MEMÓRIAS DE QUARENTENA 20 – Notações para um tempo imovente

Por: Andréa Bardawil(*)

Começo por dizer que, ao tomar essas notas, escrevo de um lugar privilegiado: com 60 dias de isolamento social, pude colocar-me dentro de minha própria casa, durante todo esse tempo, em relativa segurança – e é relativa porque nenhum de nós sabe mesmo o que pode acontecer, no minuto seguinte. Mas o privilégio desenha-se de forma irrefutável: nesse momento, não passo por necessidades básicas e emergenciais, não preciso sair às ruas e posso trabalhar de casa, sem deslocamento físico. Outro dado dessa condição é que moro só, acompanhada por minhas duas gatinhas, Lóri e Lila, o que me garante um fluxo de afeto, apesar da solidão, e me resguarda do desgaste ou do sofrimento de alguma convivência mais difícil. Ou seja: vivo esse tempo caótico numa situação que não é a de muitos, que não é a da grande maioria das pessoas. Por isso pude sentir o tempo parar, o tempo imovente.

Talvez por isso essas notas não cheguem a dizer da urgência necessária diante do caos estabelecido, agravado pela situação política que atravessamos, no Brasil; talvez essas notas não carreguem a devida densidade, para alguns; ou talvez, ainda, simplesmente não despertem qualquer interesse mesmo, para outros. Tudo certo. Observadas as ponderações, e posto também que não creio em nenhuma comunicação única, num momento tão complexo,  aceitei o convite para essa escrita, como mais um espaço de partilha, dos muitos que precisamos criar, para fortalecer os vínculos esgarçados pelas distâncias. Mas a escrita sai assim, um tanto desnorteada, feito notas soltas em papéis dispersos, sem pretender uma dramaturgia descritiva e linear, já que nem no meu trabalho artístico opto por isso.

Desse lugar, margeio um certo regime de temporalidade, no rastreio de algumas inquietações que vão se colocando, para mim, na intermitência das horas. É na interrupção dos fluxos que o tempo parece parar, e num silêncio arrebatador surge uma pergunta: de onde vamos partir, agora que chegamos até aqui?

Com a dança, o tempo sempre foi objeto de trabalho, para mim. Expandir o tempo, torcê-lo, dilatá-lo, ou simplesmente habitá-lo, como desejaria João Cabral de Melo Neto. Minha dança sempre foi da ordem da lentidão, da permanência, da habitação. Uma forma de lembrar que tempo não é um só. São muitos, os tempos, ao contrário do que o capitalismo tenta determinar, regrar, instituir e capturar. Produzir vida leva tempo. Produzir urgência tira tempo.
Há muito que sei que o tempo capitalista não é o meu. De sempre, trago a dificuldade em competir, em ultrapassar, em superar. A lerdeza me definiu melhor. Sou a que demora. Em tudo, desviei: no tempo de aprender (sempre ficava a um passo de ser reprovada, na escola), no tempo de produzir obras (sempre levei anos para conceber, realizar espetáculos e projetos), no tempo de cultivar relações (sempre escrevi cartas, sempre descrevi mundos, sempre ruminei sentimentos). Sou a que desvia.

É que sempre soube, também, que a morte é passagem, entre uma paragem-vida e outra, e não fim. O lugar mesmo onde se coloca a finitude, é no que se esgota em mim: de aprendizado, de obras, de relações. EM MIM. O resto é movimento. Então, não há pressa. Sou a que segue em movimento, para nenhum fim, para nenhuma utilidade. Para nada.

A maior subversão para o capitalismo é parar. É não produzir, não fabricar, não fazer de ruma. É não consumir. É não ansiar pela novidade do dia, é não querer ser o novo. É não precisar. É não se afogar no fluxo vertiginoso do ter-que-fazer. Na desconstrução do tempo é que se dá a fissura, onde crio um contrafluxo, sabendo-o sempre singular e provisório. A tal contramola que resiste, resiste porque não se quer única ou igual. No meio de tudo, disfarçada, quieta, silenciosa, mas presente, existe sempre uma possibilidade: não fazer nada. E com essa possibilidade vem a escolha de olhar o vento e ouvir o silêncio. Parece-me que é disso que se trata, também, essa pandemia: acolher a si mesmo, acolher o tempo, e decidir-se por outro modo de permanecer. Aqui e agora, sustentar, sem me mover. Suportar o silêncio. Ficar. O exercício das horas, nos pondo à prova: o amanhã ainda não existe.

Dia após dia, recrio meu cotidiano. Cuido da casa, estudo, trabalho, cozinho, medito, danço, brinco com minhas gatas, cuido das minhas plantas.

O tempo me olha…

Vou seguindo, procurando focar no que me faz bem, porque alimentar o que me faz viva, fortalece. Imunidade é vitalidade, também. No entanto, por vezes resta ainda uma tristeza incontornável. Uma tristeza pelo mundo, pela dor do outro. Por tanta violência, pelo fascismo explícito, pela falta de empatia, pela maldade à mostra. Pelo que nos tornamos. O que seremos, a partir daqui?

Eu olho para o tempo…

Nessas horas, choro. Choro muito. Não negocio com as águas, quando elas arrombam as portas. O choro salva. Indignado ou resiliente, o choro sempre salva. Esvazio essa dor, ou um pouco dela. E rezo para que meus guias me ajudem a enxergar para além de tudo isso, a fim de não esquecer que “até a sombra trabalha para a luz”.

Com tudo isso, entendo que vamos vivendo um luto. Estamos todos de luto. Mesmo quem está “bem”, em casa, privilegiadamente resguardado, mesmo quem ainda não foi atingido, nem num raio próximo, pelo peso do momento. Porque o luto não diz respeito somente às pessoas, mas também à VIDA que se esvai, às condições de possibilidade que desaparecem. Não há como passar por tudo isso sem vivermos esse luto.
Que o tempo nos acolha.

(Silêncio.)

Um pouco de sol, um pouco de silêncio, um pouco de sal, um pouco de ar.
A chuva autoriza o tempo a se distrair.
Quando o pouco vira muito, os sons mudam, os cheiros despertam.
Uma nova economia parece que sempre existiu.

O que era mesmo que eu estava fazendo, antes que o tempo parasse?
O que restará da imagem que eu tinha de mim, quando eu não lembrar mais dela?

Um beija-flor, uma borboleta, uma abelha, uma aranha, uma lagarta. Um cachorro latindo. Uma criança rindo alto.

Um carro que não andou. Um portão que não abriu. Minha gata, me olhando. Tudo eu vi, no espaço extensivo de uma manhã.

Vi, porque parei. Parei, porque senti o peito galopando. Respiração falta, às vezes, quando tanta perversidade ronda.

Parei, para ver além dos tratados diários de dor, que chegam em fluxo vertiginoso pelas redes. Que senão, eu mesma morro de morte autoinfligida, antes do tempo certo da morte chegar.
Sou nem de ferro.

Minha matéria é outra.

E apenas a matéria vida era tão fina.

(*) Andréa Bardawil – Coreógrafa, diretora da Cia. da Arte Andanças e Arteterapeuta.

Postado por: Das Chagas Martins

Postado em: 01/06/2020

MEMÓRIAS DE QUARENTENA 19: Sobre Con(Viver)

Por: Raimundo Madeira(*)

Entre tantas narrativas dolorosas durante esta pandemia de Covid-19, uma das mais tocantes se apresentou em poucas e incisivas palavras, amplamente divulgada pelas mídias digitais. O relato breve expõe outro tipo de sofrimento, mas provoca uma reflexão absolutamente necessária, dentro e fora do atual contexto.

“Me desculpem, mas não deu mais. A velhice neste país é o caos, como tudo aqui. A humanidade não deu certo. Eu tive a impressão que foram 85 anos jogados fora num país como este e com esse tipo de gente que acabei encontrando. Cuidem das crianças de hoje”. O trecho da carta de despedida do ator Flavio Migliaccio, encontrado morto no último dia 4 de maio,  desconcerta pelo desencanto e comove pela generosidade. Mesmo no auge do desespero, confessando uma decepção profunda com a espécie humana, não lhe faltaram lucidez e ainda um fio de esperança, ao fazer um apelo pelas próximas gerações.

A despeito da divulgação das imagens da carta e das fotografias do corpo do artista, sem consentimento da família e envolvendo, inclusive, policiais que deveriam zelar pelo respeito à memória do ator e à dor dos parentes, o recado que ele deixa é como um grito que reverbera no silêncio. Um grito para que reavaliemos nossa presença no mundo e valorizemos a existência, do início ao fim, da infância à velhice. Não é improvável que o sofrimento de Flavio Migliaccio tenha se agravado com esta crise sanitária sem precedentes. A pandemia desestabilizou quase todos e representa uma ameaça maior ainda a grupos mais vulneráveis, entre eles os idosos. Mas não cabe, aqui, especular o que estaria envolvido na decisão do ator de antecipar o capítulo final da própria história. Necessário mesmo é atentar sobre as linhas e entrelinhas dessa última página e as lições que elas deixam para o grande público. Apesar de incontáveis e recorrentes demonstrações de que a humanidade não deu certo, como lamentou o artista e como a vida real nos apresenta, é preciso cultivar a confiança no futuro a partir das mudanças de rumo no presente.

Incredulidades à parte, o choque que a pandemia vem causando ao planeta pode despertar o início de um movimento em escala global que conduza a outro modelo civilizatório. O mundo clama por transformações estruturais nos campos ambiental, econômico, político e social, que reduzam as desigualdades e promovam o respeito às diferenças de geração, gênero, orientação sexual, raça e etnia, credo e pensamento.

No plano das relações interpessoais, que também se inaugure um novo tempo, marcado, sobretudo, pela convivência. O que, a priori, parece óbvio, irrelevante ou simplista é, na verdade, o que mais falta à humanidade. Conviver é a própria essência da vida, como se depreende após uma consulta básica ao dicionário. Convivência: modo de vida em que se pode partilhar, vida em comum, ação de coexistir de maneira harmoniosa. A definição vem de encontro às minhas memórias sobre este período de isolamento, memórias que remetem a uma percepção sobre a negação da convivência para além do momento atual. A falta de partilha, de vida em comum, de coexistência harmoniosa é a expressão clara do individualismo e da ausência de empatia, questões fundantes dos pequenos e grandes problemas que o mundo enfrenta, seja qual for a época.

É urgente, urgentíssimo, pensar menos apenas em si, agir mais em beneficio de uma coletividade. Nesse sentido, o trecho da carta de despedida de Flavio Migliaccio assume a importância de um manifesto contundente. Ao reivindicar atenção e cuidado para crianças e velhos, ele nos faz repensar sobre como a sociedade ainda precisa evoluir no tratamento dispensado à primeira e à última geração do ciclo da vida. O processo avançado de envelhecimento populacional exige garantia e ampliação de direitos para uma parcela crescente de idosos, inclusive o direito à convivência. A solidão na velhice revela bastante de uma sociedade que historicamente não respeita os velhos e, em maior ou menor medida, condena quem tem mais idade à exclusão e à reclusão. Além das próprias limitações que a passagem das décadas traz para o corpo e a mente de cada um, há um afastamento natural das pessoas e uma redução do círculo de amigos. Mas a solidão na velhice é também consequência do abandono, desde aquele mais sutil até o mais espantoso, no âmbito doméstico, familiar, ou na esfera pública.

Em tempos de pandemia, o tom jocoso, adotado para disseminar informações via áudios, vídeos e outras ferramentas tecnológicas sobre a necessidade de os idosos ficarem em casa, pode até ajudar a desanuviar o clima pesado causado por tantas más notícias, mas as brincadeiras também expõem uma dificuldade de compreensão sobre a realidade peculiar dos velhos. As dificuldades de adaptação não devem ser encaradas apenas como uma questão de teimosia. Se o atual momento provoca a sensação de confinamento até entre os mais jovens, que contam com uma variedade de opções remotas de comunicação e entretenimento, o isolamento para os mais velhos, que não têm acesso ou não dominam as tecnologias, pode parecer ainda mais adverso. Para muitos senhores e senhoras, a solidão se agravou neste tempo de pandemia. E mesmo entre aqueles que moram com filhos, netos ou sobrinhos, a presença física nem sempre diminui o sentimento de estar sozinho.

Minhas memórias sobre o período de distanciamento social não estão situadas em um tempo definido, são lembranças atemporais, reativadas durante esses meses a partir do que tenho lido nas redes digitais ou nos grupos de aplicativo de mensagens. Os escritos potencializam reflexões que atravessam de algum modo minha existência. Abaixo, uma pequena seleção de registros sobre a pandemia que nos provocam – ou deveriam provocar – para um confronto com outras realidades e com outros períodos.

“O ser humano não nasceu para viver confinado”.

Nem mesmo os bichos deveriam viver sob confinamento, apesar de muitos serem mantidos aprisionados pelos donos, alguns que até admitem preferir os animais aos próprios semelhantes. Mas como minha reflexão é sobre o estado provisório de reclusão humana ao qual estamos atualmente submetidos, eu me vi, novamente, pensando em quem vive em prisão permanente, sob condições indignas, insalubres e de superlotação, condições agravadas neste contexto de pandemia.

“Não à pena de morte por contaminação no sistema prisional e socioeducativo”.

Uma sociedade acentuadamente punitivista, que defende o encarceramento em massa e nega aos infratores da lei até o direito à saúde, não concebe a medida de liberdade, mesmo nesta situação excepcional, de extremo risco de transmissão do novo coronavírus em ambientes com aglomeração de pessoas. O Estado, ao manter as unidades prisionais e os centros socioeducativos superlotados, pode estar instituindo de forma extraoficial a pena máxima, condenando os internos à morte.

“Casa não é prisão, casa é abrigo e proteção”.

Para quem lamenta não aguentar mais ficar em casa, há de se pensar no sentimento de aprisionamento de quem está num leito de hospital, sem a companhia de um parente, sem poder receber uma visita. Há de se lembrar  daqueles que se veem obrigados a sair todos os dias para trabalhar, apreensivos com a possibilidade maior do contágio pelo novo coronavírus. Para eles, “fique em casa” é um imperativo fora da realidade. Há de se lembrar ainda daqueles que, atingidos pelo desaquecimento da economia ou pelo desemprego e, portanto, sem renda familiar, prefeririam correr o risco de não ficar em casa a ter de ver os filhos sem serem atendidos nas necessidades mais básicas. E como esquecer os sem-moradia: pessoas que vivem pelas ruas, famílias desalojadas por organizações criminosas, inquilinos despejados por falta de pagamento do aluguel…?

“Não estamos todos no mesmo barco, estamos todos sob a mesma tempestade”.

A intensidade da tempestade é uma só, mas as condições para se proteger dela são bem diferentes. Alguns poucos ocupam barcos imensos e luxuosos, a maioria usa barcos pequenos e simples e outros sequer podem contar com uma embarcação artesanal. A pandemia do novo coronavírus não é tão democrática como se anunciou no estágio inicial. As condições precárias de habitação, saneamento básico e acesso à saúde nas áreas mais desassistidas pelo poder público tornam os seus moradores ainda mais vulneráveis.

“Não podemos voltar ao normal, porque o normal era exatamente o problema. Precisamos voltar melhores, menos egoístas, mais solidários, mais humanos”.

Se é verdade que, depois da tempestade, vem a bonança, façamos a nossa parte para que esse adágio popular se concretize. Enquanto esse tempo não chega, fiquemos em casa e busquemos aprender com a adversidade do período, lembrando que, para alguns, essa adversidade é ainda maior.

Que voltemos diferentes. Bom retorno!

(*)Raimundo Madeira – Jornalista

Postado por: Das Chagas Martins

Postado em: 31/05/2020

 

Entidades da sociedade civil lançam Frente Pela Vida

Diante do espantoso número de mais de 25 mil mortes oficiais decorrentes da Covid-19 e dos inúmeros problemas sanitários e sociais provocados pela disseminação do novo coronavírus (SARS-CoV-2) em todo o país, entidades reúnem esforços para propor ações efetivas e uma resposta à pandemia. Representações da sociedade civil da saúde; ciência, tecnologia & inovação; comunicação; educação; políticas públicas, entre outras áreas, lançam nessa sexta-feira última, 29 de maio, a Frente pela Vida. O primeiro ato confirmado do movimento será a Marcha pela Vida, que acontecerá no dia 9 de junho. A atividade de lançamento da Frente foi realizada aparti de uma transmição no Canal da TV Abrasco, no YouTube, e em diversas mídias das demais entidades.

O ponto de partida do movimento origina-se na redação do “Pacto pela Vida e pelo Brasil”, lançado em 7 de abril pela OAB, ABI, ABC, CNBB, Cros problemas sanitários e sociais provocados pela disseminação do novo coronavírus (SARS-CoV-2) em todo o país, entidades reúnem esforços para propor ações efetivas e uma resposta à pandemia. Representações da sociedade civil da saúde; ciência, tecnologia & inovação; comunicação; educação; políticas públicas, entre outras áreas, lançam nessa sexta-feira última, 29 de maio, a Frente pela Vida. O primeiro ato confirmado do movimento será a Marcha pela Vida, que acontecerá no dia 9 de junho. A atividade de lançamento da Frente foi realizada aparti de uma transmição no Canal da TV Abrasco, no YouTube, e em diversas mídias das demais entidades.

“Esse é o momento de convocar toda a sociedade brasileira para se somar à defesa da vida. Precisamos de caminhos para impedir que o número de mortes aumente ainda mais; e esse caminho deve ser orientado pela ciência e pelo fortalecimento do SUS. Temos que valorizar os pesquisadores brasileiros, que têm dado importantes contribuições no enfrentamento da pandemia. Precisamos de muita solidariedade, principalmente para aqueles que vivem em situações de vulnerabilidade. Mais do que tudo, precisamos defender a democracia para garantir as condições dignas para todas e todos os brasileiros” ressalta Gulnar Azevedo e Silva, presidente da Abrasco.

A Marcha pela Vida concentra diversas manifestações virtuais da manhã do dia 29 de maio à noite do dia 9 de junho, apontando a necessidade de ações coordenadas e em diálogo com a sociedade civil para uma resposta científica e humana à pandemia. Além desse primeiro dia de atividades, a Frente Pela Vida elabora documentos e posicionamentos coletivos que apontem caminhos para a produção e promoção de políticas públicas, coerentes e necessárias ao momento da epidemia no país.

No lançamento da Frente estavam presentes as seguintes lideranças, em ordem alfabética, representantes das respectivas entidades: Dirceu Greco, presidente da Sociedade Brasileira de Bioética (SBB); Fernando Pigatto, presidente do Conselho Nacional de Saúde (CNS); João Carlos Salles, presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes); Gulnar Azevedo, presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco); Ildeu Moreira, presidente da Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência (SBPC); Lucia Souto, presidente do Centro Brasileiro de Estudos da Saúde (CEBES), padre Paulo Renato, assessor político da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB); Paulo Jerônimo de Sousa, o “Pagê”, presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI); Tulio Franco, presidente da Rede Unida, além de representantes de demais entidades.

[ + ] Confira o manifesto do Pacto Pela Vida na íntegra

Postado por: Das Chagas Martins

Postado em: 31/05/2020

DESEMANCIPAÇÃO E DOMINAÇÃO DAS EMOÇÕES

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Por: Uribam Xavier(*)

O filósofo marxista italiano Domenico Losurdo, em seu livro “Democracia ou Bonapartismo: triunfo e decadência do sufrágio universal”, publicado pela UNESP em 2004, faz uma constatação de que, com a quarta revolução industrial, a classe capitalista alcançou um novo estágio da dominação cultural na disputa de hegemonia, além da difusão de ideias e manufaturação da subjetividade. Trata-se da dominação por meio da produção e controle das emoções, ou seja, do controle das nossas experiências emocionais: felicidade, ódio, ansiedade, indignação, amor, tristeza, raiva solidão e tantas outras.

As mídias, com seus dispositivos e aplicativos, e todo um sistema de algoritmos, são os meios usados para produção e manipulação da subjetividade e das emoções, procedimento que vem sendo largamente utilizado pelo capital para mobilizar pessoas com ódios contra alvos que elas elegem como forças hostis dentro da chamada guerra não convencional, a qual parte do pressuposto de que a política é a continuidade da guerra por meios linguísticos, o que implica, dentre outras coisas, a disputa de narrativas e a ideia do pós-verdade. A manipulação das emoções é um instrumento muito poderoso para influenciar, inflamar e dirigir conflitos e disputas carregadas de afetos. É o triunfo do Bonapartismo Soft, que se caracteriza por constituir um regime político avesso à participação política das massas populares.

À dominação das emoções se soma o fato de que, a partir da década de 1970, vivenciamos uma conjuntura de crise estrutural do capitalismo, cuja resposta do capital foi a implantação de um processo de desemancipação patrocinada por meio de um conjunto sequencial e articulado de ações: desmantelamento do Estado de bem-estar social; instauração da plutocracia como forma de governo, ou seja, de governos emanados da riqueza e a serviço do mercado; capturação do Estado pelo mercado, fazendo com que os setores populares e médios da sociedade diminuam ou não tenham representação política no parlamento; exclusão da representação das organizações da sociedade de instâncias de consulta, deliberações e controle das instituições estatais; a ampliação de reformas neoliberais (trabalhista, previdenciária e administrativa) que desarticulam e enfraquecem o poder de mobilização, de pressão e desestrutura as organizações sindicais da classe trabalhadora; precarização, o precariado e a uberização da força de trabalho como principal acesso à renda do trabalho por meio da informalidade, sem garantias trabalhistas e previdenciárias, com o argumento falacioso de promover maior liberdade e autonomia ao trabalhador; a naturalização do abuso de concentração de renda em poucas corporações transacionais e personalidades e da violência, como se elas não fossem produzidos pela lógica de concentração de renda do capital.

Com o processo de dominação das emoções, parte da indignação social ou mobilização de vontades políticas é fruto de mobilizações manipuladas, como, por exemplo, o uso de fake news na formalização de opinião pública mobilizadora ou criadora de imaginários, principalmente nas redes sociais, fato que aponta para o abandono da democracia e para a instauração da tirania social como modo de sociabilidade entre as pessoas. Trata-se de um esvaziamento das normas morais e de convivência, o que pode nos levar a uma situação de anomia cuja consequência é a “guerra de todos contra todos”.

Esse fenômeno pode levar, se já não vem levando, ao esvaziamento do potencial transformador das mobilizações sociais antissistêmicas, que, manipuladas em suas emoções, podem realizar revoltas enraivecidas e destrutivas, mas que não modificam em nada as estruturas existentes, não abalam o sistema, ficam numa ação dentro da ordem, numa espécie de catarse emocional temporária que foge da memória em pouco tempo. Portanto, vivemos, na interpretação que faço da obra, um paradoxo, uma crise estrutural do capitalismo que, ao mesmo tempo, promove um processo de desemancipação.

Diante desse paradoxo, agora agravado com a pandemia do coronavírus, o enfrentamento ao capitalismo e a crise civilizatória da modernidade são os maiores desafios do século XXI para os que se colocam como horizonte a emancipação em suas várias possibilidades. Se o líder e intelectual indígena, Ailton Krenak, oferece-nos ideias para adiar o fim do mundo, podemos nos juntar a ele e ao seu povo para pensar um outro fim do mundo.

(*) Uribam Xavier – Professor do Departamento de Ciências Sociais da UFC.

Postado por: George Assunção

Postado em: 31/05/2020

FAMED LANÇA NOVA CARTA DE POSICIONAMENTO SOBRE A IMPORTÂNCIA DE MANTER O DISTANCIAMENTO SOCIAL INTENSIFICADO NO CEARÁ

A Direção da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará, por intermédio do seu Comitê de Enfrentamento à Covid-19, acaba de lançar nova carta de posicionamento sobre a importância de sustentar o distanciamento social (físico) intensificado no estado para evitar a disseminação ampliada do novo coronavírus (SARS-CoV-2) e garantir a capacidade de resposta do sistema de saúde. 

O documento defende a sustentação do isolamento nas próximas semanas com maior segurança do contexto epidemiológico e operacional, com um plano consistente de retomada das atividades, por[em participativo e com corresponsabilidades, além de ações amplas de informação, educação e comunicação para a sociedade.

