesc Fortaleza, através do Projeto Aflorar, que surgiu em virtude do atual cenário que estamos vivendo, um vez que, o criamos para dar continuidade às nossas atividades ao longo do semestre, do curso de Ciências Ambientais da UFC.

Ele tem como objetivo disseminar conhecimento e gerar um senso crítico com relação às questões ambientais.

O EVENTO:

O Encontro das Escritoras para o Novo Mundo foi idealizado por mulheres que acreditam na valorização das pesquisas e do conhecimento produzido por cientistas e escritoras.

Deste modo, convidamos autoras de livros que consideramos ser obras fundamentais para a disseminação da educação ambiental e maior entendimento da conservação da biodiversidade.

O evento acontecerá nos dias 11 e 13 de agosto, às 18h, através da plataforma Google Meet.

Link para inscrição no evento: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSes-OFSylLxhm1P1PTgbsQ8cLL0mG1KuwWiWEiJc49YNjs5HQ/viewform

O CRONOGRAMA:

Dia 11/08 (terça-feira):

Profa. Dra. Zulmira Bomfim: Professora de pós-graduação do curso de Psicologia da UFC. Atua na linha de pesquisa de Processos Psicossociais e Vulnerabilidades Sociais. Autora do livro “Cidade e Afetividade”.

Dra. Isabel Cristina de Moura Carvalho: Psicóloga, doutora em educação e professora da UNIFESP. Autora do livro “Educação ambiental: A formação do sujeito ecológico”.

Dia 13/08 (quinta-feira):

Profa. Cássia Regina Xavier de Andrade: Pós-graduada em Psicologia Transpessoal e Educação Biocêntrica. Presidente da Associação Portal Vida. Diretora da Escola Comunitária de Biodança. Autora do livro “Vida comunitária”.

Dra. Nurit Bensusan: Ex-humana, que diante dos descalabros da nossa espécie desistiu da humanidade, mas continua bióloga. Enquanto isso, reflete sobre paisagens e culturas, formas de estar no mundo e as inspirações da natureza. Além disso, escreve livros, faz jogos e aposta a vida em usar a imaginação como alavanca para suspender o céu. Organizadora do livro “Seria melhor mandar ladrilhar? Biodiversidade: como, para que e por quê”.

Ambos os encontros ocorrem às 18h (horário de Brasília) e será transmitido via Google Meet. O link de acesso a sala será enviado horas antes para o email cadastrado na inscrição.

A marcha dos mortos

Por: Eliane Brum

Quase 100.000 vítimas do Governo Bolsonaro e somos covardes ao ponto de normalizar um crime contra a humanidade que é feito em nosso nome

Queria começar dizendo do meu horror por estar escrevendo esse texto sobre os 100.000 mortos enquanto algumas centenas deles estão vivos e lutando pela vida. Todos nós já sabemos que chegaremos aos 100.000 mortos. E este é o horror. E ultrapassaremos os 100.000 mortos, e este é o horror. E não sabemos em quantos milhares de mortos chegaremos, porque não há nenhum controle no Brasil sobre a disseminação da covid-19. Eu ainda sentiria horror se estivesse lidando apenas com a fatalidade de um vírus. Mas tenho convicção de que não é disso que se trata. Uma convicção baseada em fatos, como deve ter uma jornalista que emite sua opinião. Uma convicção fundada em acompanhamento do Diário Oficial da União e da comunicação do Governo. Meu horror é infinitamente maior justamente porque testemunhamos um genocídio praticado por Jair Bolsonaro e todos os funcionários ― fardados ou não, peito estrelado ou não ― que têm poder de decisão. Meu horror é por escrever sabendo que chegaremos aos 100.000 mortos e perceber que não encontramos força para barrar o genocídio e ainda não encontramos gente suficiente ― no Brasil e no mundo ― para se somar à luta para barrar um crime contra a humanidade.

Eu peço perdão aos mortos por nossa fraqueza como povo. Eu peço perdão em nome dos juristas e dos intelectuais que preferem não, porque, afinal, Bolsonaro seria só incompetente ― e não um matador deliberado e sistemático. Alguns ainda fazem bochecho com a palavra “banalização”, denunciando que se estaria vulgarizando o termo, sem perceber que são eles que banalizam mais de 1.000 mortes por dia. Eu peço perdão em nome da parcela dos jornalistas que prefere ser “imparcial” diante de um massacre, como se a suposta imparcialidade fosse justificativa para sua omissão como ser humano. Eu peço perdão em nome daqueles que aprovam Bolsonaro porque recebem 600 reais por mês do Governo, porque conheço muitas pessoas em situação de pobreza que exigem seus direitos de serem assistidas pelo Estado numa situação de emergência, mas não compactuam com a morte do outro. Eu peço perdão em nome daqueles que acreditam ser suficiente colocar seu nome em abaixo-assinado enquanto os mortos se enfileiram. Eu peço perdão por essa porção das elites intelectuais voluntariamente pueril em política e destituída de coragem pessoal para assumir seu papel histórico de barrar o extermínio. Eu peço perdão por por essa parcela pusilânime da população que, com as mais variadas desculpas, delega ao outro a tarefa de enfrentar o mais difícil. Eu peço perdão em meu próprio nome por não ser capaz de fazer o mínimo suficiente.

