MEMÓRIAS DE QUARENTENA 16: Esquecer é permitir, lembrar é combater! Esquecer é permitir, lembrar é combater! 

Esquecer é permitir, lembrar é combater! 

Por: Lídia Rodrigues – Educadora Social e Integrante do Fórum DCA e Andrezza Queiroz (Estudante de Psicologia da UFC e Integrante do NUCEPEC/UFC.


Esse lema há anos anima a luta contra a violência sexual de crianças e adolescentes, por lembrança aqui é memória valiosa que a reflexão aperfeiçoa, possibilitando romper o silêncio provocado pelo medo e pela vergonha, cuidadosamente implantados pelos que sempre nos quiseram submissas e silenciosas; é aquela experiência que parece tão particular mas que quando rompe as paredes da casa, os segredos de família, se reconhece em outras experiências tão espelho, elucidando: nisso nunca houve particularidade, sempre foi uma ferramenta política para manter as coisas como queriam que estivessem.

Durante isolamento social por causa da pandemia do COVID 19, e na proximidade dos 20 anos da instituição do dia 18 de maio como dia nacional de combate ao abuso e a exploração sexual contra crianças e adolescentes, pensamos sobre as violências sexuais e as diversas narrativas e imaginários que as fundamentam e as enfrentam; os impactos delas nas subjetividades de tantas gentes; nas poucas respostas das políticas estatais para a erradicação desse problema, e em quem se beneficia de sua não resolução.

Visitamos algumas narrativas históricas: – milênios em que o estupro foi política dos estados coloniais: essas pessoas eram vistas como propriedade e o estupro considerado um modo de ampliar ganhos dos estupradores e seus herdeiros, por aumentar o número de trabalhadores escravizados. Fundou-se o argumento de que a própria classe escravizada seria beneficiada, porque teria oportunidade de se “civilizar”, já que precisavam amparar a prática perversa. Os colonizadores se  disseram referências da própria bondade e as diferenças fenotípicas e culturais do que chamaram outros, nomearam de maldade, disfarçando de justas tantas violências que só beneficiaram a si e aos seus com a exploração dos corpos e trabalho, que só se tornou possível com o controle da sexualidade dessas gentes.

Essa tecnologia de opressão é bem anterior à colonização das terras de Abya Yala (ou Américas como dizem os colonizadores), mas é tão imbricada ao racismo que é difícil dizer quem fundou quem. Hoje é expresso, por exemplo, com  a exotização erotizante a todas as pessoas não brancas e seu confinamento em imaginários sexuais que legitimam os lugares coisificados que dão tanto lucro à indústria pornográfica e às redes de exploração sexual; séculos em que foi criada uma versão da verdade em que os corpos com útero e vulva são para reprodução, cuidado e prazer alheio. Às  que nascem com esses corpos, inventadas como mulheres, foram atribuídos comportamentos que são ensinados, reinventados e reproduzidos – o tal do gênero.

Uma verdade inventada contada com tanta frequência, de tantos modos, por tanta gente que se fundou referência universal e natural, cuja sustentação vem por falas e práticas fomentadas por algumas religiões, algumas “ciências” e pelo capital. Assim alfabetizadas pelo Be-A-Bá machista que trata sexualidade como ato sexual, e reduz esse ato a genitália, somos ensinadas que não se pode falar sobre nada disso, de forma sutil, cantando o corpo como “Cabeça, ombro, joelho e pé, olhos, ouvidos, boca e nariz, cabeça, ombro joelho e pé”. Ensinadas que não podemos nos olhar e nos tocar.

Introjetamos que menina tem um jeito de sentar, que “aquele-tio-distante” pode beijar e tem que ir de bom grado, mesmo sem querer pois, uma boa menina é silenciosa, obediente e comportada, uma princesa impotente esperando um príncipe que lhe salve.