Clique aqui para acessar a carta na íntegra

Postado Por: Das Chagas Martins

Postado em: 29/05/2020

LIVES DOS ENCONTROS DO OPP SAÚDE JÁ ESTÃO DISPONÍVEIS PARA SEREM ASSISTIDAS A QUALQUER HORA

Os ENCONTROS DO OPP SAÚDE foram repletos de aprendizado, conteúdos incríveis e muita troca de conhecimento.

Compreendemos que nem todos conseguiram acessar as lives nos horários determinados, por esse motivo, disponibilizamos uma playlist completa com todas as lives!

Confirma:

>> “Políticas Públicas e Covid-19: respostas e efeitos” (14/05/2020)

>> “Cidades, Distanciamento Social e Covid-19: Contextos e Desafios” (21/05/2020)

>> “Políticas de Saúde na América Latina e Covid-19” (25/05/2020)

Postado por: George Assunção

Postado em: 27/05/2020

MEMÓRIAS DE QUARENTENA 17: Viver Na Rua Em Tempos De Quarentena

Por: Lídia Valesca Menescal(*)

No dia 18 de março, o Centro da cidade parou. Era uma quarta-feira, mas o cenário era de domingo. Na Praça do Ferreira, a praça mais ocupada pela população em situação de rua, uma aglomeração andava de um lado para o outro, sem saber o que estava acontecendo. De repente, tudo parou. O sustento diário na dinâmica do Centro, os afazeres da rua: guardar carro, ajudar no carregamento de mercadorias, vender água, fazer o transporte no fluxo de venda das drogas para praças. Trabalho precário, biscates na lógica das sobras e dos resíduos do sistema econômico. Um futuro incerto!

A quarentena, imposta para deter a expansão do novo coronavírus em Fortaleza, interrompeu o fluxo ordinário da metrópole, sempre veloz e descontinuo. Quando os comerciantes e consumidores saíram do Centro, a população em situação de rua, que sempre esteve misturada ao seu ritmo, apareceu aos olhos dos citadinos como um grito, alardeando a sua condição de pobreza extrema. 

É uma população heterogênea, formada pelos que dormem nas marquises, por pessoas com transtornos mentais, por desalentados que não conseguiram voltar ao trabalho, por usuários de drogas ameaçados por facções criminosas nas periferias, por famílias sem moradia. A pandemia fez crescer essa população. Soma-se na rua aqueles que vivem nos quartinhos da Senador Alencar, Princesa Isabel, Tereza Cristina e outras ruas dos arredores do Centro. Moradias precárias e insalubres; lugares dormitórios de quem não quer enfrentar a dormida nas marquises, mas, agora, sem dinheiro para pagar o aluguel, cobrado na diária, lotam as praças em busca de comida.

As medidas são sanitárias e a ordem é anunciada a todo instante nos meios de comunicação: ficar em casa, manter o distanciamento social e fazer a higiene pessoal. Mas como fazer isolamento domiciliar quando não se tem casa? Como seguir as condutas de higiene, lavar as mãos, quando não se tem banheiro? Como se manter saudável quando não se tem boa alimentação e acesso a água potável?

Vulneráveis à infecção pelo novo coronavirus, devido ao uso problemático de drogas, às infecções de HIV e à tuberculose que os acometem, em grande número, a pandemia é uma ameaça, quase uma sentença de morte. No entanto, nos primeiros quinze dias de distanciamento social, não usavam máscaras de proteção e muitos dormiam aglomerados nas marquises, sem temor algum. Para quem sofre a discriminação social, a violência policial, a morte matada, o vírus não lhes parece uma ameaça. Como temer o que não se pode ver?

Depois de 38 dias de isolamento social, teve-se a notícia de um idoso na Praça do Liceu ardendo em febre, com tosse e dificuldade de respirar. O porteiro da escola chamou o Samu. Depois de muita espera, o senhor foi levado não se sabe para onde. Não se teve mais notícia. Sem contatos para informar, sem família para avisar, teria ele entrado para as estatísticas de infecção ou de morte? Quando não se tem documentos, a identidade é apenas “morador de rua”. Quem reclama seu desaparecimento? Quem chora a sua morte? Essa é a condição de invisibilidade da população em situação de rua. Uma exclusão profunda dos laços que mantém o sujeito ligados às instituições sociais. 

É urgente anunciar que cada pessoa que está em situação de rua tem um nome, uma história de vida, um deslocamento que fez das bordas para as regiões centrais. Cada um e cada uma tem o direito de viver, tem sua dignidade como pessoa humana e sua vida merece ser vivida. Para aquebrantar sua invisibilidade, o poder público precisa garantir direitos, mas é imperativo agir para combater a desigualdade abismal existente que separa os que tem casa dos que não tem.

(*) Lídia Valesca Menescal – Professora do Centro Universitário Farias Brito, Integrante do Movimento Cada Vida Importa.

Postado por: Das Chagas Martins

Postado em: 28/05/2020

A ADUFC-Sindicato se soma à luta pela defesa da vida acima dos lucros!

Por: ADUFC

Com atividades e manifestações virtuais durante os dias 27, 28 e 29 de maio, a Semana Nacional de Luta das IEES-IMES reforça nossa luta contra a desvalorização do serviço público, contra a privatização das Instituições de Ensino Superior Públicas e pela garantia de uma educação gratuita e de qualidade.

No vídeo, você confere o professor Bruno Rocha, presidente da ADUFC, com um convite à luta!

ADUFC-Sindicato | A vida acima dos lucros!

Postado por: George Assunção

Postado em: 27/05/2020

O legado da quarentena para o consumo

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Foi divulgada a pesquisa “O Legado da Quarentena para o Consumo”, promovida pelo banco BTG Pactual.

O estudo versa sobre alterações nos hábitos de consumo, tendo em vista a situação de isolamento social, em face da pandemia da COVID-19.

A pesquisa pretende entender essas mudanças, relativamente à população brasileira, estudando as alterações no volume nos dados de:

> Buscas em Google: As métricas de buscas no Google são parâmetro para identificar a variação da demanda dos internautas;

> Tráfego de websites: A variação de downloads de apps indica quais empresas e serviços estão sendo mais bem sucedidos no atendimento da demanda dos internautas;

> Downloads de aplicativos: A comparação entre os fluxos de tráfego em websites é utilizada para observar quais produtos e serviços estão crescendo ou diminuindo devido à crise.

Constatadas as mudanças, foram identificados três grupos de interesse:

– Produtos e serviços em alta;

– Produtos e serviços em baixa;

– Tendências.

Cada um dos grupos foi desmembrado em títulos que se destacaram na pesquisa. A íntegra do estudo você encontra aqui: O Legado da Quarentena para o Consumo

Link da matéria fonte: aqui 

Postado por: George Assunção

Postado em: 27/05/2020

Direito à educação de crianças e adolescentes no contexto da pandemia

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A Comissão Especial dos Direitos de Crianças e Adolescentes da OAB Ceará realizará uma série de Lives com o objetivo de debater os direitos de crianças e adolescentes neste contexto de pandemia.

Nesta primeira edição, vamos conversar um pouco sobre os impactos da pandemia no direito a educação, dentre as discussões debateremos sobre: as aulas virtuais e o impacto no acesso e qualidade do direito a educação; o posicionamento do Conselho Nacional de Educação e do Ministério da Educação sobre o cumprimento do calendário escolar e as aulas virtuais e as ações de incidência da Campanha Nacional pelo Direito a Educação frente a esses desafios para o direito a educação neste contexto.

Postado por: Das Chagas Martins

Postado em: 27/05/2020

MEMÓRIAS DE QUARENTENA 18 – As Delicadezas que me Salvam

Por: Cristiana Carla Aguiar(*)

Qualquer que seja a realidade objetiva, ainda assim será ao mesmo tempo tão subjetiva quanto as lentes de cada vivente, atravessadas pelo que lhe tange no repertório existencial, social e espiritual. Assim, consciente do quão passionais venham ser as minhas impressões, eu as trago em partilha, acreditando que a empatia se entrelaça assim, na narrativa de cada um.

Sou Psicóloga e tenho exercido a Clínica nos últimos 30 anos, tanto no meio público quanto privado. Afastada do trabalho presencial no Hospital e consultório, tenho me dedicado a atendimentos online, vídeos psicoeducativos (para um telejornal local e setor de comunicação do trabalho), algumas leituras técnicas e outras literárias, artesanatos, cozinha, whatsapp, oração, exercícios de escrita e TV. Ocupo-me com a consciência de que essa tessitura do tempo presente, é graça e empenho.

Sim, a pandemia trouxe desafios antes impensáveis, para qualquer pessoa ou cultura e, diga-se de passagem: algo planetário, que de alguma forma nos irmana e conecta. Somos todos susceptíveis, responsáveis e intimamente interligados. De repente, fomos convocados a pensar para além do umbigo e do bem estar pessoal, porque agora o coletivo é a pauta. Se eu não pensar em como proteger o outro, não consigo me proteger, nem proteger a quem amo, nem cooperar para que a vida volte aos trilhos: os conhecidos ou outros mais desejáveis. Sim, o pânico nos ronda, mas também se avizinham outras experiências únicas, que precisamos ter olhos para ver. E quanto a isso, não paro de me emocionar com as inúmeras manifestações de empatia, solidariedade, esforço, altruísmo, fé e delicadezas de tantas formas. Fico pensando que também estamos tendo uma oportunidade única de “gastar” nosso estoque de talentos para o alento de muitos, sem que isso pareça piegas, ou fora de contexto.

Confesso que, ultimamente, tenho sido irremediavelmente fisgada por gestos quase nada ostensivos. É como se as circunstâncias tivessem aberto em mim, novas zonas sensitivas que amplificam minha conexão com todas as coisas.  Pequenos registros que de repente têm a força de me arrancarem do desânimo e me salvarem, como se justificando ali o sentido da vida toda. Eu vou contar alguns.

Bom, aqui onde moro, tem n’algum lugar um ninho de passarinhos de onde acompanho os piados. É como se estivessem em polvorosa ao lado da minha cabeceira. Acordo todo dia com essa zoadinha, independente dos sustos dos noticiários ou dos desatinos políticos do País. Estão lá, e persistem na reinvindicação do que lhes é essencial. Piam e anunciam sua fome, sua satisfação ou o seu sossego de papinhos saciados. Da imaginação, vejo o casal de pais de um lado para o outro, como é de praxe aos passarinhos, para dar conta dos filhotes. O ritmo deles é o da precisão. Não descansam enquanto não garantem a continuação da linhagem. Por certo, talvez, fruto de instinto, fiquem aflitos em dias de vento e chuva mais forte, mas nada que os detenham na defesa e manutenção da prole.

Vou agora para mais um exemplo. Mais adiante, costuro tudo. Logo no comecinho de tudo, quando não tínhamos a profusão de gestos de solidariedade hoje já tão televisionados, minha filha mandou-nos uma foto de um aviso em seu elevador. Em letras adolescentes, dois irmãos se ofereciam para fazerem qualquer tipo de mandado para os idosos impedidos de sair às ruas. Nossa! Aquilo foi uma intimação de comparecimento à solidariedade possível a mim.

Também tenho uma amiga querida, que sabe me fartar de lirismo. Sem alarde, dia sim outro não, lá está no meu zap, um trecho peneirado do Mia Couto, ou do Manoel de Barros, ou da Clarice Lispector, com o bálsamo preciso à sede do momento. Leio aquilo, e sei que acabamos de comungar.

Se não bastassem estes registros tão loquazes, nesse meio tempo, o novo Coronavirus também me achou. Tomou-me os cheiros, alguns brônquios, quis me encher de medo, e exigiu mais rigor ainda com o isolamento. Pensei que então a poesia dos detalhes e afetos não me salvariam do toque de recolher decretado ao monitoramento dos cuidados. Que nada! Com mais empenho que o vírus, a amorosidade e a fé de uma legião entraram por todas as brechas. Antes que eu organizasse o juízo, pessoas queridas arregimentaram o necessário a uma previsão de urgência. Os íntimos ficaram mais íntimos, os próximos, mais próximos. E eu chorei, porque a fartura me abundou.

Conto essas coisas e não posso conter a emoção que se repete em mim: a gratidão me toma ao mesmo tempo em que a consciência do privilégio me denúncia… Devia ser do acesso de cada pessoa, tanto o pertencimento, quanto as condições de uma vida digna. Conto essas coisas e o meu desejo é de por palavras nos indizíveis dessa condição humana, tão tosca e tão sublime igualmente.

Vejam: à analogia dos passarinhos, quantos pais e mães de família não estão se recriando para dar a garantia de continuidade à sua prole, em meio a tantos ventos intempestivos… E na mesma moeda, como cada uma de nossas crianças não estão a restaurar nossas forças, tamanha fé que creditam na vida e em quem elas amam! De repente, passarinhos, desconhecidos, amigos e irmãos visitam nossas alcovas e sem intensão primeira, chamam-nos também a empenhar os gestos de generosidade de que somos capazes, assim, no corriqueiro mesmo do dia a dia.

Diz Saramago: “Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória não existimos. Sem responsabilidade talvez não devamos existir”. Quero minha memória da pandemia, repleta dessas coisas que humanizam a dor e me dão ganas de honrar a vida, responsabilizando-me com mais empenho no que me cabe.

E você? O que tem vivido?

(*) Cristiana Carla Aguiar Psicóloga Clínico-Hospitalar

Postado por: Das Chagas Martins

Postado em: 26/05/2020

NOTA PÚBLICA SOBRE MP 910/2019 E PL 2.633/2020

Projeto de Lei amplia injustiças, desmatamento e caos agrário.

Nas últimas semanas, o debate em torno da Medida Provisória n° 910/2019 e sua mutação em Projeto de Lei n° 2.633/2020, que agora tramita em regime de urgência no Congresso Nacional, demonstrou a ênfase dada pelo governo Jair Bolsonaro na chamada “regularização fundiária” – que consiste na titulação (principalmente por meio de alienação) de terras públicas federais. As propostas ampliam a política para todo o país, em terras da União e do INCRA, estendendo a regularização por meio de autodeclaração do suposto ocupante em até 15 módulos fiscais, pelo texto da MP, ou até 6 módulos, pelo texto original do atual PL.

Inicialmente, vale destacar que tais mudanças ocorrem de forma açodada e completamente dissociada da prioridade a ser dada ao combate a pandemia de coronavírus (COVID-19), que se acentua em todo o Brasil.

De maneira coordenada, tão logo houve a edição da MP, o INCRA editou duas Instruções Normativas (n° 99 e nº 100, ainda em 2019), para operacionalizar os novos marcos de regularização – inclusive com a dispensa de vistoria para área de até 15 módulos fiscais e consultas a sistemas autodeclaratórios, como o SICAR, para a comprovação da regularidade ambiental. Também editou a Portaria n° 608, de 31 de março de 2020, aprovando uma nova planilha de preços para titulação de terras, com valores bem abaixo dos valores de
mercado.

O conceito amplo de regularização fundiária engloba uma série de situações que envolvem as terras públicas e que demandam ações do Estado brasileiro, inclusive por determinação constitucional: os assentamentos de reforma agrária, as unidades de conservação, os territórios quilombolas, as terras indígenas, dentre outras. Cada uma delas com as suas especificidades procedimentais e responsabilidades de diversos órgãos da

Administração Pública.

Leia o conteúdo na integra: NOTA PÚBLICA SOBRE MP 910_2019 E PL 2.633_2020

Postado por: Das Chagas Martins

Postado em: 26/05/2020

 

COVID-19 no Brasil: várias epidemias num só país

Primeira fase do EPICOVID19 reforça preocupação com a região Norte.

A primeira fase do EPICOVID19-BR, realizada entre os dias 14 e 21 de maio, traz resultados  inéditos e preocupantes.

Durante uma semana de coleta de dados em 133 cidades espalhadas por
todos os estados do Brasil, os pesquisadores concluíram 25.025 entrevistas e testes para o coronavírus. Em 90 cidades, incluindo 21 das 27 capitais, foi possível testar pelo menos 200 pessoas selecionadas por sorteio.

No conjunto dessas 90 cidades, a proporção de pessoas com anticorpos, que significa que já tiveram ou têm o coronavírus, foi estimada em 1,4%, podendo variar de 1,3% a 1,6% pela margem de erro da pesquisa. Esses dados já levam em consideração o tamanho da população de cada cidade e a validade do teste rápido utilizado. Essas 90 cidades correspondem a 25,6% da população nacional, totalizando 54,2 milhões de pessoas, entre as quais 760 mil (margem de erro de 705 a 867 mil)
estariam infectadas.

Os resultados dessas 90 cidades não devem ser extrapolados para todo o país, nem usados para estimar o número absoluto de casos no Brasil, pois são cidades populosas, com circulação intensa de pessoas e que concentram serviços de saúde. A dinâmica da pandemia, portanto, pode ser distinta da observada em cidades pequenas ou em áreas rurais. Mesmo com esses cuidados a equipe científica da pesquisa comenta que: “O mais importante é saber que a contagem de casos de infecção por coronavírus no Brasil agora deve ser feita em milhões, e não mais em milhares”.

A comparação dos números estimados pela pesquisa e os números oficiais aponta para uma grande subestimativa do número de infectados pelo coronavírus. No dia 13 de maio, véspera do início da pesquisa, essas 90 cidades somadas contabilizavam 104.782 casos confirmados e 7.640 mortes.

Assim, os dados do EPICOVID19-BR estimam que, para cada caso confirmado de coronavírus nessas cidades, existem 7 casos reais na população.

Leia o conteúdo na integra: Clique aqui

Postado por: Das Chagas Martins

Postado em: 26/05/2020

 

O PODER DA INFORMAÇÃO EM TEMPOS DE PANDEMIA POR Covid-19

FOTO_WELLINGTON_2020

Por: Wellington Sousa Aguiar (*)

Este ano começou diferente. Uma onda de pavor se espalhou pelo mundo causada por um vírus, o SARS-CoV-2, também chamado de Coronavírus. No Brasil, que em janeiro de 2020, a Covid-19 ainda parecia algo distante, prevista “para só chegar” depois do Carnaval. No final de fevereiro surgiram os primeiros casos no Brasil que se multiplicaram rapidamente no início de março. Na medida que as preocupações com as causas e consequências da pandemia aumentaram, novas informações forma disponibilizadas. Variáveis estatísticas e jargões sanitaristas que não faziam parte do cotidiano do brasileiro tornaram-se comuns: cenários epidemiológicos, curvas de contaminação, propagação espaço-temporal, correlação, projeção, entre tantas outras.

Neste contexto, gestores públicos tomaram decisões importantes, como a definição de medidas de distanciamento social para diminuir a velocidade de propagação do vírus e, por conseguinte, preservar a capacidade de resposta do sistema de saúde. Os profissionais de saúde também mostraram a sua relevância. Apesar dos elevados riscos em adoecer, muitos foram destemidos, arriscando-se para trabalhar com pessoas infectadas por um vírus pouco conhecido em condições nem sempre adequadas.

Outras categorias de profissionais menos conhecidas da população também entraram em cena com as suas ferramentas: dados, tecnologias, algoritmos, modelos matemáticos e estatísticos etc. Começamos a ouvir falar mais nos epidemiologistas, estatísticos, matemáticos, infectologistas, analistas de dados e de sistemas, cientistas sociais, engenheiros de trânsito, engenheiros clínicos, entre outros. Eles têm contribuído com a identificação, coleta, tratamento, processamento e a correta interpretação dos dados que possibilitam apoiar a tomada de decisão e orientar a população.

Vários desses atores têm mostrado o poder da informação em tempos de pandemia, transformando fatos em dados, dados em informações e informações em conhecimentos para gerar planos estratégicos.

Por exemplo, na luta contra o Coronavírus são usadas tecnologias modernas e sofisticados da computação como os algoritmos de Inteligência Artificial (IA). A IA é o campo da Ciência da Computação que está preocupada com a automação do conhecimento inteligente, capaz de gerar modelos preditivos e projeções de grande acurácia. Os algoritmos mais conhecidos utilizam técnicas de Aprendizado de Máquina Supervisionado (Modelos preditivos) ou Não Supervisionado (Modelos descritivos). Estas técnicas são capazes de simular os testes de contaminação com grande acurácia desde que alimentadas com dados adequados e de qualidade.

De repente os noticiários e as redes sociais estão cheios de explicações matemáticas e estatísticas, gráficos e projeções com dados coletados diariamente de várias fontes. Mas uma questão permanece: será que informações são confiáveis e de qualidade? Um pesquisador só pode fazer boas inferências e testes estatísticos com dados de qualidade. Não existe técnica estatística que compense a qualidade dos dados.

Infelizmente, dados disponíveis ou publicados não são necessariamente verdadeiros, o que torna imprescindível checar a fonte sob pena de divulgar dados e análises sem valor. É preciso desconfiar ainda de dados muito coerentes e ajustados à teoria proposta. Como já disse o renomado estatístico inglês Ronald Fisher, quando desconfiou dos resultados de uma de suas pesquisas: “está bom demais para ser verdade”.

Em tempos de pandemia, a subnotificação e a superestimação reais ou propositais podem trazer benefícios políticos ou financeiros para algumas regiões, mas dificultam o acesso e distorcem a realidade, munição essencial para os pesquisadores nesta batalha. Neste sentido, alertamos que todos os componentes envolvidos no processo de geração dos dados primários desta pandemia precisam estar cientes da importância da geração de informações com transparência, qualidade e boa comunicação.

O grande problema das redes sociais contemporâneas, as “Fake News”, também ganham espaço importante neste momento. Quando divulgadas por interesses políticos, para levar vantagem financeira ou até mesmo por brincadeira, são todas de caráter “CRIMINOSO”. As divulgações de notícias falsas ou dados deturpados, obscurecem as possibilidades de compromisso com o enfrentamento da pandemia por Covid-19.

De qualquer modo, numa fase da nossa história em que o conhecimento científico vem sendo sistematicamente questionado por grupos de vários campos, parece que o conhecimento válido parece vir recuperando o seu valor na sociedade.

Enfim, é certo que as informações possuem poder. Elas podem não ter atributos favoráveis ao bem comum, nem às melhores escolhas e práticas coletivas e individuais. Mesmo assim, elas mostram suas forças. A pandemia por Covid-19, apesar de tudo, retoma a importância de informações de qualidade, onde se cuida da origem e do tratamento adequado dos dados e da técnica, transparência e boa comunicação. Somente as boas pesquisas e análises podem geram evidências que apoiam o poder público na definição de ações estratégicas e definição das melhores práticas de atenção à saúde. A opinião do cidadão comum precisará continuar sendo um elemento fundamental para a democracia, mas a ciência também precisa de reconhecimento.

(*) Wellington Sousa Aguiar:

Egresso do Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública – UFC e Prof. Centro Universitário Estácio do Ceará.

Postado por: George Assunção

Postado em: 25/05/2020

 

 

 

Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia (SBEE) lança nota de repúdio contra falas de Abraham Weintrau e Ricardo Salles

SBEE

A Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia (SBEE), repudia, perante a sociedade brasileira e internacional, a fala do Ministro de Estado da Educação do Brasil, Sr. Abraham Weintraub, que disse odiar o termo POVOS INDÍGENAS; e do Ministro de Estado de Meio Ambiente do Brasil, Sr. Ricardo Salles, que revelou sua intenção de se aproveitar do momento propício em que a imprensa brasileira estava concentrada na cobertura da pandemia da covid-19 para “deixar passar a boiada”, por ocasião da reunião ministerial ocorrida em 22 de abril de 2020 e revelada ao público em 22 de maio de 2020. Repudiamos veementemente estes posicionamentos.

A declaração do Ministro da Educação demonstra completa ignorância em relação ao verdadeiro significado do termo “POVOS” e desapreço pelos povos indígenas e povos ciganos que vivem no Brasil. O Brasil é um país megadiverso cultural e socialmente falando, o que deveria ser, em princípio, motivo de regozijo e respeito por parte do representante máximo da Educação e do Governo do qual faz parte; mas, pelo contrário, esse patrimônio é razão de ira e hostilidade. Recomendamos ao Ministro se deslocar a todos os cantos e confins do Brasil, de Norte a Sul, para conhecer a riqueza impregnada neste chão, em formas de rostos, línguas, religiões, cosmologias, modos de viver, pensamentos, histórias, sistemas políticos, relação de harmonia com a natureza e, principalmente, maneiras de resistir ao histórico projeto colonizador, que não se encerrou ainda, em pleno século XXI. Ou então, que estude a vastidão da literatura produzida por intelectuais e pesquisadores e pesquisadoras brasileiros/as e estrangeiros/as. Esse Ministro da Educação, que se apresenta como tal, não nos representa; pelo contrário, envergonha o BRASIL.