Todos os dias eu acordo e durmo pensando qual é o papel de uma jornalista, de uma cidadã, de uma pessoa humana quando testemunha um genocídio e me horrorizo porque já não sei o que fazer, porque há pelo menos quatro petições no Tribunal Penal Internacional mas, diante da magnitude da destruição, ainda é pequeno o movimento de mobilização em torno das denúncias. Ainda são muito poucos usando seu espaço para dar nome ao horror. E então, mais uma vez, eu peço perdão para o que não tem perdão.

Eu peço perdão a você, grande Aritana, cacique do Xingu, por sua voz de tantas línguas ter sido silenciada porque Bolsonaro deixou a floresta aberta aos agentes do vírus, muitos deles atendendo pelo nome de grileiros e garimpeiros ― e fez isso com o apoio dos generais de sua corte, herdeiros de uma ditadura que matou mais de 8 mil indígenas ― impunemente. Eu peço perdão porque tantos brancos acham que negar medidas emergenciais e até mesmo água potável aos indígenas na pandemia, como o Governo fez, é “incompetência” ou “fracasso da política de enfrentamento à covid-19”. Eu peço perdão a você, seu Bié, Manoel da Cruz Coelho da Silva, quilombola de Frechal, no Maranhão, porque gente demais acha que morrer mais pretos que brancos é “normal”. Eu peço perdão a você, Tia Uia, Clarivaldina Oliveira da Costa, quilombola da Rasa, no Rio de Janeiro, porque depois de tantos séculos de luta para existir num país fundado sobre os corpos dos escravos, você morreu por racismo. Eu peço perdão a você, Carlilo Floriano Rodrigues, que criou sete filhos com tanto carinho, e caminhou com coragem mesmo sem uma perna. Eu peço perdão a você, Alayde Antônia Rossignolli Abate, que não se desgrudava de seu cachorro de nome Paçoca. Eu peço perdão a você, Roosevelt Guimarães Soares, que enquanto viveu acordava as três horas da madrugada para vender melancia na feira. Eu peço perdão a você, Delcides Maria Oliveira, que na infância enganou a fome com colheradas de café mas não conseguiu vencer a indiferença do Governo diante dos mortos pela covid-19. Eu peço perdão a você, adolescente Yanomami morto aos 15 anos e enterrado em terra estranha como se coisa fosse.

Eu peço perdão a todos os 100.000, cada um com seu nome, sua história, seus desejos, suas fraquezas, seus sonhos e seus amores. Seus gestos que o crime imobilizou. Peço perdão aos Inumeráveis que foram convertidos em estatística e aos Vagalumes que tiveram sua luz apagada pela indiferença de Bolsonaro diante de suas vidas. “E daí?”, disse o genocida, quando eram 5 mil mortos pela “gripezinha”.

Eu peço perdão pela vida interrompida pela fome de morte daquele que disse, na última quinta-feira, diante da proximidade dos 100.000 brasileiros mortos: “Vamos tocar a vida e buscar uma maneira de se safar desse problema”. Eu peço perdão porque Bolsonaro só pode ser presidente porque há milhões iguais a ele, com a mesma indiferença pela vida do outro, andando sem máscara para que você morra sem ar.

Eu peço perdão por aqueles que foram enterrados em covas sem nome. Eu peço perdão por aqueles que foram enterrados em caixas de papel porque faltou caixão. Eu peço perdão por aqueles que sofreram a indignidade de começarem a se decompor em casa porque não havia serviço público para buscar seus corpos, submetendo suas pessoas queridas à tortura de sentir aversão pelo cheiro de quem amavam. Eu peço perdão a você, bebê Yanomami, que foi sepultado longe da sua terra e do seu mundo, sem o lamento de seus pais, sem as homenagens de seu povo, e portanto, não terá paz nem deixará os vivos em paz.

Eu peço perdão a todos aqueles que não foram chorados na sepultura, aos enterrados por um coveiro que os desconhecia, submetendo seus vivos ao flagelo de não se despedir e portanto não fazer luto. Eu peço perdão aos coveiros submetidos à brutalidade do Estado. Eu peço perdão aos profissionais da saúde que arriscam sua vida dia após dia e são agredidos nas ruas por incitação do presidente da República. Eu peço perdão ao bebê Xavante que, ao morrer, contaminou parte do seu povo que não recebeu nenhuma orientação para se proteger de mais um vírus. Eu peço perdão aos indígenas que, por viverem na cidade, tiveram suas identidades arrancadas pelo mesmo Estado que os expulsou de suas terras. Como suas mortes não são computadas como aquilo que são ― indígenas ― são mortos uma segunda vez. Eu peço perdão por permitirmos que gente seja tratada como coisa e por nos coisificar ao normalizar o extermínio.

Eu peço perdão não porque tenho “culpa cristã”, como já fui “acusada” em outros momentos. Eu peço perdão porque tenho “responsabilidade coletiva”, porque sou responsável pelo que fizeram e pelo que fazem no meu e no seu nome. Bolsonaro está perpetrando um genocídio em nosso nome quando substitui profissionais da saúde experientes em epidemias por militares inexperientes em saúde, está perpetrando um genocídio em nosso nome quando distribui cloroquina e hidroxicloroquina até mesmo para povos indígenas, medicamentos cuja ineficácia para combater a covid-19 já foi cientificamente comprovada, assim como seus riscos. Está perpetrando um genocídio em nosso nome quando retém os recursos destinados ao enfrentamento da pandemia enquanto faltam até mesmo sedativos nos hospitais para aplacar a dor das vítimas. Está perpetrando um genocídio em nosso nome quando veta medidas de segurança e estimula que as pessoas vão às ruas sem máscaras. É possível seguir empilhando atos de Bolsonaro que comprovam sua intenção de matar. E também de deixar morrer, o que é uma outra forma de matar, já que um governante tem a responsabilidade constitucional de proteger a população do país que governa.

