MEMÓRIAS DE QUARENTENA 20 – Notações para um tempo imovente

Por: Andréa Bardawil(*)

Começo por dizer que, ao tomar essas notas, escrevo de um lugar privilegiado: com 60 dias de isolamento social, pude colocar-me dentro de minha própria casa, durante todo esse tempo, em relativa segurança – e é relativa porque nenhum de nós sabe mesmo o que pode acontecer, no minuto seguinte. Mas o privilégio desenha-se de forma irrefutável: nesse momento, não passo por necessidades básicas e emergenciais, não preciso sair às ruas e posso trabalhar de casa, sem deslocamento físico. Outro dado dessa condição é que moro só, acompanhada por minhas duas gatinhas, Lóri e Lila, o que me garante um fluxo de afeto, apesar da solidão, e me resguarda do desgaste ou do sofrimento de alguma convivência mais difícil. Ou seja: vivo esse tempo caótico numa situação que não é a de muitos, que não é a da grande maioria das pessoas. Por isso pude sentir o tempo parar, o tempo imovente.

Talvez por isso essas notas não cheguem a dizer da urgência necessária diante do caos estabelecido, agravado pela situação política que atravessamos, no Brasil; talvez essas notas não carreguem a devida densidade, para alguns; ou talvez, ainda, simplesmente não despertem qualquer interesse mesmo, para outros. Tudo certo. Observadas as ponderações, e posto também que não creio em nenhuma comunicação única, num momento tão complexo,  aceitei o convite para essa escrita, como mais um espaço de partilha, dos muitos que precisamos criar, para fortalecer os vínculos esgarçados pelas distâncias. Mas a escrita sai assim, um tanto desnorteada, feito notas soltas em papéis dispersos, sem pretender uma dramaturgia descritiva e linear, já que nem no meu trabalho artístico opto por isso.

Desse lugar, margeio um certo regime de temporalidade, no rastreio de algumas inquietações que vão se colocando, para mim, na intermitência das horas. É na interrupção dos fluxos que o tempo parece parar, e num silêncio arrebatador surge uma pergunta: de onde vamos partir, agora que chegamos até aqui?

Com a dança, o tempo sempre foi objeto de trabalho, para mim. Expandir o tempo, torcê-lo, dilatá-lo, ou simplesmente habitá-lo, como desejaria João Cabral de Melo Neto. Minha dança sempre foi da ordem da lentidão, da permanência, da habitação. Uma forma de lembrar que tempo não é um só. São muitos, os tempos, ao contrário do que o capitalismo tenta determinar, regrar, instituir e capturar. Produzir vida leva tempo. Produzir urgência tira tempo.
Há muito que sei que o tempo capitalista não é o meu. De sempre, trago a dificuldade em competir, em ultrapassar, em superar. A lerdeza me definiu melhor. Sou a que demora. Em tudo, desviei: no tempo de aprender (sempre ficava a um passo de ser reprovada, na escola), no tempo de produzir obras (sempre levei anos para conceber, realizar espetáculos e projetos), no tempo de cultivar relações (sempre escrevi cartas, sempre descrevi mundos, sempre ruminei sentimentos). Sou a que desvia.

É que sempre soube, também, que a morte é passagem, entre uma paragem-vida e outra, e não fim. O lugar mesmo onde se coloca a finitude, é no que se esgota em mim: de aprendizado, de obras, de relações. EM MIM. O resto é movimento. Então, não há pressa. Sou a que segue em movimento, para nenhum fim, para nenhuma utilidade. Para nada.

A maior subversão para o capitalismo é parar. É não produzir, não fabricar, não fazer de ruma. É não consumir. É não ansiar pela novidade do dia, é não querer ser o novo. É não precisar. É não se afogar no fluxo vertiginoso do ter-que-fazer. Na desconstrução do tempo é que se dá a fissura, onde crio um contrafluxo, sabendo-o sempre singular e provisório. A tal contramola que resiste, resiste porque não se quer única ou igual. No meio de tudo, disfarçada, quieta, silenciosa, mas presente, existe sempre uma possibilidade: não fazer nada. E com essa possibilidade vem a escolha de olhar o vento e ouvir o silêncio. Parece-me que é disso que se trata, também, essa pandemia: acolher a si mesmo, acolher o tempo, e decidir-se por outro modo de permanecer. Aqui e agora, sustentar, sem me mover. Suportar o silêncio. Ficar. O exercício das horas, nos pondo à prova: o amanhã ainda não existe.

Dia após dia, recrio meu cotidiano. Cuido da casa, estudo, trabalho, cozinho, medito, danço, brinco com minhas gatas, cuido das minhas plantas.

O tempo me olha…

Vou seguindo, procurando focar no que me faz bem, porque alimentar o que me faz viva, fortalece. Imunidade é vitalidade, também. No entanto, por vezes resta ainda uma tristeza incontornável. Uma tristeza pelo mundo, pela dor do outro. Por tanta violência, pelo fascismo explícito, pela falta de empatia, pela maldade à mostra. Pelo que nos tornamos. O que seremos, a partir daqui?

Eu olho para o tempo…

Nessas horas, choro. Choro muito. Não negocio com as águas, quando elas arrombam as portas. O choro salva. Indignado ou resiliente, o choro sempre salva. Esvazio essa dor, ou um pouco dela. E rezo para que meus guias me ajudem a enxergar para além de tudo isso, a fim de não esquecer que “até a sombra trabalha para a luz”.

Com tudo isso, entendo que vamos vivendo um luto. Estamos todos de luto. Mesmo quem está “bem”, em casa, privilegiadamente resguardado, mesmo quem ainda não foi atingido, nem num raio próximo, pelo peso do momento. Porque o luto não diz respeito somente às pessoas, mas também à VIDA que se esvai, às condições de possibilidade que desaparecem. Não há como passar por tudo isso sem vivermos esse luto.
Que o tempo nos acolha.

(Silêncio.)

Um pouco de sol, um pouco de silêncio, um pouco de sal, um pouco de ar.
A chuva autoriza o tempo a se distrair.
Quando o pouco vira muito, os sons mudam, os cheiros despertam.
Uma nova economia parece que sempre existiu.

O que era mesmo que eu estava fazendo, antes que o tempo parasse?
O que restará da imagem que eu tinha de mim, quando eu não lembrar mais dela?

Um beija-flor, uma borboleta, uma abelha, uma aranha, uma lagarta. Um cachorro latindo. Uma criança rindo alto.

Um carro que não andou. Um portão que não abriu. Minha gata, me olhando. Tudo eu vi, no espaço extensivo de uma manhã.

Vi, porque parei. Parei, porque senti o peito galopando. Respiração falta, às vezes, quando tanta perversidade ronda.

Parei, para ver além dos tratados diários de dor, que chegam em fluxo vertiginoso pelas redes. Que senão, eu mesma morro de morte autoinfligida, antes do tempo certo da morte chegar.
Sou nem de ferro.

Minha matéria é outra.

E apenas a matéria vida era tão fina.

(*) Andréa Bardawil – Coreógrafa, diretora da Cia. da Arte Andanças e Arteterapeuta.

Postado por: Das Chagas Martins

Postado em: 01/06/2020