Por sua vez, o Sr. Ricardo Salles vem, desde que assumiu a pasta do meio ambiente, em 2019, colocando em curso seu desígnio para o patrimônio socioambiental brasileiro: SUA DESTRUIÇÃO. Para tal, age como “justiceiro” dos ruralistas, madeireiros, grileiros, garimpeiros e toda a sorte de gentes que sonham ver a porteira escancarada para saquear a madeira, o ouro e o doce impregnados nas reentrâncias desta pátria-mãe-gentil. Na verdade, presta um desserviço ao patrimônio ambiental nacional e, para tal, menospreza a ciência que alerta sobre os efeitos nocivos desse intento; humilha, desqualifica e aparelha os órgãos ambientais brasileiros como o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA); e usa de artifícios nada republicanos, ético-morais e legais, para, de modo sorrateiro, afrouxar regras ambientais para “deixar a boiada passar”. Segundo as ideias do Sr. Ricardo Salles: “basta um parecer acolá e uma canetada aqui, sem precisar aprovação da Câmara, que está um fuzuê”. O BRASIL e os brasileiros e brasileiras não merecem tamanho infortúnio: um ministro do meio ambiente que age contra o meio ambiente e um ministro da educação cuja ignorância e incivilidade são suas maiores marcas. Somos pelos povos indígenas e todos os povos que enriquecem a cultura brasileira. Somos pelo IBAMA, ICMBio. Somos pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Somos pela Ciência. Somos pela defesa dos direitos humanos e da natureza. Somos pela democracia. FORA RICARDO SALLES! FORA ABRAHAM WEINTRAUB!

Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia – SBEE

[+] Baixe a nota completa em PDF aqui:

NOTA DE REPÚDIO_EDUCAÇÃO E MEIO AMBIENTE

Postado por: Das Chagas Martins

Postado em: 25/05/2020

 

 

Mulheres que governam e a doença da Covid-19

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(Angela Merkel – Chanceler Alemã)

Por: Liana Carleial*

De: América.Latina

No momento em que um postulante a terceiro ministro da saúde do Brasil, em meio a uma pandemia, sente-se à vontade para atribuir – ao voto das mulheres – o fracasso das democracias, temos, sim, uma dimensão precisa do retrocesso civilizatório que vivemos, após o golpe de 2016. Exatamente, esse, que tirou do poder, sem crime de responsabilidade, a primeira mulher eleita, por duas vezes consecutivas, presidenta do Brasil.

Entre nós, a ausência de coordenação nacional das ações necessárias, num momento de tal gravidade, representa uma omissão irreparável que gerou uma crise humanitária, sem exemplos semelhantes na nossa história recente, e já levou a óbito mais de dezenove m oil brasileiros, em dois meses.

Tal postulante, como sua fala indica, não foi capaz de olhar ao redor e compreender o que se passa no mundo. As mulheres adentraram ao mercado de trabalho, na década de 1980, em grande parte dos países, e nunca mais saíram; ocupam hoje as mais diferentes funções no espaço público. E se há uma relação entre, mulher e democracia, é exatamente de fortalecimento, à medida em que as lutas sociais por empregos, igualdade salarial entre os gêneros, expandiram-se pelo mundo, associadas às lutas por habitação, escolas, creches, saúde, direito sobre o seu corpo; enfim, a lista é grande.

New Zealand PM Visit

(A Primeira-Ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern)

Uma das importantes lições que a pandemia pelo novo corona virus evidencia é que há um grupo de mulheres governantes, exatamente seis mulheres, responsáveis por seus países e suas populações, que conseguiram imprimir menor sofrimento aos seus concidadãos. Fizeram algum milagre? Alguma bruxaria? Produziram e difundiram, oportunisticamente, algum medicamento milagroso? Não, apenas respeitaram o cargo que ocupam, as populações sob suas responsabilidades e ouviram a ciência. Nova Zelândia, Islândia, Dinamarca, Finlândia, Noruega e Alemanha, foram atingidas pelo vírus antes do Brasil e tinham poucos exemplos com os quais aprender: a China, a Itália, e o início difícil da contaminação na Espanha.

Como se trata de uma doença nova, sem vacina ou remédio específico, a ação da Organização Mundial da Saúde (OMS), foi cuidadosa desde 30 de janeiro, quando a considerou uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional, até 11 de março, quando a definiu como pandemia. A partir daí, os governos foram chamados para a orientação dos mecanismos de resposta.

Já em abril passado, a imprensa mundial, como por exemplo, a BBC de Londres e o jornal El Pais, já se dedicava a difundir o bom encaminhamento que essas governantes haviam conseguido imprimir em seus países, mesmo diante de diferenças de tamanhos populacionais e culturais entre eles.

É bem verdade, que esses seis países são ricos, compreendem a importância da ciência, são países democráticos nos quais a vida humana tem valor. No entanto, no estudo divulgado pelo Ceyhun Elgin, da Universidade da Columbia, divulgado no inicio de maio, nenhum desses países figurava entre os 10 países que mais estavam gastando recursos fiscais com a pandemia, cujo primeiro lugar cabia ao Japão, por investir 21% do seu PIB, enquanto a média entre os países ricos era de 6,7%, e a média global 3,7%. Então, o que diferenciou esses países, todos eles deixando em maior ou menor grau o confinamento ou isolamento social neste mês de maio?

A receita exitosa entre elas deveu-se a uma certa combinação: clareza da gravidade da contaminação 1, assunção da responsabilidade, rapidez nas ações implementadas com grande transparência, empatia, comunicação direta com as populações, obtendo o correspondente apoio e fundamentalmente, a submissão aos princípios científicos. A comunicação direta envolveu até filmes da representante da Nova Zelândia cuidando de sua filha pequena, veiculado na TV, para conferir proximidade. Igualmente, mensagens de apoio foram veiculadas para que as populações confinadas ou isoladas não se sentissem sós 2.

Na ausência de um protocolo preciso e, tendo em conta, que a transmissão se faz de, pessoa a pessoa, através de gotículas do nariz ou da boca quando a pessoa fala, tosse ou espirra, o recomendado pela OMS é a redução do contato, o que pode variar em graus. As atividades não essenciais devem ser suspensas, comércio, indústria teatros, cinemas e os diferentes grupos de risco devem permanecer isolados. Esse isolamento pode chegar ao limite de trancar as ruas, fechar fronteiras e proibir ou limitar vôos. Os caminhos de acompanhamento e controle entre elas, entretanto, variou, mas assentada na conjugação de isolamentos rígidos, testes e quarentena para os que chegavam seus territórios. Dinamarca e Nova Zelandia bloquearam fronteiras ainda no início de março; adicionalmente, vôos passaram a ser inspecionados e pessoas com sintomas foram para centros de isolamento. A Islândia rastreou os contatos de pessoas contaminadas. Todas essas ações buscavam achatar a curva de contaminação, evitar a propagação do vírus e a sobrecarga dos sistemas de saúde.

A nova Zelândia não se conformou em apenas achatar a curva mas buscou eliminá-la. Introduziu medidas restritivas fortes antes mesmo da ocorrência do primeiro óbito. A Finlândia isolou a região de Helsinque, à medida que a contaminação aumentava na capital, tal como a China fêz com Wuhan. Nova Zelândia e Islândia tiveram respectivamente, até 18 de maio passado, 14 e 10 óbitos entre os habitantes que haviam se contaminado. Os resultados estão ai, e suas populações já podem começar a pensar em retomar as suas vidas, respeitando o monitoramento do desconfinamento e suas governantes estão politicamente, socialmente e humanamente reconhecidas.

Mesmo tendo a pandemia, no Brasil, assumido uma dimensão de tragédia humana, a responsabilidade do grupo no poder, nem de longe, corresponde às necessidades e urgências dos brasileiros. Os caminhos para alterar esse quadro passam por uma cobrança efetiva de toda a sociedade civil, movimentos sociais, universidades, empresários, partidos políticos, trabalhadores da saúde, igrejas, cidadãos em geral, o que também não está acontecendo na medida suficiente para alterar a tendência.

instalada de fuga das responsabilidades3 . Mas, como escolhi Zizek como meu “Cato” neste isolamento social, o jeito é ter muita esperança pelo que virá4.

Referências:

Afonso, J.R. & Pinto, E.G. Pouca Saúde. Le monde Diplomatique .Brasil. 20.05. 2020. Acervo On Line.

Rocha, L. O que aprendemos com elas: o caminho de países liderados por mulheres contra a covid-19. Diário de Minas. Edição de 28.04.20. Acesso dia 15.05.2020

1 A chanceler da Alemanha chegou a considerar a gravidade da contaminação pelo corona virus o o maior desafio a ser enfrentado desde o fim da 2a.guerra mundial.

2 Grande parte das informações sobre esses países e suas governantes, deve-se a Rocha(2020)

3 Afonso, J.R & Pinto, E. (2020) denunciam que até 14 de maio passado, o Ministério da Saúde havia gasto somente R$8bi, quando a dotação orçamentária era de R$ 18,9 bi, no âmbito do Fundo Nacional de Saúde (FNS), rubrica destinada ao enfrentamento sanitário da pandemia.

4 Escolher o Cato(filósofo estoico tido como rígido e inabalável) é uma prática antiga de escolher um conselheiro, mentor, professor e, certamente, pode variar dependendo do momento ( irmãosestóicos by instagram. Acessado em 17.05.20)

Liana Carleial é economista, professora titular em economia da UFPR, professora convidada do Programa de Pós-graduação em Direito(PPGD) e pesquisadora do Núcleo de Direito Cooperativo e Cidadania (NDCC) da mesma

Universidade. liana.carleial@gmail.com

Foto 1: Angela Merkel – Sandra Blaser/ Fórum Econômico Mundial

Foto 2: Jacinda Ardern – MoD/ Crown/ Fotos Públicas

Link da matéria fonte: aqui

Postado por: Das Chagas Martins

Postado em: 23/05/2020

O TERRORISMO COTIDIANO DE BOLSONARO

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Por: Uribam Xavier*

Bolsonaro tem uma formação religiosa e militar, ou seja, é formado por culturas que são hierárquicas, autocráticas e avessas à democracia. Não existe religião e nem exército democráticos, todos são autocráticos. Neste, a obediência e a violência são instrumentos para manter a ordem e a disciplina. Naquela, o domínio acontece a partir da crença de que o saber é uma revelação e que o poder pertence aos escolhidos. Ao ser um escolhido por apenas um terço dos eleitores, o presidente acha que tem legitimidade para decidir tudo, que sua vontade é a Constituição e que pode ser desresponsabilizado pelas mortes por coronavírus no país, para as quais contribuiu a sua ação genocida, com um arrogante “e dai?”.

Na política, a lógica teocrática, militar-religiosa, como a de Bolsonaro, significa a implantação de um governo que legitima a banalidade do mal: o estabelecimento de um comportamento de guerra, em que “guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força” (George Orwell). É o uso da violência e da corrupção em um simulacro que tenta passar a ideia de compromisso com a pátria.

Bolsonaro é um fascista desnorteado. Passa a impressão de ser um ciborgue, um ser que se anulou como humano e, no seu sofrimento, por ter consciência que é um ser desprezível, bate-se para promover o fim de uma nação por meio de um projeto genocida. Quando urra “eu sou a constituinte, sou o presidente e, portanto, sou eu quem mando”, ele quer silenciar a oposição, quer apagar as individualidades e as diferenças no país, quer promover a morte e tem seguidores, gente que se identifica com a sua insignificância e encontra nele a oportunidade de ser alguma coisa, um incentivo a sua perpetuação.

Bolsonaro é o Frankenstein produzido pelos militares brasileiros, é um híbrido de laboratório militar que fugiu da caserna com ódio aos negros, aos homossexuais, às mulheres, aos índios, aos pobres, ao conhecimento científico, à natureza e à felicidade. Assistimos ao terrorismo político cotidiano de Bolsonaro com apoio de gente nos três poderes, na sociedade, e não podemos mais aceitar tal situação. Chegou o momento de lutarmos pelo distanciamento dos militares da política, tal como consta na Constituição. Temos o direito de termos uma nova eleição para presidente, mesmo que uns não queiram.

*Uribam Xavier – É Professor do Departamento de Ciências Sociais da UFC.

Postado por: George Assunção

Postado em: 22/05/2020

Lançada plataforma mundial de mapeamento de políticas públicas contra a Covid-19

Professora da Face coordena trabalho de alimentação do repositório com dados do Brasil

Professora da Faced

Para os pesquisadores envolvidos na plataforma, governos devem investir no aumento da capacidade dos sistemas de saúde

De: Universidade Federal de Minas Gerais

Por: Ewerton Martins Ribeiro

Preprint

Os pesquisadores envolvidos na fundação da plataforma também produziram coletivamente um artigo em preprint (ainda não revisado por pares), por meio do qual estabelecem uma proposta de taxonomia (ou seja, um sistema de nomenclatura, descrição e classificação científica) para que se possa mapear e comparar com objetividade as respostas políticas que os diferentes países estão oferecendo para a pandemia. Esse artigo foi enviado para a Organização Mundial de Saúde (OMS) para ser publicado como boletim informativo da instituição, o que deve ocorrer nas próximas semanas.

Segundo Fernanda Cimini, essa taxonomia é o principal diferencial do trabalho desenvolvido pela plataforma PoliMap. “Há várias iniciativas de mapeamento em curso no Brasil e em outros países, mas o que chama a atenção nesse observatório é o grau de detalhamento da taxonomia que está sendo proposta. É um trabalho completo, que vai possibilitar a composição de um banco de dados muito útil para as futuras análises de quem estuda política comparada”, diz.

A taxonomia descrita no manuscrito de artigo considera as respostas oferecidas pelas nações à pandemia com base em quatro grandes domínios de ação: as intervenções com foco na redução da transmissão viral, as intervenções centradas no aumento da capacidade dos sistemas de saúde, as intervenções focalizadas na mitigação das consequências negativas que podem advir da pandemia (e das próprias ações realizadas no seu combate) e as intervenções relacionadas à gestão da crise, considerando o compartilhamento de informações, a redefinição de responsabilidades entre os órgãos públicos, a alocação de recursos e a delegação de poder.

Esses quatro domínios são nomeados no artigo como Estratégias de achatamento da curvaEstratégias de elevação da linhaEstratégias de mitigação (que dizem respeito às consequências da pandemia não apenas no campo da saúde, mas também na educação, na economia e no acesso a água e a alimentos) e Estratégias de governança, que dizem respeito à “capacidade institucional de responder de forma eficaz e eficiente à pandemia”.

A expectativa dos pesquisadores é que a metodologia e os dados reunidos na plataforma sirvam àqueles “que estão tomando decisões em nível nacional, regional ou local e também para aqueles que desejam avaliar o impacto das políticas contra o Covid-19 na saúde, na economia e no bem-estar social”. A ideia, defendem eles, é que essa taxonomia seja usada “para mapear, monitorar e comparar sistematicamente as respostas políticas dos países, ao longo do tempo, em conjunto com os dados de morbidade [percentual de incidência da doença], mortalidade e demografia, de forma que se possa obter uma visão ampla dos efeitos sociais da pandemia de Covid-19”.

Não basta achatar a curva
No artigo, os pesquisadores lembram que “as respostas políticas de enfrentamento ao vírus têm variado bastante entre os países – da testagem em massa e do isolamento social em larga escala [os chamados lockdowns] a abordagens mais voluntárias para o distanciamento social”, mas que estratégias como essas têm foco apenas no primeiro dos quatro domínios de ação sugeridos por sua taxonomia, isto é, estão baseadas no objetivo de reduzir a transmissão do vírus, o chamado “achatamento da curva”.

Nesse sentido, o que o grupo defende é que as respostas políticas à pandemia não podem ficar circunscritas apenas à tentativa de reduzir a propagação viral. Ao contrário, elas devem focar, também, nos outros três domínios de ação listados, ou seja, em estratégias de “elevação da linha” (aumento da capacidade dos sistemas de saúde), em estratégias de mitigação dos efeitos secundários da pandemia e em estratégias de governança destinadas ao aprimoramento da gestão administrativa que os governos fazem da crise.

“O que nós estamos argumentando é que é preciso mudar o foco da redução da transmissão viral para a redução do impacto negativo da pandemia na saúde e no bem-estar da população”, escrevem os pesquisadores. Eles defendem, na esteira desse argumento, que é preciso, então, desenvolver “políticas destinadas a aumentar a capacidade de resposta do sistema de saúde, a mitigar as consequências negativas da epidemia (e os possíveis efeitos adversos das intervenções que têm sido realizadas para combater o surto) e incrementar a capacidade governamental de resposta à crise”.

Envolvimento da UFMG
Participaram diretamente da primeira etapa do trabalho, em que são mapeadas as políticas adotadas no plano federal, a doutoranda em Economia Nayara Abreu Julião, a mestranda em economia Aline de Souza, o graduado em relações econômicas internacionais pela UFMG Guilherme Rodrigues de Figueiredo e os graduandos, do mesmo curso, Beatriz Ramos Duarte Baeta Neves e Odilon Amaral. Além disso, vários outros alunos dos cursos de relações econômicas internacionais e de ciências econômicas colaboraram indiretamente no levantamento de políticas.

Para a etapa de inclusão das medidas implantadas pelos estados, a expectativa de Fernanda Cimini é que novos pesquisadores possam se juntar a esse grupo. Todo o trabalho é realizado de forma voluntária.

Link da matéria fonte: aqui

Postado por: Das Chagas Martins

Postado em: 21/05/2020

ENCONTRO OPP SAÚDE – Cidades, Distanciamento Social e Covid-19: Contextos e Desafios”

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Seguindo nossa programação, o segundo ‘ENCONTRO OPP SAÚDE’ será dia 21 de maio, a partir das 18h30, com o tema “Cidades, Distanciamento Social e Covid-19: Contextos e Desafios”, em consonância com as ações do Comitê de Enfrentamento à Covid-19 da FAMED/UFC.

O link de acesso segue abaixo:
http://bit.ly/369paEd

Durante a Web será disponibilizado formulário para emissão de certificação pela FAMED/UFC.

Até logo!

Para ficar por dentro de mais conteúdos como esse, acesse nosso blogger em: https://oppceufc.wordpress.com/

Postado por: Das Chagas Martins

Postado em: 20/05/2020

 

MEMÓRIAS DE QUARENTENA 16: Esquecer é permitir, lembrar é combater! Esquecer é permitir, lembrar é combater! 

Esquecer é permitir, lembrar é combater! 

Por: Lídia Rodrigues – Educadora Social e Integrante do Fórum DCA e Andrezza Queiroz (Estudante de Psicologia da UFC e Integrante do NUCEPEC/UFC.


Esse lema há anos anima a luta contra a violência sexual de crianças e adolescentes, por lembrança aqui é memória valiosa que a reflexão aperfeiçoa, possibilitando romper o silêncio provocado pelo medo e pela vergonha, cuidadosamente implantados pelos que sempre nos quiseram submissas e silenciosas; é aquela experiência que parece tão particular mas que quando rompe as paredes da casa, os segredos de família, se reconhece em outras experiências tão espelho, elucidando: nisso nunca houve particularidade, sempre foi uma ferramenta política para manter as coisas como queriam que estivessem.

Durante isolamento social por causa da pandemia do COVID 19, e na proximidade dos 20 anos da instituição do dia 18 de maio como dia nacional de combate ao abuso e a exploração sexual contra crianças e adolescentes, pensamos sobre as violências sexuais e as diversas narrativas e imaginários que as fundamentam e as enfrentam; os impactos delas nas subjetividades de tantas gentes; nas poucas respostas das políticas estatais para a erradicação desse problema, e em quem se beneficia de sua não resolução.

Visitamos algumas narrativas históricas: – milênios em que o estupro foi política dos estados coloniais: essas pessoas eram vistas como propriedade e o estupro considerado um modo de ampliar ganhos dos estupradores e seus herdeiros, por aumentar o número de trabalhadores escravizados. Fundou-se o argumento de que a própria classe escravizada seria beneficiada, porque teria oportunidade de se “civilizar”, já que precisavam amparar a prática perversa. Os colonizadores se  disseram referências da própria bondade e as diferenças fenotípicas e culturais do que chamaram outros, nomearam de maldade, disfarçando de justas tantas violências que só beneficiaram a si e aos seus com a exploração dos corpos e trabalho, que só se tornou possível com o controle da sexualidade dessas gentes.

Essa tecnologia de opressão é bem anterior à colonização das terras de Abya Yala (ou Américas como dizem os colonizadores), mas é tão imbricada ao racismo que é difícil dizer quem fundou quem. Hoje é expresso, por exemplo, com  a exotização erotizante a todas as pessoas não brancas e seu confinamento em imaginários sexuais que legitimam os lugares coisificados que dão tanto lucro à indústria pornográfica e às redes de exploração sexual; séculos em que foi criada uma versão da verdade em que os corpos com útero e vulva são para reprodução, cuidado e prazer alheio. Às  que nascem com esses corpos, inventadas como mulheres, foram atribuídos comportamentos que são ensinados, reinventados e reproduzidos – o tal do gênero.

Uma verdade inventada contada com tanta frequência, de tantos modos, por tanta gente que se fundou referência universal e natural, cuja sustentação vem por falas e práticas fomentadas por algumas religiões, algumas “ciências” e pelo capital. Assim alfabetizadas pelo Be-A-Bá machista que trata sexualidade como ato sexual, e reduz esse ato a genitália, somos ensinadas que não se pode falar sobre nada disso, de forma sutil, cantando o corpo como “Cabeça, ombro, joelho e pé, olhos, ouvidos, boca e nariz, cabeça, ombro joelho e pé”. Ensinadas que não podemos nos olhar e nos tocar.

Introjetamos que menina tem um jeito de sentar, que “aquele-tio-distante” pode beijar e tem que ir de bom grado, mesmo sem querer pois, uma boa menina é silenciosa, obediente e comportada, uma princesa impotente esperando um príncipe que lhe salve.

Enquanto ninávamos bonecas, fazendo comidinha de brincadeira ou trocando roupas de barbies escutávamos o som dos outros – os meninos, que corriam nas ruas com pipas e bolas – entendemos qual o lugar que esperavam que assumíssemos no mundo: o privado, a casa, o cuidado!

Ouvimos com frequência que desejo sexual é coisa de homem. Que devemos ser passivas, aceitar e esperar passar e assim a dominação se transforma em fetiche coletivizado, reproduzível, reinventado. Com tanta coisa, quase passa invisível a maneira como o machismo se tece com o adultocentrismo. E, nesse tema sexualidade, faz com que pareça natural que meninas performem a adultização e que adultas performem a infantilização, arraigando ainda mais uma cultura sexual perversa que produz desejos violentos, que hipocritamente nega como cultura.

Aprendemos isso tão cedo e de forma tão impregnada no dia a dia, que é difícil diferenciar tantas coisas tão bem trançadas na teia que explora corpos e trabalho e nos rouba a potência sexual criativa que transcende a cadeia reprodutiva;

– décadas por onde as mulheres se organizaram em movimento – o feminista; fizeram da identidade arma para compreensão da realidade, rompendo o silêncio e exigindo a propriedade sobre seus corpos e vidas; e de como algum tempo depois o movimento em defesa dos direitos infanto-juvenis fez coro nessa exigência para que nenhuma criança e adolescente fosse vítima de abuso ou exploração sexual, pois eram vitimados pelos mesmos motivos que as mulheres, as pessoas escravizadas e tantas outras gentes: foram despidas de poder sobre si;

– anos em que os que se julgam donos da nossa liberdade vêm reorganizando sua contraofensiva e começaram a nos atacar no que pensávamos estar ganho, distorcem nossas palavras e nos tratam como vilãs, acusando-nos de criar o que denominaram “ideologia de gênero”, por questionarmos as regras que inventaram para nos fazer reféns do seu sistema econômico e político fantasiado de moral e bons costumes.

Nos últimos anos, eles têm feito muita gente de bem achar que somos nós as perversas, por querer ensinar a crianças e adolescentes sobre seu corpo, sobre a diferença entre carinho, reconhecimento, afeto e violência.