Enquanto ninávamos bonecas, fazendo comidinha de brincadeira ou trocando roupas de barbies escutávamos o som dos outros – os meninos, que corriam nas ruas com pipas e bolas – entendemos qual o lugar que esperavam que assumíssemos no mundo: o privado, a casa, o cuidado!

Ouvimos com frequência que desejo sexual é coisa de homem. Que devemos ser passivas, aceitar e esperar passar e assim a dominação se transforma em fetiche coletivizado, reproduzível, reinventado. Com tanta coisa, quase passa invisível a maneira como o machismo se tece com o adultocentrismo. E, nesse tema sexualidade, faz com que pareça natural que meninas performem a adultização e que adultas performem a infantilização, arraigando ainda mais uma cultura sexual perversa que produz desejos violentos, que hipocritamente nega como cultura.

Aprendemos isso tão cedo e de forma tão impregnada no dia a dia, que é difícil diferenciar tantas coisas tão bem trançadas na teia que explora corpos e trabalho e nos rouba a potência sexual criativa que transcende a cadeia reprodutiva;

– décadas por onde as mulheres se organizaram em movimento – o feminista; fizeram da identidade arma para compreensão da realidade, rompendo o silêncio e exigindo a propriedade sobre seus corpos e vidas; e de como algum tempo depois o movimento em defesa dos direitos infanto-juvenis fez coro nessa exigência para que nenhuma criança e adolescente fosse vítima de abuso ou exploração sexual, pois eram vitimados pelos mesmos motivos que as mulheres, as pessoas escravizadas e tantas outras gentes: foram despidas de poder sobre si;

– anos em que os que se julgam donos da nossa liberdade vêm reorganizando sua contraofensiva e começaram a nos atacar no que pensávamos estar ganho, distorcem nossas palavras e nos tratam como vilãs, acusando-nos de criar o que denominaram “ideologia de gênero”, por questionarmos as regras que inventaram para nos fazer reféns do seu sistema econômico e político fantasiado de moral e bons costumes.

Nos últimos anos, eles têm feito muita gente de bem achar que somos nós as perversas, por querer ensinar a crianças e adolescentes sobre seu corpo, sobre a diferença entre carinho, reconhecimento, afeto e violência.

Misturando histórias antigas e recentes, memórias pessoais e reflexões, paro e penso nisso agora, sabendo que muitas dessas coisas que parecem passado, para várias é o presente! Estamos em meio a uma pandemia, cenário em que a saúde coletiva depende do isolamento social. Ficar em casa é ficar segura. Mas para tantas e tantos, a casa não é esse lugar de proteção, já que quase  70% dos casos notificados de abuso sexual são intrafamiliares, e estima-se que muitos não são relatados devido aos pactos de silêncio das famílias e até a incapacidade das vítimas de se reconhecerem em uma situação de violência: quando esse abuso acontece disfarçado de carinho e ludicidade.

O que fazer com o discurso de que educação sexual é papel restrito da família com tantos abusos intrafamiliares? Como esperar que crianças e adolescentes denunciem, já que não conseguem distinguir afeto e abuso, e quando conseguem, toda a sua bagagem educacional sobre sexualidade fará com que se sinta mais culpada do que vítima? E quando ela tenha consciência da violência sofrida, os mecanismos que existem para ouvir, acolher e cuidar para mitigar os impactos dessa violação são escassos, ineficientes ou inexistentes? Pensando ainda no cenário atual, que caminhos para fazer a denúncia, se mesmo o Disque 100 tem se mostrado ineficiente? Qual rede de apoio se faz presente, mesmo longe, nesse momento? Quando as perguntas não têm resposta, não precisamos deixar de fazê-las: precisamos intensificar a frequência e volume com que são feitas.

Momentos de crise servem para nos deixar alertas, para identificar os problemas e que nossas vozes sejam altas a ponto de pressionar que a obra prioritária dos governos sejam as pontes que possibilitem a travessia do abismo entre o que é e o que deve ser!

#eunaosabiaqueeraabuso

Postado por: Das Chagas Martins

Postado em: 20/05/2020

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