Eu peço perdão. E digo também que, ainda que sejamos poucos, resistiremos. Os povos que estão sendo massacrados, como os indígenas, estão produzindo suas próprias estatísticas e seus memoriais. É a maneira de reconhecer a vida dos que morreram e lhes dar a dignidade da verdade na morte. Diante de crimes contra a humanidade, os obituários ganharam o significado da resistência. Contar a história e as histórias tornou-se insurgência – para que os mortos possam viver como memória e seus assassinos não escapem da justiça. Resistimos contando os mortos em mais de um sentido ― como estatística confiável, como identidade reconhecida, como história contada. Nos insurgimos fazendo viviários dos que foram mortos, porque diante das ações e das omissões de Bolsonaro e de seu Governo, morrer de covid-19 não é morte morrida, é morte matada.

Nós, os que Bolsonaro e seu Governo ainda não conseguiram matar, lembraremos e faremos lembrar. E, quando morrermos, nossos filhos lembrarão. E quando nossos filhos morrerem, nossos netos lembrarão.

Caro Jair Bolsonaro, caros generais, caros civis envolvidos nos crimes contra a humanidade relacionados à covid-19: eu espero que vocês sejam assombrados pelos 100.000 mortos. Eu espero que um dia alguém faça um filme da marcha dos mortos à Brasília, marcando a volta do realismo fantástico em nosso continente, já que a realidade que vocês impuseram nos roubou até mesmo a possibilidade da fantasia. Então, liderados pelo grande Aritana, que carregará em seus braços os corpos mortos dos bebês Yanomami insepultos, 100.000 dedos apontarão para seus rostos. Vocês poderão, talvez, escapar dos tribunais. Não escaparão da memória.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora de Brasil, Construtor de Ruínas: um olhar sobre o país, de Lula a Bolsonaro (Arquipélago). Site: elianebrum.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter, Instagram e Facebook: @brumelianebrum

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Cearenses desenvolvem molécula sintética que pode impedir infecção por coronavírus

O trabalho é todo feito em ‘in silico’, uma espécie de simulação.

Cinco pesquisadores cearenses desenvolvem molécula sintética que pode impedir infecção por coronavírus — Foto: John Cairns, University of Oxford via AP

Matéria publicada originalmente no G1

Cinco pesquisadores cearenses produziram moléculas sintéticas derivadas de proteínas de plantas que evitariam a infecção pelo novo coronavírus. O processo pode ser um passo para o desenvolvimento de um medicamento contra a doença. O trabalho está exposto na Science Direct.

O estudo, que começou há cerca de cinco meses, foi idealizado por Francisco Eilton Lopes, biólogo e bolsista lotado no Centro de Educação Permanente em Atenção àSaúde da Escola de Saúde Pública do Ceará (CEATS-ESP/CE); o pós-doutor emCiências Biológicas pela Universidade de Nebraska, nos Estados Unidos, Pedro FilhoNoronha de Souza; os professores doutores José Tadeu Oliveira e Cleverson Diniz Teixeira de Freitas; e o doutorando em bioquímica na UFC, Jackson Amaral.

A pesquisa conta com o apoio do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecularda Universidade Federal do Ceará (DBBM/UFC), ESP/CE e Núcleo de BiologiaExperimental da Universidade de Fortaleza (Nubex-Unifor). Um dos idealizadores, Francisco Eilton, diz que a ideia surgiu em decorrência na qual o mundo foi submetido por causa da pandemia. “A atual emergência global emsaúde pública nos fez iniciar a busca por novas drogas contra as principais proteínasvirais de SARS-CoV-2, o novo coronavírus”, informa.

Como funciona

As moléculas sintéticas foram desenhadas por probabilidade e sintetizadas em São Paulo, utilizando sequência de proteínas das plantas acácia-branca, mamona e erva-estrelada, que já possuíam histórico experimental contra outros vírus.

A produção teve como alvo a Spike glycoprotein, principal proteína do novo coronavírus. Com forma de espinho e exposta para o lado de fora do envelope lipídico do vírus, ela também é importante no reconhecimento de outra proteína presente nas células humanas, chamada de ACE2.

Ao interagir com a Spike glycoprotein do SARS-CoV-2, a ACE2 funciona como uma porta de entrada para as demais células humanas, iniciando a replicação viral e a infecção, conhecida como Covid-19.

Os resultados obtidos sugerem que as moléculas sintéticas produzidas pelos pesquisadores locais podem interagir com a Spike glycoprotein e impedir a ligação dela com a ACE2. Sem essa interação, o vírus não pode entrar na célula, não se replica e, portanto, a infecção não ocorre. Das oito moléculas produzidas, duas impossibilitaram a interação.