Misturando histórias antigas e recentes, memórias pessoais e reflexões, paro e penso nisso agora, sabendo que muitas dessas coisas que parecem passado, para várias é o presente! Estamos em meio a uma pandemia, cenário em que a saúde coletiva depende do isolamento social. Ficar em casa é ficar segura. Mas para tantas e tantos, a casa não é esse lugar de proteção, já que quase  70% dos casos notificados de abuso sexual são intrafamiliares, e estima-se que muitos não são relatados devido aos pactos de silêncio das famílias e até a incapacidade das vítimas de se reconhecerem em uma situação de violência: quando esse abuso acontece disfarçado de carinho e ludicidade.

O que fazer com o discurso de que educação sexual é papel restrito da família com tantos abusos intrafamiliares? Como esperar que crianças e adolescentes denunciem, já que não conseguem distinguir afeto e abuso, e quando conseguem, toda a sua bagagem educacional sobre sexualidade fará com que se sinta mais culpada do que vítima? E quando ela tenha consciência da violência sofrida, os mecanismos que existem para ouvir, acolher e cuidar para mitigar os impactos dessa violação são escassos, ineficientes ou inexistentes? Pensando ainda no cenário atual, que caminhos para fazer a denúncia, se mesmo o Disque 100 tem se mostrado ineficiente? Qual rede de apoio se faz presente, mesmo longe, nesse momento? Quando as perguntas não têm resposta, não precisamos deixar de fazê-las: precisamos intensificar a frequência e volume com que são feitas.

Momentos de crise servem para nos deixar alertas, para identificar os problemas e que nossas vozes sejam altas a ponto de pressionar que a obra prioritária dos governos sejam as pontes que possibilitem a travessia do abismo entre o que é e o que deve ser!

#eunaosabiaqueeraabuso

Postado por: Das Chagas Martins

Postado em: 20/05/2020

PANDEMIA – Conselho de Representantes da ADUFC defende suspensão do calendário acadêmico da UFC e não participação nos EU 2019

ADUFC-SINDICATO

No caminho inverso à insistência da administração superior da UFC, o Conselho de Representantes da ADUFC segue na defesa irrestrita da suspensão do calendário acadêmico por tempo indeterminado – com a manutenção de um calendário único garantindo a recuperação de 100% das aulas para os estudantes que não têm acesso à internet. Os/as conselheiros/as também se manifestam contra a substituição de aulas presenciais por atividades remotas e discordam do formato que está proposto para os Encontros Universitários 2019, com previsão de início para esta quarta-feira (20). A orientação é para que professores e estudantes não participem do evento. As deliberações foram aprovadas em reunião realizada por videoconferência, no último dia 12.

Não se trata de rejeição simples a aulas ou atividades virtuais, mas da viabilidade de garantir isonomia e acesso dos estudantes às disciplinas. As deliberações do Conselho são respaldadas na impossibilidade de garantia da qualidade do ensino e mesmo o acesso da totalidade dos alunos às atividades remotas. Também não existe estrutura na universidade para o preparo de material a ser utilizado nesse tipo de aula, nem instrumentos necessários pra ampliar as formas de contato com os estudantes nesse período

Os problemas em relação a atividades remotas e/ou de EaD vêm sendo apontados desde o início da pandemia, por diretores de unidades, entidades representativas, chefes de departamento. Entre as inúmeras razões relatadas, estão: desigualdade no acesso à internet, condições de saúde mental neste momento de pressão, impossibilidade de realização de aulas práticas e estágios supervisionados e necessidade de unificação de um calendário comum depois da crise. Durante a reunião, os/as professores também argumentaram a necessidade de garantia de condições materiais para qualquer tipo de atividade virtual que possa ser implementada na universidade. E a defesa da volta às aulas presenciais apenas quando houver as condições sanitárias adequadas para garantir a preservação da saúde de estudantes e servidores docentes e técnico-administrativos.

EU 2019: orientação é não participar

Após pressão das Unidades Acadêmicas e da ADUFC, a Administração Superior da UFC anunciou, no dia 30 de abril, durante videoconferência, que a participação nos Encontros Universitários seria facultativa e sem uso de laboratórios de informática. A decisão foi anunciada após diversos questionamentos feitos pela categoria docente, que sugeria a suspensão do evento. Além da ADUFC, diretorias de Unidades Acadêmicas, colegiados e conselhos de faculdades, manifestaram-se através de comunicados oficiais e cartas abertas.

O Conselho de Representantes da ADUFC segue a mesma orientação: recomenda fortemente aos colegas que não participem dessa edição online dos Encontros Universitários 2019. A decisão foi tomada de forma coletiva e representativa, durante videoconferência com 55 participantes. O Conselho defende ainda que os relatórios previamente apresentados já sirvam como efeito para expedição dos certificados que precisam ser enviados aos estudantes.  

Ações de solidariedade serão ampliadas

Para além da defesa da universidade pública, há o entendimento do papel social do sindicato na luta por uma sociedade mais justa. Diante do cenário que se apresenta no Ceará, com 26.107 casos confirmados e 1.692 mortes por Covid-19(*), o Conselho de Representantes da ADUFC aprovou a ampliação do orçamento para ações da Rede de Solidariedade da qual o sindicato participa, em apoio a populações mais vulneráveis em isolamento social. Essas ações vão envolver recursos da ordem de R$ 10 mil mensais –  podendo alcançar o teto de R$ 20 mil quando for utilizado também o orçamento dos Grupos de Trabalho (GTs).

Cândido é denunciado no MPF

Na mesma reunião, os/ conselheiros/as aprovaram uma nota de repúdio e autorizaram uma representação junto ao Ministério Público Federal (MPF) contra o interventor Cândido Albuquerque, que vem dando recorrentes exemplos de autoritarismo e personalismo, atacando o princípio de gestão democrática na UFC. As denúncias foram encaminhadas ao MPF no último dia 14, via assessoria jurídica da ADUFC, que assina a representação juntamente com SINTUFCE, DCE/UFC e APG-UFC. A peça jurídica solicita, entre outros pontos, a instauração de inquérito civil para apuração de eventual improbidade administrativa cometida pelo interventor.

(*) Números atualizados às 14h08 de hoje (18/5), pela plataforma IntegraSUS, da Secretaria da Saúde do Estado (Sesa). Foram 1.852 casos e 51 óbitos a mais que o registrado no dia anterior. A maioria dos casos se concentra em Fortaleza, com 16.106 casos e 1.209 mortes.

(**) Para acessar a nota de repúdio do Conselho de Representantes da ADUFC, CLIQUE AQUI.

Link da matéria fonte: aqui

Postado por: Das Chagas Martins

Postado em: 19/05/2020

Ocoronavírus e a economia: quais caminhos? (Parte II)

Por: Aécio Oliveira(*)

Introdução

Assiste-se no mundo a fragilidades estruturais que resultaram da aplicação dos princípios do pensamento neoliberal, sob a forma de dramáticas desigualdades sociais. Por dentro do capitalismo não há saída; há inúmeros prenúncios de que a moderna sociedade produtora de mercadorias está em uma encruzilhada buscando saídas para continuar sua mortífera trajetória. Mas, a encruzilhada apenas mostra que o sistema se encontra, de fato, no início de seu fim; ou da extinção da espécie humana. De crises em crises fica cada vez mais cristalino que o capitalismo não oferece condições para uma existência harmoniosa do homem com a Natureza. Ou sua superação (no sentido dialético) ou a gratidão “eterna” do Planeta pelo favor que fará em livrá-lo da humanidade.

A economia do capital é desde sempre “a contradição em processo”; a pandemia reforça e visibiliza suas consequências na econômica e na sociedade. Com as privatizações e a liberalização dos mercados financeiros, iniciadas nos anos de 1980 – M. Thatcher (1979) e R. Reagan (1981) –, juntamente às restruturações produtivas e às inovações tecnológicas que se seguiram com o advento das TIC (Tecnologias da Informação e da Comunicação) – e agora com o suporte dos DB (Data Bank) e da AI (Artificial Intelligence) –, acentuaram-se as crises econômicas, a cresceram as desigualdades sociais e sobretudo, generalizaram-se as agressões impetradas contra os ecossistemas. Em particular, o sistema imunológico das pessoas tem-se debilitado, certamente como resultado da mudança do uso da terra, da ingestão de alimentos ultraprocessados (com aditivos químicos) e pelas pressões psicológicas originadas da luta pela sobrevivência. Ademais, em nome da governança financeira e da impagável dívida pública, 40 anos de neoliberalismo têm causado um enorme estrago nos sistemas públicos de saúde, de educação e de proteção social. O chamado mundo moderno, portanto, enfraqueceu mais ainda as defesas imunológicas da espécie humana.

Ao longo de 40 anos de neoliberalismo, os serviços de saúde e a proteção social têm sido sistematicamente desmontados em todo o mundo. Em particular, o sistema de saúde pública, e mesmo privada, não consegue dar conta do aumento abrupto de demanda por leitos, UTI, equipamentos e serviços laboratoriais. No Brasil, se a contaminação afetar 1% da população (cerca de dois milhões de pessoas) todo o sistema de saúde entrará em colapso completo. A dinâmica diferenciada da contaminação em capitais importantes está a exigir medidas integradas e urgentes para o enfrentamento da ferocidade assustadora do coronavírus. Cresce a necessidade de mobilizar um crescente volume de recursos como parte da tentativa de evitar mais perdas de vidas. O coronavírus não é democrático. Em sua trajetória tende a causar mais estragos junto aos segmentos mais vulneráveis da pirâmide das desigualdades. A atenção para esse segmento terá que ser mais acurada.

Quando se trata de salvar vidas, impõe-se um debate sobre o que é essencial e o que pode ser desativado temporariamente na economia. Evidentemente, se a economia já estiver em processo de estagnação, com é o caso da economia brasileira, a desativação temporária de empresas amplifica o impacto negativo da pandemia sobre o PIB. A economia, no entanto, continuaria funcionando tendo por base as cadeias produtivas dos setores que continuarem produzindo bens e serviços essenciais. Como seria garantido o funcionamento dos segmentos e setores essenciais da economia? Em circunstâncias de pandemia, como construir um conceito ou uma definição do que seja essencial? É claro que, para alcançar consensos, essa construção terá que realizada com a sociedade civil para que seja transformada em uma política de Estado.

Em virtude da urgência, qual seria a decisão mais sensata? Uma opção é o governo deixar o mercado funcionar livremente e estimular o crescimento econômico, sabendo do risco de ceifar uma enorme quantidade de vidas. Essa é a opção do presidente do Brasil. (Outros governantes se arrependeram de ter escolhido esse caminho.) A outra opção é buscar todos os meios possíveis para garantir a compra dos acessórios de proteção individual para os profissionais de saúde, dos insumos e equipamentos para as unidades hospitalares, e garantir internamentos adequados para aqueles e aquelas que forem contaminados pelo COVID-19. Ambas as opções têm por pressuposto a não incompatibilidade entre salvar vidas e manter a atividade econômica. É uma questão de ênfase: a proporção dos recursos a serem alocados nos serviços médico-hospitalares e a proporção que seria destinada para estimular a expansão econômica.

Alimentado pelas manifestações de rua que ocorreram recentemente – em algumas poucas capitais brasileiras, diga-se, – a ênfase do atual presidente e de seus apoiadores recai na economia com isolamento vertical que aparta socialmente os idosos. Argumentam os manifestantes que o governo federal e de outras esferas não devem se curvar diante de um vírus, seja qual for sua letalidade. Em suas mentes verde-amarelas, importa mais assegurar o fluxo de dinheiro, mesmo que isso signifique o risco de contaminação, e eventualmente de morte, dos trabalhadores e das trabalhadores que produzem a riqueza daqueles que reivindicam <<queremos trabalhar>>. Evidentemente, essa ênfase aumenta o risco de contaminação dos idosos pelos jovens, mesmo que não evite a contaminação destes últimos. Seja o que deus (Mercado) quiser.

É uma escolha que atende à vontade de pessoas influentes que desejam, a qualquer custo, continuar ou retomar plenamente suas atividades econômicas e sociais; pessoas que, sobretudo, desejam manter ativo o fluxo de dinheiro. O que acontecerá com o sistema de atendimento médico-hospitalar se essa vontade for plenamente atendida?

A solução <<seja o que o mercado quiser>> está sendo sutilmente apresentada com uma roupagem científica pelo novo ministro da saúde, como soe acontecer em circunstâncias de crises, mais ainda quando se quer evitar que a discussão alcance um público mais amplo. Repete-se, como se fosse um mantra, que é preciso ampliar as informações para mais bem conhecer o comportamento do coronavírus. Quem irá fornecer essas informações?

Enquanto a vacina, ou algum medicamento, não surge nos laboratórios dos cientistas, os gestores públicos de plantão, buscam informações para conhecer, estatisticamente, o comportamento errático do vírus, mesmo sem saber absolutamente nada de sua biologia. O que transparece é que querem substituir o conhecimento científico por uma espécie de distribuição “necrótica” de probabilidade. Com base nessa distribuição, nos lugares onde os riscos de contaminação forem maiores, após alguma confirmação, lá serão alocados recursos em termos de pessoal, equipamentos, materiais e instalações hospitalares para atender determinado número de contaminados. Com a aleatoriedade da contaminação, o problema ético de salvar vidas deixaria de existir: <<o acaso vai me proteger, enquanto eu andar distraído>>. A se confirmar tal comportamento dos gestores, assistiremos a uma providencial condenação orientada pela “informação” e pela “matemática”. Certamente, a história ficará concluída se, e quando, os cientistas descobrirem a vacina para imunizar nossa espécie.

Um trade-off “amoral”

Evidentemente, a busca de efetividade social exige que sejam providenciadas todas as condições para tratar adequadamente as pessoas infectadas, com perdas econômicas restritas a setores considerados não essenciais. Nada garante que todas as vidas serão salvas; ainda não há remédio eficaz para eliminar o vírus, nem vacina que evite contrair a doença. Além do mais, existem pessoas com comorbidades que favorecem à letalidade, seja com a atual versão do coronavírus ou de vírus já conhecidos ou ainda desconhecidos.

A princípio, não há incompatibilidade entre combinações que envolvam melhorar as condições para “salvar vidas” e “garantir o funcionamento de uma parte da economia”. Há escolhas intermediárias entre os extremos: (1) economia funcionando plenamente com um menor número de vidas salvas (elevada mortalidade); ou, (2) proporcionar condições materiais para salvar o maior número possível de vidas com um mínimo de economia. Esses extremos foram apresentados na Parte I desse texto. Um extremo, corresponde ao cenário: garantir o máximo de economia, sem as medidas para salvar vidas. O outro extremo, corresponde ao cenário: salvar o máximo de vidas, restringindo a movimentação das pessoas e o funcionamento da economia.

Aparentemente, as combinações de escolhas aquém dos extremos acima sugerem uma solução eficiente que poderia ser determinada a partir de um “programa de otimização”. Com as muitas informações (e pressões) oriundas dos mercados – diga-se – e com um modelo matemático, a solução ótima contemplaria garantias de funcionamento da economia e uma assistência médico-hospitalar que possibilitasse salvar certo número de vidas, um número a priori não determinável. O número de vidas a serem salvas é indeterminado porque não se conhece biologicamente o comportamento do novo coronavírus. Como a solução dependeria das informações referentes ao comportamento biológico do vírus, pode-se dizer que o número de vidas a serem salvas dependeria de uma “distribuição necrótica de probabilidade” associada ao processo de contaminação, considerando ainda as restrições orçamentárias que envolvem a sempre alegada escassez de recursos em geral.

O programa de otimização exigiria informações “precisas” sobre os “preços” de uma vida e aquele da economia, bem como a disponibilidade de recursos. Os recursos seriam alocados para a proporcionar serviços médico-hospitalares e, ao mesmo tempo, garantir determinado nível da atividade econômica. Teoricamente, a solução de mercado determinaria uma escolha ótima entre “vidas salvas” e “atividade econômica”, com base nos respectivos “preços”, na restrição orçamentária e nas preferências da sociedade ou dos segmentos sociais com maior poder de pressão.

De acordo com o pensamento neoclássico, o ponto de equilíbrio seria determinado quando a relação entre os “preços” fosse igual à taxa de substituição entre esses dois atributos da função preferência a ser otimizada. Como se fosse um trade-off do tipo “mais economia e menos vidas salvas”; ou “mais vidas salvas e menos economia”. A combinação “ótima” seria aquela em que a utilização de recursos proporcionasse alcançar determinado nível da “atividade econômica” e certo número de óbitos. Teoricamente, seria a combinação mais eficiente. Por ser uma decisão orientada pelo mercado, é impessoal. Em assim sendo, não importa o efeito-rebote em termos de contaminações decorrentes de contatos entre as pessoas em sua movimentação como livre consumidor.

Claramente, essa pseudocientificidade do pensamento ultraliberal é completamente absurda, reducionista, amoral e descolada de qualquer sentimento de empatia. É um argumento de mercado que pode muito bem servir de base teórica para justificar a decisão de flexibilizar o funcionamento da economia próximo ao ritmo de dantes. Todos e todas voltariam a fazer mais do mesmo, e da mesma maneira.

Mas, diante da impossibilidade evidente de o mercado fornecer o “preço” de uma vida, bem como o “preço” da economia, como estes “preços” seriam fixados? Quem teria autoridade moral para fixar esses “preços” e expressar as preferências entre “economia” e “vida”? A conclusão é que, no contexto da economia de mercado, a solução proposta pelo pensamento ultraliberal não seria possível. Como seria em uma economia de comando central? Nesta, a decisão será tomada pela autoridade central, pelo partido, pelo soberano ou pela família historicamente no poder.

Se uma parte da economia deixará de funcionar, o que deveria parar e qual o volume de recursos deveriam ser alocados para salvar vidas? Caso a autoridade valorize absolutamente mais a economia, a escolha levaria a um elevado número de óbitos; uma valorização absoluta da vida, os resultados seriam uma redução drástica redução da economia. Certamente, os tomadores de decisão fariam uma escolha de meio termo.

Seja uma economia de mercado ou de comando central, a decisão será mesmo do mandatário de plantão, eleito pelo voto da população ou não. Atenderá às pressões internas dos setores políticos e econômicos influentes e da geopolítica internacional; e, no final, decidirá sem a participação da sociedade civil. Eventualmente, seguirá algum protocolo e parâmetros da Organização Mundial da Saúde.

Navegar a ansiedade é preciso, viver não é preciso…

Uma das características da moderna sociedade produtora de mercadorias é a repressão e a acumulação de desejos e ansiedades. Pode-se até dizer que, em qualquer lugar do mundo, as necessidades básicas das pessoas são poucas e as mesmas. Mas, a vontade e os desejos individuais se ampliam e mudam frequentemente em função do avanço das inovações tecnológicas e da diversificação dos bens e serviços disponíveis no mercado. Não esquecer a função das mídias de massa que tomam um tempo significativo da vida das pessoas para lhes dizer que estão desatualizadas ou fora de moda. Desenha-se, assim, um contexto socioeconômico em que o “viver bem” está associado à realização do desejo por quase tudo, desejos artificiais, diga-se, despertados e estimulados nas pessoas pela publicidade massiva. Comprar ou ter a posse de um novo produto é a senha para alcançar a felicidade, o que significa sentir-se melhor do que os outros.

As inovações tecnológicas e de produtos desempenharam e continuam desempenhando um papel crucial na promoção do consumismo. Como a afluência material se tornou símbolo de poder e de status, a propriedade privada e a posse de bens são tidas como meios para alcançar ou aumentar a felicidade e o bem-estar individual. Muita gente se lança freneticamente na luta para ganhar mais dinheiro porque assim amplia seu conjunto de escolhas e possibilita o atendimento das necessidades para além daquelas consideradas básicas. E ainda, abre um caminho para o consumo conspícuo que lhe proporciona status social.

Assim, as sociedades modernas são gradativa e sistematicamente moldadas à imagem e semelhança do deus-capital. Embora o desejo de ter seja contido pelo poder de compra, as mídias mantêm acesa a ilusão de que a felicidade somente será alcançada com uma intensa participação na roda alienante do consumo da novidade, mesmo quando este é limitado.

Há uma crescente ansiedade e expectativa de que a atual pandemia seja rapidamente superada. Mas, tendo como pano de fundo, o contexto socioeconômico antes descrito, como será a vida no pós-pandemia? A flexibilização das atividades econômicas e sociais ensaiadas em algumas cidades brasileiras e de outros países, parece mostrar que as rotinas anteriores continuarão se repetindo. Assim mostram as cenas televisivas dos locais de compras que deixam visível o extravasamento de desejos recalcados durante o isolamento ou distanciamento social.

Mesmo assim, as cenas mostradas pelas emissoras de TV servem como um prenúncio de que a decisão para flexibilizar exige prudência das autoridades governamentais. É preciso estabelecer protocolos em que salvar vidas seja o objetivo maior, com garantias para que o sistema médico-hospitalar não entre em colapso.

Alguém poderia alegar que se a economia não voltar à normalidade mais vidas serão perdidas. O argumento é genérico e nunca explicita que parte da economia deveria ser garantida. É uma visão parcial, pois não considera as possibilidades de que deixar a economia funcionando sem restrições aumenta o risco de contaminações e de perdas de vidas. A economia será afetada posteriormente.

Será que no pós-pandemia – não se sabe a partir de quando –, continuaremos a fazer mais do mesmo e da mesma maneira? A experiência COVID-19 não terá sido suficiente para convencer a humanidade de que é preciso dar um basta nas mudanças climáticas e que o sistema econômico e social das sociedades modernas terá que ser substancialmente transformado? Será que o desejo de voltar a ser “normal” vai preponderar e aumentar os riscos futuros de que outros vírus mais letais sejam liberados da Natureza? E se não pudermos voltar à normalidade que muitos desejam?

Muitos também dizem que nada será como antes e que a humanidade irá repensar suas relações com os ecossistemas terrestres e aquáticos. Entre a repetição do mesmo e o potencial desse repensar há um conjunto de práticas que apontam para processos de transição centrados nas ricas dimensões da vida, em disputa com as lógicas da economia convencional. Essas práticas compõem uma crítica pedagógica radical que contribui para ampliar a compreensão de que a normalidade que muitos querem corresponde à reprodução de um modo de produção e de vida que ameaça a vida das espécies que habitam o Planeta. Uma economia antivida cuja força motriz é alimentada por fontes limitadas de energia fóssil. A normalidade, portanto, é o problema a ser superado. Outra normalidade é preciso.

A superação da normalidade prevalecente terá que ser abrangente, inclusiva e igualitária, fundada em uma liberdade substantiva orientada pelas leis que regem os ecossistemas. Assim, requer a ultrapassagem das ideias e dos projetos que são típicos da ideologia do pensamento econômico neoclássico (ultraliberalismo) que têm causado profundas desigualdades sociais, devastado o ambiente natural e acelerado a extinção de espécies. Os últimos quarenta anos testemunham os estragos causados à humanidade por esse modo de condução da economia. Ampliaram-se consideravelmente as dissociações que grassam a vida em sociedade.

As argumentações daqui por diante serão orientadas pela seguinte hipótese de trabalho: fazer o mesmo da mesma maneira que antes, leva a colapsos ambientais, ao caos social e econômico e à liberação de vírus mais letais. (Novas pandemias nos aguardam.) Por isso, é preciso outra normalidade, para que outro “fim” do mundo seja possível.

De ida para o passado

Ecologicamente falando, é razoável voltar à “normalidade” típica da civilização dita moderna? A resposta sensata é: não é razoável. Outra normalidade terá que ser inventada (ou reinventada) com base em relações harmoniosas entre Natureza, sociedade e economia. Essa orientação geral terá que ser assumida por todos os movimentos e lutas sociais para que se livrem, definitivamente, do reducionismo dos respectivos focos e constituam coletivos como fóruns mais amplos. Estes fóruns seriam estruturados para acolher intercâmbios de saberes e de experiências, envolvendo a construção cultural dos territórios; e servir como ágoras capazes de fermentar debates sobre o modo como os ecossistemas terão que ser tratados. É fundamental que os resultados alcançados sejam amplamente socializados, recorrendo-se a uma comunicação ecopedagógica, recorrendo-se aos instrumentos fornecidos pelas tecnologias disponíveis.

A outra normalidade, portanto, inverte o paradigma da economia centrado no crescimento ilimitado da produção. À medida que a economia cresce, incorpora uma proporção cada vez maior dos ecossistemas e lhes devolve matéria degradada e energia dissipada. Em termos entrópicos, a economia em crescimento, transforma uma quantidade crescente de matéria e energia de baixa entropia em resíduos de elevada entropia e perda de energia. O que estava disponível se torna indisponível. Em termos mais simples, o que era útil, agora é lixo. A experiência acumulada pela humanidade demonstra que a orientação para o crescimento tem sido deletéria para os ecossistemas, causa inúmeras desigualdades sociais e altera sensivelmente o clima.

Outra característica importante, da economia convencional é que ela produz apenas aquilo que será vendido e que proporcionará lucro. A outra normalidade terá que mudar sua finalidade de modo a produzir aquilo que for útil à sociedade, sem comprometer as condições de vida das demais espécies. A orientação é produzir o que for útil, com o mínimo de impactos negativos na Natureza.

Pode-se argumentar que, com qualquer outro modo de produção que não seja orientado pelo mercado e pelo lucro, a economia será menor do que é hoje em dia. (Menor e menos importante, acrescente-se.) Mas, se ela for a metade ou um quarto do tamanho atual, tanto melhor. A vida em sociedade será mais rica de sentidos pois as pessoas não estarão carregadas de frustrações e sofrimentos. Quem sabe, serão mais felizes.

Claramente, há um conflito entre as duas normalidades. Com a economia venerada pela ideologia ultraliberal, vários problemas se amplificaram, principalmente as desigualdades sociais e as agressões ao ambiente natural que tanto ameaçam a vida de todas as espécies. Como resolver esses problemas? Obviamente, não poderão ser resolvidos com o mesmo pensamento e as mesmas estruturas que foram responsáveis pelo seu aparecimento. Essa matriz de pensamento terá que ser profundamente alterada. Conforme Michael Huesemann e Joyce Huesemann (Techno-Fix – Why Technology Woon’t Save Us or the Environment), há a necessidade urgente de outra visão de mundo, de outro paradigma: outra economia, outra ciência, outra tecnologia, outra medicina…

Se o objetivo com a nova normalidade for estruturar uma sociedade justa e igualitária, em que a sustentabilidade ecológica seja parte fundamental de um paradigma que tem a vida como centralidade. A ideologia ultraliberal terá que ser rejeitada porque sua orientação para o crescimento ilimitado levará a um colapso ecológico global.

Em geral, as crises oferecem oportunidades de debates sobre contrapontos. Desde a Revolução Industrial, o fracasso do crescimento econômico ficou registrado pelas desigualdades que se foram desigualmente distribuindo no mundo: desigualdades entre países e dentro dos países. Nos últimos 50 anos, o fracasso do crescimento econômico ganhou amplitude e mais visibilidade, não apenas pelo aprofundamento das desigualdades sociais históricas, mas, sobretudo, pela aceleração da mudança climática que causou. Esses resultados abriram espaços para a discussão da tese do decrescimento.

Em sua origem (1972), a palavra decrescimento esteve associada à crítica de André Gorz dos malefícios causados ao ambiente natural pela expansão capitalista. Apresentava-se sob a forma de um conjunto de ideias e de valores para compor a crítica ao modo de produção e de vida da sociedade capitalista. São ideias que se contrapõem ao dogma do crescimento econômico ilimitado que podem contribuir para a construção dessa outra normalidade. Pode-se dizer que são ideias e valores que surgem em meio ao fracasso do crescimento econômico.

As ideias e valores inerentes ao conceito do decrescimento afirmam-se agora como princípios para aqueles que desejam sobreviver coletivamente com menos produção e um estilo de vida diferente. O tamanho certo da economia é identificado como um objetivo a ser alcançado com a desativação de setores e empresas que produzam supérfluos, artefatos que eliminam vidas e destroem o ambiente natural, ou aquelas mercadorias que apenas alimentam o consumo conspícuo de poucos.

A economia em decrescimento seguiria uma trajetória para um estado estável de equilíbrio dinâmico, ecologicamente sustentável, diverso e igualitário. As decisões sobre o que, como e para quem produzir seriam tomadas dentro de um quadro democrático em que a sustentabilidade ecológica e a equidade seja as dimensões fundamentais para a outra normalidade.

O arranjo social e político inerente ao decrescimento aponta, portanto, para uma agenda de discussões relacionadas ao “bem viver”: viver em sociedade e viver junto às demais espécies. Ao mesmo tempo, rejeita as “soluções” voltadas para acelerar o crescimento econômico a qualquer custo, que se restringe a produzir qualquer coisa, desde que movimente freneticamente o dinheiro. Com a outra normalidade devem prevalecer os princípios da precaução, da frugalidade, de formas de igualitarismo e de justiça ambiental. Nessa construção social, a economia teria a vida como centralidade e finalidade.

As ideias e os valores do decrescimento juntaram-se à Bioeconomia de Nicholas Georgescu-Roegen para propor uma nova utilização das energias humanas, de modo que sejam canalizadas para atividades criativas e socialmente produtivas. Sempre orientadas pela perspectiva de um mundo ecologicamente orientado e substantivamente democrático e igualitário. Seguramente, levam à conclusão de que o processo histórico da expansão econômica no mundo não possibilitou alcançar uma prosperidade genuína para todos os habitantes do Planeta. Por isso que a insustentabilidade ecológica das sociedades modernas expõe o dogma do crescimento econômico como uma insanidade.

Com o decrescimento a vida em sociedade ficará mais rica de sentidos. O dispêndio social de energia física e mental será dedicado à produção de bens e serviços que atendam às necessidades reais das pessoas, que são coisas que realmente precisamos. Nenhum esforço será dedicado à produção de supérfluos, que são coisas que realmente não precisamos. Com esse outro modo de produção e de vida, a humanidade terá incomensuráveis benefícios: redução de resíduos na produção e no pós-consumo; eliminação do descarte de supérfluos; o fim da contaminação do solo, cursos d’água e da atmosfera; corte substancial da emissão de GEE e estabilização geral do clima; recuperação das florestas e da biodiversidade; controle biológico dos vírus em seus habitats naturais… e assim por diante.

Chega-se à conclusão de que existe, de fato, uma contradição real entre salvar vidas e manter a economia convencional funcionando. A aparência da inexistência desse dilema é na verdade uma maneira velada de abandonar o isolamento social. Os empresários “sensibilizam” os tomadores de decisão fazendo chantagens com a ameaça do desemprego. Mas nunca manifestam qualquer preocupação com a vida de seus “dedicados” funcionários e a vida de seus familiares. Sabem que há uma reserva de corpos dispostos a irem ao altar dos sacrifícios em que se transformaram as empresas. E que precisam manter a roda do dinheiro girando e a economia se impondo sobre a vida de muitos (inclusive as suas).

O encontro da aparência com a essência, apenas ensaiado na Parte I desse texto, demonstrou que o sistema do capital não pode reproduzir-se apenas conduzido pela “mão invisível do mercado”. E que o COVID-19 desnudou a farsa de 40 anos de neoliberalismo no mundo: o crescimento do PIB mundial é a demonstração empírica de que o mercado e o dogma do crescimento não funcionaram e que não foram suficientes para proporcionar condições de vida dignas para as pessoas que habitam a Terra. Apena propiciou um acúmulo desmesurado de riqueza nas mãos de poucos: da minoria de beneficiários e de seus defensores. E degradou mais ainda o ambiente natural.

Quem professa o dogma do crescimento econômico exponencial ou é um louco ou um economista (Kenneth Boulding). Um louco por não tem equilíbrio mental para discernir que a economia não pode crescer ilimitadamente em um Planeta materialmente finito. Um economista porque sua formação resulta de uma ciência reducionista que congrega uma série de dogmas que atentam contra a vida de todas as espécies. Uma formação que induz esse profissional a desenvolver uma doença – a mania pelo crescimento econômico – que o leva a raciocinar como um louco. Quando o dogma do crescimento econômico for completamente desmascarado, os economistas que insistirem com esse dogma perderão sua utilidade e o ramo do “achismo” (“chutometria” econômica) deixará de existir.

Voltar à normalidade, ou seja, fazer a economia crescer e a vida perecer, ativará todos os sinais de alarme da Natureza. A vida em sociedade continuará carente de sentidos, pois o “viver livremente” restringe as pessoas à condição de vendedores e compradores de mercadorias. De maneira mais ou menos explícita, as pressões e as ações da classe dos proprietários (banqueiros, empresários, latifundiários e comerciantes) e de seus prepostos nas esferas governamentais, orientam-se pela “normalidade” de antes da pandemia. Governos, partidos políticos, parte importante da intelectualidade levantam as bandeiras da “normalidade”, do relaxamento do isolamento, para que a economia volte a funcionar gradualmente. Economistas e administradores de plantão opinam e estimulam de diferentes maneiras a volta da mesma normalidade que causou problemas sociais e ambientais agora ampliados com a pandemia.

Ressalvadas as exceções, antes da pandemia, a economia mundial já dava sinais de arrefecimento. A drástica redução da taxa de juros nos USA, na União Europeia e nos países periféricos mais fidelizados ao ideários ultraliberal como o Brasil, é justificada como uma tentativa de alavancar investimentos privados e retomar ou acelerar o crescimento econômico. Mas, além da “insensibilidade” a esse estímulo, a falta de resposta da atividade de investimentos tem sinalizado um desacordo com a “ciência econômica” estabelecida. Com o processo de crise em andamento, mesmo que a economia tenha se utilizado de alguns “respiradores” depois de 2008, o ambiente econômico não inspira o “otimismo” suficiente para a expansão da capacidade produtiva. Em acordo com Michael Kalecki, o risco se torna crescente com os investimentos em “bens de capital” que aumentam a capacidade produtiva.

No Brasil, a incerteza tem a ver com a demanda efetiva que tem os gastos públicos como um dos importantes componentes na equação macroeconômica da renda nacional. Em virtude das políticas ultraliberais para estabelecer o “estado mínimo”, a queda da demanda efetiva é o efeito rebote das privatizações, do desmantelamento do estado de bem-estar social, da redução de recursos para a pesquisa nas universidades públicas, do fim das políticas públicas voltadas para os segmentos mais vulneráveis da população, do desmonte da proteção ambiental, dentre outras medidas totalitárias.

O desmantelamento de tudo o que é público no Brasil colocou à venda as cidades e os centros históricos, ao tempo em que isolou em bairros periféricos moradores como reservas de força de trabalho para ocupar os empregos mais mal pagos do mercado de trabalho. Além do mais, e não menos importante, o ambiente político, decorrente da insanidade de um presidente sociopata em sua busca eterna de um inimigo, aumenta a incerteza e a insegurança que afastam potenciais investidores. Os “homens de negócios” exigem segurança institucional para investir ou aplicar seu sagrado dinheiro aqui nessas paragens amazônicas.

Além do desmantelamento da estrutura que fornece serviços públicos e proteção social à população trabalhadora brasileira – empregados(as), autônomos(as) e informais –, mais austeridade também significa mais e mais desmatamento da Amazônia. Aqui, o “estado mínimo” estimulou o investimento em agrotóxicos e outros insumos e tecnologias agrícolas; patrocinou a mudança de uso do solo; a expulsão de populações tradicionais para dar lugar a expansão da fronteira agrícola para o cerrado e para Amazônia e a livre exploração de minérios.

Podemos falar em uma normalidade sustentável? Ou mais enfaticamente, em uma normalidade ecologicamente sustentável?

Pelas argumentações até aqui apresentadas, a outra normalidade propõe o “bem viver” em oposição ao viver bem na base do cada um por si e à custa de outras pessoas. Propõe a “derrubada” do totalitarismo da economia convencional para colocar em seu lugar a ética da vida como centralidade. Acima de tudo e acima de todos, a defesa da Pacha Mama.

É preciso superar a nostalgia da liberdade aparente e fascinante da produção e do consumo sem limites. E perceber que a beleza não é um bem supérfluo. Desativar a matriz energética de base fóssil. Proibir progressivamente os recipientes de plástico. Estruturar uma rede de transportes urbanos coletivos, reduzindo o número de automóveis de passeio nas cidades. Eliminar o déficit de habitação. Fazer uma reforma agrária que possibilite produzir alimentos saudáveis. Instituir a autogestão das fábricas de bens socialmente úteis. Eis uma agenda de discussão voltada para a outra normalidade.

Como será o amanhã? Pergunte a quem souber…

A quem perguntar? Se nada será como antes, como será? O que será, será como cada um imagina?

No Brasil, para muitos empregados(as) formais, a experiência da redução da jornada de trabalho e do salário, ou da suspensão do contrato, mostra que o Estado pode garantir o emprego ou transferir determinada quantia durante um período emergencial. Para os informais, uma quantia para compensar parcialmente a redução de suas rendas em virtude do isolamento social. Em países situados no centro do sistema, comenta-se que a intervenção do Estado poderia ocorrer com políticas de renda mínima financiadas com a taxação de grandes fortunas. Seja onde for, são políticas na contramão das soluções de mercado. Mas, dada a situação de emergência, é possível um pouco de benevolência dos governantes e das elites: uma pequena concessão em nome da normalidade anterior, para que tudo permaneça como antes.

Mas, com algum grau de certeza, depois desse período de emergência as garantias deixarão de existir e o mercado de trabalho voltará a ser livre para funcionar de acordo com o humor da minoria que se apropria da riqueza gerada por muitos. É grande a desconfiança de que no pós-pandemia a normalidade de antes voltará para sua trajetória de mais incertezas e de mais inseguranças.

De fato, o COVID-19 mostrou para as pessoas mais atentas que a curva do crescimento econômico achatou em favor vida. Novos espaços foram abertos para inaugurar outras práticas de convivência entre as pessoas e para reacender um rico debate sobre transições voltadas para outro tipo de sociedade. Acabou mostrando que o tema da transição é um desafio grandioso e inadiável. Se nada for feito, as incertezas de antes se transformarão em certezas dramáticas no futuro. Um futuro ainda mais brutal, com mais colapsos ambientais, mudanças climáticas e com mais sofrimentos no enfrentamento de novas cepas dos vírus conhecidos e de novos outros que virão.

Com um pouco mais de atenção, o vírus também mostrou algo mais dramático. A constatação de que a Natureza pode descartar a espécie humana e prosseguir sua trajetória em direção a um estado de equilíbrio ecossistêmico para as espécies que permanecerem no Planeta. “Nossa casa comum está em chamas”, já alertou Greta Thunberg. Caso a espécie humana seja extinta, o Planeta apenas perde sua denominação: Aarde, Terra, Tierra, Terre, Earth, Land…

A conclusão é que nosso futuro comum depende, vitalmente, da “morte” do capitalismo e de todos os demais sistemas que adotaram e adotam seu modo de produção e de vida para exaurir o Planeta e provocar sofrimentos pandêmicos. Para além do capitalismo, acende a consciência de que a redução da incerteza e o aumento da segurança somente poderão ser pensados nas circunstâncias de outra normalidade. Uma que tenha por orientação dar um basta na mudança climática, evitar colapsos ecossistêmicos – quando ocorre a liberação de vírus – e promover justiça social. Caso contrário, a volta à normalidade anterior vai exacerbar os problemas hoje enfrentados pela humanidade.

O capitalismo é uma “contradição em processo” pleno de incertezas, de inseguranças e de desigualdades. A via ultraliberal amplifica esse processo mais ainda. A junção da crise econômica com o COVID-19 multiplicou os dramas da existência humana, ao tempo em que fez emergir o fracassou desse sistema em proporcionar condições de vida dignas para a humanidade. A globalização e o ultraliberalismo despencam diante da constatação de que sem o Estado não há como proteger a população em momentos de crise, seja socorrendo financeiramente (os “coitados”) empresários e banqueiros ou criando estruturas por onde transbordem migalhas para os demais segmentos (os “abastados”) da população.

A atual situação de pandemia, contudo, ainda transmite a sensação de que o mundo desmorona e aponta para um futuro com incertezas avassaladoras. Terrível é imaginar que no pós-pandemia continuarão as ameaças de deterioração do ambiente natural, que serão aceleradas mais ainda com as promessas insanas de retomada do crescimento econômico ilimitado. Mais contaminação da água e do ar; mais devastação de florestas; mais consumo de energia fóssil; mais vírus… Os discursos e as ações apontam para a manutenção da matriz causal das catástrofes ambientais e das desigualdades vivenciadas.

O que destacar nas crises que vivenciamos? Primeiro, os sistemas públicos de saúde; na economia, os setores que produzem bens essenciais para enfrentar uma situação de emergência. Por outro lado, a constatação de que há uma enorme produção de supérfluos que precisa ser paralisada, e de que há métodos de produção que afetam a saúde humana e desequilibram os ecossistemas. Em segundo lugar, a identificação de possibilidades concretas de reduzir a pobreza em todos os países. O Estado pode minorar as desigualdades sociais com uma política de renda básica universal, independentemente do nível de desemprego atingido.

>>>Uma vez superada a pandemia muita coisa terá que ser repensada. Uma sociedade mais justa, mais ecológica, mais feminina, mais democrática, menos desigual… Algo precisa ser repetidamente dito: as coisas não poderão continuar como antes. Que uma parte significativa da humanidade não pode continuar vivendo em condições subumanas e que o mundo não pertence a 1%.

As crise têm o potencial de fazer as pessoas reavaliarem suas rotas causais de problemas vivenciados de modo a evitá-las no futuro. A atual pandemia mostra que as rotas têm a ver com as ações antropogênicas que levaram e levam a colapsos ambientais, à perda de biodiversidade e à destruição de habitats. A lei ecológica da interconectividade da vida terá que ser definitivamente incorporada ao cotidiano social, quaisquer que sejam as circunstâncias.

Evidentemente, seria ingenuidade esperar que o amanhã traga mudanças espontâneas, menos ainda mudanças radicais na direção apontada pela argumentação aqui apresentada. Uma pandemia não será suficiente para provocar mudanças tão fundamentais. (Segundo Ailton Krenak, “A única mudança radical possível é se desaparecesse a espécie humana do planeta.”)

Embora a Terra seja um sistema materialmente fechado – porque não realiza trocas com outros corpos celestes – o mesmo não acontece com as atividades antrópicas que nela ocorrem. Além de serem diferentes sistemas abertos, essas atividades têm levado a perda de biodiversidade e destruição de habitats, colapsos que estão na raiz das pandemias. Com o crescimento econômico ilimitado também cresce a possibilidade de que ocorram pandemias simultâneas. Se a circulação simultânea de vírus terá força suficiente ou não para reduzir drasticamente, ou mesmo extinguir essa espécie tão incômoda, é uma questão ainda em aberto. Se for uma redução drástica, a população remanescente será obrigada a rever radicalmente sua relação com a Natureza.

Mas, antes que ocorram pandemias simultâneas, ainda vale, como sempre, recorrer às lutas e aos movimentos sociais que tenham perspectivas para além de suas pontualidades. Para viver, navegar é mais do que preciso. Contudo, munidos de mapas, de cartas e cartografias que contenham informações e registros do modo como as populações tradicionais – indígenas, povos das florestas, quilombolas – se relacionam com a Natureza. Ao lado, os princípios da Agroecologia, da Economia Ecológica, da Economia solidária e as ideias de pensadores e pensadoras do bem-viver e do decrescimento. É preciso navegar e viver sem esgotar o Planeta e sem produzir discriminações e iniquidades.

Aécio Alves de Oliveira(*) – Professor do Curso de Economia Ecológica da Universidade Federal do Ceará (UFC)

aecioeeco@ufc.br

Link da matéria fonte:

Aqui

Públicado originalmente no jornal: 

Bit Autônomo

Postado por: Das chagas Martins

Postado em: 18/05/2020

Pelo direito de amar e ser feliz!

17 DE MAIO – DIA MUNDIAL E NACIONAL DE COMBATE À LGBTFOBIA

Autor: Ailton Lopes, presidente do PSOL Ceará, linguista crítico e bancário.

Faz apenas 30 anos que a Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou as homossexualidades do rol de doenças.

Apenas 2 anos que fez o mesmo com relação às transexualidades.

Os poucos direitos conquistados por nós LGBTs são muito recentes, uma demonstração que, apesar dos avanços permitidos apenas por nossas lutas, ainda vivemos numa sociedade extremamente preconceituosa: machista, misógina, lgbtfóbica e racista.

O preconceito é violento e é acompanhado da ignorância, necessária para sua manutenção e reprodução. É o que vivemos de forma ainda mais cruel nos dias atuais em nosso país.

Um governo fundamentalista eleito e sustentado por um projeto que orienta uma cruzada contra nós e todas e todos aquelas e aqueles que não se enquadram em seu padrão reacionário e conservador. Um governo de morte.

Enquanto a guerra parecia ser contra “a militância feminista, lgbt, quilombola, negra, comunistas…” “em favor de um ‘Deus’ acima de tudo”, por “valores cristãos”, os demais pareciam não se importar e milhões votaram nesse projeto de morte.

Ditaduras e massacres existem não apenas por causa dos opressores, mas, sobretudo, por causa de seus cúmplices.

A lgbtfobia existe por causa de uma sociedade majoritariamente conservadora que considera a sexualidade de alguém um risco para seus valores, baseado numa doutrina da ignorância, do preconceito e do medo.

Muitas vezes a principal barreira do medo que nós LGBTs temos de superar é a própria “família cristã” que nos impõe o medo de sermos quem a gente é.

É preciso superar o medo, a humilhação e a dor provocados pelo preconceito para reconhecermos e assumirmos o orgulho de ser quem somos.

É uma luta que começa pelo direito à própria existência física mesmo. Vários e várias chegam a por fim à própria vida quando não são assassinados e assasinadas nas ruas ou dentro da própria casa.

É uma luta pelo direito de ser e de amar. É uma luta pelo direito a ter os mesmos direitos de todas e todos os demais.

Por isso, nossa luta não pertence apenas a nós, mas a todas e todos que lutam por uma sociedade sexo-diversa, de mulheres e homens livres!

#vivatodaformadeamar
#contraalgbtfobia

Postado Por: Das Chagas Martins

Data: 17/05/2020

MEMÓRIAS DE QUARENTENA 14 – SÉRGIO, UM CIDADÃO DO MUNDO

Por: Tupinambá (Professor Titular, Depto. de Psicologia UFC – tupinamb@ufc.br)

Sergio, o filme.

Direção: Greg Barker; roteiro: Craig Borten. Estreia mundial: Sundance Film Festival, em 28.01.2020.

Tem o baiano Wagner Moura vivendo Sergio Vieira de Mello e a argentina Ana de Armas como Carolina Larriera.

Podia ser apenas mais uma tentativa de dormir em uma noite dessa prolongada quarentena. No entanto, dormir depois de ter assistido ao filme Sérgio, foi dormir tranquilo, sabendo que, mesmo nesse eventual sentimento de impotência e/ou letargia em que possamos mergulhar, há coisas que valem a pena, nos reanimam e nos resgatam para continuar na luta. E como há. Há Wagner Moura, que é do Brasil, como Sérgio Vieira de Mello.

Wagner, esplendoroso protagonista que paralelo ao ser querido que representou, quase alcança a perfeição, aquela que a gente costuma dizer só alcançam os Deuses. Mas Wagner é um deus. Não lhe faltam beleza, talento, carisma, empatia, compromisso e tudo que um homem na terra pode alcançar, deixando-o perto desses deuses da perfeição. Casa e botão. Wagner e Sérgio. Sérgio, cujo nome se confunde com o desejo de paz entre os povos. 34 anos de ONU e de busca de solução para conflitos de toda natureza. Talentoso no que fazia como seu correspondente na arte, ia a qualquer parte do planeta, a destinos os mais difíceis para, com êxito, resolver problemas aparentemente insolúveis.

Testemunhou a transformação do antigo Paquistão Oriental na nova Bangladesh independente em 1971; esteve presente no Chipre durante a invasão do exército turco em 1974; na guerra civil de Moçambique em 1975 e no Líbano na altura da sua invasão por tropas israelenses. Além dessas missões, pode acompanhar a volta de refugiados ao Camboja, resultado de sua presença e força nas negociações que levaram a esse desfecho quase inimaginável.