Pioneirismo

O estudo é o primeiro relato na literatura mundial em que moléculas criadas em laboratório podem impedir a infecção por Sars-Cov-2. O pesquisador Pedro Filho relata que o trabalho é todo feito em “in silico”, uma espécie de simulação. “O diferencial é que não tinha sido realizado nenhum tipo de estudo com essas moléculas, peptídeos. A nossa análise sugeriu que esses peptídeos podem impedir a entrada do novo coronavírus nas células”, explica.

A pesquisa do grupo cearense ainda não foi testada em vittro, o que não deve demorar a acontecer. De acordo com os idealizadores, eles estão em contato com uma empresa alemã. “Estamos conversando, já está bem avançado”, relata Pedro Filho.

A UFC fará o pedido de patente do experimento ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI).

O trabalho foi publicado na revista International Journal of Biological Macromolecules, editada pela Elsevier, umas das maiores editoras científicas do mundo. “Nós submetemos o trabalho a revista e eles tem um rigor muito alto. É uma pesquisa inovadora na área”, reconhece Francisco Eilton.

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I Jornada LIMEFLE | Arte literária e a invenção do humano: narrativas em disputa

O grupo LIMEFLE (FECLESC / UECE) temos o prazer de convidá-lxs para participar da I Jornada LIMEFLE, que tem como tema “Linguagem e resistência”. A Jornada acontecerá de forma online e gratuita nos dias 11, 12, 18 e 19 de agosto. Inscreva-se!

Link para inscrição: https://doity.com.br/i-jornada-limefle

Link do canal do Youtube: https://www.youtube.com/channel/UCgICCjxwaH69V7XoalWYFLQ

Não perca tempo! Aproveita e marca nos comentários aquela pessoa que também não pode perder esse evento!

Postado por: Das Chagas Martins

Postado em: 10/08/2020

NENHUM ALUNO A MENOS: Faculdade de Educação (FACED) da UFC lança plano colaborativo para atividades educativas emergenciais

Por: ADUFC-SINDICATO

Fruto de um confronto proativo de ideias, anseios, propostas, entendimentos, sentimentos e necessidades, a Faculdade de Educação (FACED) da UFC lançou, na última quarta-feira (5/7), o Plano Participar e Incluir, elaborado para o enfrentamento dos desafios educacionais no contexto da pandemia de Covid-19. O documento de 49 páginas foi desenvolvido ao longo dos últimos três meses e é resultado do trabalho coletivo de docentes, discentes e técnicos-administrativos. A iniciativa foi aprovada pelo Conselho Departamental da FACED no dia 30 de julho e é também uma resposta ao Plano Pedagógico Emergencial (PPE) imposto pela administração superior da universidade. O Plano Participar e Incluir utiliza o conceito de “atividades educativas emergenciais”, em detrimento do “ensino remoto”, e tem como um de seus pilares o lema: “Nenhum aluno a menos”.

As várias estratégias utilizadas para elaboração de princípios e ações basilares para a retomada das atividades acadêmicas da FACED findaram em uma proposta que tenta ressignificar as práticas existentes. A ideia é não apenas elaborar, mas também executar o plano de forma coletiva. A diretora da FACED, Profª. Heulália Rafante, afirma que foram realizadas inúmeras reuniões setoriais de diferentes áreas do conhecimento, buscando uma prática pedagógica mais integrada e interdisciplinar, visando esse planejamento coletivo.

“Sabemos da dificuldade que isso significa, mas estamos trabalhando para superá-las. O ensino, com mediação das tecnologias, precisa da interação entre os estudantes e de uma relação bem próxima entre os professores e esses alunos. Os tempos e os espaços pedagógicos precisam ser reivindicados”, explica Heulália. Na avaliação da professora, há uma mudança significativa para as práticas docentes, que vão muito além de simplesmente se transferir o que era feito presencialmente para a mediação de uma tela.

Por uma prática emancipadora e não excludente

Entre os destaques da iniciativa da FACED, está o conceito adotado pelo Plano: atividades educativas emergenciais. O termo foi o escolhido porque o trabalho vai além da utilização das tecnologias digitais da informação e da comunicação pra mediar o conhecimento e as relações pedagógicas entre docentes e estudantes. “Estamos tentando não fazer isso de forma superficial e automática, mas buscando apreender os princípios pedagógicos já existentes no cenário educacional, que nos orientam a pensar uma prática significativa, colaborativa e emancipadora para os estudantes”, reforça Heulália Rafante.

A preocupação com a evasão também permeia todo o documento, que se opõe ao plano da reitoria principalmente no que se refere aos trancamentos. A resolução que definiu o PPE estabelece que o aluno pode trancar matrículas até o dia 22 de outubro. “Por mais que isso venha travestido de uma possibilidade de flexibilização, nós deixamos claro que isso, na verdade, representa uma exclusão dos estudantes”, destaca a diretora da FACED. O Plano Participar e Incluir não recomenda nenhum trancamento e que se evite qualquer tipo de evasão. “Pra nós, o fato de um aluno trancar uma matrícula é uma perda do direito que ele tem”, enfatiza a Profª. Heulália, acrescentando que todos os olhares estarão voltados nessa perspectiva de acolhimento e atenção. Nesse sentido, também foi formada uma comissão de planejamento que vai acompanhar toda a execução do Plano da FACED e auxiliar na definição, de forma sistematizada, cada etapa do processo para avançar na implementação desse plano.