Sérgio integrou a missão especial das Nações Unidas no Kosovo, antiga Iugoslávia em 1993; esteve em Ruanda quando ocorreram os massacres de 1996; pode ver renascer de suas mãos o novo Estado do Timor Leste, quando lá esteve em 1999, liderando a transição da ex-colônia portuguesa para a independência, passagem da vida do filósofo e diplomata carioca que foi explorado centralmente nessa trama atual. Reorganizou um país mergulhado em conflitos de um pós-guerra, o que lhe rende hoje homenagens dos timorenses que afirmam ter perdido um irmão.

Wagner nos traz o Sérgio que ocupa o cargo máximo no país em emancipação, mostrando também seu lado humano, apaixonado e apaixonante. Como todo homem de bem, Sérgio não é apenas mais um burocrata da ONU no Timor. É todo afeto e alma que transita por Dili, capital do país, onde conhece o grande amor da sua vida, com quem, a partir de então, ficaria até seus últimos minutos de presença viva no Iraque.

Wagner é Sérgio até os átomos, talvez porque Wagner e Sérgio são seres sublimes, iluminados, humanistas e, portanto, possa ter havido comunicação espiritual e permissão divina suficientes para incorporá-lo no papel. Não há, para nosso mundo ou para a arte, diferenças entre os dois. As paixões, o compromisso com a humanidade e com a terra se igualam e, na tela, se revelam.

Há o cuidado de mostrar as relações cotidianas de Sérgio porque ele era um homem a quem isso importava. O acesso, por meio do amor conquistado na terra estranha que se torna familiar, leva-o a adentrar na alma do Timor, e compreender a amplitude de sua ação e de sua missão nesse até então, novo e desconhecido mundo. O descortinar das vidas simples com que cruza, deliberadamente, em procura do conhecimento que lhe é característico, leva Sérgio, segundo a história representada primorosamente por Wagner, a saber a medida certa das suas intenções e a obstinação para consegui-las. Bem percebido no encontro que tem com o então presidente indonésio, de quem exige um pedido de desculpas formal à nova nação timorense pelos danos irreparáveis causados à sofrida população durante a brutal ocupação.

Afinal, trata-se do primeiro assassinato em massa, promovido pela Indonésia, verdadeiro genocídio sob o comando do ex-ditador Suharto que custou a vida de um terço da população do Timor . “Você está louco, isso não se pede de um presidente”, é o que contra-argumenta o ditador. Mas Sergio o impede de sair ao dizer: Não, não é loucura, eles merecem esse pedido. A forma mesquinha como o senhor os vê será a forma como todo mundo verá a Indonésia se esse pedido de desculpas não for feito.

Após a missão no Timor Leste, Sergio foi nomeado Chefe do Alto Comissariado de Direitos Humanos, em Genebra, sendo, contudo, logo convocado pelo secretário-geral da ONU para ajudar na reconstrução do Iraque, arrasado pela brutal invasão estadunidense. Timor não lhe trouxe só louros, mas também amor. Amor de uma bela e também engajada argentina, Carolina (Ana de Armas), que lhe acompanha daí até seu último dia de vida. Apesar de sempre convocado a deixar tudo e voltar ao Rio, por seu amor, por desejo pessoal e pelas doces lembranças da vida familiar, perto da pedra do Arpoador, não cedeu.

Após curto período de vida social entre missões, parte para o Iraque. A partir de 2003, vinha tentando sustentar a ideia de ação não intervencionista, pois para ele “nenhum estrangeiro poderia governar o Iraque”. Nessa direção deveria ser criado um conselho provisório formado por nacionais iraquianos. Era a favor de uma iniciativa que garantisse ao povo que o processo de ocupação não ficasse indefinido no tempo. Queria só quatro meses por lá. Tempo, segundo ele, suficiente para deixar o Iraque com os iraquianos e seguir para seu Rio amado, com seu novo amor.

Buscou, portanto, contribuir para um melhor entendimento entre os envolvidos naquela delicada tarefa, no país invadido e destroçado. Sentia-se, no seu discurso, a meritória ideia de não achar natural o país ser comandado ad infinitum por forças estrangeiras; o trabalho que ali realizasse deveria apontar na direção da promoção de uma progressiva autonomia política do país. Assim como se orgulhava de ter participado da missão no Timor, responsável pelo encerramento do ciclo de descolonização.

Palavras que Wagner proferia e às vezes, dada a perfeição da atuação, nos fazia acreditar ser o próprio Sergio, sobre o Iraque: “Esse deve ser um dos períodos mais humilhantes da história desse povo. Quem gostaria de ver o seu país ocupado? Eu não gostaria de ver tanques estrangeiros em Copacabana”. Isso mostra a dimensão absurda e insana do ato terrorista que o matou, mesmo que em princípio qualquer ato terrorista seja injustificável. Há na narrativa do filme pontos que me intrigaram quando comparado com dados por mim já antes lidos sobre a ocupação e o ataque terrorista, que atingiu nosso grande Sérgio, causando essa perda irreparável.

Especulo que se vivo estivesse mesmo como catedrático no Rio, no seu Arpoador, o mundo certamente teria alguém contribuindo com sua melhora. As dúvidas que o drama me trouxeram são atrozes. Por que, segundo o retratado, se demorou a socorrê-lo se ainda esteve tanto tempo sob os escombros, vivo e lúcido? Por que salvaram primeiro o companheiro estadudinense a seu lado e só muito depois chegaram a ele? Qual a atuação do seu correligionário representante do governo estadudinense nesse evento, onde esteve presente pós atentado?

Para mim aparentou uma possível negligência e pouca determinação para salvar Sérgio. Claro fica na tela que o representante estadudinense competia com Sérgio pelo poder na missão do Iraque, sendo que sua competência é visivelmente questionável e diria, incomparável à do querido diplomata, cuja alma foi emprestada ao Wagner para lhe fazer imortal.

Rever o filme para pensar sobre esses tópicos é quase uma necessidade. Não se trata de teoria da conspiração, mas o incômodo que as mensagens da trama deixaram. Não há, pela história da invasão do Iraque por Bush, como acreditar na boa vontade de quem chefia uma missão pós invasão, que queria a ONU sob seu comando. A inveja do representante americano e seu desejo em controlar Sérgio de Mello são inquietantes.

O jornal The New York Times resumiu a perda do nosso Sérgio numa frase: “um grande defensor da paz e da reconciliação [foi] assassinado em uma ato de niilismo.” Um grande ator em Praia do Futuro (filme do cearense Karim Ainouz) e o grande diretor que fez renascer nas telas Marighella, honrou um dos nossos bens preciosos com seu inegável dom e talento incomparáveis, sem esquecer seu incomensurável humanismo. Tudo isso fundamental para viver Sergio de Mello. FIQUE EM CASA. SALVE VIDAS!

Postado por: George Assunção

Postado em: 16/05/2020

MEMÓRIAS DE QUARENTENA 15 – Recriar a vida, sempre, sempre: lições e aprendizados da quarentena!

Por: Eliana Costa Guerra (Professora UFRN)

Tudo ainda parecia distante e surreal. Rapidamente, vivíamos uma manhã de perplexidade diante do que viriam a ser o mundo e o nosso mundo, perpassados pela gravidade, amplitude e velocidade de propagação do sars-cov2, vírus causador da Covid-19. O crescimento dos casos e das mortes e a magnitude do problema causavam sensação de impotência, de estar à beira do abismo. Dias de certa catatonia. Noites insones, a seguir gráficos e curvas, a acompanhar análises e explicações de terapêuticas experimentadas. Parecíamos adentrar, de modo abrupto, no cenário do clássico livro de Albert Camus – A peste.

Viveríamosa reclusão, a insana, mas real, disputa por alimentos? Talvez ainda não, mas, nestes tempos de globalização, de amplas e intensas mobilidades, chegaríamos, proximamente, a disputar carregamentos de máscaras cirúrgicas, respiradores e outros itens dos chamados equipamentos de proteção individual, tão caros aos trabalhadores da saúde.

Buscar informações parecia muito mais uma fuga ou uma espécie paradoxal de alienação. Alguns a acharem tudo muito simples e distante, outros, aflitos, anteviam o futuro sombrio a se aproximar. E para nosso espanto e indignação, pessoas e grupos negacionistas seguiam seus “gurus” e “mitos”, expondo-se em atos públicos, contestando dados da ciência e de organismos de pesquisa. De repente, a China parecia nosso vizinho do lado! E o que dizer da bela Itália, cujos relatos de tormentos penetravam nossas casas pela tela da TV ou por via das mídias sociais? A abertura das fronteiras, posta pelo processo de mundialização do capital, é colocada em xeque ou em stand bye. E, víamos emergir novas formas de xenofobia. O mundo parecia assistir, com misto de perplexidade e medo, às cenas de fechamento de fronteiras! Cruzeiros repletos de ricos e abastados, singrando mares, sem permissão para atracar por suspeita ou confirmação de casos de Covid-19!

Rapidamente, cenas da vida real indicavam a necessidade de isolamento social, o imperativo de mantermo-nos, o máximo possível, em nossas casas e de evitarmos contatos com outrem. A paisagem da cidade transformava-se, dia após dia: o ruge-ruge dos carros dá lugar a certa letargia; o silêncio de alguns lugares abre espaço ao assobio de pássaros; rostos cobertos por máscaras, ladeando rostos de indiferença ou de perplexidade de transeuntes e moradores de rua, agora mais expostos que nunca! Mas, se tudo parecia distante, agora, tudo estava por demais próximo… Como conseguir viver esse tempo de necessária reclusão? O que fazer diante da viagem adiada, da quebra de expectativas, de projetos em suspenso, de completa incerteza, de tempos turbulentos? Como encontrar outros marcadores do tempo da vida cotidiana?

Acompanhamos de perto relatos do início da preparação das equipes de Unidades de Saúde e de Hospitais para enfrentar esse inimigo invisível, altamente transmissível e, por vezes letal, para o qual a ciência ainda não avançou suficientemente na produção de medicamentos para a cura ou vacina. Todos tateiam! E nós, reclusos em nossas casas, abastecidas e em relativa proteção, o que podemos fazer diante disso tudo?

Eis que uma amiga chega com uma provocação: não podemos ficar paradas esperando a morte chegar, como diria nosso grande maluco beleza! E ela tomou a dianteira: dirigiu-se à Secretaria de Saúde do Estado do Rio Grade do Norte e, de volta, trouxe-nos uma missão! De pronto, nem imaginávamos a dimensão que tomaria.

Assim, tecendo as tramas de uma rede de pessoas fisicamente distantes, mas hiper conectadas, avançamos no aprendizado do trabalho em domicilio, mediado por recursos da tecnologia da informação e da comunicação! Do exílio, ou melhor ou autoexílio, em nossas próprias casas, da revolta diante de posições irresponsáveis de representantes do governo, brotam a vontade e a energia para agir. Não abandonamos nossas capacidades de nos indignar diante de posturas inaceitáveis, não abrimos mão da militância e da crítica fundamentada. Mas, começamos a agir e a somar forças com nossos parceiros!

Desse modo, ante à urgência, gravidade e amplitude do problema, a solidariedade e o envolvimento passam a se materializar em forma de dois campos de ação: um pequenos grupo, preocupado com as condições de trabalho, a segurança e proteção dos trabalhadores da saúde, logo começou a arrecadar dinheiro entre amigos e conhecidos para produzir protetores faciais em acetato e distribuir em serviços de saúde; um grupo maior, sob a coordenação dessa amiga/companheira de trabalho, iniciou a montagem de uma rede, hoje bem complexa, de teleatendimento, por telefone, WhatsApp e aplicativo, a oferecer orientações gerais sobre a Covid-19 para a população.

Desse modo, foram sendo constituídos os grupos, compostos por alunos, professores e profissionais, todos das áreas da saúde, para atuar, de 7 às 23 horas, em plataformas de teleatendimentos. A construção dessa complexa arquitetura demandou horas de web-reuniões e de trabalho. Agora, a preocupação maior é gerar informação, passível de ser repassada e orientar os alunos que desenvolvem ação direta junto a pessoas em busca de esclarecimentos acerca da doença, dos pontos de assistência, de condutas em casos de suspeição.

Uma amiga disse sentir-se em uma UTI em tempo integral… tudo parece urgente! Não pensamos nas horas, rompemos noites em busca de aprender, decidir, resolver problemas e intentar estratégias passiveis de apoiar os serviços de saúde, na perspectiva de manter o máximo possível as pessoas em suas casas e bem orientadas sobre quando sair e como proceder, ante uma necessidade de saúde.

Não é sem sofrimento, sem ansiedade, sem certo desespero e constante preocupação que realizamos essa travessia. Tentar arrumar a casa, o escritório, triar livros e roupas; destinar algumas horas do dia, da semana, do mês para o autocuidado. Não descuidar da alimentação, iniciar alguma atividade física! Não há reclamação sobre monotonia. Não há espaço para choramingas, lamentações. Mas, todo choro é permitido, como forma de desabafo, inclusive em espaços virtuais coletivos.

As horas de teletrabalho multiplicam-se na forma de web-reuniões, orientações via mensagens ou conversas telefônicas, elaboração de projetos, captação de recursos, campanhas financeiras, junto a amigos e conhecidos. O cansaço, as horas insones, madrugadas mal dormidas, cochilos no romper do dia ou em momentos roubados de tardes de trabalho, tudo é permitido, exceto manter a atonia e a acomodação! E vêm as lições e aprendizados: ser mais solidários, prescindir de muitos objetos e coisas materiais, apreciar mais o espaço de nossas casas, curtir um jogo de palavras cruzadas, reinventado as noites, rever um filme, escutar velhos discos, abdicar de saídas e nos mantermos próximos de quem amamos e estimamos, mesmo que fisicamente distantes!

E, certamente, a lição maior para nossa sociedade: a visão ultraliberal, que orienta a economia do País, evidencia, de modo contundente, seus limites. As respostas à epidemia são construídas pelos serviços públicos! No nosso caso, o Sistema Único de Saúde, o nosso SUS que está à frente, no atendimento e no cuidado das pessoas infectadas, no planejamento e organização para a atenção àqueles que precisarem durante o período da epidemia, estejam estes infectados ou com outros agravos à saúde. Com seus limites, mas, especialmente, com a riqueza de possibilidades e o compromisso de tantos profissionais, o SUS faz, cada dia mais, a diferença!

Diante desse cotidiano, mutante e mutado, sigo em busca de elos, de cumplicidades, de parceria, de empatia, de solidariedade para reinventar os áridos tempos que vivemos e poder estar, com todos, no amanhecer de um mundo, que será, certamente, diferente, porque necessariamente mais solidário, pois somente assim poderemos findar essa travessia! E, inspirados na poesia de Cora Coralina, reinventemo-nos, na urgente necessidade de preservar a vida!

Aninha e suas pedras – Cora Coralina
Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
E construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça. (…)

Postado por: George Assunção

Postado em: 16/05/2020

Um respirador para a democracia brasileira

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“É certo que nossa democracia precisa com urgência de uma Unidade de Terapia Intensiva com muitos respiradores. Há um vírus a atacá-la e, ao que parece, já ocupa o sistema respiratório comprometendo a um só tempo sua força, agilidade e vitalidade”

Por: Rafael dos Santos da Silva(*)

De: Esquerda.net

Desde que foi criada pelos gregos a democracia se caracterizou por suas possibilidades. Apesar de suas imperfeições e sempre inacabada, foi sendo instrumentalizada por diversas sociedades que a utilizaram enquanto respirador à cidadania. Não faltou quem lançasse mão dos seus aspectos para esconder suas tiranias, e até dela se aproveitar para engendrar o poder absoluto. Porém, quero crer a democracia como um ponto de partida e nunca como ponto de chegada.

A partida democrática no Brasil ocorreu há pouco mais de trinta anos e desde lá não cansamos de testar seus limites. Há cinco anos os testes estão sendo levados ao extremo. Como que presa a duas máquinas tensionadas por lados opostos, a democracia brasileira está a ser demasiadamente esticada. Eis aí a grande questão social do novo século.

Fosse possível propor uma cronologia recente aos testes, apontaria o primeiro para 17 de Abril de 2016, quando o congresso brasileiro aceitou o pedido de impedimento de Dilma Rousseff tendo como principal argumento a ausência de ambiente político para governar. Não bastasse tamanha abstração, em 2017 duas reformas sequestraram direitos sociais das massas. Uma rasgando as Leis Trabalhistas, e a outra, reduzindo via congelamento dos gastos públicos, investimentos em saúde, educação e assistência social. Se muitos grupos foram às ruas em 2013 denunciar a redução do orçamento na Educação que à época era de R$ 101 mil milhões o que fariam hoje sete anos depois com a execução orçamentária – da mesma pasta – ser de apenas R$ 91 mil milhões? O que teria a dizer da Medida Provisória que estabeleceu a famigerada carteira verde e amarela a obrigar os jovens ávidos pelo primeiro emprego à renunciar direitos de trabalho?

Outro teste à democracia é a indecência da farra do sistema financeiro onde a securitização dos créditos se revela na verdadeira sangria aos cofres públicos. Na prática, esse instrumento obriga o governo a tomar recursos emprestados do sistema financeiro às custas de vultuosos juros. No momento em que escrevo esse texto o Banco Central informa que no período de 10 anos, mais de R$ 1 trilhão de reais foram transferidos aos bancos privados via emissão de créditos públicos. É o rentismo em grau zero.

Some-se a isso o julgamento e prisão do ex-Presidente Lula da Silva, que mesmo longe de ser a liderança ideal ou possível, merecia como qualquer outro cidadão o direito de ser julgado de maneira justa. E não foi! Se quiséssemos enfrentar os porões da corrupção, não poderíamos usar a lei de forma corrupta. Afinal os fins justificam os meios? A midiática Lava Jato – que abortou Sergio Moro – foi mais um teste à democracia. Sabe-se que mesmo a despeito da opinião pública a operação não passava de um mecanismo eivado de erros conduzida sem a soberania da Polícia Federal, quiçá do Brasil.

A assunção de um governo frágil e débil deslocou para o congresso federal a pachorra de conduzir a reforma da previdência. De longe esta reforma foi eleita como a mais importante, pois aumentaria a capacidade do governo de pagar os juros adquiridos na farra das securitizações.

A COVID-19 interrompeu os testes à democracia? Não! Nem sequer a reduziu. Um bom exemplo é a aprovação do Orçamento de Guerra. O instrumento pelo qual o governo visa combater a pandemia, mas na prática autoriza o Banco Central a comprar títulos privados questionáveis (títulos podres). Testamos a fundo a funcionalidade de uma democracia quando sua população faz parte das decisões ou figuram na lista de prioridades. Definitivamente esse não é o caso. Basta ver o fluxo de recursos destinados a grandes empresas sob o pretexto de manter empregos comparada aos recursos destinados aos mais vulneráveis em função da Pandemia.

Enquanto o primeiro grupo recebeu seus recursos em 12 horas, passados 25 dias ainda há no último grupo, 19 milhões de pessoas a esperar os R$ 600,00 – pouco mais de 100 euros. Pasmes! O governo alega não saber que mais de 50 milhões de pessoas precisariam desse instrumento, e que sequer as conheciam. É o Estado a reconhecer seus reais interesses? Não sei ao certo, mas é certo que chegamos aos limites da democracia liberal pautada em conchavos e não em acordos, em leniências, e não em disputas.

Antes disso, em 2018, foi com o Supremo Tribunal Federal – STF e tudo, que ocorreu mais um teste a democracia. Ficou clara a anuência da justiça em não deixar Lula da Silva ser candidato, ainda que para tanto tivesse que rasgar a Constituição federal. Associada a isso, somam-se interferências e manipulações tecnológicas retirando da democracia suas principais características: o debate e o convencimento. Como resultado, tem-se a eleição do ex-capitão do exército ao poder a representar o ápice dos ciclos de testes.

Bolsonaro é notadamente uma figura desqualificada, tanto técnica quanto moralmente, para ocupar o cargo. É a síntese do Brasil colonial onde a elite açodava o império para tramar estratégias espúrias. É o resumo do atraso matizado na mente mais pueril e escravocrata que despida de qualquer vergonha se abraça a chibata e a corrente para manter viva a memória da tortura e do castigo. Nesse cenário, o medo é estabelecido. A tensão de uma ruptura traumática é constantemente alimentada, e as instituições são minadas até que a máquina do tempo se imponha.

Bolsonaro não é fruto do acaso? Não! Ele começa ser gestado muito tempo antes da sua eleição. Nasce um pouco quando os filhos do privilégio viram suas empregadas domésticas, antes ama de leite ou escravas sexuais, garantirem  direitost e cidadania. Quando os negros e as pessoas empobrecidas acessaram as universidades. Quando o jaleco branco foi enfim usado pela filha da lavadora de roupas. Seria ele, então, a síntese maior do atraso? Sozinho, obviamente que não.

É preciso considerar a formação de uma complexa tessitura social e política. A ausência de uma verdadeira revolução, a falta que fez um profundo acerto social, nem realizado nas margens do Ipiranga, nem tampouco na lei de anistia de 1979. Bolsonaro é, portanto, filho da anomia democrática, ponto de encontro da escória tramada nos porões dos mais sujos esgotos da república. Resultado que é da dramatização articulada entre as milícias e a burguesia.

Frases como “…E daí? Vão morrer cinco mil” “Não sou coveiro” “é só uma gripezinha” não são apenas marcas de uma demência popular, mas os registros de um projeto b que estava guardado nos porões da ditadura. Trata-se da maior vingança puritana da elite por jamais consentir dividir a universidade, o consumo e a cidade.

Pois bem, após vários testes, é certo que nossa democracia precisa com urgência de uma Unidade de Terapia Intensiva com muitos respiradores. Há um vírus a atacá-la e, ao que parece, já ocupa o sistema respiratório comprometendo a um só tempo sua forçaagilidade e vitalidade. Ao seu redor há um profundo conflito estabelecido entre aqueles que deveriam conduzir os aparelhos. É notória a ausência de liderança, não se discute aqui, sequer sua qualidade, visivelmente, não há liderança! O que há, fica claro, é uma mistura entre amadorismo e oportunismo a torcer para o definhamento do paciente. Um respirador é urgente e ele se chama impeachment.

 

Link da matéria fonte: aqui

*Rafael dos Santos da Silva – Professor da Universidade Federal do Ceará, doutorando em Sociologia pela UC e membro do Observatório de Políticas Públicas – OPP/UFC.

Postado por: George Assunção

Postado em: 15/05/2020

NOTA DE LOUVOR À DEMOCRACIA UNIVERSITÁRIA E DE REPÚDIO AO AUTORITARISMO NA UFC

Por: ADUFC-SINDICATO

Estudantes, professores e técnico-administrativos da UFC, por meio de suas entidades representativas, vêm manifestar seu mais vivo apreço pela democracia universitária, no momento em que ela sofre duros e sucessivos ataques na UFC, desde a nomeação de um interventor para assumir a Reitoria da Instituição, em agosto de 2019.

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Manifestamos louvor, antes de tudo, porque os seguidos atos lesivos que contra a democracia têm sido praticados na UFC só nos fazem ainda mais conscientes e convictos de como ela é necessária. É a democracia que nos permite a construção de relações sociais e políticas que visem ao interesse geral, com respeito à diversidade e às minorias. É ela que abre espaços públicos de discussão e explicitação de reflexões, problemas e conflitos, em que podemos todos e todas ser ouvidos e buscar caminhos comuns. É ela que nos proporciona aprendizados coletivos, quando acertamos e quando erramos, e assim nos possibilita superarmos a menoridade e a dependência em relação a figuras narcisistas, paternalistas e autoritárias.

Dito isso, queremos repudiar toda tentativa de cercear os espaços de discussão e deliberação coletiva na UFC, principalmente a que se materializou no Provimento 03/CONSUNI, publicado por Cândido Albuquerque no dia 23/4/2020, e os atos praticados pelo mesmo gestor no dia 12/5/2020, no sentido de impedir a livre deliberação do CONSUNI, que rejeitava seu Provimento. Tanto o ato normativo quanto o ato arbitrário de encerramento de uma reunião cuja votação lhe era desfavorável são exorbitantes. O Provimento exorbita porque usa o estado de emergência da pandemia e o choque em que se encontra a comunidade universitária para fazer passar uma mudança permanente do Regimento do CONSUNI, que aumenta os poderes de seu subscritor.