Importância do ensino presencial e do sentimento de pertença

Outro ponto do texto colaborativo diz respeito à importância do ensino presencial na produção do conhecimento e no processo ensino-aprendizagem. Nesse tópico, foram discutidos como são fundamentais as interações nesse processo. E como, mesmo na modalidade Ensino a Distância (EaD), essa questão não está fora da discussão. O Plano da FACED também se respaldou em autores que indicam que as questões relacionadas à evasão em cursos ministrados a distância dizem respeito justamente à falta de interação e do sentimento de pertença. “Estamos buscando acolher os estudantes de forma muito significativa. No texto, um dos autores cita exatamente isso: que nesses cursos de EaD, a prioridade dos estudantes é maior por esse sentimento de pertença, essa identidade eletrônica mais do que o acesso ao próprio conhecimento”, argumenta Heulália Rafante.

Os processos foram sistematizados em três princípios: questão da disciplina do estudo; trabalho colaborativo com e entre os estudantes; e a própria integração entre as turmas dos estudantes e seus professores. Esses eixos seguem no fluxo inverso ao que foi imposto pela reitoria da UFC, que tenta, a todo custo, implantar um ensino remoto de forma repentina e sem um planejamento mais cuidadoso na transição do presencial para o remoto. “Sem essa preparação, infelizmente os índices de evasão podem ser muito grandes. Então, partindo desses princípios e desse entendimento de que estamos vivendo no meio de uma pandemia, a gente precisa evidenciar esse acolhimento dos estudantes para garantir todas as condições para o seu processo de ensino-aprendizagem”, afirma a diretora da FACED.O documento construído a muitas mãos também aponta conteúdos e estratégias numa perspectiva interdisciplinar e que deve ser trabalhada por eixos temáticos ao invés de disciplinas. Na prática, é uma forma de ressignificar o tempo e o espaço pedagógicos, além da avaliação – esta última, entendida como um todo integrado ao conjunto de aspectos do ensino e da aprendizagem, a exemplo do currículo, metodologias e estratégias pedagógicas.Práticas e vivências sob mudança em tempos de pandemiaAs estratégias citadas envolveram pesquisa sobre as condições de saúde, socioeconômicas, de acesso à internet, de realização do ensino com uso das Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação de todos que compõem a comunidade da FACED. Também foram realizadas reuniões do Conselho Departamental, dos Colegiados dos Cursos de Graduação e Pós-Graduação, dos Colegiados Departamentais, de Comissões de Trabalhos Específicas, de Assembleias Estudantis promovidas pelo Centro Acadêmico Paulo Freire, de reuniões dos Técnicos-administrativos e reuniões ampliadas com os três segmentos dessa Unidade Acadêmica.Também ocorreram debates virtuais e lives, em vários momentos, ao longo da elaboração do Plano. As ações, contudo, não foram finalizadas com a publicação do documento. Elas devem seguir durante todo o período de realização das atividades acadêmicas do semestre 2020.1. A atividade de planejamento é permanente, com o objetivo de assegurar uma educação de qualidade, com igualdade de acesso dos estudantes e condições de trabalho docente.A execução do Plano Participar e Incluir passa, ainda, pela mobilização de todos os conhecimentos que devem ser desenvolvidos na FACED ao longo do semestre para discutir, analisar e também produzir conhecimento sobre o momento atual. Também funcionará como uma espécie de fio condutor o pensamento sobre todas as estratégias pedagógicas mobilizadas para o entendimento do momento, e especialmente as que se referem aos aspectos da educação.Na FACED, a comunidade acadêmica tem estado atenta às grandes mudanças nas práticas e vivências que já começaram a ser experienciadas. “Sabemos que alguns vão se adaptar de forma mais rápida e outros, de forma mais lenta. Mas é justamente por isso que estamos buscando esse trabalho coletivo pra que toda a comunidade avance nesse cenário. É muito desafiador e, ao mesmo tempo, pode sim trazer muitos aprendizados pra gente atravessar esse momento tão difícil pra humanidade e que não deixa de afetar – e todo mundo está vendo isso – a educação”, resume a Profª. Heulália Rafante.(*) O Plano “Participar e Incluir: por uma pedagogia colaborativa no contexto da pandemia – Atividades educativas emergenciais da FACED (UFC)” pode ser acessado em três formatos. Além da versão em PDF, ele pode ser lido nas plataformas digitais ISSUU e Calaméo.

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Postado por: George Assunção

Postado em: 09/08/2020

 

GESTÃO DO CONTRA – Legado nefasto de Abraham Weintraub, intervenção na Universidade Federal do Ceará completa 1 ano

Foto: Lucas Tavares/Zimel Press

Por: ADUFC-SINDICATO

Neste mês de agosto de 2020, a intervenção na Universidade Federal do Ceará (UFC) completa um ano. Filha carnal do bolsonarismo, a gestão de Cândido Albuquerque, nomeado reitor no dia 19 de agosto de 2019, repete localmente o estilo autoritário e agressivo do Planalto e altera, da mesma forma, a realidade para que sua propaganda se coloque como verdade. Mesmo que superficialmente, ao se direcionar o olhar sobre esse ano na UFC, ficam evidentes o tempo conturbado, as dificuldades de diálogo, a fragmentação institucional, o clima geral de apreensão.

Se esse olhar se dá de maneira mais profunda, a partir das ações e tentativas da intervenção, seus dois objetivos principais se mostram. E eles têm a ver com poder e dinheiro. O primeiro grande objetivo de Cândido Albuquerque é destruir a gestão democrática da universidade, no que ele se empenhou especialmente, ao longo desse primeiro ano. O segundo é destruir a universidade como instituição pública de ensino e pesquisa, colocando a UFC a serviço de corporações privadas e, portanto, do lucro privado. O primeiro objetivo é assim subsidiário do segundo, que é o central. A retórica adotada no Future-se, de captação de financiamento privado para a universidade pública, revela sua verdadeira face quando adota como requisito a destruição da democracia e da autonomia universitárias e dos mecanismos de controle de gasto público. Se fosse para o bem da universidade, para aumentar seus recursos, haveria necessidade de destruir sua estrutura democrática?

Esta semana, o Ministério da Educação (MEC) confirmou que haverá um corte linear de 18,2% no orçamento discricionário das universidades em 2021.

Então, o projeto camuflado no discurso privatizante do MEC e da intervenção na UFC é bem outro: retirar orçamento da universidade e obrigar professores e pesquisadores a buscarem complementos privados, ao custo de esvaziar a função da universidade pública. Sem financiamento público adequado, não será possível continuar formando pessoas com qualidade e produzindo conhecimento independente e socialmente relevante. Basta olhar para países que já implementaram esse tipo de política neoliberal em suas universidades. Em muitos deles, professores e pesquisadores precisam complementar seus salários em projetos com empresas e as carreiras docentes são destruídas pela lógica imediatista de mercado. Esse tipo de situação – o business environment seguindo a lógica mercantilista do interventor – pode até servir à multiplicação de papers mas não à produção de conhecimento livre e de interesse social.

Diante desses exemplos, a universidade pública brasileira, gratuita e de qualidade – com sua estrutura de gestão democrática e alunado massivo, oriundo hoje em grande parte das classes populares –, é uma instituição única e de grande relevância social, uma conquista importante do povo brasileiro, que precisa ser defendida mais que nunca dos cantos de sereia e aventuras neoliberais.

Recentemente, o interventor disse em nota que a ADUFC é “do contra”. Não se pode esperar dele, de fato, mais que esse aviltamento político e intelectual do debate. A defesa dos processos democráticos não passa de uma birra para quem a democracia é um incômodo, a ser rapidamente descartado. Mas essa acusação às entidades representativas de serem “do contra” também é uma técnica de distorção da realidade. Os métodos de propaganda bolsonaristas são normalmente projetivos. Ou seja, eles acusam no outro aquilo que querem esconder sobre si mesmos. Vejamos então quem é mesmo o “do contra”.

Não foi sendo do contra que Cândido Albuquerque assumiu esse cargo na universidade ilegitimamente? Ele usurpou o lugar do reitor eleito, contra a decisão de mais de 95% dos votantes na consulta à comunidade universitária. Por que Jair Bolsonaro e Abraham Weintraub, notórios inimigos da universidade pública e da ciência, teriam-no preferido ao reitor eleito, contrariando a escolha democrática da comunidade universitária? Porque ele foi uma escolha justamente contra o caráter público e democrático da UFC. Ele e outros interventores deixados por Weintraub são o legado nefasto da pior gestão do MEC para as universidades públicas.

E continuou nessa toada. Desde que finalmente conseguiu sentar na cadeira do reitor, após um período despachando aqui e ali por medo de protestos, o interventor vem atentando sem descanso contra a estrutura democrática da universidade. Lembremos que o princípio da gestão democrática das instituições de ensino superior está previsto na Constituição e na Lei de Diretrizes e Bases (LDB). E ele sempre vociferou contra a consulta para reitor e as reuniões dos conselhos.

Num de seus primeiros atos, Cândido Albuquerque optou por decidir monocraticamente sobre programas de bolsas, contra a resolução do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPE) que disciplinava o assunto. Dessa vez, ele queria usurpar as prerrogativas de um conselho superior da universidade. Por portaria, ele resolveu criar programas e desativar outros. Por que não convocou o CEPE para alterar a resolução e rediscutir os programas, se a intenção era aumentar o número total de bolsas? Porque assim como tomou o lugar do reitor legítimo, ele queria e continua querendo tomar também o lugar dos conselhos superiores, decidir acima deles, contra o Estatuto da UFC.

“Passando a boiada” sobre os conselhos superiores

A relação com os conselhos é outro capítulo dessa gestão contra a universidade pública. Os conselhos superiores, mesmo antes da pandemia, foram raramente convocados, embora conste em seus regimentos a previsão de reuniões mensais ordinárias. O interventor também é contra os regimentos dos conselhos.

Com a pandemia, ele aproveitou para “passar a boiada” e eliminar quase que completamente as reuniões colegiadas dos conselhos superiores. Usou um provimento, documento monocrático e de caráter emergencial, para normatizar de maneira permanente sobre os conselhos, convertendo as reuniões em plenário virtual no Sistema Eletrônico de Informações (SEI) e concedendo-se superpoderes. Uma grande mobilização da comunidade universitária e suas entidades representativas conseguiu que se retirasse o caráter permanente dessa norma, limitasse os poderes do presidente dos conselhos, ampliasse prazos de manifestação nos processos e reduzisse o número de matérias que poderiam ser deliberadas via SEI.