O encerramento abrupto e unilateral da reunião do CONSUNI, sem proclamação do resultado, com base num pretexto mal elaborado, é outra exorbitância. Nesse caso, existe o agravante de que o Presidente do Conselho desrespeita e atrapalha o funcionamento normal de um órgão deliberativo superior da universidade, ao tempo em que performa o rebaixamento dos padrões até então normais de relações institucionais na UFC.

O CONSUNI teve um papel louvável na defesa da democracia universitária em reunião realizada já nos termos do Provimento 03 – portanto, com muitas restrições. Infelizmente, o Conselho foi atropelado por seu próprio presidente, que deveria dar sequência às deliberações tomadas. A rotina da intervenção, na verdade, tem sido de atropelos na UFC. Está aí o exemplo dos Encontros Universitários 2019, que foram adiados pela reitoria quando havia condições de realização e, agora, em meio à pandemia, estão sendo impostos.

Na condição de entidades representativas de estudantes e servidores docentes e técnico-administrativos, formalizamos hoje (14/5) denúncia ao Ministério Público Federal (MPF) sobre a existência de indícios de práticas de ato de improbidade administrativa pelo atual reitor da UFC. Solicitamos, ainda, que o MPF instaure inquérito civil para a devida investigação.

Alertamos aqui toda a comunidade universitária para as tentativas de fechamento de espaços democráticos e de desagregação institucional na UFC e para a articulação desses atos com a agenda autoritária e antissocial do governo Bolsonaro. As instituições públicas brasileiras, sobretudo a universidade pública, devem resistir às tentativas de enfraquecê-las e adaptá-las ao autoritarismo político e ao obscurantismo. 

Não existe normalidade na intervenção!

Nós defendemos a democracia na UFC!

Link da matéria fonte: aqui

Postado por: Das Chagas Martins

Data: 15/05/2020

Universidades federais conduzem mais de 800 pesquisas para mapear coronavírus e encontrar uma vacina, diz associação

ufrj-2Laboratório da UFRJ — Foto: Reprodução/TV Globo

Por: G1

A Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) apresentou, nesta segunda-feira (11), as principais iniciativas promovidas por 46 universidades federais brasileiras no combate à pandemia. Segundo a entidade, 823 pesquisas estão em andamento para mapear o novo coronavírus e encontrar uma vacina contra a Covid-19.

Os estudos buscam, principalmente:

  • identificar o genoma viral do Sars-CoV-2, procedimento fundamental para a produção da vacina;
  • elaborar sistemas informatizados para a detecção de novos casos da doença;
  • descobrir tipos de testes mais baratos
  • e fabricar nacionalmente peças para ventiladores mecânicos.

Além disso, as instituições de ensino disponibilizaram 489 leitos de UTIs e 2.228 leitos de atendimento comum. Ações preventivas também estão em andamento: há 96 projetos de produção de produtos de limpeza, responsáveis pelo fornecimento de 992.828 litros de álcool gel e de 912.000 litros de álcool comum.

Segundo a Andifes, as universidades colaboram para a fabricação de equipamentos de proteção aos profissionais de saúde e aos cidadãos comuns: mais de 160 mil protetores faciais, 104 EPIs, 85 mil máscaras de pano, 6 mil aventais e 2 mil capuzes foram produzidos pelas instituições de ensino.

“As universidades são lugares de combate ao obscurantismo”, afirma o presidente da Andifes e reitor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), João Carlos Salles Pires da Silva.

Segundo ele, o investimento em pesquisas e no Sistema Único de Saúde (SUS) mostram-se ainda mais fundamentais durante a pandemia.

Lista de universidades participantes

Abaixo, confira quais são as 46 universidades federais que forneceram informações sobre suas ações de combate à pandemia:

  • 1. UFJF
  • 2. UFRN
  • 3. UFCSPA
  • 4. CEFETMG
  • 5. UFV
  • 6. UFBA
  • 7. UFU
  • 8. UFPR
  • 9. UNIFAL
  • 10. UFPI
  • 11. UFJ
  • 12. UFMS
  • 13. UFRRJ
  • 14. UFMA
  • 15. UFRB
  • 16. UFPB
  • 17. UFOB
  • 18. UNILA
  • 19. UNIPAMPA
  • 20. UFRGS
  • 21. UFSB
  • 22. UFSC
  • 23. UFF
  • 24. UTFPR
  • 25. UFMT
  • 26. FURG
  • 27. UFRPE
  • 28. UFPel
  • 29. UFABC
  • 30. Unifesspa
  • 31. CEFETRJ
  • 32. UFERSA
  • 33. UFRA
  • 34. UFOP
  • 35. UFMG
  • 36. UFAM
  • 37. UFPE
  • 38. UFRJ
  • 39. Unifesp
  • 40. UFFS
  • 41. UFLA
  • 42. UFSM
  • 43. UFES
  • 44. UFSCar
  • 45. UFTM
  • 46. UFG

Link da matéria fonte: aqui

 

Postado por: George Assunção

Postado em: 14/05/2020

 

Pandemia de Covid-19 e mudanças climáticas: emergências globais e ameaças à saúde

Na TV Abrasco

Expositores:

Paulo Artaxo, USP.

Carlos Corvalan, University of Sidney.

Christovam Barcellos, Fiocruz.

Coordenação:

Nelson Gouveia, USP e Comitê Assessor de Relações Internacionais da Abrasco.

Confira a programação completa da semana: aqui

 

Postado por: Das Chatas Martins

Postado em: 14/05/2020

Apenas 6 das 69 Universidades Federais promovem aulas por ensino a distância após paralização

and9463Campus da Trindade da Universidade Federal de Santa Catarina que suspendeu aulas — Foto: Diogenes Pandini/NSC

Por: André Paixão

De: G1

Autorizado pelo Ministério da Educação (MEC) há quase dois meses, o ensino remoto emergencial de nível superior só foi adotado por 6 das 69 universidades federais do Brasil.

Somadas, elas têm 97,5 mil alunos, ou 8,7% dos 1,1 milhão de estudantes matriculados em instituições do tipo.

A medida foi adotada para que os alunos não ficassem parados durante a pandemia do novo coronavírus. Nesta quarta-feira (13), a pasta ainda prorrogou por mais 30 dias a adesão ao ensino a distância.

No entanto, 59 universidades, que somam 962 mil alunos, estão com as aulas suspensas. Por fim, apenas 4 instituições mantém parte das atividades. As informações são do próprio MEC, que criou uma página na internet para divulgar o status de funcionamento das instituições federais de ensino.

Segundo o painel, apenas Universidade Federal do ABC (UFABC), Universidade Federal do Ceará (UFC), Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e a Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI) aderiram ao ensino a distância.

Enquanto isso, 64.178 alunos das universidades federais do Acre, de Sergipe, de São Carlos (SP) e do Tocantins seguem com aulas de forma parcial.

O G1 questionou o MEC se a adesão às aulas à distância foi menor do que o esperado. A pasta, em nota, afirmou que “existe uma expectativa para a ampliação da adesão, pois algumas universidades estão organizando os sistemas e o formato que irão utilizar.”

Outro ponto que merece atenção é que o painel exibe algumas informações “vencidas”. Há 6 universidades em que a previsão do fim da suspensão expirou, sem qualquer informação mais recente.

Sobre isso, o Ministério da Educação afirmou que as atualizações devem ser enviadas pelas próprias universidades, e que “acompanha e solicita a atualização”.

Procurada, a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), afirmou que as iniciativas de adotar ou não o ensino a distância emergencial são de cada instituição.

“A Andifes está preocupada, elaborando seminário nacional para discutir ensino remoto”, disse Márcio Guerra, presidente Colégio de Gestores de Comunicação das Universidades Federais (Cogecom) da Andifes.

Falta de acesso é visto como obstáculo

Um dos principais pontos do ensino a distância em universidades federais é o acesso às aulas. Parte dos estudantes simplesmente não tem condições de acompanhar o conteúdo por não ter conexão com a internet.

Essa foi uma das razões pela qual a Universidade Federal de Pernambuco optou por não aderir ao programa de ensino virtual substituindo a graduação presencial. Em nota, a UFPE afirma que 35% dos alunos vêm de famílias com renda igual ou inferior a um salário mínimo e meio por pessoa.

“São evidentes as dificuldades que essa parcela do corpo discente encontra para acesso a “hardware” (computadores, “notebooks”, “tablets” e similares) adequado para atividades de ensino a distância, bem como ao acesso – de boa qualidade – à rede mundial de computadores”, afirma a instituição.

Dados de 2018 da V Pesquisa Nacional de Perfil Socioeconômico e Cultural dos (as) Graduandos (as) das IFES, promovida pela Andifes, mostram que mais da metade dos alunos vêm de famílias de baixa renda, com rendimentos de até 1 salário mínimo por pessoa.

a distância ainda pode representar uma barreira para pessoas com deficiência (PCDs).

A reitoria da Universidade Federal do Rio de Janeiro, instituição que tem o maior número de alunos entre as federais no Brasil, divulgou uma nota, ressaltando que alunos com deficiência “necessitam de recursos que ainda não podem ser oferecidos nessa modalidade”.

Algumas universidades, como as federais de Minas Gerais (UFMG) e da Bahia (UFBA) abriram enquetes para que os alunos respondam sobre suas possibilidades. No entanto, ainda não há decisão por aderir às aulas à distância.

Na UFMG, inclusive, há uma decisão de não aderir ao ensino a distância. Em documento divulgado no fim de março, a instituição afirma que “a heterogeneidade do corpo discente da UFMG não permite garantir que todos terão acesso frequente e estável aos recursos computacionais necessários para acompanhamento das atividades”.

Alunos buscam alternativas

Alunos ouvidos pelo G1 acreditam que é preciso considerar a realidade de parte dos estudantes que não têm acesso aos equipamentos necessários.

“Eu tenho o “privilégio” de ter internet para ver vídeos sobre o assunto de algum texto, mas e quem não tem? Como fica?”, afirma Ludmila Nascimento de Almeida, aluna de História na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

Já Luiza Ferreira, estudante de Pedagogia da UFMG, acredita que, caso as restrições de circulação e aglomeração permaneçam por mais tempo, a universidade deve, sim, ter aulas on-line.

“Se no próximo semestre o isolamento permanecer, vale considerar colocar as aulas on-line e pensar em alternativas para quem não tem acesso à internet, para que ninguém saia prejudicado”, disse. Ela conta que tem participado de grupos de estudo e pesquisa on-line para se manter atualizada.

A suspensão das aulas também representa um distanciamento da atividade acadêmica. Nesse caso, acabam buscando alternativas para manter os estudos em dia.

“Muitos dos textos e documentos que tenho acesso não me trazem clareza no assunto, o que seria resolvido se a Ufes e os professores tomassem a didática de vídeos aulas”, concluiu Ludmila.

Como é o ensino a distância emergêncial?

O MEC regulamentou, em 18 de março, a substituição de aulas presenciais pelas aulas em meios digitais.

Além das universidades federais, o recurso também vale para institutos federais, o Colégio Pedro II, o Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines), o Instituto Benjamin Constant (IBC) e as universidades e faculdades privadas.

Estão liberadas aulas à distância de todos os cursos, exceto Medicina. O ensino presencial também não pode substituir as práticas profissionais de estágios e de laboratório dos demais cursos.

A responsabilidade de definir as ferramentas disponíveis aos alunos, as disciplinas que serão substituídas e a realização de avaliações será das instituições.

Link da matéria fonte: aqui

Postado por: George Assunção

Postado em: 14/05/2020

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO PRORROGA POR MAIS 30 DIAS AULAS À DISTÂNCIA

Prorroga o prazo previsto no § 1º do art. 1º da Portaria nº 343, de 17 de março de 2020.

O MINISTRO DE ESTADO DA EDUCAÇÃO, no uso da atribuição que lhe confere o art. 87, parágrafo único, incisos I e II, da Constituição, e considerando o art. 9º, incisos II e VII, da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, e o art. 2º do Decreto nº 9.235, de 15 de dezembro de 2017, considerando as orientações do Ministério da Saúde para prevenir a transmissão do novo coronavírus – Covid-19, resolve:

Art. 1º Fica prorrogado, por mais trinta dias, o prazo previsto no § 1º do art. 1º da Portaria nº 343, de 17 de março de 2020.

Art. 2º Esta Portaria entra em vigor no dia 15 de maio de 2020.

http://www.in.gov.br/web/dou/-/portaria-n-473-de-12-de-maio-de-2020-256531507

Postado Por: Das Chagas Martins

Data 13/05/2020

Memórias de Quarentena 13: Educação e Afetividade em Tempos de Pandemia

Por: Camila Holanda Marinho (Professora da UECE)

A minha primeira percepção sobre o uso de atividades remotas, em tempos de pandemia, é que a tecnologia é incapaz de substituir as práticas AFETIVAS dos contatos humanos face a face, olho no olho, entre estudantes e professores. O que mais queremos com urgência e sentimos falta, em tempos de isolamento social, é encontrar as pessoas, nos abraçar, nos reunir em aglutinações festivas e AFETIVAS.

Como as ferramentas virtuais não são capazes de substituir o encontro presencial, então são insuficientes para práticas docentesAFETIVAS. Não me refiro às atividades de EAD; isso seria assunto para outra memória, mas sim, a controversa modalidade dos professores em isolamento social acharem que estão ensinando e os estudantes se angustiarem porque não estão aprendendo.

Li uma reportagem, um dia desses, que dizia que pouco mais de 40% dos estudantes brasileiros possuem computadores em casa. Outra afirmava que os professores, pais e entidades estão entrando na justiça contra a obrigatoriedade do ensino remoto.

Muitas Universidades se perdem na emissão de notas que (des)orientam os professores com relação ao “andamento” do semestre. Oxe, mas se tudo desandou… Faculdades privadas estão surrupiando os direitos autorais dos professores através das aulas virtuais, sem eles perceberem que seus saberes estão sendo negociados, e isso poderá provocar suas dispensas futuras, já que as aulas estão todas gravadas.

É o Capital e sua perversidades descartando os trabalhadores. O coronavírus expõe, de forma cruel, a desigualdade educacional no Brasil, e os professores não deveriam naturalizar uma prática tão injusta e ineficiente como uma forma de dar conta do conteúdo ou do semestre. Como tudo é novo, ainda estamos construindo os caminhos mais corretos, mas já sabemos aqueles que não queremos seguir.

O acesso à educação é um direito humano. De tão negado que foi, pode ser a explicação para entendermos porque chegamos aonde chegamos. Lembro de Paulo Freire nos ensinando que a educação é um ato revolucionário, e é uma forma coletiva dos indivíduos tomarem consciência da sua condição histórica e de sua capacidade de transformar o mundo.

Eu, como professora de um curso de licenciatura em Ciências Sociais, não quero ensinar aos estudantes que a ferramenta “prática” e desigual da educação remota é uma forma de cumprir o conteúdo, o calendário, a burocracia, pois o ofício do professor é uma vocação, deve ser uma prática AFETIVA, e não uma mera atividade de formação profissional, a partir da materialidade de transmissão de conteúdos.

Atualmente as discussões sobre educação (desde antes da pandemia) se limitam a questões didáticas e não aquestões éticas e AFETIVAS. Devemos recuperar esses princípios educativos. Se um estudante está excluído do processo, então isso importa, porque a educação é uma atividade de inclusão social. Ou deveria ser.

Eu quero ensinar os meus alunos e alunas a questionarem, a contestarem, a se indignarem, a se importarem com os males da desigualdade social tão acirrados em tempos de pandemia.

Abrem-secovas nos cemitérios das periferias e hospitais de campanhas em areas privilegiadas. Não quero enterrar os sonhos dos estudantes de que a educação pode salvar vidas e transformar o mundo

Postado: Das Chagas Martins

Data 12/05/2020

A FIOCRUZ DIANTE DA COVID-19

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Por: Nísia Trindade

De: Ciência Hoje

Mal atende o telefone, Nísia Trindade Lima avisa, com delicadeza, que precisará atrasar a entrevista em dez minutos porque recebeu um chamado do Ministério da Saúde. Seus dias têm sido assim desde que os casos da covid-19 passaram a se multiplicar no Brasil. São reuniões virtuais consecutivas, isolamento social até dos filhos e imensas e incontáveis responsabilidades como presidente da Fiocruz. É a primeira mulher no cargo nos 120 anos, completados em maio, da instituição que está no centro do combate à pandemia no país. “É duro, é difícil, mas o tempo todo estou trabalhando, e isso nos dá esse sentido de urgência e da importância de estarmos dedicados a esse objetivo”. Comparo-a ao general Patton em meio à Segunda Guerra, mas Nísia discorda: “Fala-se muito de guerra, não gosto dessa metáfora. Para mim, a imagem que expressa essa pandemia é uma crise sanitária e humanitária”. A desigualdade brasileira em meio a esse “desastre” é uma das maiores preocupações da socióloga. “Não há democracia na circulação do vírus. Falam que o vírus é democrático, e ele pode, de fato, atingir a todos, como atinge, mas a capacidade de proteção e de resposta a isso é diferente num país desigual como o nosso”, diz ela, referindo-se aos milhões de brasileiros sem acesso à água e impossibilitados de evitar aglomerações. Nesta entrevista exclusiva à Ciência Hoje, Nísia fala da importância do Sistema Único de Saúde, de como criar condições para quando uma vacina chegar estar disponível a todos e da iniquidade de gênero dentro da própria Fiocruz.

 

CIÊNCIA HOJE: Quando a Fiocruz foi criada, há 120 anos, as ameaças eram as epidemias de varíola, peste bubônica e febre amarela. Hoje, a instituição segue como referência para combater epidemias e está no centro do enfrentamento da covid-19. Pode falar um pouco dessa trajetória?

NÍSIA TRINDADE LIMA: A história do século 20 em relação à saúde pública, e até numa visão mais profunda do Brasil, passa pela Fiocruz. E por quê? O trabalho científico realizado na instituição se volta aos grandes problemas, epidemias urbanas de peste bubônica, varíola e febre amarela, além de outros problemas como as chamadas doenças dos sertões, a Doença de Chagas, marcante na trajetória da instituição. É possível pensar a própria história da sociedade brasileira por esse ângulo da saúde pública, porque a expansão de projetos vistos como modernizadores no território brasileiro sempre colocou questões ambientais, de qualidade de vida, da emergência de doença… E a Fiocruz representa essa história, sempre trazendo aportes científicos dos seus pesquisadores, associando a ciência às necessidades da saúde pública. Neste momento, estamos enfrentando a grande pandemia do século 21, algo que também vai além da saúde. É um grande desafio para uma instituição de ciência e tecnologia vinculada ao Ministério da Saúde (MS) e que, ao longo de sua trajetória, participou do movimento da reforma sanitária na Constituição de 1988, da criação do Sistema Único de Saúde (SUS) e busca unir esse esforço de ciência, tecnologia e inovação com a constituição de um sistema universal em um país continental e extremamente desigual. Se fizermos um paralelo em termos de pandemia, é importante lembrar que cientistas da saúde pública, como Carlos Seidel e Carlos Chagas, foram personagens chave na organização de ações de mitigação da Gripe Espanhola no início do século 20. Então é uma tradição que se atualiza hoje, com uma instituição que se espraia de Manguinhos, onde tudo começou, por todas as regiões brasileiras, com presença de institutos e escritórios em dez estados, e trabalhando toda a cadeia, do conhecimento até a produção.

O mais importante é a necessidade de o país ter uma ciência forte e instituições científicas e universitárias onde se possa gerar conhecimento para compreender a dinâmica da doença na relação com a sociedade e o ambiente e também apoiar o desenvolvimento de políticas públicas

CH: Quais lições podemos aprender com o combate às epidemias do passado na atual crise?

NTL: Muitos falam que a perspectiva histórica nos ajuda a entender melhor o presente e os desafios que temos. Por outro lado, é difícil tirar lições do passado. Dizem que é como tentar mirar o futuro com um retrovisor. Mas é possível falar de alguns aprendizados e legados. O mais importante é a necessidade de o país ter uma ciência forte e instituições científicas e universitárias onde se possa gerar conhecimento para compreender a dinâmica da doença na relação com a sociedade e o ambiente e também apoiar o desenvolvimento de políticas públicas. O país precisa fortalecer sua base cientifica e tecnológica. Neste momento vemos, de uma maneira muito triste, que muitos insumos de saúde, como equipamento de produção individual (EPI) e respiradores, não estão acessíveis e isso independe do poder de compra, porque dependemos de importações de produtos que agora estão escassos. É importante ter um desenvolvimento industrial que permita ao país sua autonomia e impulsionar o desenvolvimento em outras áreas. Esses são os principais aprendizados: a importância de se investir em ciência e tecnologia e associá-las ao que chamamos de complexo econômico e industrial da saúde. O SUS requer inovação e tecnologia, requer uma base produtiva.

CH: A ciência tem ocupado um lugar central no combate à pandemia, no momento em que muitos movimentos anticientíficos buscam diminuir sua relevância. De que maneira a relação ciência e sociedade vai se estruturar após a atual situação?

NTL: Podemos ter esperança, mas não convicção absoluta de que o valor social da ciência venha a ser mais respeitado e fortalecido nesse processo. Cabe à ciência – nesse sentido amplo, em todas as áreas do conhecimento – dar as respostas e informar políticas públicas para proteger a sociedade. Essa é a aposta muito importante que nós temos, mas nada disso é dado. E aí entra a política com ‘P’ maiúsculo. Não podemos apenas fazer esse enunciado da importância da ciência e não trabalharmos cotidianamente para essa construção coletiva. Precisaremos de um pacto pela vida, como bem coloca a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência na Marcha Virtual pela Ciência.

CH: Você é autora do livro Louis Pasteur e Oswaldo Cruz: tradição e inovação em saúde. Por que se valoriza tanto a figura de Oswaldo Cruz, mas não se tem a mesma visão dos cientistas no Brasil contemporâneo?

NTL: São várias razões. Oswaldo Cruz se tornou um símbolo, assim como o castelo de Manguinhos simboliza a possibilidade de fazer pesquisa científica de alto nível num país de periferia e, sobretudo, uma ciência cujos resultados são mais visíveis à população. Talvez menos visível, mas quem sabe até mais importante, foi o fato de ele ter formado uma escola. Ou seja: sua memória, seu trabalho foi sendo atualizado por gerações de pesquisadores, entre os quais me incluo. Assim essa matriz histórica é permanentemente atualizada e tem o Oswaldo Cruz como pioneiro e referência maior. Outro fator é que a ciência era feita de uma forma diferente. Hoje em dia, cada vez mais, coletivos e grandes equipes são importantes, e, ainda que as lideranças continuem a pesar, essa figura individualizada do cientista já não existe da mesma forma. E um terceiro aspecto não menos importante é que a ciência no Brasil se democratizou, eram pouquíssimos cientistas no Brasil no início do século 20. Hoje temos muito mais pesquisadores e em todas as regiões do Brasil. Temos também a ideia de ciência cidadã, com a participação ativa da população na construção do conhecimento científico. A base científica se ampliou, e é essa base que precisa ser preservada neste momento. A figura de Oswaldo Cruz permanece na medida em que essa ciência vai se reproduzindo. Se não, ele vai virar um símbolo de um passado longínquo, e isso nós não podemos admitir.

Não estamos chamando nosso centro hospitalar de hospital de campanha porque ele terá uma permanência, como uma ampliação das ações do nosso Instituto Nacional de Infectologia, que já carecia de melhor estrutura para o atendimento de pacientes graves

CH: E o hospital de campanha? Além de tratamento dos pacientes, auxiliará nas pesquisas em andamento?

NTL: Não estamos chamando nosso centro hospitalar de hospital de campanha porque ele terá uma permanência, como uma ampliação das ações do nosso Instituto Nacional de Infectologia, que já carecia de melhor estrutura para o atendimento de pacientes graves. O hospital é um dos que vão fazer parte desse grande estudo clínico Solidariedade, da Organização Mundial da Saúde (OMS), que está analisando medicamentos já conhecidos para avaliar sua eficácia e sua segurança quando administrados a pacientes da covid-19. Ele vai permitir também, como vai ser um complexo com um grande número de leitos, uma revisão de protocolos, um conhecimento mais amplo das características da doença em sua forma grave no Brasil. Será também um grande laboratório de estudo do comportamento dessa doença nas pessoas com a manifestação mais grave.

CH: Por que a Fiocruz foi considerada referência para a covid-19 nas Américas pela OMS?

NTL: Esse é um reconhecimento ao Laboratório de Vírus Respiratórios e Sarampo, que tem mais de 60 anos de atividade e a história marcada pela resposta à epidemia de meningite na década de 1970. Esse reconhecimento da OMS significa que o diagnóstico do vírus, e também o estudo de suas mutações – e aí o Brasil é um grande laboratório –, será feito em todas as Américas tendo como referência o nosso laboratório.

O legado dessa pandemia é que esse sistema precisa ser fortalecido. E a estratégia da saúde da família e da atenção básica, que cresceu no início do século 21, também requer um olhar especial

CH: Um dos compromissos de seu programa de gestão é defender o direito à saúde universal e o SUS. Como o sistema está enfrentando a covid-19?

NTL: A pandemia, pela velocidade de transmissão e pelos casos graves que requererem longos períodos internação e atenção especializada de alto custo, é um problema para todos os sistemas do mundo, até mesmo no inglês, que é robusto. Por outro lado, vemos os Estados Unidos, uma nação rica, mas que enfrenta com dificuldade a pandemia por não ter um sistema público. Então é importante acentuar que o SUS, neste momento, é uma fortaleza, mas também adoece, porque há outros problemas a serem enfrentados. Teríamos problemas em qualquer situação como o mundo todo, mas soma-se a isso um subfinanciamento histórico. O legado dessa pandemia é que esse sistema precisa ser fortalecido. E a estratégia da saúde da família e da atenção básica, que cresceu no início do século 21, também requer um olhar especial, porque tem proximidade nos territórios. Outro ponto no enfrentamento da pandemia é a extrema desigualdade no Brasil, que implica condições de vida sem saneamento, sem água, o que torna as medidas de higienização muito difíceis de serem implementadas. O mesmo se diz em relação ao isolamento. Além das medidas de saúde e fortalecimento da assistência, tem que se trabalhar medidas de proteção social. As pessoas não podem, ao escapar da covid-19, morrerem de fome.

Salvar vidas, fortalecer o nosso SUS e ter uma agenda para um processo que vai se alongar, lutar por uma vacina e garantir o acesso de toda a população à vacina e a outros meios para proteger sua saúde, esses são os grandes desafios

CH: Como é ser a primeira mulher presidente da Fiocruz em 120 anos e estar no centro do enfrentamento dessa crise só comparável à Gripe Espanhola?

NTL: Essa é uma crise planetária, que coloca em xeque o modelo civilizatório, expõe a vulnerabilidade do mundo todo. É um desafio impensável para a minha geração, que participou da construção do SUS, da retomada do processo democrático no país. Meu papel é coordenar esforços da potência que é a Fiocruz, a principal instituição de Ciência e Tecnologia em Saúde da América Latina, fazendo com que atue como um sistema de forma sinérgica. Lidamos com essa pandemia como uma grande crise sanitária e humanitária multidimensional, que requer conhecimento de todas as áreas da ciência. Salvar vidas, fortalecer o nosso SUS e ter uma agenda para um processo que vai se alongar, lutar por uma vacina e garantir o acesso de toda a população à vacina e a outros meios para proteger sua saúde, esses são os grandes desafios.

Como primeira mulher a presidir a Fiocruz, enfrento esse desafio com sentimento ambíguo. Tenho me esforçado para reforçar o nosso Comitê de Equidade e Gênero em torno de uma série de questões, mas destaco uma: mulheres são maioria entre nossos trabalhadores e pesquisadores, mas minoria nos cargos diretivos. Que a minha posição na presidência não sirva só como um exemplo, mas como um motor de reduzir essa iniquidade. E eu falo de um sentimento ambíguo porque, neste momento da pandemia, eu vejo várias colegas na linha de frente. Isso dá orgulho. Por outro lado, essa pandemia revela uma sociedade muito desigual, e essa desigualdade também se expressa entre os trabalhadores da saúde. Temos visto adoecimento dos profissionais e incidindo de uma maneira muito intensa sobre a enfermagem, e, nesta categoria profissional, a maioria é de mulheres. Vemos também aumentar a violência contra as mulheres, num momento que era para estarmos defendendo, como parte do pacto pela vida, um pacto pela paz e por relações sociais de respeito a direitos humanos, dignidade e respeito às diferenças.

Que a minha posição na presidência não sirva só como um exemplo, mas como um motor de reduzir essa iniquidade

CH: As ciências sociais têm sido deixadas em segundo plano nos investimentos do atual governo. Como socióloga, qual a importância das ciências sociais nessa pandemia?

NTL: As ciências sociais são importantes em várias áreas, mas, falando especificamente das emergências sanitárias, são fundamentais para pensarmos a dinâmica da circulação de um vírus e seu impacto na sociedade. Além disso, as ciências sociais trabalham com a percepção sobre risco, com as políticas públicas. É impossível enfrentar uma pandemia sem esses recursos. As ciências sociais é que vão permitir que entendamos, por exemplo, que medidas e que comunicação vão ser, de fato, eficientes numa sociedade tão desigual como a nossa. Como mostrou o sociólogo Norbert Elias em O processo civilizador, muitos hábitos que desenvolvemos têm a ver com diferenciação de classe, e esse trabalho foi uma referência importante para estudos sobre as epidemias. Há uma dimensão social muito importante quando falamos que todos podem pegar a doença, mas, ao mesmo tempo, são proteções diferentes de acordo com relações sociais e de poder desiguais. Se ainda tivéssemos entre nós um historiador como Eric Hobsbawn, ele talvez dissesse que o século 21 está começando agora, porque a pandemia vai botar em xeque essa circulação de pessoas e de mercadorias do mundo dito globalizado. Vai evidenciar também as diferenças entre os países com mais e menos condições de proteção e que a proteção depende também de um forte arranjo de política pública do Estado e de uma forte solidariedade social. Tudo isso é sociologia.

CH: Cientistas ligados a Fiocruz de Manaus, entre outros, foram ameaçados por conta das pesquisas que conduzem. Como vê essa situação de coerção da pesquisa e busca de cerceamento do livre pensar por certos grupos sociais?

NTL: A ciência só pode existir com liberdade e ética, são dois princípios básicos. Não quer dizer que os cientistas podem fazer tudo o que querem, por isso, temos comitês de ética que se fortaleceram muito no Brasil. No caso específico que você cita, a minha posição é a que está na nota do nosso conselho deliberativo.

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Postado por: Das Chagas Martins

Postado em: 13/05/2020

 

Marcha Virtual pela Ciência

Marcha 7 de Maio

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), junto a suas Secretarias Regionais e Sociedades Científicas Afiliadas, somam forças a entidades de todo o País ligadas à CT&I para a realização da Marcha Virtual pela Ciência no Brasil no dia 07 de maio. Com atividades transmitidas pelas redes sociais ao longo do dia, o objetivo da manifestação é chamar a atenção para a importância da ciência no enfrentamento da pandemia de covid-19 e de suas implicações sociais, econômicas e para a saúde das pessoas.

Participe da Marcha Virtual pela Ciência! Vamos nos unir neste #paCTopelavida! #FiqueEmCasacomCiência

Baixe os arquivos de divulgação:

Logos | Cartazete | Cartazete para Facebook | Cartazete para Instagram

Depoimentos em vídeo:

Para ter acessos a mais conteúdos como esse, acesse nosso blog em: https://oppceufc.wordpress.com/

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Postado por: Das Chagas Martins

Postado em: 06/05/2020

CARTA ABERTA DA ENFERMAGEM BRASILEIRA À POPULAÇÃO BRASILEIRA

O ato do dia primeiro de maio, protagonizado pela Enfermagem do Distrito Federal, demonstrou a necessidade dos profissionais da saúde levantarem-se em combate à política genocida do atual presidente Jair Bolsonaro. Isso porque a defesa da vida da população brasileira é incompatível com as afirmações e condutas do poder executivo nacional.

É preciso que o Brasil saiba que o ato inicialmente pensado para homenagear as vítimas da COVID-19, exigir que os EPI’s cheguem às unidades de saúde em quantidade e qualidade necessárias e alertar sobre importância do isolamento social foi violentado por apoiadores do presidente que não admitem qualquer posicionamento crítico contrário ao governo e negam que o coronavírus proporcione uma situação de saúde pública grave, com um aumento cada vez maior de mortes de milhares de pessoas no Brasil., a força e a coragem das enfermeiras do DF não foi apagada pela truculência e negacionismo que têm crescido em nosso país e até o momento isso tem acontecido com a ausência de ações institucionais para interrompê-la.

Enquanto isso, o vírus fez mais de 7 mil mortos e o Brasil assume o 7º lugar em óbitos mundiais, Bolsonaro segue na sua política apoiando as carreatas da morte e os atos antidemocráticos que aglomeram pessoas e vão na contramão das orientações da OMS de combate à COVID-19.

A Enfermagem é a linha de frente no atendimento às vítimas do coronavírus abrangendo cerca de 60% dos trabalhadores do SUS – mesmo sem EPI’s ou recursos materiais e com sobrecarga de trabalho e baixos salários – ela é quem continua a atender os doentes dessa pandemia, salvando vidas e sendo vítima da infecção. Até o presente momento, são mais de 50 técnicos e enfermeiros mortos vítimas da COVID-19. Nós queremos todos os nomes das vítimas numa plataforma pública, pois queremos honrar a memória de nossos mortos!

É de extrema importância que as entidades representativas da Enfermagem, regionais e nacionais, entendam a necessidade de lutar contra o projeto negacionista, eugenista, higienista e anti científico protagonizado por Bolsonaro, que tem levado a uma aceleração de mortes pela COVID-19.

Diante disso, consideramos fundamental organizar no dia 12 de maio (Dia Internacional da Enfermagem) potentes atos políticos, respeitando o distanciamento social e mostrando a importância da Enfermagem no combate à pandemia.

Convidamos todos os profissionais de enfermagem e da saúde a realizarem atos simbólicos em seus postos de trabalho neste nosso dia. Compartilhe! #LuteComoUmaEnfermeira

Nossas principais bandeiras de luta são:

1 – Defesa do isolamento/distanciamento social e contra a política negacionista, eugenista, higienista e anti ciência de Bolsonaro;

2 – Defesa do SUS público, estatal, equânime, gratuito, de qualidade devidamente financiado;

3 – Pelo direito do trabalho seguro com dimensionamento de pessoal e EPI’s em quantidade e qualidade adequados;

4 – Defesa do direito ao piso salarial, 30hs semanais e aposentadoria especial para todos os profissionais de saúde;

5 – Revogação imediata da EC 95, da Lei de Responsabilidade Fiscal e a Desvinculação de Receitas da União e dos Estados que limitam os gastos com todas as políticas sociais, particularmente para a saúde;

6 – Apoio aos projetos que concedem pensão especial a familiares de profissional de saúde mortos pelo COVID-19

7 – Garantia do auxílio emergencial e benefício social extraordinário a todos trabalhadores informais e precários afetados pela crise e/ou desempregados.

Assine esta carta: https://forms.gle/yyLWqEmayxgvDG6zo9

Para mais conteúdos como esse, acesse nosso blog em: https://oppceufc.wordpress.com/

Comemoração no Dia da Promoção do Uso Racional de Medicamentos

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Na terça-feira, dia 05 de maio, comemoramos o Dia da Promoção do Uso Racional de Medicamentos. A promoção do uso racional de medicamentos é essencial, principalmente em tempos de pandemia, onde há um grande nível de desinformação. A automedicação pode causar um grande risco à saúde. Por isso, o mais importante nesse momento é se prevenir! 🏠😷

Link da matéria fonte:. aqui

Postado por: George Assunção

Postado em: 05/05/2020

Nós na Pandemia: Grupo de apoio e diálogo para se fortalecer e enfrentar este período

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Preocupada com a saúde mental de seus sindicalizados, a ADUFC-Sindicato, em diálogo com os Programas de Extensão da UFC “Pasárgada: promoção de arte, saúde e garantia de direitos” e “Clínica, Estética e Política do Cuidado” e o Projeto de Extensão “Pronta Escuta”, elaborou a ação Nós na Pandemia.

A ação se propõe a apoiar a realização de encontros para diálogos entre os docentes mediados pela arte, e que possam contribuir para a subjetivação das angústias relativas ao momento presente.

Serão quatro encontros semanais, em grupo, sempre às segundas-feiras das 15h30 às 17h, através da plataforma Jitsi*. O primeiro encontro está marcado para o dia 11/5 segunda-feira.

Caso você tenha interesse em participar dessa atividade, preencha as informações pedidas no formulário disponível CLICANDO AQUI.

(*) Os/as inscritos/as receberão um passo a passo de como entrar na sala virtual do Jitsi antes do encontro.

Outros serviços

Escuta Psicológica e Arteterapia (Movimento Saúde Mental e Prefeitura de Fortaleza)
Agendamento através do WhatsApp 85 9 8106.7178

Rede de Apoio Psicológico
link aqui

Oferecidos pelas universidades:
UNILAB
Link aqui
Ou contato através de e-mail para coase@unilab.edu.br

UFCA
Link aqui (aba “serviços”) O entre em contato através de e-mail para psicologiasolidaria@ufca.edu.br

Link da matéria fonte: aqui

Postado por: Das Chagas Martins

Postado em: 05/05/2020.

MEMÓRIAS DE QUARENTENA Nº 08: ERA UMA VEZ UM MUNDO

ERA UMA VEZ UM MUNDO

Por: Esther M. de M. Arantes (Professora da UERJ) e Ruth Batista (Psicóloga Clínica)

Houve um tempo onde os humanos podiam se encontrar, andar lado a lado e até se abraçar. Ao saírem às ruas, não usavam máscaras e não tinham que se desinfetar quando tocavam algo fora do seu corpo.

Mas veio uma pandemia, batizada de COVID-19, e tudo se alterou. Não podendo mais se aglomerar em shows, comícios, passeatas e festas, até as escolas, igrejas e feiras ao ar livre foram proibidas, passando a existir apenas na lembrança dos sobreviventes.

E foram tantas e tristes as mortes que mesmo os profissionais de saúde perdiam suas vidas tentando salvar outras. Não havendo como guardar os corpos, muitos foram congelados e depois enterrados em covas coletivas, sem a presença de familiares.

Não é que tal pandemia não tivesse sido anunciada. Cientistas, ecologistas e povos originários sempre alertavam sobre as mudanças climáticas em curso, a contaminação dos alimentos, a poluição do solo, das águas e do ar que respiravam.

Diziam que grandes debates foram travados entre os que insistiam em acelerar o processo de devastação da Terra para manter e ampliar o modo de vida existente, e os que acreditavam ser necessário deter aquele processo que levaria irremediavelmente ao fim daquele mundo.

Alguns falavam que a pandemia, por si só, não teria sido tão devastadora, não fosse outra ocorrência que já estava em andamento naquele mundo.  Ao se juntarem, pandemia e pandemônio agravaram os males existentes, tornando tudo mais explícito, obsceno e injusto.

Disseram que quando tudo passou o mundo já era outro. Que até os animais domesticados como cães e gatos foram afetados pelo fim do isolamento imposto aos humanos, pois haviam se acostumados com a presença constante de seus donos.

Já os animais não domésticos gostaram do isolamento dos humanos por outros motivos. Voltaram a circular em todos os lugares da Terra, inclusive na parte central das grandes cidades. Muitos deles foram vistos passeando nas ruas e avenidas agora desertas, tomando posse de tudo: veados, cervos, ovelhas, cabras, javalis, macacos, elefantes, patos, coiotes e raposas, dentre inúmeros outros. Até puma, jacaré, canguru e leão-da-montanha foram vistos.

Disseram também que até o ar ficou mais puro e leve, e as águas dos rios e oceanos menos poluídas. Mas os estudiosos fizeram novo alerta: findada a pandemia era necessário que os humanos não mais retornassem ao modo de vida anterior. Era necessário que se pautassem por um “novo normal”.

Disseram, por fim, que apesar dos males e das mortes, muitas categorias de trabalhadores, entre os quais artistas, músicos, profissionais de saúde, policiais, entregadores, vendedores, pessoal da limpeza, demonstraram sua sabedoria, grandeza e generosidade – valores que naquela época estavam em descrédito, tal a prevalência do pandemônio, já referido.

Ocorreu que muitos dos que vieram depois não acreditaram, mas outros ficaram pensativos, se perguntando sobre esse estranho mundo que disseram que uma vez existiu. E foi de tanto procurar que acabaram encontrando pequenas anotações em velhas folhas de papel, onde se podia ler:

O que se passa com a gente: Após 12 dias de isolamento precisei ir ao banco, que fica a alguns metros de minha casa. Fui de carro para poder retornar o mais rápido possível. Levei álcool em gel, uma máscara (caso necessário), cartão do banco e os óculos de grau – o mínimo de coisas. Ao abrir o portão da garagem, tive uma sensação estranha de estar em exposição ao desconhecido. Observei que algumas pessoas transitavam alheias aos meus receios e às recomendações de isolamento que ecoavam aos quatro ventos.  Não sei quais delas precisavam estar ali, não quis me ocupar em fazer julgamentos.

Todo esse cuidado eu tive, em especial, por morar com minha mãe de 88 anos, portadora de Alzheimer que não tem ideia exata do que se passa no mundo.

Temo por ela, por mim e por todos. É estranha essa sensação de controle e vigilância, quase palpável, sobre as coisas que antes fazíamos despreocupados, sem reserva alguma.

Uma cena no banco, no entanto, escapou ao previsto: eu estava no caixa concentrada para ser rápida e, de repente, um morador de rua se aproximou e pediu dinheiro para comer. Nesse instante, confesso, me assustei com a presença dele. Em geral isso não acontece. Minha reação foi pedir que ele se afastasse, argumentando: “moço, tenho uma mãe idosa e doente em casa, não posso ficar tão perto do senhor. Por favor”. Não consegui sequer abrir a bolsa para dar algum dinheiro para ele, que se afastou pedindo desculpas.

Fui embora, lembrando-me da cena e daquele homem, com um aperto no peito. Isso foi ontem e hoje eu ainda penso sobre a realidade daquele homem que desconhece esses meus limites. Embora nossas necessidades se justifiquem, há mais distâncias entre elas que o isolamento é capaz de nomear.

Não sinto prazer ou orgulho nessa narrativa, tampouco da minha reação súbita de afastamento, algo que o homem deve reconhecer como natural, mas que não deveria ser.

Narro para, quem sabe, sirva de alerta, pois todos nós estamos sujeitos às capturas que o medo da morte e do outro nos impõe. Nos dias atuais, a ameaça de contágio nos assusta talvez bem mais que as violências diárias que nos cercam; porém, o medo não pode nos tirar a capacidade de reflexão sobre o que se passa conosco no encontro com o outro, independente da circunstância – talvez isso possibilite transformar nossas ações e manter nossa humanidade.

A casa: A casa pode ser um lugar de sossego, retorno, passagem, descanso, afeto, tédio, ausência, violências, queixas, intrigas e solidão. Para muitos, ficar em casa, quando por escolha, pode ser uma dádiva. Quando por necessidade, uma tortura.

Ter uma casa para se isolar, para se ocupar, é um privilégio, considerando que existem casas-corpos que perambulam expostos a céu aberto pelas ruas, delas não podendo se isolar – ao contrário, elas expõem um universo de desigualdades de isolamentos. Uma casa, repleta de significados, guarda em si um apelo ao coletivo. Sonha-se por uma casa, gasta-se uma vida de trabalho por ela, mas percebe-se, na emergência, o quanto é difícil usufruir de uma casa. 

Paradoxo de Pan: O ano é 2020 e a Pan-demia que vivemos hoje tem um quê de multiplicação e pânico. Isolamento como proteção é a ordem dos tempos atuais. Nas ruas deveriam estar somente os que “não podem parar”, mas nelas também estão os que “não têm como parar”, os que “não conseguem parar” e “os que não querem parar” e se isolar. O vírus escancara o óbvio: não há casa, nem cuidados para todos nesse mundão imenso. Dentro das casas possíveis, estamos nós, os demais – alguns assustados, entediados, outros que sequer entendem a gravidade do momento.

Como proteger os “vulneráveis”? Aqueles que a rua é a própria casa, aqueles que vivem nos aglomerados das favelas, corpo a corpo, espremidos nas vielas, sem condições sanitárias básicas? E os indígenas? Os institucionalizados em asilos, prisões, abrigos que vivem o isolamento social da forma mais dura e perversa na própria pele, no cotidiano com risco de morte e de contaminação constantes? Escute! a terra agoniza antes mesmo de nós.

Dentro das paredes das casas deveria existir mais que indivíduos – coletividades. Esse tempo nos convoca a revisitar nossas casas para nos reconhecermos nelas de outras maneiras. Isolar para proteger, isolar para evitar contágio. O ser humano é social.  Ser social é ser de contágio.

Porém, diante de PAN, esse paradoxo se sustenta: se isolar é ser social, se isolar é ser coletivo.

Olhando para trás: No final do ano de 2019 ouviu-se de longe que um vírus renascia mais forte e rondaria a terra, impondo, como regra de sobrevivência, o isolamento e o distanciamento físico entre as pessoas. Diversos povos, distraídos pela engrenagem que move o mundo – o capital – não deram a devida importância a sua chegada, ao contrário, abriram seus espaços e a COVID-19 rompeu, sem dó, suas fronteiras. Hoje ela transita mundo afora, fazendo muitas vítimas.

Ao olhar pelas frestas atrás de nossas costas, vemos que a vida parecia ser mais simples. Houve um tempo onde deixar de abraçar, de beijar, de estar junto de alguém era escolha pessoal e não necessidade de proteção coletiva e vital.

Postado Por: Das Chagas Martins

Postado em: 05/05/2020

Faculdade de Medicina da UFC recomenda ampliação do isolamento social no Ceará até maio

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O isolamento social é estratégia fundamental para evitar “disseminação rápida e ampliada” do novo coronavírus. (Foto: AURELIO ALVES)

Em nota técnica, a entidade defende que a medida é a estratégia fundamental para evitar “disseminação rápida e ampliada” do novo coronavírus

Por: Ana Rute Ramires

A Faculdade de Medicina (Famed) da Universidade Federal do Ceará (UFC), por meio do Comitê de Enfrentamento da Covid-19, lançou nota técnica na qual recomenda que a determinação de isolamento social do Governo do Ceará, via decreto, seja ampliada até o início do mês de maio, pelo menos. Conforme a faculdade, na data, as tendências epidemiológicas devem ser reavalias.

Em documento divulgado no dia 9 de abril, a entidade defende que a medida é a estratégia fundamental para evitar “disseminação rápida e ampliada” do novo coronavírus. O decreto em vigor no Estado tem prazo até a próxima segunda-feira, 20.

Horas após a publicação do decreto que prorrogava a quarentena obrigatória e autorizava o funcionamento de feiras de gêneros alimentícios e de boa parte dos setores da indústria produtiva, o governador Camilo Santana (PT) revogou a medida. O recuo, conforme o chefe do executivo, foi feito após argumentação do Comitê de Saúde e de equipes técnicas.

Na nota técnica, a Famed critica o foco apenas em ações voltadas para os casos sintomáticos respiratórios e/ou para populações de maior risco, como pessoas idosas. Essa, conforme o texto, “é reconhecidamente uma estratégia insuficiente, permitindo o agravamento das consequências danosas da pandemia à saúde e à vida da população”. O documento defende que a flexibilização das medidas de distanciamento social “apresentou resultados dramáticos em países como Itália, Inglaterra e Estados Unidos”.A
Famed pondera o impacto socioeconômico que as medidas atuais de enfrentamento à pandemia podem impor à sociedade. “Porém os efeitos sobre a saúde e a vida das pessoas seriam ainda mais devastadores, devendo ser prioritariamente considerados”, destaca.

A entidade defende ainda a ampliação da realização de testes para o diagnóstico do SARS-CoV-2 na rede do Sistema Único de Saúde (SUS). Isso deve possibilitar a melhor definição para o retorno às atividades da vida diária das pessoas recuperadas, inclusive dos profissionais de saúde, além do “planejamento da transição para níveis menos restritivos de isolamento social”.

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Postado por: Das Chagas Martins

Postado em: 18/04/2020

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