O plenário virtual com a pauta dessa matéria mostraria que o interventor não apenas era contra os conselhos, mas também contra as regras mais básicas de reuniões deliberativas. Ele simplesmente encerrou a reunião quando perdeu a maioria, em pleno regime de votação, a pretexto de corrigir a minuta do provimento. A decisão sobre o documento seria tomada na mesma semana numa reunião por videoconferência, na qual ele forjou uma saída “negociada” para sua tentativa deliberada de burlar as normas da universidade.

Intervenção: contra estudantes, contra professores

Quanto aos Encontros Universitários, é preciso que se diga que foram feitos on line por causa da incompetência da intervenção, em especial da Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE), que não conseguiu realizá-los no tempo previsto no calendário universitário de 2019. Se o reitor eleito tivesse assumido, certamente os Encontros teriam ocorrido no tempo certo, presencialmente, e não teria acontecido essa trapalhada. Este ano, em plena pandemia, a PRAE chegou a tentar reservar laboratórios de informática para os alunos sem acesso tecnológico se deslocarem para a UFC. Não fosse a rejeição dos diretores das unidades acadêmicas e a mobilização das entidades representativas, tal absurdo poderia ter se concretizado. Um disparate contra a vida e contra a saúde pública.

Ressalte-se que os Encontros Universitários foram feitos sem qualquer política de inclusão digital, o que pode ter levado nossos estudantes a sair do isolamento e a correr riscos num momento de contágio em alta. Além disso, muitos estudantes não chegaram a apresentar seus trabalhos por impossibilidades diversas, inclusive por terem de trabalhar para ajudar os pais, ou também por estarem abalados psicologicamente – e não está claro se realmente não sofrerão restrições nos próximos editais de bolsas.

Mais que contra professores, essa é uma gestão contra estudantes. Desde o início, a representação estudantil foi um alvo. Com base na denúncia de uma chapa pouco votada e derrotada na eleição do Diretório Central dos Estudantes (DCE), uma chapa que nunca apresentou recursos à comissão eleitoral e que sequer chegou a prestar contas ao fim da eleição, Cândido tomou sozinho a decisão de não reconhecer os representantes estudantis eleitos e não os convocar para as reuniões dos conselhos.

Chegado o dia 3 de agosto, o interventor lançou uma nota em que se apresenta como benfeitor de estudantes. Mas como? Os estudantes são parte da gestão democrática da universidade, constituem um segmento que deve estar representado em todos os colegiados. Portanto, a decisão sobre planos, programas e orçamentos também é deles. Faz parte do perfil paternalista e autoritário do interventor a ideia de conceder benefícios aos estudantes, enquanto os exclui das decisões e tenta reduzi-los à menoridade política. Mas ele se pretende muito moderno e mesmo modernizante. Por suas declarações em veículos de comunicação de Fortaleza, percebe-se que Cândido só entende “modernidade” na forma de produtos tecnológicos; parece não saber que relações sociais também se atualizam.

Por isso, ele não vê problema em aprovar um chamado Plano Pedagógico de Emergência (PPE) numa reunião do CEPE sem a convocação da representação estudantil. O PPE devia ser “concedido”, quando não “imposto” aos estudantes. É simbólico do modelo de universidade que Cândido Albuquerque veio implantar.

Normalidade forjada: alimento para tendências negacionistas do governo

A UFC é uma das poucas grandes universidades federais que optaram pelo caminho de apenas retomar de forma remota o semestre planejado para o presencial, simulando uma normalidade que não existe. O cansaço levou uma parte das pessoas a aceitar o PPE, não a concordância. Nunca chegamos a discutir as diversas alternativas de semestres suplementares e excepcionais, devido à intransigência com que a Pró-reitoria de Graduação (PROGRAD) impôs uma única alternativa de retorno às atividades de ensino. Tinha de ser a que fosse mais próxima da normalidade, para alimentar as tendências negacionistas do governo federal. Em contrapartida, foi concedida uma pseudoflexibilidade que jogou sobre os ombros de professores, funcionários e técnicos o peso da continuidade, em meio a restrições de toda ordem.

A minuta do plano de inclusão digital, matéria tão importante, também não mereceu a convocação da representação estudantil nem a apreciação em videoconferência. Só muita má fé para dizer que a ADUFC foi contra o plano que passou a incluir auxílio para equipamentos, quando foi esta entidade uma das que mais denunciaram a insuficiência da restrição da inclusão digital da UFC a chips. A intervenção cedeu a pressões, sim, pois foi exposta com o pior plano de inclusão digital das universidades federais. O pretexto de “estudar a legalidade” para a demora em prever equipamentos no plano é conversa fiada. Se a intervenção realmente “estudasse a legalidade” de seus atos, não estaria excluindo a representação estudantil eleita dos conselhos superiores.

A ADUFC denunciou, na verdade, o critério produtivista e excludente de seleção de estudantes para concessão do auxílio, um tipo de critério que também só existe no edital da UFC. Um sinal ruim que damos sobre nós. Enquanto todas as universidades federais estão preocupadas com o aumento da desigualdade e a exclusão, a UFC se prende ao detalhe de pontuar estudantes em situação de fragilidade mais produtivos, em vez de levar em conta uma análise socioeconômica mais acurada, como outras universidades públicas fizeram.

A partir de denúncia sem reconhecimento legal, Cândido não reconhece o DCE. Ao não empossar conselheiros, julga e pune antes da Justiça. Também não reconhece a ADUFC, entidade cujo processo eleitoral não pode desqualificar. Sistematicamente, ele tem ignorado o sindicato dos docentes, ao deixar sem resposta pautas de reivindicação tiradas no Conselho de Representantes e na Assembleia Geral. Cândido Albuquerque vai além: utiliza a página oficial da universidade para atacar a ADUFC, atribuindo-lhe posicionamentos inverídicos, buscando estigmatizar a entidade , como faz com a representação estudantil.

Deliberadamente, o interventor ignora a força do sindicato ao voltar quase uma década atrás e insistir em referir-se a ele, inclusive publicamente, como “associação”. Logo a entidade representativa que é, hoje, a caixa ressonante para os docentes da universidade – categoria que vem tendo sua voz ignorada e sufocada pelo autoritarismo instaurado há um ano. Não é uma questão de reconhecimento, afinal. Assim como seu chefe no Planalto Central, Cândido Albuquerque é contra a democracia universitária e também contra a democracia social. Sem elas, fica desimpedida a força do dinheiro e das armas, contra a vida, o conhecimento, a liberdade e a justiça social. Enfim, contra tudo pelo que vivemos e lutamos.

Link da matéria fonte: aqui

Postado por: George Assunção

Postado em: 09/08/2020

 

Políticas públicas de saúde na pandemia de covid-19 são tema da nova edição da “Revista Aval”

Está disponível para acesso, no Portal de Periódicos da Universidade Federal do Ceará, a primeira edição de 2020 da Revista Aval, publicação do Programa de Pós-Graduação em Avaliação de Políticas Públicas da UFC. Neste número, os editores se propuseram a contribuir com reflexões e apontar possíveis horizontes para a agenda da avaliação das políticas públicas em saúde no contexto da pandemia da covid-19.

Sobre a temática das políticas públicas, a revista traz sete artigos inéditos: “Bases filosóficas e epistemológicas da avaliação: caminhos a serem trilhados”, de Max Felipe Vianna Gasparini; “Tecendo redes e conexões no campo da avaliação em saúde: a construção de uma trajetória”, de Marly Marques da Cruz; “Trilhas na avaliação para gestão de programas: o aprender ao fazer”, de Paulo Germano de Frias e Lygia Carmen de Moraes Vanderlei; “Por que avalio? Como avalio? O que aprendi ao avaliar?”, de Juarez Pereira Furtado; “Desafios e aprendizados na institucionalização de um sistema de avaliação em uma universidade federal”, de Marcos Vinicius Pó; “A emergência do novo coronavírus (SARS-CoV-2) e as respostas governamentais ao redor do mundo”, de Anderson Cristopher dos Santos e Rodolfo Finatti; e “Estar em isolamento social: quando a desigualdade atua como fator”, de Danyelle Nilin Gonçalves, Irapuan Peixoto Lima Filho, Harlon Romariz Rabelo Santos e Rafael de Mesquita Ferreira Freitas.

Sobre a temática das políticas públicas, a revista traz sete artigos inéditos: “Bases filosóficas e epistemológicas da avaliação: caminhos a serem trilhados”, de Max Felipe Vianna Gasparini; “Tecendo redes e conexões no campo da avaliação em saúde: a construção de uma trajetória”, de Marly Marques da Cruz; “Trilhas na avaliação para gestão de programas: o aprender ao fazer”, de Paulo Germano de Frias e Lygia Carmen de Moraes Vanderlei; “Por que avalio? Como avalio? O que aprendi ao avaliar?”, de Juarez Pereira Furtado; “Desafios e aprendizados na institucionalização de um sistema de avaliação em uma universidade federal”, de Marcos Vinicius Pó; “A emergência do novo coronavírus (SARS-CoV-2) e as respostas governamentais ao redor do mundo”, de Anderson Cristopher dos Santos e Rodolfo Finatti; e “Estar em isolamento social: quando a desigualdade atua como fator”, de Danyelle Nilin Gonçalves, Irapuan Peixoto Lima Filho, Harlon Romariz Rabelo Santos e Rafael de Mesquita Ferreira Freitas.

O periódico conta ainda com uma apresentação de Igor da Costa Borysow, pesquisador do Laboratório de Avaliação em Saúde da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). “Ao longo deste Dossiê, o leitor poderá constatar, de maneira concreta, uma fração do espaço social da avaliação em saúde no Brasil, formado por agentes oriundos de diferentes instituições acadêmicas, com inserções no campo burocrático, que se orientam na busca por reconhecimento e hegemonia nesses campos”, destaca. Na capa da Revista Aval é reproduzida a obra Madrugada (1959), do pintor cearense Antônio Bandeira, e que integra o acervo do Museu de Arte da UFC (MAUC).

Fonte: Prof. Gil Célio Cardoso, editor da Revista Aval ‒

e-mail: gilceliodecastro@gmail.com

Postado Por: Das Chagas Martins

Postado Por: 07/08/2020

Espaço de fortalecimento do controle social assente em informações, estudos, pesquisas e debates que suscitem análises críticas e propositivas quanto as políticas públicas no Ceará e no Brasil.